Pular para o conteúdo principal

"Quero te dar todo meu amor", celebrando a imperfeição de todos os dias

("Ahhhhh, eu te amo! Ahhhh, eu te amo meu amor!", meu sangue fervendo ao som de Sidney Magal, no meu 38o. aniversário, Malmö, março de 2009)

Eu tenho uma amiga sueca, a Paulina, que é o tipo de pessoa que, olhando, parece perfeita. Eu a conheci quando o Ângelo era pequenininho no grupo de mães e o bebê dela, Kian, é um dia mais novo que o meu. 

A Paulina é lindona, daquelas loiras suecas altonas, educada, finérrima (do tipo que fala baixo, espera a vez para falar e sempre ouve você com atenção), calma, sem contar que é muito madura e experiente para os seus 28 anos. 

Ainda em 2007, ela convidou todas as mães para um café na casa dela e lá fui eu. Correndo feito louca para dar conta do bebê novinho, da casa, das noites mal dormidas, com toda a vida de cabeça para baixo, eu toquei a campainha. A porta se abriu e eu engoli um: "Óh, caramba! não acredito!"

Impecavelmente calma e linda, com seu bebê quietinho no cestinho no chão, ela recebeu a mim e todo mundo com sua casa, invejavelmente arrumada. Percebi que ela era o tipo mais que sueca. A única coisa que ela tinha que eu não tinha era uma moça que arrumava a casa para ela de quinze em quinze dias, mas mesmo assim não era para tanta diferença.

Com o tempo percebi que ela não era assim tão perfeita, claro! Também estava enlouquecida com o bebê acordando a noite toda para mamar, se matava para manter ordem na vida e tinha dúvidas cruéis como todas as outras. Nos aproximamos muito e antes de ontem ela estava aqui na minha comemoração de aniversário. Junto, mais a Xu, a Ângela, a Jéssica, Josephine, Nikol e a Ju.


(Uma das poucas fotos da Reunião global em torno da mesa, já que as européias presentes não são muito a fins de fotos. Da ponta para a direita: Ju, Ângela, eu, Nikol, Josephine, Paulina e Jéssica. Xu está atrás da câmera, Malmö, março de 2009)

Muito parecido com o meu primeiro café para as mães suecas no ano de 2007, foi minha recepção para as amigas neste aniversário. Eu corri o dia inteiro atrás do preju, feito louca e eu tentei ser organizada suficiente para, quem sabe, dar conta do recado sem a super ajuda do Renato que estava pras bandas do México. 

Mas foi bem descabeladinha e sujismundinha que eu abri a porta para a Paulina e todas as outras queridas amigas que vieram me dar um abraço. Dei conta de muita coisa, mas meu neném ainda resmungava para dormir, a casa arrumada ainda estava sem os pratos e tudo mais na mesa, e as convidadas me ajudaram no que faltava.

A cada uma que chegava eu pensava: "putz grila! quando eu serei alguém razoavelmente não maluca?". Devo ter voltado três vezes ao mercado, porque esquecia sempre algum item, contei o número errado de pratos e blábláblá. A verdade é que, por alguns instantes, me senti assim "fracassada", desapontada comigo mesma. 

Foi então, antes de um banho de 2 minutos, que ainda recebi o telefonema de minha amiga Daníssima, que vive na Suíça, e do meu Renato. Me arrumei correndo e fui pra sala, quando elas todas estavam felizes da vida e brindaram o meu aniversário ao som de um... buááááá...

Percebi que só aquele momento eu tinha tido uns segundos para começar meu chororô de aniversariante, sagrado desde que me conheço por gente. A noite correu deliciosa. A conversa muito boa: dança, risadas, confissões e comilança. 

Fui percebendo o quanto ridícula eu estava sendo até então. Não porque eu estava "felosa" para receber convidados, mas porque a idéia de "estar perfeita" era absurdamente infantil. Minhas amigas sabiam de quanto eu enfrentara no dia para preparar a festinha e eu também deveria saber. 


(Comemoração virtual cheia de sentimentos muito reais, meus sobrinhos Júnior e Luana com minha mãezinha Maria, Sumaré, março de 2009)

Ajudou muito, quando a Xu me disse assim: "mulher, sua casa está impecável, só não vai dar uma de perfeccionista". Nessa hora eu caí em mim e fui lembrando do dia que começara com minha mãe e sobrinhos, Luana e Júnior, cantando parabéns com um bolinho, velas e flores do outro lado do skype. Eu havia segurado o choro, mas não segurei a noite. 

A falta do abraço da família, dos amigos e do marido havia pesado muito e eu estava sendo mais severa comigo mesma do que deveria. 

Fiquei matutando o quanto a gente é idiota com essa coisa de perfeição. E percebi claramente o quanto a minha amiga Paulina não é perfeita, mas o quanto ela, tanto quanto eu, tenta SER perfeita. Concluí, ainda, que PARECER perfeitos é algo que quase todo mundo que conheço tenta fazer o tempo todo, algo que consome uma energia tremenda. 

Depois da alegria e da amizade gostosa que cobriu a noite e me tirou a tristeza de não celebrar com outros amores da minha vida, eu fiquei toda feliz aqui, quando as amigas se retiraram a noitão. Pensei e reconheci em como minha vida - e eu - já é mais ou menos "perfeita". E talvez exatamente porque eu saiba que tenho tantos motivos maravilhosos para agradecer mais um ano de vida, eu busque maneiras de deixar registrada essa "vida imperfeitamente perfeita" da qual me orgulho. Ando achando, inclusive, que isso provavelmente explique o fato da gente sempre pegar alguns símbolos que marquem essa perfeição e tentar colocá-los para os outros.


("O meu sangue ferve por você!!!!", eu, dançando meu companheiro de festas, Sidney Magal, Malmö, março de 2009)


Livros e palavras difíceis para provar que somos uau! mega inteligentes. Frases de efeito, de crítica a qualquer custo, para parecer modernos e descolados. Santinhos ou símbolos religiosos para mostrar nossa santidade e como merecemos o céu. Jóias, roupas e bugigangas caras para não deixar dúvida de que o que temos, já revela quem devemos ser. Ou um descuido consigo mesmo e crítica para com o outro, para talvez conseguir apontar o cisco no olho do outro, encobrindo assim nossa entrave. 

Sei lá! Pensei muito na noite do meu aniversário como eu, como nós seres humanos, reles mortais, somos bobinhos bobinhos. E mesmo quem eu conheço que pareça a pessoa mais desapegada e prafrentex que eu imagine tem suas fraquezas simbólicas e suas tentativas incansáveis de parecer alguma coisa e esconder outras que, no fundo, são as que mais dizem sobre quem elas são. A imagem que criamos de nós mesmos e que tentamos deixar na história, como as fotos legais que selecionamos de um aniversário, é sempre uma imagem irreal. Ela não é falsa, porque contém um tanto daquilo que somos, mas ela possui tanta de fantasia, quanto tem de realidade.

Eu não estou dizendo que símbolos não sejam importantes, eu estou dizendo que analisar os nossos próprios símbolos e revê.los sempre é essencial. Se eu tomar, por exemplo, os presentes inesquecíveis que ganhei na noite passada de minhas amigas daqui dá para mais ou menos perceber que tipo de pessoa eu sou, mas dá, do mesmo modo, para traduzir um pouco do que cada uma é. Um livro incrível sobre a vida de Maria Larsson, com autógrafo de Jan Troell (da Xu que adora dar alegria a quem ela ama), um jogo de xícara com uma tela do Picasso (da Jéssica que valoriza a formação intelectual de quem ela conhece), cremes incríveis para deixar qualquer uma lindona (da Ângela que é super cuidadosa com o corpo e saúde), flores delicadas (da Josephine, uma oriental típica e reservada), decoração com design assinado (da Paulina) e roupa descolada (da ex-gerente do mundo fashion, Nikol). O modo como cada uma cuidou de buscar um presente para mim diz tanto sobre elas que eu as conheço melhor depois da noite de meu aniversário. 

Me lembro de um amigo prá lá de especial, Mansur (Pe. Mansur, da época em que eu questionava meu "perfeito" passado carola) que um dia me disse assim: "Soninha, Soninha, é bom você não querer ser escrava de ideais religiosos, só tome cuidado porque qualquer filosofia, ou filosofias de vida tem lá seus chicotinhos!"

Meu amigo já se foi, acidental e inesperadamente, mas eu sei que, desde então, fico sempre a espreita de que chicotinho estou tentando usar contra mim mesma. Nesse aniversário, graças a mais um ano de vida vivido, eu percebi mais um e vou tentar cortá-lo imediatamente, porque eu não quero cortar nada de valor em mim mesma só para ficar mais próxima de um ideal irreal de perfeição.


Comentários

Anônimo disse…
Mulé,

Sua festa foi simplesmente tudodebom.com! Digo, + uma vez, que sua casa tava impecável, com tulipas laranjas (lindas!) em todos os ambientes... até no banheiro. Foi super divertido terminar de arrumar a mesa enquanto vc fazia o pequeno anjo "mimir". Acho q vc nem sabe, mas fizemos um brinde silencioso (pra não atrapalhar) a você naquele momento.

As amigas (tão especiais, como vc descreveu) que estavam lá são o mais puro reflexo de vc: espontânea, alegre, sincera, divertida, cabeca, emotiva, descolada e pq não, meio atrapalhadinha nas horas vagas...rs... afinal de contas, quem não é?

Enfim, fiquei muito feliz por ter feito parte deste dia tão especial, de alguém + especial ainda! :-)

Posso fazer um pedido? Faz aniversário de novo, mês que vem?!?! (rs)

Beijos
Xu
Anônimo disse…
Pena que não deu para dar uma passadinha na sua festa de aniversário. Mas tenho certeza de que ela estava animada e especial.

E você estava linda também! A blusa ficou ótima!

Parabéns mais uma vez!

Bjs,

Dri
Lúcia Soares disse…
Comemorar aniversário é tão bom, né? Feliz aniversário, Sônia, mesmo atrasado. Que Deus a abençoe e à sua família, sempre. Mesmo,longe da família, do marido, voc6e não se deixou abater e comemorou. Ótimo!
Quanto a ser perfeita, meu Deus!, me vi no seu texto. Toda a minha vida procurei a perfeição e só o que fiz foi me desgastar. Acho que a pessoa perfeita acaba sendo uma chata. Se é que ela existe...
Beth/Lilás disse…
Borboletinha querida!
Foi linda tua festa e eu queria muito estar aí contigo para dançar este super hit do Magal.
Quanto o que penso sobre o tema 'perfeição ou imperfeição', a minha conclusão está lá no blog, no post de hoje, inspirada neste seu incrível post.
Veja lá!

milhões de beijinhos outonais cariocas
Janaina disse…
Nossa, ótimo post, ótimas fotos!
Tenho certeza q sua festa deve ter sido o máximo!!
Pena eu não ter ido!!

Td de bom flor!!

beijos!
Somnia Carvalho disse…
Baby Muié,

Eu nao farei mais aniversário esse ano, graças ao Bom Deus! senao eu viraria maracuja de gaveta em tres tempos!

mas eu posso E VOU dar mais festinhas aqui! Eu nao consigo viver sem isso!!!! e voce ta convidaderrima!!! obrigada pelos elogios! ai ui ui ai ai ai me senti bem!!!
Somnia Carvalho disse…
Dri,

a blusa ficou lindona ne?
mas tombem quem me deu tem um olho pra coisa fina que so vendo!!!

beijos! e ve se passa na proxima festa!
Somnia Carvalho disse…
Lucinha,

isso e verdade!
tentar ser perfeita e tentar ser mais chata o possivel!

engracado que nunca me considerei perfeccionista! eu sempre critiquei quem eu achava que fosse!

uma vez minha super terapeuta, ex, dai do Brasil, me disse: ah! voce acha que seu marido e perfeccionista??? hahahaha...

eu tambem sou, so que em coisas totalmente diferentes!

De que signo voce e SuperLucia?
Somnia Carvalho disse…
Betona,

Eita post legal que voce criou inspirado nesse aqui!!! e isso! uma açãozinha idiota feita no dia e a gente se mata! vai catar coquinho na descido nóis! o gente besta!

nao sei quanto a voce,mas quando faço dessas coisas eu me culpo, e fico imaginando o que o outro ta pensando do que eu fiz. Isso e o pior, dai vem o Sartre: "o inferno sao os outos". Sim, os outros, mas o outro pode ser so um espelho do que eu mesmo estou refletindo de mim.

Amei sua foto no perfil! Amei! eu tava pensando exatamente em espelho quando escrevi o post, embora eu nao ache que voce a trocou pensando nisso!
beijos sua imperfeitinha!
Somnia Carvalho disse…
Jana,

a gente comemora o midsummer juntas!
Anônimo disse…
Sô,
Foi seu aniversário e eu nem dei parabéns... que feio!!!
Mas vale agora, não?? E já vai um parabéns pelo niver, pela festa, pelo visu e tudo o mais.
Tuuuudo de muito bom, amiga.
Bjs
Andréa

ps: vou aceitar sua sugestão e tirar as letrinhas de confirmação. Aliás, eu sempre duvidei da utilidade disso.
Outra coisa: eu nem sabia que vcs tinham pensado em morar aqui. Mais um motivo prá marcar uma visitinha, hein?
Anônimo disse…
amada - nao ficamos juntas mas pensei emvc o dia todo - desculpa por nao ter te ligado mas nao queria atrapalhar sua festa - sabes que te amo né!!!!
beijos
Sandra
Márcia disse…
Poxa... To mais do que atrasada, mas PARABENS mesmo assim. Eh isso mesmo... Vira e mexe a gente cai nessas armadilhas de querer ser perfeita e haja energia e frustracao, ne? Beijoca e tudibaum!
Somnia Carvalho disse…
Preta, preta, pretinha...

eu sei que voce lembrou bobona! e eu tambem não consegui ligar, foi um dia corrido! fico feliz de você dizer aqui!! beijosss da irma branca
Somnia Carvalho disse…
Marcia, como voce se atrasa assim para minha festa??? sua imperfeitinha! como diz a Lilas! rs...
beijos e obrigada

Postagens mais visitadas deste blog

"Em algum lugar sobre o arco íris..."

(I srael Kamakawiwo'ole) Eu e Renato estávamos, há pouco, olhando um programa sueco qualquer que trazia como tema de fundo uma das canções mais lindas que já ouvi até hoje. Tenho-a aqui comigo num cd que minha amiga Janete me deu e que eu sempre páro para ouvir.  Entretanto, só hoje, depois de ouvir pela TV sueca, tive a curiosidade de buscar alguma informação sobre o cantor e a letra completa etc. Para minha surpresa, o dono de uma das vozes mais lindas que tenho entre todos os meus cds, não tinha necessariamente a "cara" que eu imaginava.  Gigante, em muitos sentidos, o havaiano, e não americano como eu pensava, Bradda Israel Kamakawiwo'ole , põe todos os estereótipos por terra. Depois de ler sobre sua história de vida por alguns minutos, ouvindo " Somewhere over the rainbow ", é impossível (para mim foi) não se apaixonar também pela figura de IZ.  A vida tem de muitas coisas e a música é algo magnífico, porque, quando meu encantamento por essa música come

"Ja, må hon leva!" Sim! Ela pode viver!

(Versão popular do parabéns a você sueco em festinha infantil tipicamente sueca) Molerada! Vocês quase não comentam, mas quando o fazem é para deixar recados chiquérrimos e inteligentes como esses aí do último post! Demais! Adorei as reflexões, saber como cada uma vive diferente suas diferentes fases! Responderei com o devido cuidado mais tarde... Tô podre e preciso ir para a cama porque Marinacota tomou vacina ontem e não dormiu nada a noite. Por ora queria deixar essa canção pela qual sou louca, uma versão do "Vie gratuliere", o parabéns a você sueco. Essa versão é bem mais popular (eu adorava cantá-la em nossas comemorações lá!) e a recebi pelo facebook de minha querida e adorável amiga Jéssica quem vive lá em Malmoeee city, minha antiga morada. Como boa canção popular sueca, esta também tem bebida no meio, porque se tem duas coisas as quais os suecos amam mais que bebida são: 1. fazer versão de música e 2. fazer versão de música colocando uma letra sobre bebida nela. Nest

O que você vê nesta obra? "Língua com padrão suntuoso", de Adriana Varejão

("Língua com padrão suntuoso", Adriana Varejão, óleo sobre tela e alumínio, 200 x 170 x 57cm) Antes de começar este post só quero lhe pedir que não faça as buscas nos links apresentados, sobre a artista e sua obra, antes de concluir esta leitura e observar atentamente a obra. Combinado? ... Consegui, hoje, uma manhã cultural só para mim e fui visitar a 30a. Bienal de Arte de São Paulo , que estará aberta ao público até 09 de dezembro e tem entrada gratuita. Já preparei um post para falar sobre minhas impressões sobre a Bienal que, aos meus olhos, é "Poesia do cotidiano" e o publicarei na próxima semana. De quebra, passei pelo MAM (Museu de Arte Moderna), o qual fica ao lado do prédio da Bienal e da OCA (projetados por Oscar Niemeyer), passeio que apenas pela arquitetura já vale demais a pena - e tive mais uma daquelas experiências dificilmente explicáveis. Há algum tempo eu esperava para ver uma obra de Adriana Varejão ao vivo e nem imaginava que