Pular para o conteúdo principal

"Uma foto, mil lembranças", Há mais amor entre o céu e a terra do que julga nossa vã filosofia, primeiro texto para concurso é de Grace Olsson

Eu não sei ainda  como vai funcionar a publicação dos textos de quem participar do concurso e tem blog, mas como este da Grace (fotógrafa profissional que vive na Suécia) é o primeiro e porque ele é de uma profundidade de fazer balançar qualquer existência, eu quis colocá-lo para motivar vocês a tirarem suas histórias e fotos da gaveta...

Obrigada Grace!


____________


Não é o sofrimento das crianças que se torna revoltante em si mesmo,
 mas sim que nada justifica tal sofrimento

(Albert Camus)

"O nosso primeiro encontro se deu em 2006. Entre centenas de crianças…você me chamou a atençao. O sorriso desdentado, as mãos em feridas, os cabelos desgrenhados. Nenhum deles correu para mim… Mas você correu. E me agarrou como se eu fosse a sua tábua de salvaçao. E, naquele exato momento, eu pensei que seria, sim.

Desde aquele dia, nao tive outra intençao a nao ser retirá-lo da guerra, das doenças. A ganância do homem fez de você uma vítima. Os dias que passamos juntos foram inesquecíveis. Momentos de rara beleza. Tê-lo ouvido falar meu nome, tocado meu rosto, lambido meu nariz fez de mim uma pessoa melhor. Seu jeito doce e sua história sofrida me tocaram profundamente.

Mas o que nos uniu näo foi o desejo imenso de te dar uma vida melhor. Foi o amor…o sentimento que nos leva a nao querer que a pessoa amada jamais sofra.Eu creio que tê-lo encontrado me deu forças para viver uma vida que na época, era muito desinteressante. E perdê-lo me levou a um caos desconhecido. Por meses sem fim, eu vivi no limbo. E um ano depois, eu decidi retornar ao Continente Africano. Eu precisava recolher os destroços de mim mesma.E descobrí que um pedaço de mim tinha-se partido. Ter revisitado o lugar em que você viveu a curta estada de vida na terra me fez crer que nada é por acaso.
Seu pais continua em guerra e, diariamente, dezenas de criancas iguais a você, perdem a vida. E nao creio que se você tivesse voltado para Goma, em vez de Kinshasa, teria sobrevivido. A guerra é insana. Triste e angustiante. E eu nada pude fazer por você. Ou eu poderia ter brigado. Mas, nao fiz. E, até hoje, me arrependo de nao tê-lo raptado.

Eu quero que você saiba que, se nao fui te buscar é por que eu fui impedida de viajar por meses sem fim. Os planos que eu tinha de vê-lo e tentar junto à ONU para impedir o seu retorno ao país natal foram anulados. Sabe?Nunca devemos acreditar em promessas. Estava tudo certo de que você nao seria mandado de volta para casa.Mas algo estava errado na última vez em que nos encontramos e eu tive que pagar uma quantia alta para ter acesso a você. Sempre fui contra pagar propina. Mas para ter você de volta, eu pagaria o que fosse necessário. Por você…eu passei por cima de meus valores. Levei meses tentando conversar aquele que seria seu pai a te aceitar como filho. No início, ele alegava que estava velho demais para conviver com criancas pequenas e sugeriu que protegêssemos uma somaliana, Fatuma. Mas eu nao queria. E quando uma vez doente, ele me viu depressiva e percebeu que você era uma das razöes…nao pensou duas vezes…E deu o aval.
Pena que foi tarde demais. Um mês depois, um aviao cargueiro levou meus sonhos. E junto a oportunidade que eu teria de finalizar o processo e dar a você uma vida diferente de tudo o quanto você tinha vivido.

Com você, eu aprendi a ser crianca. Hoje, eu vivo a contradicao de conviver em um corpo de adulto com uma alma totalmente infantil. Brigo para mudar isso. Você me ensinou a abolir todo materialismo gritante. Hoje, eu sobrevivo com pouco. E se busco MAIs é por que sei que posso fazer muita gente feliz. O mundo anda caótico. As pessoas continuam egoístas. E a natureza cada dia mais devastada. Nunca vi, R., tanta criança perder a vida de forma cruel e covarde como agora. Nunca vi tanta criança vivendo pelas ruas, mendigando e clamando por um lar. Elas nao precisam de muita coisa, nao. Precisam de um pai e uma mäe que facam tudo pela felicidade delas.Por que ter um filho é mais do que expulsá-lo das entranhas. Filho é cuidar sem espera de retorno algum. É a doaçao mais sublime da face da terra.Tem gente que acha nao ser capaz de se doar a uma criança. O que falta nessas pessoas é perder o medo da entrega e, em muitas a capacidade de deixar o egoísmo de lado, abrir o coração, e se entregar. Sem medo de perder a individualidade.

Ontem à noite, enquanto eu fazia a mala para ir a Macedônia e conviver com criancas, cujos pais foram largados à própria sorte, depois da Guerra nos Balkans, eu me perguntei para onde a vida vai me levar. O que a vida quer de mim… E, desviando meus pensamentos em direcao ao céu, eu vi que estrelas esparsas estavam sobre mim. De repente, do nada, uma estrela piscava sem parar. Por alguns segundos, eu tive a sensação de que ela estava olhando para mim. Tenho certeza que era você. VALEU!TER ENCONTRADO VOCÊ FEZ DE MIM UMA PESSOA MELHOR. E, hoje, sinto está preparada para largar tudo que construí para trás. Tudo em nome da missao que creio ser a minha, desde o dia em que te encontrei…Mas, por favor, de onde vocë estiver, me ajude a suportar tanta frieza vinda de pessoas que deveriam ser mais solidárias. Eu preciso ser mais infantil. E fingir que nao percebo nada…para o bem daqueles que precisam de mim…”

Muita gente me fala que A GENTE SÓ DEVE SE DOAR A QUEM NOS PEDE AJUDA. E EU DISCORDO. ACHO QUE O VERBO DOAR É ALGO VISCERAL, VAI ALÉM DE NÓS. QUEM QUER AJUDAR OUTRO, NAO PRECISA RECEBER SINAL ALGUM. EXCETO, SINAIS DIVINOS."

....

O texto da Grace Olsson, publicado ontem em seu blog e está participando do concurso "Uma foto, mil lembranças".

Comentários

Anônimo disse…
Chorei tanto daqui. Lindo, puxa :)
Lúcia Soares disse…
Impossível não se emocionar ao ler o texto.
Conheço a Grace de comentários em muitos blogs, sei de sua luta pelos desvalidos. Tentei comprar o livro dela várias vezes, mas não consegui.
Esse texto devia ser hors concours.
Imagino a dor dela, em perder uma criaturinha linda e com a expressão tão doce quanto a desse anjinho.
Que ele esteja feliz, onde estiver.
Beijo para a Grace.
Luciana disse…
Emocionante, belo.
Parabéns Grace, por tudo.
Beth/Lilás disse…
O trabalho da Grace é lindo e de coração, admiro-a muito e já até comprei o livro dela para poder dar um pouquinho da minha participação.
E sem contar que ela faz fotos maravilhosas.
bjs cariocas
BLOGZOOM disse…
Estou totalmente emocionada! Eu tenho amor por meus semelhantes. Eu concordo com a frase: ACHO QUE O VERBO DOAR É ALGO VISCERAL, VAI ALÉM DE NÓS. QUEM QUER AJUDAR OUTRO, NAO PRECISA RECEBER SINAL ALGUM. EXCETO, SINAIS DIVINOS - alias, pratico e compartilho deste sentimento.

Beijos e obrigada por trazer um conteudo tao bonito.
Wilqui Dias disse…
Super exemplo...deu muiiita ispiracao pra escrever para o concurso Somnia, confesso estou meio perdida...(nao nas regras, mas no que falar, como falar enfim perdida em mim mesma) mas sim, vou participar....adorei o primeiro texto, linda historia, triste tb, impossivel nao chorar e admirar. bjs
Roselia Bezerra disse…
Olá, querida
Toda doação é divina por excelência!!!
Tenha paz e alegria!!!
Bjs fraternos e ótimo fim de semana.
Essa estória de vida da Grace é linda demais. Doação verdadeira, sem palavras, mas sim com ação. Essa pra mim é a verdadeira religião. Beijos às duas,
Maariah disse…
Um modo muito bonito de iniciar o concurso, texto bastante emotivo que me levou a questionar sobre a minha própria vida e o que poderei eu fazer, por pouco que seja, para ajudar a minorar um pouco o sofrimento de alguém.

Postagens mais visitadas deste blog

Azulejos em carne viva? O que você vê na obra de Adriana Varejão?

( "Azulejaria verde em carne viva" , Adriana Varejão, 2000) Gente querida, Domingão a noite e tô no pique para começar a semana! Meu grande mural preto, pintado na parede do escritório e onde escrevo com giz as tarefas semanais, já está limpinho, com a maior parte "ticada" e apagada. Estou anotando aqui o que preciso e gostaria de fazer até o fim desta semana e, entre elas, está finalizar a nossa apreciação da obra de Adriana Varejão , iniciada há dias atrás. Como podem ver eu não consegui cumprir o prazo que me dei para divulgação do post final, mas abri mão de me culpar e vou aproveitar para pensar mais na obra com vocês. Aproveito para convidar quem mora em São Paulo a visitar a exposição da artista, em cartaz no   MAM , Museu de Arte Moderna, no Parque Ibirapuera, com entrada gratuita e aberta ao público até 16 de dezembro deste ano. ("Parede com incisões a La Fontana", Adriana Varejão, 2011) Para "apimentar" a dis...

Na Suécia também não tem... branco no Reveillon

Se você é brasileiro ou brasileira conhece, com certeza, a tradição da roupa branca na virada de todo ano novo no nosso país. Diz a lenda que o uso da roupa branca atrai boas energias. A claridade e a luz provindas do branco sempre remetem à paz, harmonia, pureza etc e, apesar de ser um costume tomado por brasileiros de todas as religiões, a raíz dele está na cultura e na religião dos negros africanos que também colonizaram o Brasil.  Eu, obviamente como boa brasileira, sempre soube que se não fosse de branco eu deveria ao menos escolher uma cor super alto astral ou de sorte, como o amarelo. Ou pôr umas calcinhas novas, também de cores "boas" para garantir um sucessinho. Eu normalmente passo reveillon em alguma praia então eu só tenho na memória gente vestida de branco, amarelo e, no máximo, um azulzinho. Ninguém quer atrair maus fluídos e entrar com o pé esquerdo no primeiro dia do Ano Novo. Ou quer? Bom, se você estiver cansado dessa tradição e opressão do branco sobre você...

Violeta Paz é que eu me chamo!

("Violeta Paz", detalhe da tela que fiz hoje, inspirada pela postagen lilás, Somnia Carvalho, abril 2010) Semana passada eu fui contagiada pelo vermelho de vocês e tentei, tentei ardentemente criar uma tela em vermelho... Eu queria mostrar como essa cadeia de influência, essa rede que se chama internet pode nos afetar negativa ou tão positivamente. Depois de ler a história do vermelho cabelo da avó da Glorinha eu queria pintá-la... queria pintar sua força e sua ingenuidade. Queria pintar sua feminilidade e queria pintar o amor de sua neta por ela. E como minha tentativa de expressar em cores o que sentia não funcionava fui tentando outras telas. Tentei em três telas diferentes algumas idéias... criar uma tela em vermelho (a partir de uma foto preto e branco) da minha sogra Irene no dia de seu casamento sendo pega pelo meu sogro Caetano, num ato espontâneo de amor... Depois tentei uma dançarina de tango e parei na metade... Depois minha linda amiga Liana ...