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Noutro lugar



Há provavelmente mais de quinze anos atrás caiu em minhas mãos um livro delicioso: "O Profeta", do poeta libanês Gibran Khalil Gibran (1883-1931).
Só muito depois vim a saber um pouco mais sobre sua vida: nascido no Líbano, viveu a maior parte de sua vida nos Estados Unidos e estudou na Europa. Vim saber também que o poeta era também filósofo e artista, tendo ele próprio ilustrado seus livros, além de ser autor de inúmeras outras pinturas.

"O Profeta" é dividido em várias mensagens que Mustafá, o Profeta, um homem que havia se mantido sozinho numa montanha em busca de reflexão e iluminação, fala à comunidade que espera por ouvi-lo. Os textos abordam questões simples e, ao mesmo tempo, profundas da vida: o amor, o casamento, os filhos, o trabalho, a liberdade etc, mas com um olhar mais reflexivo e, portanto, mais sábio.

Quando eu ainda meio adolescente li o livro de minha adorável amiga Susette (uma Profeta em busca de iluminação) eu logo comprei para mim um exemplar (o qual emprestei para alguém e acabei perdendo) e sempre que podia relia as histórias. Hoje tenho aqui comigo um outro que comprei num sebo em São Paulo. Velhinho, com capa soltando, cara de ter sido muito lido na vida, tem o nome Claudina Campinho, assinado na contra-capa, "O Profeta" vem me inspirar novamente nesta manhã. Vem me fazer pensar uma coisa curiosa sobre o tema que reproduzo abaixo. É a primeira vez que lendo-o eu me imagino noutro lugar que não o de filhos e a lição agora toma outra dimensão.

Aqui em Malmö, 16 graus lá fora, a rua quietinha porque a cidade está em férias de verão e eu de 39 semanas e 1 dia de angelês, aqui quietinha, cada vez mais perto de assumir o outro lugar.

Espero que as palavras de Mustafá, o personagem profeta do livro, agracie o dia de vocês também.




Os Filhos

(Gibran Khalil Gibran, "O Profeta")

Uma mulher que carregava o filho nos braços disse: "Fala-nos dos filhos."
E ele disse:

"Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como ele ama a flecha que voa,
Ama também o arco que permanece estável."

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