Pular para o conteúdo principal

"Faltando um pedaço" ou machismo tem cura?


("Faltando um pedaço", Djavan)

O segundo episódio de SOS Casamento colocou na arena sexta-feira passada um casal cujo modo de se tratar era tão desolador que me deixou com uma pulga bem grande atrás da orelha: é possível curar o machismo em uma pessoa?

Sérgio é o tipo de homem quem põe tudo dentro de casa, no sentido financeiro do termo. Andréa, a responsável única pelo cuidado da casa e dos filhos. Os dois parecem ter se conhecido e fundado sua família no mesmo alicerce que nossos avós e também os meus pais ainda fundavam e pareciam também ter funcionado por um bom tempo até que tais papéis foram sugando o indivíduo existente em cada um. Um modelo ainda bem primitivo de relação se se tomar em conta a forma como Sérgio encara sua esposa e a família: como ele paga pelo sustento deles ele acredita que tenha posse sobre eles e que estes devem, portanto, agir conforme suas expectativas.

Andréa, por outro lado, cumpre bem o papel de esposa submissa, pois por mais que reclame da situação e faça uso das palavras para mostrar como se sente frustrada, aceita o papel dado pelo marido. Já não trabalha fora há anos e evita lugares que possam gerar ciúmes no marido.

O ciúme é, aliás, a forma como cada um acredita oferecer provas do amor pelo outro, além do sexo.

O casal ia muito mal, obrigada, até começar seu compromisso com o programa de quem tivemos notícia semana retrasada através da história de Salete e Edenílson. E no início a gente fica se perguntando se aquele casamento ainda tem salvação?

De novo, neste episódio (o qual só assisti ontem no site do SBT), bem como no primeiro, a transformação tanto de Sérgio quanto de Andréa são de deixar a gente com o queixo caído. E de novo não se trata de encenação para Big Brother ver. Os dois parecem mesmo aprender com o que lhes é mostrado... É bonito de ver como as vezes uma frase, um depoimento, um toque na hora certa do modo certo pode fazer a pessoa simplesmente tentar olhar de modo diferente para tudo e para si mesma.

É emocionante ver que o brutamontes Sérgio tem coração. Apesar de seu machismo latente, aprendido e assimilado como verdade, ele ama sua mulher. Fato é que Sérgio parece ter se esquecido disso. Esqueceu-se inclusive de que com os anos deveria continuar a elogiá-la, cuidar dela mais do que pagar-lhes as contas e comprar-lhe comida. Deveria ver nela não a dona de casa, a mãe, mas a Andréa com quem ele decidira viver junto um dia.

Andréa, cuja revolta só se via nos chingamentos dirigidos ao marido (em frente aos filhos todos) é obrigada, em uma das dinâmicas, a olhar para si mesma e se ver sem marido e sem filhos. Totalmente vazia, afirma ela... Então, mas onde fica a Andréa quando não é mãe e nem esposa?, questiona Ana Canosa.

Andréa não mais existia...

Aquela mulher tem o problema da maioria das mulheres esposas e mães. A vida no casamento suga-lhes tanta energia e dedicação que elas esquecem de si mesmas. Nós nos esquecemos de nós mesmas! e esquecer de si mesma e amar demais (os outros) parece ser o problema de muitas mulheres e não exclusividade de Andréa.

De forma geral, o comportamento dos indivíduos desta relação amorosa não é exceção. Você poderá identificar muitos outros homens no seu círculo de relacionamento agindo da mesma forma: um vizinho, um tio, um irmão, um pai ou o próprio marido... Poderá facilmente ver muitas Andréas que se anulam para cuidar da família e, depois, como não sabem como sair do círculo vicioso no qual se meteram usam contra a mesma família alguma forma de ódio.

Normalmente vem do reclamar de tudo. Do jogar na cara! Do que se faz dia e noite por todos eles sem nenhum reconhecimento. Você talvez veja uma amiga, uma prima, uma cunhada, sua mãe e... quem sabe, em certos momentos, você mesma.

Como escapar desses papéis de dominador e dominadas em que nos colocaram? Como não repetir o comportamento autoritário e submisso aprendido?

O programa dá algumas dicas e é preciso refletir bastante em cada uma delas... É preciso agir a partir delas: tratar o outro como companheiro e companheira, com respeito e carinho. Não cobrar o tempo todo, buscar reconhecer o que o outro faz para mim e para a família. Entender as necessidades do outro e não se iludir achando que somos suficientes para sua felicidade. Manter o romantismo apesar da corrida e estressante vida em família...

Me emocionei com o durão Sérgio se emocionando ao longo das dinâmicas aplicadas a ele e sua mulher. Sua mudança (não sei se duradoura ou não) é clara e evidente. Seus olhos vão mudando de brilho quando olha para Andréa durante o programa, pois a cada intervenção da psicóloga presente ele parece ter pensado pela primeira vez em sua vida que ele não era dono da verdade e que seu comportamento, compreendido por ele como único e típico de um macho, poderia, deveria ser outro caso não quisesse se ver sem ela e sua família no futuro.

É muito bonito mesmo de se ver como o toque de suas mãos ao dançar com Andréa revela sua paixão (ou seu tesão, nas palavras dele) de novo acendida. E como Andréa ansiava por ser vista: como pessoa, como a mulher que havia encantado aquele homem tantos anos atrás, como a mãe dos seus filhos e sua companheira. Na admiração e amor dele ela parece se ver de novo e tem orgulho do que vê.

O programa de ontem me fez ter muita vontade de poder rever estes casais daqui um tempo. Eu acho realmente uma falha nos programas deste estilo que a gente não possa acompanhar se as transformações duram ou não. Semana passada uma querida amiga minha, também psicóloga, me disse duvidar da longevidade de tais mudanças de comportamento, porque não há tempo para que elas sejam mesmo profundas como deveriam ser. De fato o formato corrido, a pressa nas falas dá certa angústia. Eu, ao menos, teria o desejo de ouvir o que cada um realmente aprendeu com tal e tal dinâmica, como tem se visto, tem se percebido. Exigir isso, entretanto, é como exigir que as músicas populares tenham 6 minutos ao invés dos rotineiros e vendáveis 3 minutos. É um programa de televisão e há que se pautar por isso.

Eu penso que embora seja um formato curto mudar a direção errada, buscar um outro comportamento já é uma enorme vantagem para os casais participantes do programa... E se forem fiéis ao desejo de mudança quem sabe não há mais futuro neles do que antes disso?

Como no primeiro caso, Ana Canosa e sua equipe puseram ali uma sementinha de esperança para aquele casal que vivia, segundo ela, como uma panela de pressão prestes a estourar...

O estouro foi evitado. Alguns óculos para ver que a vida a dois não deve ser uma tortura para cada um e que o passado deve ser deixado no passado. A vida deve seguir sem mágoas porque revivê-las é sofrer duas vezes, diz ela... É impedir a felicidade do outro, dos filhos e de si mesmo.

Meu texto sai meio atrasado, quase a tempo de começar o próximo programa o qual eu não verei já que nossa única tevê está sendo dominada por Ângelo agora e os Mecanimais. E quem quiser conferir como televisão pode servir a alguma coisa mais do que apenas busca imbecil por ibope, rever ou ver na íntegra os episódios passados é só clicar neste link aqui e assitir.

Bom programa e bons sonhos, literalmente falando, para vocês!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

"Ja, må hon leva!" Sim! Ela pode viver!

(Versão popular do parabéns a você sueco em festinha infantil tipicamente sueca) Molerada! Vocês quase não comentam, mas quando o fazem é para deixar recados chiquérrimos e inteligentes como esses aí do último post! Demais! Adorei as reflexões, saber como cada uma vive diferente suas diferentes fases! Responderei com o devido cuidado mais tarde... Tô podre e preciso ir para a cama porque Marinacota tomou vacina ontem e não dormiu nada a noite. Por ora queria deixar essa canção pela qual sou louca, uma versão do "Vie gratuliere", o parabéns a você sueco. Essa versão é bem mais popular (eu adorava cantá-la em nossas comemorações lá!) e a recebi pelo facebook de minha querida e adorável amiga Jéssica quem vive lá em Malmoeee city, minha antiga morada. Como boa canção popular sueca, esta também tem bebida no meio, porque se tem duas coisas as quais os suecos amam mais que bebida são: 1. fazer versão de música e 2. fazer versão de música colocando uma letra sobre bebida nel

Azulejos em carne viva? O que você vê na obra de Adriana Varejão?

( "Azulejaria verde em carne viva" , Adriana Varejão, 2000) Gente querida, Domingão a noite e tô no pique para começar a semana! Meu grande mural preto, pintado na parede do escritório e onde escrevo com giz as tarefas semanais, já está limpinho, com a maior parte "ticada" e apagada. Estou anotando aqui o que preciso e gostaria de fazer até o fim desta semana e, entre elas, está finalizar a nossa apreciação da obra de Adriana Varejão , iniciada há dias atrás. Como podem ver eu não consegui cumprir o prazo que me dei para divulgação do post final, mas abri mão de me culpar e vou aproveitar para pensar mais na obra com vocês. Aproveito para convidar quem mora em São Paulo a visitar a exposição da artista, em cartaz no   MAM , Museu de Arte Moderna, no Parque Ibirapuera, com entrada gratuita e aberta ao público até 16 de dezembro deste ano. ("Parede com incisões a La Fontana", Adriana Varejão, 2011) Para "apimentar" a dis

Na Suécia também não tem... bebê com brinco na orelha

("Não tem brincos: é menino ou menina?", criança sueca posa para grife Polarn O. Pyret ) Nove em cada dez vezes que alguém no Brasil tenta ser simpático com uma grávida ou alguém com um bebê de colo a pergunta é sobre o gênero da criança. Menino ou menina? Já repararam? Embora essa pareça ser a única pergunta possível para tanta gente, a verdade é que ela diz muito sobre nosso modo de ser e pensar e a importância que damos ao sexo e a escolha sexual de uma pessoa. Tomemos outra situação: quando alguém olha para um bebê menino nas ruas no Brasil você acredita que haja alguma expectativa quanto a algum sinal, uma marca, deixando claro e evidente se tratar de um menino? E quando encontra uma menina? Bom, fato é que nossa menina Marina agora tem 8 meses e eu simplesmente não tenho condições de contar as dezenas de vezes em que fui parada nas ruas em São Paulo por alguém perguntando se tratar de uma menina ou de um menino.  Até aí nenhum problema! Bebês no começo não tem