10 agosto 2011

"Ninguém me ama, ninguém me quer...

(Amantes na pintura luar, Marc Chagall)

... ninguém me chama de meu amor".

Uma amiga muito querida reclamava ao telefone esses dias dizendo como se sentia um trastinho humano por conta de todas as pessoas que ela prezava não lhe darem muito valor, algo interpretado por ela como falta de amor. Ela os amava e se importava com eles, mas a recíproca não parecia ser verdadeira.

Perguntei depois, quando nos encontramos, um pouco mais sobre os ocorridos e para saber o que de concreto estava acontecendo para tentar entender um pouco as coisas e dar algum palpite...

Então ela emendou numa porção de "acho que ela não liga", "acho que ele está cansado de mim", "acho que não sou boa mãe, nem boa mulher, nem boa filha...", "acho que o pessoal do trabalho não me valoriza como profissional"...

Foi quando me lembrei de algo aprendido estes dias num curso para o qual um amigo me convidou. Todos nós temos algo em comum: uma história. E, embora cada um de nós tenha uma história diferente para contar a verdade é que quando se trata de entender a própria história, o passado, todos nós reinventamos as coisas a nossa maneira.

Há os fatos e eles são objetivos. Há, por outro lado, a nossa interpretação dos fatos e nossa versão de como contar os fatos. Recontando o acontecido acabamos por "criar" uma nova realidade. Um exemplo lindíssimo dado por Fernando Camacho, o palestrante: quando tinha 15 anos, em viagem de férias com sua mãe, seu padastro e seus meio irmãos, Fernando ouviu do padastro a seguinte frase: "As únicas pessoas que realmente importam na minha vida são a sua mãe e meus filhos".

Qual foi a história recontada pelo adolescente para ele mesmo? Que se o pai havia dito que amava apenas os filhos e ele não era filho legítimo, então, obviamente, ele não o amava. Ele estava fora da família e tudo só porque não era filho verdadeiro. Não poderia receber o amor daquele homem. Tudo era fingimento...

Por mais quase 15 anos o moço ficou recontando essa verdade mentirosa a si mesmo até o dia em que acordou de uma cirurgia e a primeira pessoa quem estava ao lado dele, ali esperando a anestesia passar era o único pai que ele conhecia, seu padastro.

Naquele minuto o menino, já homem, compreendeu como havia sofrido em vão todos aqueles anos. Como havia afastado de si amigos, amigas, família, amores por conta de achar que não podia se entregar. Por conta de acreditar que não merecesse o amor de alguém ou que este alguém lhe faria sofrer um dia dizendo: "eu não o amo!".

Fernando reatou com seu padastro. Não a mesma relação, mas uma muito mais segura, próximo e verdadeira.

Lembrando dessa história eu a contei a minha amiga e algumas lágrimas rolaram em seu rosto moreno. Ela não me disse muito, mas eu percebi como ela também compreendera que algumas das histórias as quais ela vinha remoendo e se contando não passavam na verdade de meias histórias.


4 comentários:

Maariah disse...

Sem dúvida que é importante pararmos um pouco e pensar ou olhar as coisas de um outro modo, de um outro ângulo.

Eu costumo dizer para mim mesma que não estou no centro do universo, quando me deparo a ter pensamentos muito semelhantes aos da tua amiga. Não estou a pensar como o outro e estou apenas focalizada na ....minha parte da história ou na minha versão. Quando isso acontece reparo que me entristeci em vão, tudo tem uma importância relativa.

PS: acabei de fazer um post sobre o concurso. Já escolhi a foto, agora só falta "pôr a música para tocar e me isolar para deixar as memórias fluirem.

MeandYou disse...

Ah, cara amiga, eu também conheço uma pessoa assim, que de tanto falar a mesma mentira para si mesmo já encaixou e acredita piamente.
Vou enviar este seu texto para ele.
um beijinho carioca carinhoso

Glorinha L de Lion disse...

Coisa linda Soníssima! Quantas vexes passamos a vida sofrendo pq interpretamos a vida de maneira errada? Belíssimo post! beijos mis,

verdefolhinha disse...

Eu lembrei de um livrinho sb psicologia cognitiva "feeling good together". Ele fala sobre esse olhar que temos sobre os nossos relacionamentos, sb como mudar a forma de olhar...indica pra sua amiga, espero que ajude como me ajudou :)

Adoro seu blog e suas letrinhas!

beijo :*