
(Eu, a brasileira, Kerstin e Helena, as suecas e Xu, a brasileira-portuguesa, orgulhosas das nossas guirlandas de Natal, no curso de decoração de Natal que fizemos juntas, Malmö, dezembro de 2009)
Na noite de sábado passado, assisti a primeira parte do Melodiefestivalen de 2010, na casa de uma amiga sueca, a Helena. Com nós estava lá também a Kerstin.
Rimos, cantamos, torcemos, falamos da voz, do cabelo e da roupa dos cantores. Erramos nos preferidos que irão concorrer com os melhores da Suécia em Estocolmo e depois irá representar a Suécia no Eurovision. Estava tudo muito engraçado, patati patatá e o papo acabou no que a Kerstin, a simpática, sorridente e solteira sueca, havia feito naquela manhã de sábado com zero grau no termômetro.
Será que algum de vocês seria capaz de adivinhar? Hummmm... Tentem...
Kerstin narrou animada que havia ido à sauna, uma que fica aqui na praia onde moramos e que é bem popular no verão também. Até aí, normal, não?
Daí que então o ritual da amiga na sauna (que eu até sabia como era no verão) incluiu sair do meio da fumaça muuito quente e pular direto na água do mar. Sim! Na água do mar... E, detalhe: peladona!
Eu ri e disse: "Há há há.. até parece! pelada!"... E elas: "Sim, Sônia, é verdade..."
Foi quando eu então expliquei que isso teria que ser assunto num post meu, entendem? Elas me questionaram o porquê e eu dei detalhes de como isso soaria só como coisa de "sueco maluco" para vocês. Hábitos estranhos de gente esquisita! Elas riram e a Kerstin disse que achava super legal se eu contasse então...
Conversa de pelada vai, conversa de pelada vem e comecei com minha teoria de como as pessoas dos países quentes parecem ser mais suscetíveis a dores do que as de países frios. Em minha teoria eu tive mais dor de parto do que minhas amigas suecas, porque elas são acostumadas a sofrer (vide o episódio da sauna) as condições do clima no corpo, por exemplo, do que nós brasileiras e latinas. Eu deduzi isso depois de viver 3 anos aqui e eu ser a única (entre as suecas, of course!) a reclamar mooooito das dores do parto.
A Helena respondeu que não concordava. Na teoria dela a diferença é que nós, latinas no que tange ao que sentimos, somos mais autorizadas a revelar nossas emoções. As suecas, ao contrário, não. Delas é cobrado que sejam fortes, que dêem conta de tudo sozinhas, que carreguem os mesmos fardos que os homens. Elas precisam mostrar-se forte, independentes e capazes de sofrer o que for, sem reclamar. Isso, creio eu, por conta de que há mesmo isso de "a diferença do sexo não nos diferencia em nossas capacidades...
Ela disse que mesmo quando expressa o que sente as pessoas não dão bola, incluindo quando fala de uma dor de cabeça, por exemplo. E aí eu emendei... De fato, a gente fala da dor, do que sente de um jeito único. Enquanto ela diria: "Hoje estou com muita dor de cabeça, ponto final."... Eu diria: "Hoje eu estou com uma te-rrí-vel dor de cabeça que vai da nuca até a testa e que está quase me ENLOUQUECENDO, com ponto de exclamação".
Rimos juntas e meio que concordamos que talvez tenha mesmo a ver com a forma de expressão, mais do que a forma como sentimos.
Fato é que hoje de manhã, fuçando num blog que eu gosto muito e do qual estava com saudade, do Luiz Coutinho, um português meio poeta, discreto e que normalmente não responde comentários, quando ouvi uma música maravilhosa de outro português, Rodrigo Leão. "Vida estranha", na voz apaixonante da portuguesa Évora me deixou sem fôlego de tão profunda.
Apesar de, nesse momento, eu não ter me identificado com a tristeza da letra eu a compreendi profundamente. É assim que me sinto em alguns dias. E então me lembrei dessa discussão com as amigas suecas e de como nós, brasileiros, portugueses, latinos, no geral, conseguimos pôr pra fora o que sentimos e pensamos de uma maneira tão cheia de emoção. A música é poética, mas ela fala de dor, de uma dor do vazio... E como dizer isso se não for com poesia e muuuita emoção?
Acho que é esse jeito de expressar que me faz ter até hoje, sempre em algum canto diferente da casa, um livrinho de poemas do Fernando Pessoa, presente de uma amiga adorada portuguesa*, com quem perdi contato já há alguns anos e que vivo a folhear... Ontem mesmo eu folheava um dos poemas novamente...
Do que é, então, feita a alma brasileira e alma portuguesa?
Creio que de muitos sentimentos e de força de expressão...
E a alma sueca? De sentimentos e discrição...
...
* Se você quiser me ajudar nessa procura desesperada: minha amiga, Irene Carvalho, ex-freira carmelita, viveu no Brasil alguns anos, onde nos conhecemos, estudamos juntas e trabalhamos juntas na comunidade. Depois que abandonou o hábito nos encontramos em Paris e perdemos contato. É enfermeira e sua família vive numa aldeia em Braga... Ela me ligou algumas vezes no Brasil, mas nunca mais consegui o telefone dela... Como tenho tantos leitores da terra querida, vai que algum de vocês sabe um email da Irene ou algo assim... obrigada! :=)






