25 agosto 2011

"Uma foto, mil lembranças": Um momento de alegria, texto de Mariahhh, de Portugal


Ainda quando estava na Suécia comecei a receber uns emails carinhosíssimos de uma leitora do Alentejo, região lindíssima de Portugal, e quem sempre me agradecia pelos posts, pelo que eu escrevia etc. Fomos percebendo que muitas afinidades eletivas no uniam e temos trocado correspondência desde então.

Foi ela quem, em certa ocasião, ganhou uma das telas daquele sorteio que fiz ano passado e me retribuiu dizendo que a tela ocupa um lugar especial e de destaque em sua casa.

Maariah deixa esvair em seu blog, "As minhas singularidades", um pouco da sensibilidade que lhe é característica de ver o mundo e as pessoas e sempre com um jeito, um "sotaque" português lindo.

Neste texto enviado para o concurso "Uma foto mil lembranças", a Maariah, quem mais européia não é de ficar jogando de si para qualquer um por aí, abriu-nos seu coração. Deixou fluir da foto escolhida uma imensidade de memórias, até mesmo perdas vividas entre ela, o irmão e a família.

Obrigada Maariah!

....


Um momento de alegria


"Querida Sómnia, assim que o desafio "Uma foto, mil lembranças" foi lançado, eu fiquei entusiasmada e logo decidi que iria participar. É um exercício bastante interessante, olhar uma fotografia e deixar fluir todas as memórias que a mesma nos traz.


Instintivamente pensei logo qual a fotografia escolhida, uma fotografia minha em criança, com 3 anos, numa viagem que fiz em família à Serra da Estrela (ponto mais alto de Portugal Continental - o mais alto mesmo é o Pico, que fica nos Açores). O texto viria depois. A foto não estava comigo, estava em casa dos meus pais, onde só fui este fim-de-semana. Neste tempo andei a pensar no que iria escrever, afinal que memórias é que aquela fotografia me traz? Mas eu não conseguia pensar em nada. Eu gosto da fotografia, mas a verdade é que a foto não me traz muitas memórias, que lembranças terei eu de quando tinha 3 anos? Nem sequer o meu irmão era nascido na altura.


Entretanto, comprometida comigo mesmo de que iria participar neste desafio, os dias iam passando e eu não conseguia fazer a ligação foto-memórias. Tinha de ser um clik, olhar a foto e instintivamente sentir-me invadir de lembranças. E foi ao pensar isto que me apercebi que há bem pouco tempo eu já tinha feito este exercício, sem nem me dar conta.


Os meus pais vivem numa terra bem pequena, mesmo pequena, no máximo 1000 habitantes, onde é óbvio que todos se conhecem, e todos têm um sentimento de pertença muito grande aquela terra. De tempos a tempos vou visitar um blog que é escrito por uma pessoa dessa terra, curiosamente meu primo, mas numa terra bem pequena, todos acabam por ter um grau de parentesco com alguém. Nesse blog, têm vindo a ser publicadas algumas fotografias de pessoas que estão agora nos 20 /30 /40 anos, mas de quando andavam na escola primária (6 -10 anos). E foi muito engraçado tentar reconhecer algumas caras. Eu não estou lá, mas o meu irmão sim. Está lá uma foto, não sei que idades teriam aqueles miúdos, arrisco uns 8 anos. Todos em grupo, junto com a professora na foto que fica para a posteridade.


Dei por mim a olhar para o meu irmão, sorriso maroto, olhos grandes e expressivos e cheios de vida e comecei a chorar. Onde está agora aquele menino? Para onde foi toda aquela vivacidade? Onde está aquela alegria? O que aconteceu para que a vida que tinha na altura à sua frente se tenha tornado tão complicada e não o deixe viver uma plena e feliz existência?


E foi ao recordar-me disto que reparei que só havia um caminho para a minha participação neste desafio tão aliciante: falar do meu irmão, do meu menino.


Decidida sobre o tema, faltava a foto. Tratei disso neste fim-de-semana, em visita aos meus pais. Álbuns para fora, tratei de re-visitar todas as fotos, uma a uma fui separando as que mais me tocavam, fosse por que motivos fossem. Encontrei a minha foto, que inicialmente pensei em utilizar neste desafio. Mas separei principalmente fotos do meu irmão, em bebé, em criança, adolescente. Em todas, os olhos, enormes, negros, saltam à vista. Mas o que salta também à vista é a sua expressão. Se numas fotos, como nessas da escola, o meu irmão está a rir, sorriso traquina e feliz, em muitas fotos tem uma expressão não direi vazia, mas triste. Seria já uma antevisão para o seu sofrimento futuro?


Hoje olho para mim, para a minha vida, para o que alcancei e tenho de dizer que, à data, o balanço que faço da minha vida, é positivo, tenho os meus momentos de felicidade que superam largamento os menos bons, e acima de tudo tento aproveitar cada momento.


Mas, ao mesmo tempo, tento fazer o mesmo exercício com o meu irmão e a vida dele tem sido tudo menos uma vida feliz. Acho que a partir dos 15/16 anos o meu irmão não teve mais momentos felizes. Ou os momentos felizes que teve eram falseados pelo estado em que se encontrava. Comportamento aditivo, depressivo, e acima de tudo triste. O meu irmão é uma pessoa tão triste.


E eu? Recordo-me de momentos felizes com o meu irmão? Só em criança. Não tenho memórias de ver o meu irmão genuinamente feliz. Todas as histórias contadas de momentos engraçados, são do meu irmão em criança.


Continuei a ver as fotos e deparo-me com a foto que segue aí em cima. A foto obecede a um critério para mim importante: o não reconhecimento das pessoas da foto, afinal elas não sabem da existência deste concurso. Mas identifica acima de tudo um dos últimos registos fotográficos felizes do meu irmão. O meu irmão está num momento de brincadeira com a nossa mãe, a "atacá-la" de cócegas. E a verdade é que me recordo bem do momento em que esta foto foi tirada, sendo eu a personagem por detrás da máquina fotográfica e acredito que a principal responsável pela péssima qualidade da mesma, as minhas desculpas por isso.


Olho para a foto e quase que consigo ouvir os gritos, as gargalhadas, as súplicas da minha minha mãe para que o meu irmão parasse de lhe fazer cócegas. Não está na foto, mas sei que o nosso cãozito está ao nosso lado, a ladrar, claro, meio na dúvida se aquilo era a brincar ou não, e se sim, porque raio não entrava também ela na brincadeira. A foto foi tirada no meu quarto.


Tive muito tempo a olhar a foto, daí a minha decisão de ser esta a foto escolhida. Além de me fazer pensar no passado, em me mostrar a dificuldade que tenho em lembrar-me do meu irmão feliz, também me faz olhar para o futuro e acreditar que é possível ainda virmos a ter momentos felizes.


O meu irmão fez este ano, 30 anos, os últimos 4 anos têm sido os mais complicados, os mais sombrios. Se calhar pela presença tão viva ainda dos últimos anos, é que se torna tão difícil para mim recordar momentos alegres. Mas continuo a acreditar que existe uma cura para a sua doença. Tenho de acreditar nisso."

Maariah.

3 comentários:

Beth/Lilás disse...

A participação desta simpática amiga portuguesa, muito além da foto e do texto expressivo que escreveu, o que mais curti, tive prazer ao ler tudo, foi esta forma simples e própria do povo português ao escrever. Parece que estão a falar com a gente, consigo quase ouvir sua voz e sotaque. Talvez, porque eu simplesmente adore esta forma deles se pronunciarem.
E o que ela transmite de verdade neste texto é o seu grande amor pelo irmão e a vontade de vê-lo feliz e sadio novamente. Que assim seja!
beijos cariocas

Palavras Vagabundas disse...

Tenho vindo sempre ler por aqui, até por que amigas, Beth e Glorinha, já por aqui passaram, ms nunca comento aqui. Enfim...
Maariah que texto emocionante! Mesmo na tristeza do momento presente lembrar de um momento feliz!
abs
Jussara

Maariah disse...

Beth :)
Achei muito engraçado o comentário, porque eu faço o mesmo quando leio os vossos blogs, quase que vos consigo "ouvir" a falar, como vosso jeito e sotaque brasileiro de ser.

Não sei se já cheguei a comentar com a Sómnia, que sou de uma zona de Portugal, em que o jeito de falar mais se assemelha ao português de Brasil.

Jussara, muito obrigada pelo comentário, nem sempre consigo fazer o mesmo, mas admiro muito pessoas que conseguem ver o lado bom da vida mesmo em dias sombrios. Muito obrigada por me ter alertado por ter feito o mesmo, e sem me ter apercebido.