13 outubro 2011

"There must be something more", Deve haver algo mais...

There must be something more ,
Somnia Carvalho, 2010
Mixed midia work, 70 x 90
(música inspiradora: “42”, Coldplay)

Ontem enterramos meu avô materno e o mais triste, claro, foi ver a situação de minha avózinha Maria.
Com 82 anos, dos quais mais de sessenta foram vividos juntos de seu companheiro João, ela estava totalmente desolada.

Ela gemia como quem geme de muita dor. E como não é raro nesses casos pedia para também poder ir junto dele. "Nós combinamos de ir juntos!", dizia ela.

Nesses momentos eu penso sempre em tanta coisa, mais do que normalmente já matuto.

Foi bonito ver a família junta. Eu poderia pensar que nunca nem nos vemos e parece hipocrisia estar todos na hora da morte de um membro para chorar juntos, mas não foi o que senti.

Senti, ao contrário, a importância de se manter os laços e de se tentar estar em família nem que sejam raríssimas as vezes. A importância da solidariedade, do consolo e do abraço nas vicissitudes da vida.

(Se você olhar rápido talvez pense que só há algo negro na tela, mas se olhar com calma vai começar a achar que "deve haver algo mais")
 There must be something more, detalhe, Somnia, Carvalho, 

Foi muito gostoso, apesar da circunstância, rever alguns das muitas dezenas de primos e primas, tios e tias, gente distante quem faz parte da minha infância e ajudaram a ser quem sou, ainda que seja no sentido de eu negar o que eram e gostavam para escolher outros caminhos.

Em 94 anos difíceis e simples, mas bem vividos, meu vô João, cuja vida foi anônima para quase toda a humanidade ontem reuniu dezenas de pessoas em torno dele. Contou-se casos, reviveu-se conversas, seu jeito durão ou não de ser. A memória parece uma forma boa de mantê-lo vivo. E mesmo no anonimato sua vida ajudou a construir tantas outras.

Fiquei olhando para minhas crianças correndo no gramado em volta do local onde estávamos... Em parte, graças ao meu avô, sua decisão de sair da roça em Minas, por exemplo, junto a tantos mais outros milhares de eventos conectados eu podia ver exatamente Ângelo e Marina como eram.

Não é louco? Pensar que nossa existência é tão única? Tão incrivelmente mágica? E tão absurdamente fugaz?

Ao sair de lá senti novamente a mesma sensação de tempos atrás, pensando na falta que meu querido pai também me fazia... Sim! Com certeza "deve haver algo mais", como diz a música do Colplay, inspiradora de uma das minhas mais negras telas. E esse algo a mais a gente já sente pelo fato das pessoas que estão mortas viverem dentro de nós e de nossas mentes... Alguns dias de forma mais nebulosa e escura e em outros mais iluminada e esperançosa.

É... talvez por essas razões e também porque como só o que sabemos da vida é que a morte faz parte dela Coldplay tenha dado ao seu álbum, cujo tema é a morte, o nome de Viva la vida.



...

42

"Those who are dead are not dead,
They're just living in my head.
And since I fell for that spell,
I am living there as well.

Time is so short
And I'm sure,
There must be something more.

Those who are dead are not dead,
They're just living in my head.
And since I fell for that spell,
I am living there as well.

Time is so short,
And I'm sure,
There must be something more.

You thought you might be a ghost,
You thought you might be a ghost,
You didn't get to heaven but you made it close,
You didn't get to heaven but you made it close,

You thought you might be a ghost,
You thought you might be a ghost,
You didn't get to heaven but you made it close,
You didn't get to heaven but you oh-oh oh-oh.

Those who are dead are not dead,
They're just living in my head."


42
Aqueles que estão mortos não estão mortos,
Eles só estão vivendo em minha mente.
E desde quando eu caí naquele feitiço,
Estou vivendo lá também.

Tempo é tão curto
E eu tenho certeza,
De que há algo mais

Aqueles que estão mortos não estão mortos,
Eles só estão vivendo em minha mente.
E desde quando eu caí naquele feitiço,
Estou vivendo lá também.

Tempo é tão curto,
E eu tenho certeza,
De que há algo mais.

Você pensou que poderia ser um fantasma,
Você pensou que poderia ser um fantasma,
Você não chegou ao céu, mas você chegou perto,
Você não chegou ao céu, mas você chegou perto,

Você pensou que poderia ser um fantasma,
Você pensou que poderia ser um fantasma,
Você não chegou ao céu, mas você chegou perto,
Você não chegou ao céu, mas você oh-oh oh-oh.

Aqueles que estão mortos não estão mortos,
Eles só estão vivendo em minha mente.

6 comentários:

Beth/Lilás disse...

Minha querida Sonia!
Eu também sou fã ardorosa desta banda e veja como eles são bem mais do que simples roqueiros, falam muito em suas letras e belas melodias.
Nossos amados parentes se vão, mas ficarão para sempre, como ferro marcado quente em nossa memória, em nossos genes.
Tadinha da vó, deve ter sido uma dor imensa se despedir do marido amado!
As coisas que me desmoronam são doença e morte. Às vezes o pensamento de me despedir de um ente amado me atormenta e aí eu corro a pensar outra coisa para pôr neste lugar.
um grande abraço, carioca

Danissima disse...

Beth,
que bonito este teu comentario sobre ficar marcado com ferro quente...

Danissima disse...

Somnia querida,
deve haver algo mais que transcende o nascer e o morrer. Que liga nossos laços antes do berço e apos a morte.
Mas a opiniao da filosofa, que pensou em ser freira, é muito interessante!
Gostei muito da maneira como vc descreveu o velorio, como encontro familiar e tendo as historias do avô como protagonista... Que morte bonita, assim!
Que bom que ele saiu de Minas e criou o entorno no qual vc nasceu.
abraço apertado

Lúcia Soares disse...

Por isso viver é tão perigoso! Porque estamos sujeitos a sair por aí, nos despedindo dos entes amados.
Tempo de reflexão. Interessante que meu olhar para os velórios era só de lugar onde encontrar parentes que há muito não se viam. Mas não é, absolutamente apenas isso.
É nos unirmos na mesma dor, é estarmos ali, solidários uns com os outros.
Meus sentimentos. E que sua avozinha aprenda a viver sem o amado, para que a curtam ainda mais.
Beijo nela e na sua mãe.
Beijo!

Sergio disse...

Eu sinto muito pelo seu avô! Agora, morando tão longe da familia este assunto me assusta um pouco. Imaginar que algo possa acontecer e eu talvez nao tenha tempo de me despedir, de reencontrar os familiares que não vejo ha muito tempo e nao conseguir compartilhar minha dor com ninguem...
Me lembrei com seu texto de quando minha avó morreu e meu avô, tão duro e severo, sentou-se no tumulo dela e chorou como criança. A partir daquele dia nossa relação mudou totalmente porque pela primeira vez eu vi nele um ser humano sensivel demonstrando o amor que tinha por aquela mulher. Ficamos muito mais proximos e acho que fui a única neta que conseguiu enxergar nele um avô bonzinho, rs.
Sua avó deve estar sentindo a mesma dor agora!!!
bjs

Luciana disse...

Somnia, sinto muito pela sua perda. Uma pena grande pra sua avó que perdeu o companheiro de uma vida. Difícil.

Beijo