02 novembro 2008

O que e quem vive em mim

("Aniversário", Marc Chagall, 1915)


Ontem foi dia de finados (acho muito feia essa palavra) aí no Brasil e aqui também.
Contrariamente a alguns anos em que eu me lembrava bem dos amigos perdidos e do pai querido, eu não senti tristeza alguma. Lembrei deles com carinho, fomos passear, ri, comi, fiz tudo que faço num dia qualquer.

Na sexta feira, eu ri olhando para uma melancia na feira daqui, quando me lembrei do povo todo vendendo melancias em caminhões perto do cemitério de Sumaré, quando a gente era pequena. Para uns dor, para outros, festa.

Mas a verdade é que quando a gente perde alguém tão próximo, por um bom tempo é como se arrancassem de você uma parte do seu corpo. E não há um minuto sequer que você não sente aquela dor da dilaceração. Falta algo em você e não há como não chorar ou não ficar triste. E por mais que todos ao seu redor digam palavras consoladoras, a dor parece infinita e infindável. 

Hoje, aqui, brincando com o Ângelo e o Re, sentindo falta de meus irmãos, mães, da família do Re, vejo que a falta que sinto do meu pai é a mesma. Como se ele tivesse viajado, ou eu, e a gente fosse mesmo se encontrar em breve. Ao mesmo tempo, como qualquer outra pessoa que amo sinto sua presença viva e constante comigo. 

Não tem a ver com espíritos ou sei lá o que seja, tem a ver com amor. Quando alguém que te criou, carregou, amou e cuidou vai-se embora nada pode arrancar sua presença, nem mesmo sua ausência física. 

Essa pessoa estará em você até o dia em que você também se for. Ou mais, aí já não sei...
O que sinto hoje sobre esse dia é que não preciso ir ao cemitério, embora eu não sinta problema nenhum em ir, eu não preciso chorar nem ficar parecendo triste. Eu não estou mais triste, porque o tempo cura essas feridas. Hoje sinto que a morte é duríssima quando vem, mas que o tempo se encarrega de nos mostrar como ela é tão natural quanto o meu sopro de vida. Depois de um tempo da morte de alguém é tão estranho perceber que ela vive mais em nós do que vivia antes e você se pega sentindo que a vida, tal qual a temos agora, é apenas uma das maneiras de estar conectado a alguém.


13 comentários:

Jo Ann v. disse...

Eu não suporto cemitério. Visito uma vez e se conseguir escapar todas as outras vezes, melhor para mim. Não tem haver com fantasmas, mas é que a primeira vez na minha vida que fui à um enterro e vi a terra caír em cima do caixão, aí decidi "nunca mais". Depois fui à um outro enterro, mas entraram o caixão numa "gaveta", no tombo familiar, mas mesmo assim. O gesto de "tapar" o corpo, o caixão, de não ter mais saída alguma, condenado a viver debaixo de terra me angustia ! :-|

Lúcia Soares disse...

Oi, Sônia. Também não tenho mais meu pai perto de mim, mas o sinto mais agora do que antes. E hoje, dia 2 é que é o dia dos finados. Ontem, dia 1o, aqui se comemora o dis de Todos os Santos.
A dor vai dando lugar a uma saudade que não acaba nunca.Meu Pai era um homem calado, rígido, usufruia da autoridade máxima, da hierarquia plena, não descia do seu patamar para o dos filhos...Mas foi um homem íntegro, legou-nos o que há de melhor num ser humano e isso embala nossa saudade. Faz 13 anos que ele se foi e a presença dele é maior, sim, você falou certo!
E no dia 09/11 é seu aniversário. Comomoro, sabe? Brindo a ele, dou-lhe os parabéns, choro uma saudde gosotosa, apesar de dolorida e...a vida vai passando. Inexoravelmente.

Irene disse...

SENTINDO SAUDADES...

"Saudade não se teoriza, se sente. É presença da ausência. Mas há saudade e saudade. Saudade cruel e saudade doce, boa. A saudade cruel é aquela do que está longe.
Do que vislumbramos, conhecemos até, mas não temos dentro de nós.
Essa dói, machuca, tira o sono, maltrata, rouba o riso, modifica o olhar, entristece.
Mas não é saudade, de fato, é falta. Falta do que, ou de quem não se têm. Falta é verbo que tem cheiro de vazio, é lacuna; saudade é substantivo que se transforma em advérbio de intensidade, intensidade do sentir. É sensação, é plenitude, é lembrança. E somos afortunados. Não há em outra língua verbete para traduzir esse sentimento.
Saudade boa, saudade, saudade, essa é doce. Dói? Dói sim, mas não é cruel,
é uma dorzinha boa de sentir, leve, que enche o peito, faz sonhar, sorrir, eleva o olhar para o passado, gera suspiros e é,como afirmei, presença da ausência. É presença do que, ou de quem, tivemos e teremos sempre dentro de nós.
Longe eu sinto saudades do céu de Brasília, porque ele está dentro de mim. Aqui em Brasília eu sinto saudades do mar de minha terra. Porque ele está dentro de mim.
Então é um sentir bom. E que pede música e que a música atrai.
Saudade é identificação da ausência.
E nada torna mais presente o que está ausente do que sentir saudades.
Saudade é vida. Só morremos quando esquecidos, quando não somos mais ausentes em ninguém e isso quer dizer que não existimos mais em nenhuma memória.
Saudade boa é consciência de algo ou alguém.
Não sentimos nunca saudades do que não nos emocionou, provocou sorrisos,
prazer, amor, êxtase, sentimentos verdadeiramente bons.
E as músicas, os poemas, os textos, as canções, não servem para outra coisa senão para traduzir o que não conseguimos definir; para falar por nós, ratificar o que sentimos.
Então, se por acaso lhe vem à mente uma música antiga ou atual, brega ou moderna, ou se uma paisagem ou um céu estrelado ou uma imagem do passado ou de alguém, lhe surgir na mente; ou se um trecho de um poema, de um texto qualquer, lhe provocar um suspiro, e de repente você sentir saudades. Não se espante, nem se entristeça. Aproveite. Agora se alguém disser que sente saudades de você, comemore duplamente. Triste é não ter do que ou de quem sentir saudades. E mais triste ainda é não deixar saudades em ninguém."
(Maine Virginia Carvalho)

Beth/Lilás disse...

Bom dia, garotinha!
Nossa esse texto que a Irene deixou acima é poderoso!
Me prendi nesta frase: "Só morremos quando esquecidos, quando não somos mais ausentes em ninguém e isso quer dizer que não existimos mais em nenhuma memória."

Meu paizinho também se foi e agora é só memória, apesar de que me esqueci completamente do dia de finados, apesar também de que não sou pessoa de visitas ao cemitério. Prefiro a lembrança querida e da flor que deposito sempre na grutinha que tenho na minha casa na serra. Valeu por me lembrar disso, tô subindo sexta-feira e vou colher a mais linda flor para oferecer a ele.

tenha uma linda semaninha.
bjs cariocas

Jessicka disse...

Que ironia...vendos os textos acima sinto ate inveja...mas ao contrario de vcs eu estou esperando o dia que a noticia chegue, de que ele se foi é assim mesmo pra poder ter paz(sei que as minhas palavras sao incoherentes mas acho que a Sonia me entende)e dar paz pra minha maezinha.
Infelismente nao todos deveriamos ter filhos...
/JR

Somnia Carvalho disse...

Hey Jo Ann,

não gosta do cemitério-tério-tério?
é... no inverno aqui na Europa então! tudo de galhinho seco, meio medonho... mas confesso que no verão, eu caminho por eles pra cruzar as ruas e não acho super legal!

e você?

Somnia Carvalho disse...

Hey Irene! obrigada pelo texto!
parece que ele fez sucesso aí com os super leitores do blog!
bjs

Somnia Carvalho disse...

Super Lilás, como foi a subida da serra?
deixou a florzinha? achei muito bonito seu gesto...

Somnia Carvalho disse...

Querida Lúcia, obrigada por ter me lembrado!
De fato os suecos celebram mesmo é no dia 01. Eles emendam o feriado, mas até onde entendi o dia de relembrar os mortos é o dia 1o. dia de todos os santos... aliás fiquei curiosa porque a gente no Brasil faz isso no dia 02 se também comemoramos dia de todos os santos no dia primeiro... ce sabe?

amiga, dia 09 tá chegando e eu vou lembrar de voce...
também faço o mesmo... e como a gente pode explicar a presença tão forte de alguém que está ausente? incrível é essa coisa chamada vida... beijos

Somnia Carvalho disse...

Jéssica amigona,

ai que dureza! você é tão incrível que não acredito que pode ter tido um pai que te faz pensar assim... que não vale a pena! acho que nenhum deles é perfeito, mas é terrível quando eles são mais imperfeitos que o contrário...

Sinto por você, porque é bom ter essa lembrança sabe? acho que vc vai ensinar bem pro seu Nikky como isso é importante né?
bjsssss

Lúcia Soares disse...

Oi, Sônia. Eu tb não tinha parado pra pensar nisso. Aí fui no Google:

"O culto aos mortos é muito antigo e esteve presente em quase todas as religiões, principalmente nas mais antigas. Inicialmente era ligado aos cultos agrários e de fertilidade. Os mais antigos acreditavam que, como as sementes, os mortos eram enterrados com vistas à ressurreição.

Na prática da Igreja Católica, o Dia de Finados surgiu como um vínculo suplementar entre vivos e mortos, destinado a todos. O próprio mundo profano, em geral, também aderiu a essa prática.(...) Já no século I, os cristãos rezavam pelos falecidos: visitavam os túmulos dos mártires para rezar pelos que morreram. No século V, a igreja dedicava um dia do ano para rezar por todos os mortos, pelos quais ninguém rezava e dos quais ninguém lembrava.

No século X, a Igreja Católica instituiu oficialmente o Dia de Finados. A partir do século XI, os papas Silvestre II (1009), João XVII (1009) e Leão IX (1015) passaram a obrigar a comunidade a dedicar um dia aos mortos. No século XIII, esse dia passou a ser comemorado em 2 de novembro, porque 1o de novembro é a Festa de Todos os Santos.

Com o passar do tempo, a comemoração ultrapassou seu aspecto exclusivamente religioso, para revelar uma feição emotiva: a saudade de quem perdeu entes queridos. Hoje, o Dia de Finados é um dos feriados mais universais. São cerca de mil anos de celebração pela fé na ressurreição.

As pessoas costumam celebrar os mortos levando flores aos túmulos e rezando por eles. Alguns preferem chamar a data de "Dia da Saudade", retirando o peso do aspecto fúnebre e enfatizando as melhores lembranças daqueles que se foram."
Então, agora sabemos um pouquinho mais. Bj

Anônimo disse...

Sonia, depois que li seu texto percebi que meu Dia de Finados passou praticamente em branco. Fui madrinha de casamento dia 01 e trabalhei dia 02 depois de dormir muito pouco...a única coisa que me lembro é que nasceram lindos bebes no dia 02. A maternidade estava quase lotada. Trabalhando no berçario pensei "o dia de finados vai ser um dia de comemoraçao para muitas famílias...e por que nao?". Bj. pinta

Somnia Carvalho disse...

Pinta,

eu admiro tanto o seu trabalho e gente que trabalho "dando vida" como você... é demais!

e acho que deve ser muito mágico e milagroso ver vidas assim, chegando ao mundo... a prova de que data de feriado não muda o sentimento da gente... tenho saudade de quem se foi todo dia... apesar de que normalmente eu me lembro dos meus no dia 02 também, nem sempre com tristeza... beijocas