Pular para o conteúdo principal

Pintura para ver.. e ouvir!


(As suecas Helena e Nina levando a artista Somnia muito a sério, Malmö, junho 2010)

Em junho de 2010, escrevi um primeiro post de como havia sido a vernissagem que criei para expor minhas telas ainda lá na Suécia.

Na ocasião falei apenas das flores recebidas e de como havia sido gostoso aquele momento. A intenção de escrever outros posts e falar mais a respeito do que me inspirou a pintar cada uma delas, e também como brotara a idéia de fazer uma vernissagem para os amigos em minha despedida, deu lugar para assuntos mais urgentes e o tempo passou.

Acabei tentando dar sequência nisso com o post "Dicas de como fazer de você sua melhor empresa", quando recebi um comentário no meu site. Minha intenção era mostrar como normalmente as coisas nos acontecem quando insistimos naquilo que gostamos de fazer, como era o caso da portuguesa Constança de quem falei lá. Além disso, queria provar como é preciso que achemos uma forma de expor nosso trabalho, dar a cara a bater e ver o resultado.

(O francês Jocelyn e a sueca Maria, concentradíssimos, Malmö, junho 2010)

Eu vivi na Suécia por quase quatro anos e foi uma das experiências mais intensas de minha vida. A outra foi a maternidade o que, aliás, eu comecei fazendo junto desse experimentar viver fora de meu país.

Durante minha estadia lá houve momentos uau! muito, mas muito difíceis, sobretudo no primeiro ano o qual coincidiu com o primeiro ano de vida do Ângelo. Eu poderia ter parado e lamentado o frio, a saudade, o jeito distante dos suecos, a língua difícil, a falta de ajuda, o não poder trabalhar fora e tantas outras milhares de coisas.

Sim, dias ruins não foram exceção, mas o fato é que não sei exatamente de onde me veio sempre mais e mais desejo de me jogar naquela experiência e de deixar os dias ruins de fora do álbum da Suécia. Quanto mais me jogava mais gostava, mais fazia amigos, mais amava aquele país e sua gente. Me identifiquei tanto com a gélida Suécia que às vezes não parece que vivi tantos anos de minha vida num lugar tão diferente.

Bom, fato é que não lamentei. Tornei-me, ou elegi-me, a "Embaixatriz Deslumbrette" e vivi a Suécia com toda paixão que me foi permitida.

Da paixão e das paisagens tirei algum extrato para voltar a pintar nos últimos dois anos. Pintava e ouvia de todos os amigos e amigas de lá porque é que eu não vendia minhas telas. Sim, eu já havia vendido muitas aqui no Brasil antes. Havia cavado uma exposição, pintado e oferecido e muita gente tinha me pago dinheiro por tantas horas de prazer.

(Juliana e Jéssica no maior bate papo, Malmö, junho 2010)

Decidi então pôr todas as idéias e inspirações para fora. Pintei o quanto consegui no primeiro semestre de 2010 e divulguei uma vernissagem para os amigos e amigas de lá. Organizei na nossa casa, pedi ajuda das amigas próximas e recebi umas quarenta (não me lembro mais exatamente) pessoas em casa.

(E muitas perguntas pra cima da artista, a brasileira Jéssica e eu, os suecos Kerstin e Magnus e a portuguesa Ludvina, Malmö, junho 2010)

Foi um sucesso. Foi sim. Não só a "começar pelas flores" dadas por muitos que sei queriam me incentivar, parabenizar etc.

Eu não sou uma grande pintora. Nem eu mesma me apresento como artista, já que ainda me considero professora de redação, de filosofia, acima de tudo. O fato é que num grau mais agudo eu amo criar. E pintar consegue me arrebatar ainda mais do que lecionar o faz.

Pensei que se amo tanto pintar e se tanta gente até andava brigando (três amigas disputaram a mesma tela antes da vernissagem) para ter uma tela ou outra que eu tenha feito então era hora de eu fazer alguma propaganda do que vinha fazendo.

Para a exposição, criei uma forma de todo mundo ir ouvindo as músicas que haviam me inspirado em cada tela. Com fones de ouvido e um celular com a trilha da vernissagem, cada qual ia escolhendo a tela que mais lhe convinha ver e ouvia a pintura. Isso porque a maior parte delas eu havia criado num projeto de juntar música e pintura, como naquela tela Yellow, o que tentarei explicar e detalhar melhor num próximo post.

Expus também os móveis pegos do lixo dos vizinhos ou velhos, como a Miss Xu, e reformados e algumas cerâmicas que havia feito num curso em Malmö.


(O dinamarquês iraniano Babak, as polonesas Dorota e Caterina e Nina, Malmö, junho 2010)

Indiquei nomes, tamanho das obras e colei pela casa resumos dos projetos pensados por mim. Em inglês e em português, já que havia amigos de muitas nacionalidades.

Ver o pessoal zanzando pela casa como se fosse uma galeria, ouvindo, olhando e vindo me perguntar coisas foi uma sensação maravilhosa. Um amigo francês, o Jocelyn, queria que eu desse detalhes de como era o processo criativo: se eu primeiro pensava a tela e escolhia a música ou vice-versa...

Delícia para quem gosta de viajar na maionese, filosofar sobre pintura.

Então estão aqui algumas fotos daquele dia bem como as telas vendidas. Lembro bem da sensação no final daquela tarde: um orgulho de mim mesma tão grande que prometi não deixar aquilo parar. E é por essa razão que este post precisou ser escrito hoje, ainda que com tanto atraso.

Comentários

Beth/Lilás disse…
Eu sie Brabuleta, você amou muito e se identificou bastante com aquele modo de ser e ficar sueca. Lembro-me de sua exposição e da alegria ao contá-la por aqui. Realmente aquele povo educado soube acolhê-la com admiração e respeito, isso é que é bacana.
E pra terminar, quero dizer-lhe que transformei sua poesia em palavras lá no meu blog, depois confira, ok.
beijocas cariocas e buenos dias!
Lúcia Soares disse…
E lá, na última foto, está a "minha" tela! snif, snif...
Sônia, um lindo relato. Sei de tudo isso, pois vivi junto com você. Incrível como acho que a conheço pessoalmente!
(mandei email, com um anexo sobre a Suécia, no dia 30/11. Cadê? Não chegou?!)
Maariah disse…
Sómnia, Sónia, querida Sónia. Antes de mais acho muito bonita essa tua atitude de olhar a vida, preferir olhar as coisas boas, em vez de se ficar lamentando. Nem é preciso muito, qualquer motivo serve para, qualquer um de nós, lamentar a pouca sorte, o frio, o calor, o estar longe da familia, o estar perto, trabalhar, não trabalhar. Fazer o contrário é que é complicado, em momentos menos bons conseguir ver o lado positivo é que é complicado, mas eu acho que acaba sendo uma questão de treino. Se calhar há umas felizardas como tu, que têm esse dom, outras como eu têm de fazer o exercicio. Mas é bom vir aqui, ler post como o de hoje e lembrar que o exercicio vale a pena, vale muito a pena.

Continua e inspirar-nos.

Postagens mais visitadas deste blog

Azulejos em carne viva? O que você vê na obra de Adriana Varejão?

( "Azulejaria verde em carne viva" , Adriana Varejão, 2000) Gente querida, Domingão a noite e tô no pique para começar a semana! Meu grande mural preto, pintado na parede do escritório e onde escrevo com giz as tarefas semanais, já está limpinho, com a maior parte "ticada" e apagada. Estou anotando aqui o que preciso e gostaria de fazer até o fim desta semana e, entre elas, está finalizar a nossa apreciação da obra de Adriana Varejão , iniciada há dias atrás. Como podem ver eu não consegui cumprir o prazo que me dei para divulgação do post final, mas abri mão de me culpar e vou aproveitar para pensar mais na obra com vocês. Aproveito para convidar quem mora em São Paulo a visitar a exposição da artista, em cartaz no   MAM , Museu de Arte Moderna, no Parque Ibirapuera, com entrada gratuita e aberta ao público até 16 de dezembro deste ano. ("Parede com incisões a La Fontana", Adriana Varejão, 2011) Para "apimentar" a dis...

Na Suécia também não tem... branco no Reveillon

Se você é brasileiro ou brasileira conhece, com certeza, a tradição da roupa branca na virada de todo ano novo no nosso país. Diz a lenda que o uso da roupa branca atrai boas energias. A claridade e a luz provindas do branco sempre remetem à paz, harmonia, pureza etc e, apesar de ser um costume tomado por brasileiros de todas as religiões, a raíz dele está na cultura e na religião dos negros africanos que também colonizaram o Brasil.  Eu, obviamente como boa brasileira, sempre soube que se não fosse de branco eu deveria ao menos escolher uma cor super alto astral ou de sorte, como o amarelo. Ou pôr umas calcinhas novas, também de cores "boas" para garantir um sucessinho. Eu normalmente passo reveillon em alguma praia então eu só tenho na memória gente vestida de branco, amarelo e, no máximo, um azulzinho. Ninguém quer atrair maus fluídos e entrar com o pé esquerdo no primeiro dia do Ano Novo. Ou quer? Bom, se você estiver cansado dessa tradição e opressão do branco sobre você...

Violeta Paz é que eu me chamo!

("Violeta Paz", detalhe da tela que fiz hoje, inspirada pela postagen lilás, Somnia Carvalho, abril 2010) Semana passada eu fui contagiada pelo vermelho de vocês e tentei, tentei ardentemente criar uma tela em vermelho... Eu queria mostrar como essa cadeia de influência, essa rede que se chama internet pode nos afetar negativa ou tão positivamente. Depois de ler a história do vermelho cabelo da avó da Glorinha eu queria pintá-la... queria pintar sua força e sua ingenuidade. Queria pintar sua feminilidade e queria pintar o amor de sua neta por ela. E como minha tentativa de expressar em cores o que sentia não funcionava fui tentando outras telas. Tentei em três telas diferentes algumas idéias... criar uma tela em vermelho (a partir de uma foto preto e branco) da minha sogra Irene no dia de seu casamento sendo pega pelo meu sogro Caetano, num ato espontâneo de amor... Depois tentei uma dançarina de tango e parei na metade... Depois minha linda amiga Liana ...