16 setembro 2008

Gente que não paga a pena


("Saturno devorando seu filho", Goya, 1820-23, Acervo: Museu do Prado, Madrid)


Os suecos esperam em filas gigantes do supermercado, quietos. E não reclamam.
Os suecos da minha academia de ginástica gostariam de ter mais aulas a noite. Mas não pedem.
Muitos dos suecos ficam irritados quando alguém não cumpre o protocolo ao qual estão acostumados, mas não sabem conversar. Eles são sérios demais e ocupados demais para isso. 

E alguns deles, quando isso acontece, mandam mensagenzinhas por baixo da porta da gente. Medrosos, incapazes de resolver qualquer situação numa boa conversa entre vizinhos, eles se sentem no direito de serem agressivos, de expressarem a frustração do mercado, da academia, de muita coisa na vizinha estrangeira. Eles resolvem com bilhetinhos entre vizinhos.

Assim são muitos dos que vivem no prédio bem legal onde moro aqui. Noventa por cento suecos. Alguns deles, incluindo o dinamarquês que vive acima de mim, me mandam mensagens grossas, quando desconfiam que qualquer coisa esteja errada. E o fazem mesmo quando foram eles mesmos que cometeram o erro e não a brasileira, cujo país tem fama de desorganizado. Mesmo se errados, agem como se estivessem certos.

Muitos suecos. Não todos. Muitos e muitos sãos as mais finas pessoas que já tive o prazer de conhecer na vida. 

E, então, porque esse outro grupo é minoria pra mim, eu tento jogar o jogo e passo a raiva adiante. Se consigo, chamo pra conversa, mostro que não tenho medo do cara a cara. Garanto a mim mesma minha educação e que gente assim não vale posts muito explicativos no meu blog. Apenas uma menção para eu não esquecer e ninguém pensar que são só flores. Aliás, nunca são.

Sigo e miro-me nas pessoas daqui que valem muito a pena porque, graças a Deus, minha alma, ao contrário de muitos dos meus pobres vizinhos, não é pequena.


...


Poemas para quem caminha


não coleciono mágoas
amanheço

as âncoras
esqueço em balsas

sou um cais
em movimento




(fragmentos do livro "Poemas para quem caminha", Fundação Catarinense de Cultura/Editora da UFSC, 1987)


6 comentários:

Lilás disse...

Hum, esses suecos lembram muito o povo de certos lugares aqui do Brasil. Lá em Petrópolis mesmo, talvez pela colonização alemã, o povo é assim - não reclamam nem fazem nada.

Mas, imagino o quanto nós brasileiros somos olhados e imaginados por estes povos! Também imagino o quanto os mexicanos sofreram e ainda sofrem o preconceito e junto com eles estamos nós hoje em dia para o mundo.

Mostre que você é diferente através da sua postura e da sua altivez, não se dobre a eles.
Xenofobia é isso que os povos europeus têm demonstrado com os demais povos do planeta. Mas, eles ainda não se tocaram que precisam tanto desses povos!!!

Enquanto isso, dance mesmo, dance muito com seu Ângelo e encha seu coração de alegria - alegria que só nos entendemos.

beijos cariocas

Somnia Carvalho disse...

Querida Lilás,

obrigada por ouvir aí com tanto carinho!

Eu gostaria muuuito de ser menos brasileira. Eu sou brasileiríssima do tipo que se importa com tudo e todos e isso é um saco!

Também sou brasileira piscianística! Fantasiosa ao extremo! então, eu realmente não sei lhe dizer se os tontos dos meus vizinhos suecos e dinarmarqueses me mandaram bilhetes idiotas porque sentem preconceito comigo, ou se mandam mesmo entre eles, toda vez que acham que algo não tá do jeito que querem... A chance de que seja comigo que não entendo o esquema é muito maior, já que não nasci nem cresci aqui, logo, sou eu a que mais comete "erros" e "enganos".

Pois então eu não sei lhe dizer se é fato ou não... se na hora da raiva crio isso ou se é mesmo isso. Bom... de qualquer forma, adorei seu suporte psicologico virtual comigo! rs...

Escrevi o post no momento x de brasileirisse e agora pensando já nem sei mais o que sinto. Olha só, seu comentário me despertou pra um outro erro! haha.. vivo errando! você falou do México e eu queria saber o que te levou tão rápido ao México... daí vi que coloquei a música total errada. Não era aquela canção mais romântica, mas essa aqui... uma que fala exatamente das palavras, do bem ou do mal que elas fazem... Troquei tudo e pus a música para voce, e todos ouvirem.

um beijão e ótimo sono! vou mimi...

Lilás disse...

haha Quando me referi ao México e sua gente é porque geralmente comparam a todos os latinos de "xicanos", algo lembrando mexicanos que tem aos montes nos EUA, por exemplo.
Parece-me que todos os latinos, incluindo nós brasileiros, estamos numa mesma visão para o Primeiro Mundo. A nossa única diferença mesmo é que acham-nos extremamente limpinhos, ou seja, não entendem porque tomamos tanto banho todos os dias. hehe

Mas a nova música é uma beleza mesmo!
beijin

Lujan disse...

Querida Sô,
Minha sugestão não é nada altruísta, mas eu desenvolveria um ensaio o mais possível psicanalítico com as idéias do post, expondo esse tipo de atitude repressiva e repressora, expondo o medo dessas pessoas pelo diferente, o medo da conversa, e publicaria ou na minha porta, ou na porta do prédio... O que acha? Ou seria apenas um arroubo vingativo pisciano (meu!)? Prefiro pensar no lado pedagógico do "inominado"... hehe! E claro, sempre é possível escrever um texto virulento com uma linguagem sutil e certa ironia, sem apontar os culpados...
Beijão

Somnia Carvalho disse...

Agora intinti Lilás!!!
beijão

Somnia Carvalho disse...

Querida Lu,

teremos tempo de ver essa sua idéia super pisciana ao vivo! rs.

Por ora, talvez o melhor pra mim seja passar a bola. Quanto mais penso no assunto, mais me irrito...
beijocas, preciso arrumar as malas now!!!!