25 janeiro 2011

O que há por trás de "O discurso do rei"

(Colin Firth, no papel do rei George VI e por trás dele o amigo Lionel e a esposa Elizabeth)

Minha vida como cinéfala ficou aposentada depois de duas crianças, mas hoje quando vi na net que um filme chamado "O discurso do rei" havia ganhado 12 indicações ao Oscar decidi que já era hora de tentar voltar à vida normal. Normal, na minha situação, significa assistir em casa, enquanto a prole dorme.

Tendo visto posso agora dizer que entendo porque o filme dá assunto e indicações.

Sem nem entrar na questão e nas referências políticas, nem mesmo na biografia de George VI acredito que dá para discutir horas numa mesa de bar apenas sobre o lado psicanalítico do filme.

George, como quase toda criança comum, tem uma insegurança enorme que o faz crescer sem confiar em si mesmo e esconder-se atrás do medo. Em seu caso o problema é a gagueira e seu fantasma o medo de falar.

A fala, que em qualquer caso sempre expõe o sujeito, seria uma entrave grande na minha e na sua vida, mas na vida de uma criança sucessora natural do trono de rei da Inglaterra é com certeza uma barreira enorme.

Como na vida de qualquer ser humano as exigências dos pais e o modo como lidam e se frustram com as incapacidades dos filhos acabam sendo o motor do preconceito, da rejeição e da falta de confiança. George, já homem, marido e pai, ainda teme o julgamento de seu velho pai, o rei.

Enfrentar o público, o povo inglês, significa enfrentar, na verdade, seu pai e sua família. Significa dar a cara a bater e ver no rosto dos outros o quanto ele é incapaz de ser a voz do povo, de falar como rei, porque não superou o medo do George menino.

Essa crítica provavelmente deva estar um tanto confusa, porque me meti a escrevê-la sem ter lido nada mais sobre o filme e também em ter visto o filme naquele inglês britânico terrível do gago George e pomposo de Lionel, sem legendas.

Então sinto que "O discurso do rei" tem como tema secundário o preconceito, porque o principal é a superação deste. E não dá para falar do filme sem pensar no papel que a confiança, representada no filme por Lionel, quem ajuda o rei a superar sua gagueira, pela esposa de George, a rainha Elizabeth (Helena Bohnham Carter), quem faz de tudo para ajudar o marido a mostrar quem realmente ele é, bem como pelo esforço de George em acreditar em si mesmo..

Daria para escrever um livro só sobre o personagem Lionel (o excepcional Geoffrey Rush do inesquecível Shine), cujo sonho frustrado de ser ator acaba sendo compensado no papel de ensinar ao rei a arte do discurso, bem como sobre várias variantes da temática central, por isso gostei tanto do modo como a história verídica foi contada na tela.

O ritmo do filme é lento e não é difícil não ser contaminado pela dificuldade do pobre George. Sua dificuldade em falar (representada muito bem por Colin Firfh, de "Mamma mia") acaba sendo um pouco a dificuldade em querer ouvi-lo. Todo mundo deseja que ele termine sua frase e é por isso que a vitória de George VI acaba sendo a vitória de todos aqueles que o ouvem.

Adorei o filme e adorei ter de volta aquela sensação super boa de ver um filme bom, sair dele com algo para mim mesma.

Agora preciso torcer para outras noites de bons sonos da criançada e passar aos outros indicados.


...

ps: se eu tiver falado alguma besteira grande sobre o filme, não se acanhem em me corrigir! É que eu precisava escrever isto hoje senão a minha insegurança em falar de algum filme só quando é algo excepcional e ainda não dito por ninguem me impediria de escrever este post... Mesmo porque não dá para exigir muito, já que não é fácil se meter à inteleca quando se está sendo uma mamadeira ambulante em tempo integral. Dá? Olha aí quanta insegurança! :)

6 comentários:

Fernando disse...

Somnia, terei de assistir esse filme, creio que de alguma forma me será útil, sou muito inseguro e medroso, apesar de não aparentar tanto, tão inseguro que, já acompanho seu blog a anos, e agora somente criei coragem de comentar, não sou muito travado para falar, já em escrever..., sempre acho que ficou faltando algo, incompleto, não é tão simples como em uma conversa, mas apesar da insegurança e do medo, resolvi comentar, também como forma de afugentar os fantasmas, faço muito isso no meu dia a dia, enfrento e quando vejo o medo e a insegurança eram infundados. Do mesmo modo quando vemos uma sombra projetada, se parece com uma fera enorme, fugimos ou buscamos o que esta gerando essa sombra, que pode ser um inseto ou nada. Gostei da sua resenha, mais principalmente do p.s. onde você se diz insegura, a imagem que tenho de você é totalmente inversa, segura, convicta, decidida, devido a maneira que você escreve, tão firme e concreta, sempre imagino qual a imagem que fazem de mim, e posso supor que a que você tem de si, seja diferente do modo que te vêem, abraço a toda a família.

Lúcia Soares disse...

Sônia Somnia, achei ótima seua "crítica" e sei que acertou, mesmo não tendo assistido ao filme ainda.
Ter Colin Firth no elenco já é uma boa indicação. Não li nada sobre o filme ainda.
Muito chic você assití-lo em inglês, sem legenda. Muita coisa se perde quando há uma tradução formal, você sabe.
Depois que assistí-lo saberei se você acertou, né? rsrsr
Beijo grande e assista mais! Foi ótimo ler voc~e.
Como o rapaz aí em cima falou, você não parece mesmo ser insegura.
Beijo!

somnia disse...

Deixa eu responder para nao dar pano para a manga dos inseguros... rs... brincadeirinha...

Fernando, levei o maior susto! voce e a CARA, se bem que mais bonito, que meu vizinho... Tive que acessar seu perfil pra ter certeza que nao era!

Pra comecar, obrigada! 1. por seguir o blog, por ler, por estar aqui e 2. por ter hoje tido a coragem de escrever!

seu comentario esta super pertinente, otimo! e se voce fosse meu vizinho eu iria me oferecer pa dar aulas de redacao pra voce, nao porque voce escreva errado, mal, nada disso, mas so para te ajudar a destravar. E facil! com exercicios da uma ajuda danada! fiz isso com muitos alunos que tinham muito na cabeca, expressavam se bem, mas na escrita travavam...

Entao, eu sou segura em mir coisas, mas como todo mundo tenho minhas enormes insegurancas... Por exemplo, depois que a Lola inventou de criar blog foi um saco porque eu nunca mais escrevi sobre filme! hihi...

por sorte nao li nada nela sobre este e ai escrevi de sopetao! entao assista ao filme e por favor venha comentar aqui!

volte sempre! ah e se quiser me mandar o email para borboletapequeninanasuecia@gmail.com eu te mando uns exercicios pra destravar escrita.

abracao, sonia

somnia disse...

Lucitas!

brigada pela confianca amiga!
depois que vivi la nas suecias este tempo e nao falava mais portugues no dia a dia ingles virou a lingua mais rapida no dia a dia... quando eu ouvia ingles na tv e no radio parecia que ouvia portugues, as vezes achava que era portugues mesmo...

por outro lado, piorei na minha lingua... nao aguento mais quantos "ques" escrevo numa unica frase... ficou muito oral.

O filme e lindo! mas eu recomendo com legenda mesmo porque o sotaque carregado, mais a criancada do parquinho do predio nao ajudou a pegar tudo nao! beijos queridona

Beth/Lilás disse...

Sonildes, queridíssima!
Pois eu ainda não vi este filme, mas é mesmo uma boa pedida para estes dias de pós-operatório do maridex.
Ele operou o braço ontem (ligamentos) e passa bem, mas tá dengoso que só homens ficam quando estão assim, meio desprotegidos. hehe
Você é uma ótima comentarista de filmes e já é a terceira boa pedida que indica, portanto vou ver em breve.
muitos beijinhos cariocas

Beth/Lilás disse...

Amigaaaaaa!
Preciso de sua ajuda lá no meu pedaço, portanto não deixe de dar sua contribuição, ok.
bjs cariocas