11 novembro 2009

Uma foto, mil lembranças: A aparecida ...


(Meu primo Anselmo, minha mãe Maria, minha irmã Sandra com seu vestido vermelho, meu pai José, minha tia Vicentina, a prima Vanusa, de chapéu, e eu com as mãos na cintura, Aparecida do Norte, 1978)


Minha avó paterna, que se chamava Maria de Jesus, engravidou 19 vezes (o que dá 13 anos grávida). Dessas ela perdeu acho que umas seis crianças que morreram ou no seu ventre ou pouco depois de nascerem.

Ainda assim, com os filhos que sobraram, ela e meu avó José deram material para que eu tivesse muitos primos. E primas. Dezenas delas.

Não sei por conta do quê exatamente, se a família grande não se entendia direito, mas de tantos primos e primas, com quem eu brincava de fazer comidinha debaixo da árvore na periferia de Sumaré, me restaram poucos com quem ainda tenho certo contato.

Uma dessas é minha prima Vanusa. Ela era uma prima por quem eu nutria meio que uma admiração, sabe? Ela era pouco maior que eu e sempre me pareceu tão sabidinha a danada que eu vivia a tentar seguir os passos dela.

Foi ela, e até hoje ela não sabe disso, uma das grandes responsáveis pelo meu gosto pela leitura e por eu desenvolvido facilidade com a língua. Na minha simples escola estadual pouco líamos. Professores cansados, desanimados e pouco envolvidos com os alunos. O fato é que, quando eu tinha uns 13 anos, descobri que Vanusa, essa minha prima sabichona e danadinha, que contava com uns 15, emprestou-me, a meu pedido, toda sua coleção de Sabrinas, Júlias e Biancas. Ela trocava jornais, sei lá o que, pelos livros e também tinha fascinação por aquela literatura fácil e até meio pervertida para meninas da nossa idade... Era uma coleção gi-gan-te de uns vinte e tantos livros e eu simplesmente devorei todos.

Ficava sozinha no quarto lendo e lendo e só lembro que eu não sabia que era literatura ruim ou literatura meio avançadinha pra minha idade, mas caí pelos livros... Antes deles eu só tinha lido direito um livro sobre a vida do Papa João Paulo II e um sobre a conversão de Maria Madalena que meu pai havia comprado numa ida a Aparecida do Norte... Também tinha alguns da coleção Vaga-Lume dados na escola, mas eu ansiava por ler e livro era o que a gente não tinha em casa.

Bom, foi então num dezembro de 1978, pouquinho antes de nascer meu irmão Lê nascer que fomos pagar mais algumas promessas na cidade religiosa de Aparecida. Minha família, àquela época era católica de carteirinha, e lá ia eu fazer as visitas às salas de pagações de promessas, onde passava algumas horas boquiaberta em frente às fotos daquelas pessoas que lá haviam depositado sua fé. Acidentes com motos, carros, ônibus... Gente sem perna, doenças graves, tudo me fascinava... Era tudo tão curioso e cheio de mistério naquela sala com milhares de fotos e velas...

Eu não entendia nada direito, mas eu tentava acompanhar meu pai, outro José, na Santa Missa e tentava ler com ele o folheto e cantar ao seu lado, porque eu sabia que isso o deixava orgulhoso.

Naquele domingo fazia muito, muito calor e era mais uma das muitas dezenas de vezes que eu ia à Aparecida do Norte com minha família.

Eu era compridinha, mas tinha apenas seis anos e era talvez a menina mais ingênua e ao mesmo tempo sedenta por aprender que eu conhecia...



(As panterinhas... eu, minha irmã e minha prima com os mesmos óculos de plástico amarelo comprados no camelô, Aparecida, 1978)
Eu estava sempre com um vestidinho bonitinho que minha mãe fizera, mas ele normalmente era igualzinho ao de minha irmã, o que não me deixava muito feliz... Pior era quando eu tinha que escolher uma cor diferente e depois acabava gostando mais do dela quando minha mãe, também Maria, fazia a prova final.

Nesse vermelho, por exemplo, reparem que a manga cheia de babadinhos da minha irmã é muito mais legal que a minha!

Minha mãe arrumava a gente bem caprichadinhas. Costurava os vestidos e cortava nossos cabelos.

Meu pai cantava assim bem alto o "Mãe do céu moreeeeena, Senhora da América Latiiina"... e até hoje quando me lembro dele cantando eu não consigo conter as lágrimas.

Não sei até que ponto eu fui muito católica por muitos anos depois porque talvez ne sentisse ainda como aquela filha bonitinha que ia de branco pagar promessas. Isso se rompeu quando fui estudar filosofia e depois converteu-se em alguma espécie de espiritualidade muito forte em mim... Canto as músicas que aprendi ainda naquela época quando estou em minha bike na Suécia de manhã, mas não tem mais a ver com aquilo. É um misto de tudo que fui adquirindo de bom na vida, do velho e do novo...

Acho que como o Maria que carrego depois do meu primeiro nome Sônia, carrego um pouco de tudo que vivi naquela época. Como se fosse um pouquinho de cada Maria da minha infância, a avó materna, a paterna, minha mãe e a de Nazaré, e ao mesmo tempo tivesse assumido uma outra personalidade em cima daquela base. Reneguei muito e assumi outras coisas que não sabia direito que estava assumindo.

Fato é que naquele dezembro estávamos lá... Por mais que force a memória não consigo saber mais nada daquele dia... só me lembro que estávamos doidas com os óculos... e tinha o chapéu da Vanusa que eu tinha amado, mas não podia comprar igual.

E o calor era tanto, tanto, que todo mundo se enfiava naqueles sorvetões de Aparecida... Lembro das ruas da Igreja Antiga cheias de quadros de Jesus, Maria e não sei mais quem... Gente vendendo lembrancinhas de todos os tipos e o povo buscando alguma lembrança para quem não tinha ido.

"Estive em Aparecida e lembrei-me de você"...

Lembro direitinho dessa frase e como eu tentava lê-la corretamente. Lembro como me parecia estranho esse "lembrei hifen me de". Eu lia tudo picadinho...

Na foto além da prima, o primo Anselmo, que a gente achava que era o moço mais sabido da época. Lembro que ele foi o primeiro da família a se casar e todos diziam que a moça era meio assim rica, sabe? Eu não entendia direito também, mas lembro que no casamento dele que a gente achava que era de gente meio rica, a festa tinha sido na garagem da casa da minha avó Maria de Jesus.

Todas minhas primas eram altas, cheias de brincos e maquiagem e eu queria ser como elas. Elas eram engraçadas e falantes e eu sonhava em aprender com elas. Meu primo Anselmo não era bonito, mas eu imaginava que ele sabia de coisas que eu não sabia e isso me deixava meio cheia de ficar perto dele...
Eu gostava de fazer poses para as fotos e pôr a cabeça assim do lado, entende? E percebo que faço assim até hoje. Minha irmã Sandra tá ali meio quietinha, no canto, porque eu achava que eu já era grande e estava mais pra parecer com a Vanusa do que com ela. Daí que eu meio que esnobava minha irmãzinha quando estava com as minhas ídolas.

Não sei que promessas os adultos pagaram naquela época. Não sei o que eles buscavam exatamente quando iam até Aparecida e nunca falamos disso.

Pouco encontro com meus parentes brasileiros e pouco falo com eles. Os encontros sempre corridos quando estou por lá me servem para dar a certeza de que nossos laços ainda permanecem. Me lembro deles como sendo parte de mim. Parte da minha história da qual lembro trechos, mas que está sempre vindo à minha memória. Foi por isso que, há duas semanas, quando Vanusa foi com sua filha e seu filho pequena mais sua mãe Vicentina visitar minha mãe lá na minha antiga casa, que eu quis vê-las no Skype...

Foi uma conversa rápida, mas gostosa. Vanusa então ficou de me reenviar essa foto que ela disse ter tentado enviar antes... Quando abri um turbilhão de memórias me veio à cabeça... e eu não conseguia mais parar de pensar em pedaços da minha infância...

Numa foto pode se ter pelo menos mil lembranças... aqui foram apenas algumas poucas delas...

...

Agora é com vocês!

Escolha uma foto, antiga ou não, mas uma foto que tenha muito significado pessoal.
E aí escreva um post com memórias que lhe venha a partir da foto.
Publique em seu blog e me mande o link que publicarei num post aqui no Borboleta.

Se você não tem blog, mas gostaria de escrever o post, por favor mande para "borboletapequeninanasuecia@gmail.com" que eu vou publicar seu texto aqui também.
Se houver muitos eu divido em dias separados.

Eu adoraria entrar na foto de cada um e em algumas memórias perdidas que vocês tenham...
Quem topa?

O prazo para me mandar é até 21 de novembro. Daí publico os links e publico os textos!

Boas lembranças! Não me deixem forçar a memória sozinha...

3 comentários:

Beth/Lilás disse...

Ah, que surpresa o final!

Tava adorando ler suas memórias e causos de família, todo o sincretismo que já tivemos guardados na memória dos tempos de criança e até fiquei emocionada, como sempre, quando você relembra seu pai e família, pois eu também tenho essas memórias, basta realmente abrir a caixa de fotografias.
Muito legal você incentivar a gente a fazer esta catarse e vou procurar lá em casa na caixa de fotos antigas por uma bem legal e fazer a minha história também.
Não digo que você é 10!
Quro ver quando sairá o livro.
bjs cariocas

Anônimo disse...

nao consigo parar de rir dessas fotos. me lembro tao vividamente de ter visto varias vezes.
bjs e sucesso nas provas...
tenho certeza que vc nao tera problemas, e se tiver, tente de novo...
never give up
love
Sandra Reynolds

Vanusa disse...

Obrigada pela lembrança, eu não fazia idéia do quanto isso marcou a sua vida... sabe, marcou a minha também, tudo isso era maravilhoso.
Ah!! Aparecida do Norte continua a mesma, estive por lá em setembro e os sorvetões agora renovaram (meus filhos adoram)Se você quiser quando vier para o Brasil a gente pode ir até lá, agora a viagem é mais curta, pois a gente não precisa fazer "excursão"...
Outra coisa (é segredo) as Sabrinas, Julias... eu ainda tenho umas 10 !!!
Beijos, adoro você
Vanusa