17 fevereiro 2009

O meu pai era mineiro e o seu? ou Chico Buarque e minhas raízes

("Os retirantes", do artista pernambucano José Miguel da Silva, ver: Arte popular brasileira)


Nos últimos dois posts da super Lilás, ela usa a elaboração do filósofo Nietzche para dizer que "antes só do que melhor acompanhada" e do quanto é bom ouvir Chico Buarque e sua pura poesia cantada.

Aqui vai uma das músicas que mais amo em Chico. Não é das românticas não. Essa aqui me lembra um vestibular da PUC São Paulo, cuja letra ajudava os vestibulandos a pensar a questão da migração no Brasil. Conhece?

"O meu pai era paulista
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano..."

Para essa aula, como em algumas outras, eu sempre tinha o CD de Chico Buarque à mão e adorava o resultado. Êta prazer que era dar aulas assim! Além de interpretarem a letra tim tim por tim tim, os alunos ficavam embasbacados com a música. Depois dessas aulas, era difícil não ter um novo fã do cantor e alguém para eu trocar idéia nos intervalos. 

Além das aulas saudosas creio que com "Paratodos" Chico me fez um dia pensar em minhas raízes. Foi com o tempo que aprendi a pôr atenção e valorizar de onde vinham meus pais, avós, bizavós etc. Sei muito pouco deles, inclusive porque a pouca formação escolar não lhes deu jeito de preservar e documentar sua história, mas adoro saber que meu avô materno, por exemplo, é filho de índios e minha bizavó materna era baiana. Da parte de meu pai sei que minha avó descendia de portugueses e talvez meu avô de italianos. O restante da família quase todo vive no interior das Minas Gerais: Lavras, Capelinha, Cornélio e por aí vai...

Adoro saber que sou resultado de tantas experiências diferentes de vida e tanta luta que se fez antes de mim. É gostoso pensar que eu sou um misto disso tudo com as minhas próprias experiências, que tenho história.

Aqui vai a letra, que quase continua a idéia de alguns posts meus da semana passada, e a música pra começar muito bem a terça-feira. E para deixar a rede ainda mais calorosa, você bem que podia mandar aí qual é sua canção preferida de Chico Buarque e dizer rapidinho o porquê. Deixa a timidez ou a preguiça de lado e manda ver nos recados. Assim a gente prova para a Betíssima Lilás que A GENTE NÃO TÁ SOZINHO NÃOOOO!!!! E tá muito bem acompanhada, ainda que à distância!

...



O meu pai era paulista
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano
Meu maestro soberano
Foi Antonio Brasileiro

Foi Antonio Brasileiro
Quem soprou esta toada
Que cobri de redondilhas
Pra seguir minha jornada
E com a vista enevoada
Ver o inferno e maravilhas

Nessas tortuosas trilhas
A viola me redime
Creia, ilustre cavalheiro
Contra fel, moléstia, crime
Use Dorival Caymmi
Vá de Jackson do Pandeiro

Vi cidades, vi dinheiro
Bandoleiros, vi hospícios
Moças feito passarinho
Avoando de edifícios
Fume Ari, cheire Vinícius
Beba Nelson Cavaquinho

Para um coração mesquinho
Contra a solidão agreste
Luiz Gonzaga é tiro certo
Pixinguinha é inconteste
Tome Noel, Cartola, Orestes
Caetano e João Gilberto

Viva Erasmo, Ben, Roberto
Gil e Hermeto, palmas para
Todos os instrumentistas
Salve Edu, Bituca, Nara
Gal, Bethania, Rita, Clara
Evoé, jovens a vista

O meu pai era paulista
Meu avô pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô baiano
Vou na estrada há muitos anos
Sou um artista brasileiro"

Chico Buarque de Holanda

9 comentários:

Irene disse...

Em qualquer lugar do mundo.
Todo mundo tem !Trabalhei com alunos de alfabetização a música Ciranda da bailarina de chico Buarque.A sala de aula se transformava num lugar agradável e interessante e eu aproveitava para desenvolver o tema em todas disciplinas.Me sentia a própria bailarina.Ah! Ah!
Beijos!!!

Beth/Lilás disse...

Ai, eu queria ser sua aluna! haha

Professores assim ficam na memória para sempre dos alunos. Eu mesma, lembro-me de um professor de literatura no cursinho de vestibular, gordo, super simpático, carismático e que trazia textos como por exemplo de Eduardo Novaes, Veríssimo ou músicas como as de Chico e Caetano. Ali a gente aprendeu a interpretar de verdade e descobrir a beleza poética desses compositores.

E Valsinha, também é demais, não acha?

...E FOI TANTA FELICIDADE QUE TODA CIDADE ENFIM
SE ILUMINOU
E FORAM TANTOS BEIJOS LOUCOS,TANTOS GRITOS
ROUCOS
COMO NAO SE OUVIA MAIS
QUE O MUNDO COMPREENDEU
E O DIA AMANHECEU
EM PAZ...

E O Meu Guri, onde ele diz nas entrelinhas o amor de uma mãe pobre, talvez favelada, mas com a ingenuidade daquela época, onde ainda não podia acreditar que o filho estivesse no crime:

...Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei lhe explicar
Fui assim levando ele a me levar
E na sua meninice ele um dia me disse
Que chegava lá
Olha aí
Olha aí...

Verdadeiramente Chico é o maior de todos os poetas, pelo menos para mim, que já existiu no Brasil.

Ah, e outra coisa, eu não estou solitária, não! Pelo contrário, tô com a mãe aqui de pé quebrado, de novo, a faxineira fazendo barulho com o aspirador e o marido sempre juntinho, graças a Deus!
Vamos até tirar uns dias de férias, depois te conto.

beijos e obrigada pela referência.


Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega...

olhodopombo disse...

Eh legal, mesmo.
omeu pai eh paraibano(descende dos holandess, que fundaram a cidade que ele nasceu), com sangue materno meio indio.
minha mãe eh pernambucana e neta de portugueses da região do Porto.
eu sou paraibana, tenho tres filhos, a mais velha,(nasceu em Recife) , filha de um judeu ucraniano, que conheci em Buzios, RJ.
a segunda filha de pernambucano filho de espanhoes, esta nasceu em Campina Grande, PB.
e o mais novo, nasceu emSão Lourenço, Minas Gerais, o pai dele eh carioca, o avo gaucho de dom pedrito, filho de espanhol com portuguesa e a avo uma cearence filha de amazonense com portugues...
a minha neta Sofia, eh paulista, cujo pai eh filho de negto com india, do9Lado paterno) Rio de Janeiro e a mãe paulista filha de imigrantes italianos
da Calabria e Piemonte,,,,
a |Sofia tem os olhos azuis e quando toma sol a melanina desabrocha...

Beth/Lilás disse...

Bom dia, borboletinha!
Você tem aí uma foto dos tempos de infância no carnaval da sua cidade?
Se tiver, entre no Bloco dos Blogs que tô promovendo lá no meu pedaço.
beijos cariocas ... quentes

Anônimo disse...

JÁ FAZ ALGUM TEMPO QUE ANDO BISBILHOTANDO SEU BLOG.
ADORO!!!
HOJE QUIZ OPINAR SOBRE AS PESSOAS E SUAS RAÍZES.
DE COMO ALGUMAS PESSSOAS TEM TANTO ORGULHO DE TER RAÍZES EUROPÉIAS, MAS, ESCONDEM SUAS RAÍZES INDÍGENAS OU NEGRAS.
COMO SE TODOS NÓS BRASILEIROS, NÃO FÓSSEMOS UMA GRANDE MISTURA DE TODAS ELAS.
PARABÉNS PELA LEMBRANÇA.

Somnia Carvalho disse...

Oi Irene,

Demorei a responder. Queria ver o video da bailarina com o Chico primeiro e vi agora. Lindo! no endereco: http://www.youtube.com/watch?v=zA1LGtQaqPA

O Chico gravando o Cd num teatro..

Essa musica e adoravel para se trabalhar com criança! e voce, como otima professora de primeiro grau que sempre foi (Sempre admirei que vc nao era daquelas que socava Xuxa ou Sandy nas crianças, mas buscava musicas inteligentes e algumas eu aprendi a conhecer e gostar com voce...

acho que seus alunos sempre ficarao, ou deveriam, ficar gratos!

Somnia Carvalho disse...

Lilás,

Voce tambem frequentou cursinho? Eu fiz uns tres meses e tenho professores incriveis na cabeca.

Nooossa! eu amo valsinha! tinha outra aula de narracao que eu trabalhava valsinha! e linda, tão tão poetica nao!

beijocas! e obrigada pela inspiracao para esse post, apesar de voce nao estar triste como entendi! ou sozinha! haha

Somnia Carvalho disse...

Fátima Pombo,

eu não acredito mulher! quanta experiencia ai! voce deve ser porreta! homem bobiou com voce! dançou e vamo fazer a fila andar! hehe.. .desculpa a brincadeira!

achei muito interessante essa vivencia toda! e sua filha entao! quantas raizes!!!!

Somnia Carvalho disse...

Bom dia Anônimo,

Obrigada! e obrigada por prestar atencao ao "detalhe" do meu post... no fundo eu sempre quero poder falar disso e nao tenho oportunidade! eu adoro ver a cor india do meu avo... adoro o jeito de caboclo dele...

adoro ver fotos do povo la em minas, tao simples e tao cheio de vida e historias.

abracao