05 setembro 2007

"Em busca do Tempo Perdido"


(Os avós da personagem, Elisabethi Stacchine e Santi Cechetti)

"Professora, casada e mãe de dois filhos, cujo sonho sempre fora conhecer suas origens na Itália e a cidade onde seu pai nascera, sai em busca do tempo perdido, mas conhece mais do que sempre esperava: presente, passado e futuro se juntam nesta trama em que o nascimento do neto na Suécia motiva a realização do grande desejo."

Este trecho acima bem que poderia ser a sinopse de algum filme bem gostoso de ver no domingo. Entretanto, a personagem acima, apesar de buscar intensamente seu "tempo perdido", como o fizera Marcel Proust ao escrever suas memórias em vários volumes, está longe de ser ficção.

Irene Cechetti, filha de Ubaldo e Conceição Cechetti nasceu no Paraná. De lá, veio para São Paulo em busca de um sonho ainda não perdido: o de ser professora. De lá para cá muita coisa aconteceu e Irene realizara não só aquele como outros inúmeros sonhos: casou-se com Caetano e teve dois filhos: Renato e Adriana.


(Os pais, Ubaldo e Conceição Cecchetti)


(O marido, José Caetano Pinto)

Depois de quase trinta anos como professora primária de escola pública, Irene aposentou-se e viu-se então com uma vida que não esperava: os filhos criados deixaram o ninho. O filho casado, tivera o esperado neto num continente distante. Era chegada então a hora há muito desejada: sair e conhecer a Itália, de onde seu pai havia vindo quando criança. Sair e ver de perto a cara dos lugares que ela conhecia de ouvir falar. Sair e se sentir parte de uma história que seus avós construíram, tomar lugar numa família que ela nunca conhecera, mas da qual sempre sentira saudade.


(O filho, Renato, e o netinho, Ângelo)

Se o nascimento do neto (que garantirá o futuro) fora o estopim para o contato com o presente ele acabou por ser também motivador do encontro com o passado. A procura de Irene pelas memórias, por conservar aquilo que foi tão caro a uma outra geração e possibilitou a existência de muitas outras, não é filme, mas lembra um. Um delicioso exemplo é "Everything is Illuminated" ou "Uma vida Iluminada", que tem como protagonista Jonathan, vivido por Elijah Wood, o rapaz do "Senhor dos Anéis". Neste belo, colorido e intenso filme, Jonathan, personagem central, vai até a Ucrânia, onde espera encontrar uma senhora que ajudara seu pai na guerra.


(Cena de "Everything is Illuminated", na qual o taxista que aguarda Jonathan o espera com uma placa onde escrevera o nome da forma que entendera)

Jonathan coleciona objetos estranhos. Coleciona tudo que ele crê fazer parte de sua história. E são esses objetos estranhos que o aproximam de alguns outros personagens da história, como o taxista e sua família. No filme, a dificuldade da língua acaba sendo motivo de riso. O engraçado e simples taxista ucraniano, por exemplo, não consegue pronunciar corretamente seu nome e o chama de Jonfen.

A viagem do personagem do filme é bela e excêntrica e o encontro com a tão esperada mulher extremamente emocionante. É numa paisagem quase sul realista que seu sonho se realiza e onde ele encontra seu "tempo perdido".



Tão bonita quanto esta trama hollywoodiana que assisti cerca de um ano atrás, ainda no Brasil, é a história de Irene e de sua família. Lembra o filme, ou este lembra a história de Irene: a mesma dificuldade da língua que também gera ansiedade e riso, por exemplo. Irene e Caetano não falam italiano, nem inglês. Os parentes, por sua vez, não falam o inglês nem o português, mas o passado e a história que um dia se pais e avós construíram lhes permite entederem-se bem e sentirem-se parte de uma mesma família.



Neste momento em que escrevo estas linhas, Irene e Caetano, os personagens da nossa história real, estão em Perugia, região da Umbria, na Itália. De cima de uma montanha, próxima à casa onde nasceu seu pai, Irene falou há pouco com sua filha, Dri.
Em êxtase e realizada, ela sente que o tempo, antes parecido perdido, agora não lhe escapa mais as mãos. Ela tem material para juntar sua própria memória. E assim como Jonathan, nosso personagem ficcional, ela ganhou de presente a amizade de uma prima que entrou na história por acaso e agora lhe mostra a cidade e os parentes. Assim como a de um primo, Enzo, que há muitos anos tentou entrar em contato com os familiares no Brasil. Foi a partir de uma carta deste primo, perdida no Paraná, mas valorizada e colecionada por Irene, que ela pôde juntar os pedacinhos do seu belo e emocionante quebra-cabeça.

A vida pode parecer filme às vezes, mas a verdade é que ela mesma é material para a arte. É baseado em histórias emocionantes, gostosas e marcantes iguais as da Irene e sua família que tantos filmes e livros são feitos. O fato é que a vida é muito mais criativa que a arte. Só é preciso um olhar mais atento de nossa parte e um interesse pelas rugas de quem um dia já foi tão jovem e sonhador quanto nós o somos hoje.


(Os tios, Ester Cecchetti (filha de Santi e Elisabethi) e João Traguetta)


(Os tios, Olívia Cechetti (filha de Santi e Elisabethi) e Francisco de Lima)

ps: Assista ao vídeo de "Everything is Illuminated" no link ao lado deste texto)

6 comentários:

Dri disse...

É de arrepiar ver essa trajetória virar história. Confesso que estou emocionada em ver meus pais (principalmente minha mãe) enfrentarem uma barreira q costuma paralisar até o mais preparado dos homens: o medo do desconhecido.


Só você mesmo pra transformar tudo q vê em arte.

Bjs e saudade do nosso passado...

Dri.

Somnia Carvalho disse...

Dri, eu também me emocionei quando voce disse que ela estava la com eles todos! é bonito ne? fico muito feliz por eles dois! a vida pode ate tomar outro rumo agora depois da viagem, porque tudo parece mais facil... beijos, te adoro, e muito dificil nao poder nos encontrarmos nos nossos deliciosos passeios!

Irene disse...

Sendo eu a protagonista desta história de vida.Ao ler seu texto uma emoção muito forte tomou conta de mim.
De uma maneira simples,clara e bonita você,com palavras conseguiu trasferir todos meus sentimentos.
Nesta minha viagem vivi intensamente o presente,passado e o futuro.
O "Presente" presente pude segurá-lo nos braços e ouvir sua gostosa "fungueirinha".
Bati na porta do passado.Entrei,pisei em terras que foram pisadas pelos meus avós.Senti o que eles devem ter sentido ao deixar tudo aquilo para tras e navegar dias e mais dias por águas salgadas.Salgadas como deve ter sido a dor da despedida.
Foi prazeiroso poder visualisar uma imagem do futuro.Um futuro tão próximo que está presente.
Sorri! Sofri !
" Mas fortes emoções eu vivi "
Beijos ! Muito obrigada por tudo !!!

Somnia Carvalho disse...

Irene que recado lindo! que gostoso saber que você se sentiu na historia porque voce foi a inspiracao!!!!
eu realmente fiquei muito feliz em te ver realizando tudo isso e o seu sonho! beijosss

Marcio Traguetta Alaminos disse...

Linda história, ainda mais vendo as fotos de minha avó (Ester), e meu avô (joão Batista)! parabéns! abraços

mtraguetta@gmail.com

Somnia Carvalho disse...

Márcio, fiquei muito feliz em saber que você leu o texto e ainda mais que se sentiu nele. Pra mim foi emocionante ter escrito estas palavras, porque a história além de linda é de dar orgulho.

Eu não o conheço, mas você deve ter sido apresentado ao blog pela Irene... é isso? você é de São Paulo também?