17 setembro 2007

Acostumar-se ou não: eis a questão.


(Vista aérea de São Paulo)

Você conhece o poema abaixo?
Eu sempre gostei dele e, embora alguns digam que o autor seja desconhecido, foi com ele que a poeta e artista Marina Colasanti ganhou o Prêmio Jabuti. Eu também sempre achei que ele tinha tudo da mais pura verdade...
Esses dias, entretanto, andei me lembrando dele e pensando um pouco diferente sobre a primeira frase: Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.".

Trago abaixo o poema para que eu possa me explicar melhor.. Aí vai:


(Castelo de Kalmar, Sul da Suécia, maio de 2007)

"EU SEI, MAS NÃO DEVIA" (Marina Colasanti)

"Eu sei que a gente se acostuma.

Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.

Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida.

Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma."


(Daníssima, eu e Gi, três retirantes que se acostumaram e continuam se acostumando às delícias e às dores de viver fora do Brasil, Alpes Suícos, março de 2007)


EU SEI, MAS EU GOSTO DE SABER...

Ao mesmo tempo em que eu tenho me lembrado deste poema, eu lembro de uma música, em espanhol, cantada pelo Caetano Veloso... "Tu me acostumbraste"... lalala...

Tú me acostumbraste
(Frank Domingues)

Tú me acostumbraste a todas esas cosas
Y tú me enseñaste que son maravillosas
Sútil llegaste a mí como una tentación
Llenando de ansiedad mi corazón
Yo no comprendía cómo se quería
En tu mundo raro y por ti aprendí.
Por eso me pregunto al ver que me olvidaste
Por qué no me enseñaste cómo se vive sin ti?
Por eso me pregunto al ver que me olvidaste
Por qué no me enseñaste cómo se vive sin ti?
Por qué no me enseñaste cómo se vive sin ti?
Por qué no me enseñaste cómo se vive sin ti?

E nesta música gostosa de se ouvir o autor fala de coisas muito boas as quais nos acostumamos, como todas as sensações gostosas envolvidas numa paixão, e de como é difícil viver sem elas depois disso.


(Eu, me acostumando à neve e ao frio, Centro de Malmö, Suécia, inverno de 2007)

E eu tenho feito o meu próprio poema na minha cabeça...


EU SEI E SEI QUE É PRECISO...

Eu sei que a gente quase não quer se acostumar,

Mas devia.

Às vezes é preciso sim se acostumar a acordar cedo para trabalhar ou
a experimentar novo emprego, novos pratos, novo clima, nova terra, nova gente.
É preciso se acostumar a ter saudade,
quando é impossível ter perto aqueles que amamos.
É preciso se acostumar com a ausência de gente e de coisas que passaram,
É preciso entender que a vida é breve e que tudo muda.
É preciso se acostumar a confiar em novas pessoas e
descobrir nelas o prazer de novas amizades.
É preciso conseguir esquecer um grande amor,
quando este amor se torna inviável.
É preciso se acostumar a tomar banho, a sentir frio e dor quando antes só se conhecia o ventre da própria mãe...
Às vezes é preciso se acostumar a se acostumar com coisas que simplesmente são parte da vida,
porque a vida, já dizia o amigo Freud, é mais do que só prazer, é também realidade.
É preciso se acostumar e se adaptar sempre, porque é assim que pôde caminhar a humanidade.


(Ângelo, boneco irritadinho da Estrela, que já se acostumou a confiar no pai e a nadar em outras águas que não minha barriga)

6 comentários:

Ed. disse...

vc me inspira, embora não saiba!!!

tava sem pc e morrendo de saudades daqui!

quero te dar um abraço apertado e demorado e em silêncio quando te reencontrar!!!

bjos, do amigo Ed

Somnia Carvalho disse...

Tio Ed querido... Angelito tá aqui no trocador. Acabou de acordar e tá todo feliz, depois de ter uma noite com cólica. Vai ser um prazer te dar um abraço duplo agora. Vou mostrar a ele que tem gente muuuito especial aí no Brasil, gente como você de quem eu tenho saudade de encontrar no botequim... bjs

Dri disse...

E eu já me acostumei a passar por aqui e a cada dia ler um texto mais lindo que o outro.

Só é difícil mesmo me acostumar com a saudade e com a vontade de não desgrudar do Ângelo...falta pouco.


Bjs,

Dri

Somnia Carvalho disse...

Dri, e a ficar sem o risotin de alcachofra e o spaghetti de shitaque, ce conseguiu se acostumar???

Somnia Carvalho disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Dri disse...

Hummmm...difícil se acostumar sem os jantares deliciosos do Rê, regados a vinho e a uma ótima conversa...