09 julho 2007

“Como nossos pais”



"Não quero lhe falar meu grande amor
Das coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo"

Como Nossos Pais

Sempre adorei uma frase atribuída à Santa Teresa D´Avila: “ A paciência tudo alcança”. Talvez porque eu persiga esse dom e tente incorporá-lo à minha personalidade. Diga-se rapidamente: incorporar à minha personalidade de pisciana sensível, extrovertida, entregue às emoções e sensações do mundo. Seria esse "ser de peixes" que teria me levado a me afogar pelo mundo do pensamento, estudando filosofia da graduação ao doutorado, me entregando às análises mais adornianas sobre a sociedade moderna e me jogando hoje no mundo da pintura? Pouco ou nada eu posso afirmar disso, embora quase sempre as definições de uma pessoa de peixes caibam bem em mim.

Com certeza contribui muito mais o fato de ter nascido e crescido numa pequena cidade do interior de São Paulo, dentro de uma família simples e lutadora com a vida. Alguém, cuja mãe sempre teve o hábito de atender todas as dezenas de pessoas que batiam à nossa porta para pedir comida, roupa ou um trocado. Desde bem pequena sempre reparei em como minha bondosa mãe tratava todos aqueles que precisavam de mais que ela. Mesmo pobres e simples, em casa nunca se negou comida ou aconchego para quem pedisse alguma ajuda, porque era assim que minha mãe sempre fazia.E quantas vezes chorava pensando no sofrimento alheio! Ë assim, inclusive, que ela faz até hoje. Um coração do tamanho do mundo é o que a Dona Maria tem. É lá que se aconchegam os netinhos, os filhos e quem mais necessitar. Dela, herdei esse "pensar no mundo".



"Viver é melhor que sonhar
E eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa"

Foi esse sentimento genuíno e o desejo ingênuo de “mudar tudo” e “ajudar todos" que me levou por uns tantos caminhos diferentes: do sonho meio infantil de ser freira missionária e entregar todo meu tempo ao outro à busca por uma sonhada ascenção social através de cursos e trabalho mais “pé-no-chão”, depois o querer ter respostas mais concretas para minhas questões pessoais e sociais num longo curso de filosofia. Mas essa personalidade mista de tanto desejo e carente de tantas experiências, creio eu, tem ainda a contribuição genética de meu querido pai, mais do que imaginava a minha vã adolescência.

Sua personalidade era curiosa. Era piadista e bem humorado. À parte suas encrencas com minha mãe, Sr. José foi um metalúrgico artista. Tocou sua sanfona a vida toda e não passava um dia sem assoviar suas músicas prediletas.

Tinha um desejo imenso de simplesmente “sair pelo mundo”, conhecendo algumas cidades e passeando no carro com a família. Queria conhecer melhor e nos levar a conhecer as Minas Gerais (de onde ele e minha mãe vieram), o Paraná e o interior de São Paulo no automóvel (a Variant café com leite, a Brasília verde, o passat cinza) da família. Vivia inventando uns roteiros malucos para ir com gente no fim de semana.
Mas nem o carro sempre muito velho, ou o jeito "desligadão" dele dirigir davam ânimo em minha mãe que preferia ficar em casa a se pôr na estrada com os filhos, sem lenço nem documento, só com desejo de conhecer outros lugares.

"Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantada
Com uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
O cheiro da nova estação"

Recordando rapidamente a minha primeira viagem sozinha, me lembro que foi para Bragança Paulista. E tinha já uns 18 anos. Tomei meu violão e fui me encontrar com umas amigas num retiro espiritual. Me lembro até hoje a sensação maravilhosa que me tomou conta... Era a primeira vez que eu deixava meus pais e saía sozinha. Eles, embora preocupados, tentaram confiar em mim e me deixaram ir. Lembro de pensar: “que eu tenha uma vida que me permita viajar...”

Pensando agora em minha última viagem aqui na Suécia, para uma ilha chama Öland, junto com o Renato (o melhor companheiro de viagem que poderiam ter me arranjado) vejo que este espírito do: "vamos tomar o carro e sair..." ainda me pega. Eu adoro passear meio sem rumo. Eu adoro pensar em conhecer lugares e gente diferente. Me aventurar por um mundo que eu ainda não conheço. Embora eu seja uma aventureira mais contida, diferente, por exemplo, de duas amigas maravilhosas e malucas como a Luciana, que se jogou numa ilha depois de abandonar o mestrado que lhe incomodava, ou a Fá, que se meteu num barco e foi sozinha para a Amazônia, ainda assim, me sinto me aventurando pelo mundo. Pena o Sr. José não estar aí para conferir.

"Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo
Tudo tudo que fizemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como nossos pais"



O mais engraçado é que quando se é adolescente ou muito jovem nós julgamos que tudo que fazemos e escolhemos vai contra os nossos pais. O que digo aqui está longe de ter alguma novidade. Da psicologia à música de Belchior, cantada por Elis, fala-se da dor de vermos que repetimos vários erros e atitudes que antes condenávamos em nossos pais. Mas eu acho que reconhecer isso não traz necessariamente dor ou lamento. E acho ainda que não só a maturidade chegando, como o fato de você um dia estar no lugar deles é que traz uma nostálgica alegria de “sermos o mesmos e vivermos como nossos pais”.



Ainda ontem eu e Renato comentávamos sobre como só nos imaginado como pai e mãe conseguimos ter uma vaga noção do quanto um dia nosso pai e nossa mãe nos amou e ter uma idéia de que provavelmente não fazemos idéia do que eles viveram pra nos trazer até aqui.

As memórias que ficaram são pequenas para nos fazer agradecer à altura, elas talvez estejam mais presentes como sensações, essa sensação que nos invade de ternura e de afeto por aqueles que um dia lutamos tanto para superar e que, sem dúvida nenhuma, nos esperaram como nós agora esperamos pacientemente pelo fim da gravidez e o início de uma nova vida em família.

E se a paciência tudo alcança, escrever este blog para vocês tem ajudado muito.

6 comentários:

Anônimo disse...

Mulher,
que maravilhoso o que vc anda escrevendo!
me deixou sensível...
beijos,
Dani (eu, a Dani. Qual delas?)

Somnia Carvalho disse...

Querida,
me chamando de Mulher? Só você que eu sempre coloco "íssima" no final!!!
Gostou? Ai que bommm... ainda mais vindo da minha predileta!
Acabo de inserir mais uma foto! eu não paro amiga!
o mais facil para voce escrever um blog e ficar gravida! rs... beijos...

Anônimo disse...

Sonia...concordo com a sua amiga Dani. A gente fica mais sensivel lendo o blog. Vc fala de coisas q a gente sente mas não quer falar para não se emocionar. Pensei nos meus pais que amo tanto...pq perfeitos ou não, tb puderam me ensinar muitas coisas. Sonhar, por exemplo.Bj. Pinta

Somnia Carvalho disse...

Querida Pinta,
Que comentário mais lindo esse seu! tão curtinho e cheio de sensibilidade... A cada dia que um amigo me diz que pôde pensar alguma coisa junto comigo tenho vontade de escrever mais um texto. Tomara que isso não pare, porque vale a pena a gente ter um tempinho para partilhar coisas assim também não é? Beijos

Dri disse...

Lindo texto e adorei aparecer de rena na foto... Bjs c/ saudade, Dri.

Anônimo disse...

"Um dia eu senti um desejo profundo de me aventurar neste mundo para ver onde o mundo vai dar..."
"Agora eu senti como o mundo dá voltas e quanto mais a gente se solta, mas fica no mesmo lugar"
Sonia, as coisas lindas que vc escreveu me trouxe esta musica...Sempre critiquei muito os meus pais e o jeito deles de viver, queria ser diferente deles, e hoje percebo que a minha ansia de viver e de correr o mundo foi gerado por eles!!!! Eu os amo muito!!!! E adoro vc!!!! Um grande beijo
Cris