03 julho 2007

Curiosidades sobre a Suécia (Parte 3): O parto natural


Creio que algumas coisas fazem realmente diferença para que a mulher vá mais tranquila para o parto aqui na Suécia.
Além do acompanhamento pré-natal que mencionei no post anterior, toda grávida aqui sabe que terá ao seu alcance acupuntura, oxigênio, banho quente em banheira, caminhadas pelo hospital, analgésicos, anestesia, o que escolher para aliviar sua dor. E poderá ficar na posição mais confortável na hora do parto: em pé, sentada, deitada, de cócoras etc. Ao menos em teoria foi a instrução que recebi e também foi o que me confirmou inúmeras mulheres aqui.

A grávida não terá, entretanto, opção de escolher uma cirurgia (ou cesárea) para alívio da dor ou da ansiedade. Uma cirurgia é vista pelos médicos aqui como um último recurso em caso grave, quando há risco, doença. E a dor do parto não se caracteriza como tal. Além disso, todos nós sabemos que os riscos numa cirurgia sempre são muito altos.
Enquanto estive no hospital fiquei "amiga" de várias barnmorskas e elas ficavam me perguntando sobre o Brasil, como era o parto, a gravidez etc. Os suecos se mostram muito curiosos e admiram muito os brasileiros e nosso país, mas punham a mão na boca de espanto ao ouvir os números das cesáreas que a gente pratica. Não vou me alongar aqui e nem quero, nem tenho moral para ficar analisando os casos de cesareana. Tenho muitas amigas queridas que optaram por esse tipo de parto ou tiveram que fazer por algum problema ou pressão do médico no Brasil. Eu acho mesmo que a mulher deve poder escolher o que deseja para si num momento tão importante como esse. Mas acho também que nos brasileiras acabamos por escolher sempre o mesmo (semelhante ao que acontece na teoria adorniana sobre a indústria cultural: eu acho que gosto dessa música e compro esse cd porque só conheço isso e porque há uma rede toda me dizendo que essa música é boa) porque somos quase programadas para evitar a ansiedade e o medo. E eu como ultra sensível e ansiosa dificilmente escaparia de uma oferta de cesareana desnecessária aí também.


Para além do preparo psicológico...



Nos hospitais suecos, a mãe é preparada para usar de exercícios respiratórios, estar calma no dia, controlar o medo e ansiedade que são coisas que não colaboram para o processo todo que está prestes a ocorrer. O pai é preparado para ajudá-la em tudo que puder e o papel da barnmorska é dar suporte emocional e técnico, acompanhando tudo que acontece com a parturiente. O que me deixou muito tranquila e que era uma idéia pré-concebida que eu tinha é que não haveria um médico comigo no parto e sim uma "parteira". Ou, como a gente diz no Brasil, eu não teria "o meu médico". Aquele que me acompanhara na gravidez e que eu paguei para estar comigo naquela hora. Esses dias que passei aqui, no hospital de Lund, me mostraram que as enfermeiras obstetras se comunicam com o médico de plantão o tempo todo. Nunca decidem nada sozinha. Aliás, o médico ou médica toma a decisão (quando ainda é possível) junto com a grávida. Eu conheci uns 6 médicos do início da gravidez até agora, mas eles apareceram quando houve suspeita de algum problema ou necessidade de se tirar dúvidas. E todos eles, sem exceção, foram muito atenciosos. A eficiência, aliás, é incrível, parece coisa de filme. Passei 4 dias no hospital e todos os médicos e as muitas barnmorskas que me visitaram sabiam exatamente quem eu era, que lingua falava, o que tinha ocorrido comigo desde minha chegada e sempre, sempre, sempre estavam com uma suuuper sorriso no rosto. Sempre muito carinhosas e informadas.

A idéia que eu fiquei é que ser barnmorska é algo que elas escolheram fazer porque gostam muito. E elas fazem isso muito bem feito. Não estão ali querendo que meu parto corra rápido porque tem uma outra cesareana para fazer. Acho que isso é algo que diferencia muito nosso sistema do da Europa ou o daqui, em geral. Os nossos médicos, ultra especialistas, não vão mesmo querer passar 8, 12, 20 horas com uma mulher esperando o bebê dela nascer se ele tem outras cirurgias, pacientes para atender. Ele foi treinado, se dedicou e estudou para resvoler problemas, não ser uma doula ou um "barnmorsko". Quem pode fazer isso sem preocupar-se? a pessoa que foi treinada e estudou e cuja função é: ajudá-la a "ganhar" neném (a gente, eu e Renato, morre de rir com essa expressão que usamos no Brasil).

Por fim, o que ocorre é: se a mãe não aguenta mais empurrar o bebê e estiver muito cansada e o parto se esticar muitas horas sem necessidade, ou se a mãe tiver algum problema como pré-eclampsia ou se o bebê estiver sofrendo por alguma razão etc, então parte-se para a cesareana.
Apesar de ter sido informada pela Kerstin sobre isso e no hospital os vários médicos terem me confirmado isso, numa conversa recente com duas amigas brasileiras que tiveram bebê aqui elas acham que há uma certa pressão para que a mulher aguente o máximo possível antes dessa decisão. Isso é algo que eu realmente vou ter que averiguar para conseguir formar uma opinião melhor e escrever um post só sobre a cesareana na Suécia.


O "estar aqui" e a mudança

Se tô tranquila? É incrível! mas estou sim! E o engraçado é que sempre ao falar com alguém do Brasil, a qualquer comentário meu sobre a ansiedade dessas semanas a maioria dos amigos e amigas ou alguém da família pensa que estou a falar do medo do parto. Mas não é isso! Nem eu acredito, mas é verdade! É ansiedade por ver o pezinho que me chutou todos esses meses e pegar esse Ângelo no colo na hora do nascimento. É ter certeza de que ao fim dessa loooonga jornada estarei com um bebê saudável nos braços e que tudo correrá bem, sem necessidade da cirurgia. É pensar que minha vida vai mudar radicalmente quando voltarmos com o pacotinho de volta do hospital. É um misto de muuuita alegria com uma ansiedade por viver tudo isso que está por vir. E não é uma ansiedade ruim! Mesmo porque desde o primeiro mês de gravidez tudo, absolutamente tudo, que estava programado para acontecer com meu corpo, aconteceu.

O processo é tão natural, a natureza tão perfeita que se você presta atenção às transformações desses meses saberá que o parto é o final desse processo pelo qual seu corpo passou. Como diz minha querida amiga Maria Fernanda é ápice do processo. Mesmo para quem nunca havia sido tão fã de gravidez ou de parto eu fico absolutamente maravilhada com esse processo. Estive e estou maravilhada com o que é gerar a vida. Nunca sequer imaginei que a relação entre uma mãe com seu filhote na barriga pudesse ser tão intensa e bonita.



Dos cinco meses que estou aqui na Suécia (em Malmö) e dos dois ou três que estou mais focada na gravidez e no parto, porque antes eu sö pensava em terminar e enviar minha tese ao Brasil, eu vi dezenas de filmes sobre o parto natural, algo que eu julgava feio, nojento e ave-maria-jesus-josé, horrível! Li muitos sites muito bons, a maioria americanos sobre o parto natural e toda a preparação. Aqui no pré-natal elas me emprestaram vários filmes sobre parto, amamentação (outro tema que não tem discussão quase aqui, porque as mulheres são fãsérrimas da amamentação, o que merece outro post) e sempre com a sugestão: "veja com seu marido". O Re viu tudo comigo, comprou cd-rom, quase é um "doulo", como ele diz. Estamos felizes, ansiosos e muito confiantes. Minha mãe sempre me manda ler o salmo 71 ("Tu és minha parte desde as entranhas maternas" ou na tradução da Bíblia dela "Fui eu quem te tirou das entranhas da tua mãe") e eu gosto muito do trecho porque, independente da crença religiosa que uma pessoa possa ter, o fato é que viemos todos à vida da mesma maneira e encarar esse momento como natural é o melhor que uma futura mamãe tem a fazer na minha opinião.

Eu fiz uma grande amiga aqui, brasileira (uma das duas citadas acima) casada há anos com um sueco e mãe de duas filhas. Ela teve uma experiência ruim no primeiro parto dela aqui na Suécia. O fato disso tê-la deixado insegura no segundo parto levou os médicos a fazerem a marcar com antecedência uma cesareana para o segundo caso. O que ouvi até agora de muitas mulheres foi praticamente o mesmo: nenhuma louuuuca adora ficar horas e horas com dor e optaria por isso, caso pudesse abrir uma portinha na barriga e tirar o bebê facilmente (sonho que a Kerstin diz que muitas mulheres têm no fim da gravidez), mas a consciência de que é o melhor a fazer para o bebê, para ela própria é tão forte que supera qualquer outra opção. E a consciência gera tranquilidade e, no fim, uma atitude muito mais positiva e de sucesso quanto ao parto natural.

Aqui, alguns dos sites que me ajudaram bastante, com destaque para o primeiro. Nos sites brasileiros encontrei alguma coisa legal sobre gravidez no geral, mas sobre parto natural há pouca coisa ou muito superficial.

http://www.babycenter.com/
http://www.askdrsears.com/default2.asp
http://www.babysitio.com

Um livro interessante, embora mais teórico, sobre como o medo é causador da dor: "Childbirth without fear", Michel Odent. E um CD Rom com conteúdo extraordinário que o maridão doulo comprou e que vimos juntinho foi: "Childbirth, a multimedia course and resource kit", Dr. Allison A. Fitzgerald, M.D.

Um comentário:

Anônimo disse...

Gestar um filho é uma experiência MARAVILHOSA! É divino! Essa foto do pé do Ângelo não mostra isso?
Biejos