30 março 2009

O que os suecos fazem bem que é uma beleza?

(Ângelo mandando ver numa banana, no carrinho do zoológico, Höör, março de 2009)

Ontem o dia começou bem bonito por aqui e fomos com a pequena família da minha amiga Nikol ao zoológico, em Höör, o Skånes Djurpark. Lembra? Aquele zoológico hiper mega discreto?

Eu continuo achando os bichos suecos um exemplo de discrição, tanto em cores quanto em barulho, mas dessa vez, eu devo admitir que foi bem mais divertido. Talvez por isso a gente deva sempre lembrar que o que dissemos tem a ver com o momento que vivemos.



("Passou, papai!" Ângelo vencendo desafios, Höör, março de 2009)

Com o Ângelo maior, e conseguindo enxergar os animais beges, cinzas e marrons a gente fez uma festa danada quando encontrava cada um deles. 

Ao contrário das outras vezes em que fomos, nas quais o zoo estava totalmente lotado de gente com a filharada toda, ontem tava bem vazio. Tão vazio que nem comida tinha pra gente lá no páteo do urso.

Os suecos têm esse "defeitinho" que irrita quem veio de cidades, como São Paulo, ou do Brasil, em geral. Até meus amigos alemães se irritam bastante com a falta de gente trabalhando nos fins de semana. 

A verdade é que os suecos privilegiam o estar entre a família. A vida pessoal é sagrada. Essa e a razão deles saírem as quatro ou quatro e meia da tarde do trabalho, por exemplo. Então,ontem, mesmo com o zoológico aberto não tinha gente no restaurante, ele estava fechado. Afinal de contas, tanto quanto a gente, os caras que trabalham lá tem direito de aproveitar seu fim de semana! 


("Óce!" Ângelo e Iven admirados com o tamanho do alce, Höör, março de 2009)


Lembro-me de quando o Ângelo tinha nascido e berrrava que era uma coisa de cólica, a gente correu na enfermeira (hoje minha amiga Inga-lill) pra pedir conselho e ajuda. No fim o Re perguntou se ela não poderia passar o telefone, caso ele tivesse algo a noite e ela disse: "não... a noite eu também estou dormindo..." 

Bom. Então esqueça aquelas barraquinhas de amendoim, de coisinha sendo vendida em todo canto. Sem salsicha e sem nada, a gente conseguiu fazer um piquenique improvisado com o que as duas "mammas" tinham levado pra criançada. E foi uma delícia mesmo! 


(Iven e Ângelo num papo muito cabeça e cheios das risadas dentro do carrinho puxa puxa Höör, março de 2009)


Quando estive no Brasil no fim do ano passado eu fiquei perplexa com uma coisa que eu não havia me dado conta antes. Os brasileiros de classe média (que tem financeiramente o equivalente ao que o pessoal em geral tem aqui) aproveitam muito pouco seus filhos. Lembro de ter ido ao Parque da Mônica e enlouquecido de raiva, porque você precisa entregar o filho pras monitoras. Elas é quem vão "brincar" com seu filho, embora elas façam isso com uma baita cara de marilyn! 

E quando fomos a um super hotel em Juqueí, havia quase um exército (branco - não no tom da pele, mas no uniforme) de babás no restaurante dando comida pra criançada na hora da jantar. E no café da manhã. E no almoço também. Ah! e eram elas quem brincavam na praia e na piscina com a molecada também, porque os pais estavam nas lojinhas do centro ou fazendo caminhada.

No hotel fazenda, a mesma coisa. Uma centena de monitores. Aí desses eu gostei mais, porque as crianças tinham atividades legais para fazer e se socializavam com as outras crianças. Ainda assim, quando Re comentou com a suecada do trabalho, eles ficaram absortos. Na opinião deles esse é um luxo muito esquisito... E, contra nós mesmos, eu devo admitir: de país de terceiro mundo, onde os salários são tão diferentes e é possível pagar tanta gente por tão pouco pra fazer tudo pra você. Infelizmente é uma dura verdade, com a qual eu já não consigo mais concordar tanto, ainda que o argumento seja "pelo menos eles tem trabalho!".

Eu sei que soa esquisito eu achar esquisito essa esquisitice. Mas acho que vivendo esse tempo fora e não tendo tido filho aí a gente meio que se adequou mesmo à cultura "faça você mesmo". E quando a gente volta ver que pra tudo nós queremos gente "particular" (vou escrever outro post só sobre isso outra hora) pra fazer soa mesmo absurdo.

Outra coisa é que aqui é difícil você ir num shopping ou loja e deixar os filhos numa saletinha cheia de brinquedos para ir fazer suas compras. 

(A incrível Mamãe urso com seus filhotes liiindos!,  Höör, março de 2009)


Aqui isso é bem difícil acontecer por algumas razões. Primeiro, não tem monitor ganhando uma porca miséria pra cuidar de mal humor do meu filho. Não tem por outras várias razões. Os suecos não acham que isso seja normal. A família é minha, quem cuida sou eu. Segundo, porque eles curtem mesmo cuidar dos filhos, terceiro, porque mesmo se tem gente que queira largar a molecada, não há pessoal terceirizado para isso.


(Entre os amigos-quase família: Nik, eu, Ângelo, Nikol e Iven, Höör, março de 2009)

Bom, além desses domingos em família, então, uma outra coisa divertida na Europa, em geral, são os piqueniques. Me lembro de uns alunos, certa vez num cursinho, dizendo assim: "Professora, cê acredita que ele teve coragem de levar "marmita" pro passeio do Hopi Hari? Daí ele foi barrado, porque revistaram a bolsa dele na entrada e tiraram toda comida que tinha dentro!."

Absurdo! Imagina que a gente paga pra ir num lugar e não pode levar comida própria? Mas a gente tá tão acostumado com isso que os meus queridos alunos achavam que o amigo era quem estava errado e não os folgados do Hopi Hari. 

(Ângelo tomando a direção das coisas e se sentindo muuuito grande, Höör, março de 2009)


Pra todo canto no zoológico ontem tinha gente (as poucas que tinham) fazendo churrasquinho de salsicha. Não precisa torcer o nariz não! As salsichas aqui não tem nada a ver com esses plásticos da perdigão e sadia que a gente come. São realmente deliciosas e muito melhor que carne, quase sempre, já que a carne é que não é nada boa. 
Eu morri de vontade de subornar uma família perfeitinha sueca que tinha um montão de "korv", essas salsichas deliciosas e estavam lá assando e comendo.

Pensei em pagar umas muitas coroas suecas em troco de algumas prontas, mas desisti porque eles não tinham cara de que se deixavam levar por dinheiro.


(Brincar nesses alces é uma delííícia!!! Ângelo, eu e Iven, Höör, março de 2009)

Ah... acho que outra coisa que eu realmente admiro e gostaria tanto que a gente um dia deixasse de pensar assim é que fazer piquenique, cuidar você mesmo dos seus filhos no fim de semana, assar uma salsicha e mergulhar na lama, literalmente, com a criançada não é sinal de "pobreza", coisa de gente pobre como a gente diz aí no Brasil. 


("E vai e volta, e vai e volta". Aproveitando o máximo do tempo, já que ele passa rápido demais, Höör, março de 2009)

A idéia é exatamente o contrário: porque você não é pobre, porque você tem educação e entende que brincar, correr, pular, conversar com seus filhos e dar a eles o que você tem de melhor durante seu tempo livre é que você não delega isso para alguém que não seja exatamente você mesmo. Com exceção das escolinhas e escolas, onde há gente mais "especializada" em educação, quase não há opções de "tercerização das crianças". 

Não dá para negar que essa tarefa que eles tomam pra si totalmente (inclusive sem ajuda dos pais e família próxima, já que os suecos não ajudam mesmo a cuidar de netos etc) não seja cansativa. E, com certeza, eles próprios se sentem exaustos. Foi ótimo, por exemplo, poder sair aí no Brasil e deixar Ângelo com os avós e tias. Ou, raramente, contar com a ajuda de alguém aqui pra poder sair sozinho. Por outro lado, não dá para negar que a gente vê pais assumindo com muita responsabilidade o cuidado dos seus filhos, ainda que sejam muito jovens. Se tem uma coisa que os suecos realmente sabem fazer é assumir o cuidado de seus filhos com unhas e dentes. 

Há prós e contras. Eu ando curtindo os prós, porque o tempo passa rápido demais.



17 comentários:

Beth/Lilás disse...

Bom dia, amiga!
Eita família bonita e curtindo juntos a vida!
O Ângelo está cada dia maior e forte, demonstra o cuidado dessa mãe coruja que falou e disse as verdades que é criar um filho sozinha, ainda que sendo tão jovem.
Também fiz o mesmo com o meu, sempre longe dos parentes e deu tudo certo e ainda por cima me senti bem mais realizada.

Deseje-me uma boa viagem!
Veja prá onde tô indo e com quem.

beijinhos cariocas e boa semaninha!

Luciana Håland disse...

Eu também acho esquisito demais essa esquisitisse das babás em tempo integral no Brasil, até ia e vou fazer um post no meu blog sobre isso, pq me choca, mas sei que a brasileirada que mora aqui na Noruega se ler vai cair em cima de mim, porque uma vez comentei isso e me disseram exatamente como você colocou, que pelo menos eles tem trabalho, sim, mal remunerado, e com "direito" a serem muito explorados.
E quando eu comentei sobre isso de babá no Brasil,somente uma brasileira concordou comigo, mas chegando no Brasil a primeira coisa que fez foi contratar uma, pra levar pra cima e pra baixo, uniformizada, pra sair nas fotos mostrando sou chique, tenho uma babá também.
Aqui na Noruega é como aí, os pais se dedicam e cuidam mesmo, e acham bom, eu acho o máximo, e acho ótimo não trabalharem nos finais de semana, fecharem os shoppings cedo, essa coisa toda.
Ótimo post. Beijo

Luciana Håland disse...

Vi o vídeo da representante da Suécia, muito boa também. Adoro esses programas, o que eu postei infelizmente só fui ver quando já estava acabando, daí vi uns vídeos pela net. Pelo jeito a disputa vai ser acirrada.

Olha, voltando a história da babá, também me irrita ver isso em pessoas próximas. Quando fomos ao Brasil minha cunhada quando ia a casa dos meus pais, onde nos reuniamos, sempre levava a babá, isso a noite, a casa cheia de gente pra dar atencäo pra menina, e a babá lá sentada no sofá aguardando. Dia desses eu disse pro meu irmão que desse um toque nela e nos poupasse dessas coisas.

Beijo

Anônimo disse...

Oi amiga, tudo?
Não tenho filhos, mas minhas irmãs sim, e elas sempre fizeram questão de cuidar de seus rebentos, nunca gostei de ter alguém estranho dentro de casa, na intimidade do lar. O lar é o nosso refúgio, nosso porto seguro.
Também esse problema de outros cuidarem dos filhos acaba chegando na coisa da "tia", hoje não é mais professora é "tia". Muita intimidade sem necessidade. Mas bem essa é uma visão minha, que onde eu vivo não encontra eco.
Parabens pela família linda.
Beijos
Eveline

Lúcia Soares disse...

Sempre cuidei dos meus filhos, mesmo com toda a facilidade em encontrar babás no Brasil. Mas eu não trabalhava fora. Difícil não delegar pra outros, quando temos que sair pra trabalhar.
Minha irmã colocava os filhos no "maternalzinho" a partir dos 4 meses de vida, porque não podia deixar de trabalhar. É complicado isso de criar os filhos. Cada um tem que se adaptar à sua realidade. Criança criada pela mãe, presente e atenta o dia todo, não é certeza de ser mais educada, mais centrada, mais isso, mais aquilo.
Mas você falou mais dos momentos de lazer. Concordo plenamente. Sair com filhos e marido pra passear é uma das maiores delícias da vida.

Marcia Lima Gomes disse...

O Ikea daqui (EUA) tem um parquinho com monitores, bem no estilo dos shoppings do Brasil.

Mariel Stupp disse...

Lindo o post!!
Concordo plenamente, acho que essa cultura de familia jà começa com a licença maternidade, que é bem mais longe que a nossa e deve ser dividida entre o pai e a mae (enquanto no Brasil muitas vezes a mae é famìlia e o pai paga a conta e nao se envolve).
Ainda nao sou mae, mas admiro muito quem, na sociedade de hoje, participa ativamente da vida dos filhos. Quando crescer quero ser uma Somnia! rsrs

Somnia Carvalho disse...

Lilás,

ele ta grande ne? acho que consigo imaginar como voce se sente vendo o seu filhao la longe, ja tao grande e independente! parece que o tempo voa mesmo!!!!

Somnia Carvalho disse...

Lu, legal voce dizer que ai e parecido! quando eu falo da suecia parece um negocio de outro mundo, mas acho que pela escandinavia isso e muito comum mesmo!

E dificil eu sair criticando as pessoas que têm babá. Cada qual sabe o que pode ser melhor para sua vida e situacão, mas quando eu vejo a babá substituindo o papel dos pais, inclusive nos fins de semana, ai uau! me da nos nervos mesmo!

haha! achei engraçado voce pedir para serem poupados da situacao! e o que eu sinto as vezes, ai! por favor, junto comigo não! não tem nada a ver com a coitada da babá, mas com a situacao em que as vezes as pessoas as colocam.

Ah! sobre a Malena eu to so esperando o eurovision! haha

Somnia Carvalho disse...

Eveline lindona,

verdade... a coisa da tia... haha... Minha sogritia que foi professora primaria quase 30 anos, dizia que a maioria dos pais delegava a funcao de educar para a professora. Se o filho era sem educacao e preguicoso, culpa de quem??? da professora! acho que "tia" pega mal mesmo, inclusive porque a "tia" nao deve mesmo assumir papel de parente! ela nao e! e educadora e tem seus limites!

otima lembranca!

Somnia Carvalho disse...

Lucinha,

É, eu aqui tambem não trabalho. Eu fiquei com Ângelo em periodo integral no primeiro ano de vida dele inteiro. Era eu e Deus durante o dia todo e o Re a noite. Foi otimo, mas muuuito cansativo. Entao, a escola foi uma saida bem boa, ja que e so no periodo da manha e e um lugar onde eu sinto que el interage, ele cresce em todos os sentidos, brinca muuito! e eu posso fazer algo pra mim, estudar, limpar etc sem tanta loucura.

Entao, se eu tivesse no Brasil eu com certeza teria voltado a trabalhar antes e ele a historia teria sido diferente. Por isso eu entendo perfeitamente a necessidade de minhas amigas e parentes de ter alguem para ajudar durante a semana. Eu tava falando mesmo e do tempo livre, sabe?

Uma pedagoga excelente daqui me disse assim: o mais importante e a qualidade do tempo que voce dispensa com seu filho. Se passa o dia todo, mas reclama, deixa ele jogado em frente da tv, nao brinca, ta sempre com odio do mundo porque nao pode fazer outra coisa, entao, filha! nao adianta nada!

mas se quando vc esta com ele em casa... tipo, chegou do trabalho, o coitado ja passou o tempo todo com a baba ou na escola e voce nao vive qualitativamente esse tempo, ele VAI PERCEBER E VAI COBRAR DE ALGUMA FORMA...

Somnia Carvalho disse...

Márcia no Ikea daqui é igual tombém!

e a saletinha fica cheia! rs...

mas e uma exceção, fora o IKea nunca vi outro lugar que tenha...

Somnia Carvalho disse...

Mariel! que nome bonito!

e de anjo tambem ne?

entao! bem lembrando! a licenca maternidade tem muito a ver com isso mesmo!

sabe que toda vez que eu vou ao playground e vejo aquele montao de homem la com seus bebes, cuidando de um, dois ou tres filhos, sozinhos, como eu e minhas amigas eu acho INACREDITAVEL.

Isso porque no Brasil os maridos de minhas amigas, quase na maioria, chegam tao tarde do trabalho e nunca tem tempo pros filhos. Muitos querem e nao podem, mas a maioria, eu acho que nao se interessa mesmo porque delega so pra mulher essa funcao de cuidar...

ah! voce tem blog? ta na suecia tambem ne?

Luciana Håland disse...

Somnia, é isso mesmo, não tem a ver com a babá, mas com a situacão. Não critico quem tem babá, mas a forma como lida com os empregados em geral, sem respeitar os horários, invadindo e deixando a intimidade ser invadida.
Outro problema no Brasil é a legislacão pros empregados domésticos, eles não tem um horário de trabalho certo, não ganham hora extra, assim são "escravizados" gracas a omissão da lei. Muitas não tem como estudar à noite, por exemplo, porque trabalham mesmo 24 horas, mesmo que não estejam fazendo nada, mas tem que estar ali a disposicão dos patrôes.
Outra coisa que foi levantada por uma au pair dia desses, aqui
as au pairs, tem a privacidade delas, tem o horário de trabalho, passou disso é extra, e tem o quarto delas, onde dormem, não dormem com as criancas, no Brasil muitas babás dormem.
Escrevi muito, mas esse assunto reflete muita coisa da sociedade brasileira.
Beijo

Somnia Carvalho disse...

Lu, para pensar melhor seus excelentes comentários eu fiz o post que acabei de publicar agora... analises neuroticas, a baba.

Acho que com a discussao depois dele eu posso me alongar sobre esses temas todos que voce, as meninas e eu viemos trazendo...

Legal!

Mariel Stupp disse...

Oi Sonia!
é exatamente isso que eu quis dizer, no Brasil as mulheres assumem o papel de "responsavel" pelo filho no começo até por razoes òbvias, como amamentaçao e instinto materno, e os pais se acostumam e muitos gostam de serem jogados pra escanteio diante de tanta responsabilidade e tempo empreendido.
Eu estou no Brasil agora, meu namorado acabou de voltar pra Suécia depois de 1 ano aqui, mas em julho eu estarei de volta pra mais um ano.
Estou começando a mexer num blog, mas quero me dedicar aos meus estudos. Quando começar a escrever venho te convidar pra ir là "curiar"!
Beijos e boa semana

Somnia Carvalho disse...

Mariel,

enquanto voce nao tem o blog voce curia aqui comigo !!!