06 março 2009

Quando o olho não só vê, sente: sobre Maria Larsson e seus eternos momentos

(A câmera que abre a possibilidade para um novo mundo, Cena do filme sueco "Maria Larssons eviga ögonblick")


Foi num desses dias de neve aqui em Malmö que eu tive o prazer de ver o belíssimo, comovente e artístico filme de Jan Troell, "Maria Larssons eviga ögonblick" ("Eternos momentos de Maria Larsson) no Biocentrum, em Limhamn.

O filme, lançado ano passado, conta a história real de Maria, a de uma dona de casa sueca que vivia em Gotemburgo no início de 1900. Pobre e noiva de Sigfrid, Maria tem a idéia de comprar um bilhete de loteria, cujo prêmio era uma câmera fotográfica. Os dois ganham a câmera no sorteio, mas é Maria quem fica com ela e a guarda com carinho em casa.

O casamento rapidamente se mostra frágil, quando Sigfrid começa a chegar em casa bêbado, após o trabalho e a se tornar cada vez mais violento. Sigfrid trabalha com serviço bruto numa fábrica e vai, aos poucos, se envolvendo com o sindicato da época, juntando-se aos amigos para reclamar as péssimas condições de trabalho.

Apesar da bebedeira, das traições e da violência de Sigfrid contra Maria e suas sete crianças, ela, como a maior parte das mulheres de seu tempo, está presa num casamento, no qual a promessa de felicidade e companherismo fôra quebrada, mas sem nenhuma perspectiva de mudança, ao menos até que a morte os separe.

A vida miserável e a situação sem esperança faz com que Maria tente vender sua câmera ao fotógrafo da cidade, Sebastian Pedersen, que lhe mostra como funciona aquele estranho e curioso objeto que Maria tem em mãos. Pedersen fornece o material a ela, que não tem condições de arcar com as despesas para tal luxo e esse é o ponto de partida para que Maria um dia se transforme em uma das primeiras e maiores fotógrafa que a Suécia conheceu.

Maria Larssons eviga ögonblick tem inúmeros aspectos incríveis para serem discutidos. Entre eles a questão feminina e o papel que a mulher desempenhava na sociedade do início do século XX. Ajuda a pensar como Maria Larsson colabora para que esse papel vá sendo sutilmente percebido e assumido como outro possível. Jan Troell traz também a questão do sindicalismo na Suécia e de como a sociedade e o povo pobre teve que sofrer e se organizar para chegar a ter um país democrático. Isso sem contar na excelente atuação de Mikael Persbrandt (Sigfrid Larsson) e na profundidade de Maria Heiskanen (Maria Larsson). Minha opção, entretanto, é de focar o aspecto artísticos da produção do filme e como sua narrativa, feita sob um olhar também cuidadoso, ajuda a perceber e reconhecer porque Maria Larsson acabou sendo reconhecida como uma das maiores fotógrafas da história do país.

No longa, filmado em Malmö, e não em Gotemburgo, é possível reconhecer algumas paisagens, como o porto e algumas fábricas. Apesar disso, a sensação que se tem ao se assistir ao filme é não só que a história se passa há cem anos, mas que o filme foi feito há cem anos atrás. O colorido amarelado, sépia, da película ajuda na verosimilhança e colabora para que sintamos com muito mais vigor a história contada na tela. O filme é calmo. Ele vai no mesmo compasso de Maria, quando esta toma em suas mãos sua preciosa câmera fotográfica. Maria maneja tão bem seu objeto de fotografar e tem um olhar tão apurado para o que mira que suas fotos são verdadeiras obras de arte.
Ao tomar a câmera nas mãos é como se Maria pudesse vivenciar uma outra realidade possível. Longe do mundo cheio de dramas que a rodeia, Maria pode ter um momento e um espaço só dela. A fotografia e a arte é um espaço que nem o marido autoritário, nem ninguém mais pode invadir. A arte dá à Maria Larsson condição de ter uma "vida paralela" àquela que fôra escrita para ela.


(A vida que Maria se recusava a ter na memória, Cena do filme sueco "Maria Larssons eviga ögonblick")

Isso é rapidamente percebido por Sebastian Pedersen, o dono da loja de fotografia, que incentiva Maria a fotografar mais e mais e a ensina como revelar suas próprias imagens em casa. Maria é simples e quase nada sabe sobre fotografia. É bom lembrar que, nos anos em que ela vive, a fotografia era algo totalmente novo e difícil de se obter. Poucos tinham acesso a uma câmera e menos gente ainda tinha talento para manejá-la. Mas se no início faltava à Maria a bagagem técnica não lhe faltava esse olhar apurado.

Entre as cenas mais marcantes do filme, está o momento quando Maria fotografa seus primeiros quatro filhos. A cena é belíssima e genuína. Em seu mundo de mãe, esposa e dona de casa, Maria consegue captar a genuidade de suas crianças, sentadas lado a lado no sofá da humilde casa e eterniza aquele momento para sempre.

Em outra, dramática, mas não menos bela, uma vizinha de Maria, cuja filha adolescente morre num acidente, pede para Maria fotografá-la. Era comum nessa época esse desejo, já que com a invenção da fotografia as pessoas acreditavam que poderiam capturar aquele último momento junto da pessoa amada e mantê-lo para sempre.

Cumprindo o pedido da mãe, Maria Larsson arruma a menina em seu caixão. Ajeita as flores com tanto cuidado e carinho, como se a adolescente ainda estivesse viva. Ela enxota as crianças curiosas da sala e posiciona sua câmera. Ao fotografar a menina deitada e sem vida, Maria vê pelo vidro que as crianças estão coladas a ele, tentando ver o que ocorria com sua amiga morta. A cena é linda e a foto, que encantará Pedersen depois, maravilhosa. O olhar de Maria capta o olhar assustado, curioso das crianças do lado de fora em contraste com as pálpebras escuras da menina do lado de dentro.

Essas experimentações e o desejo forte de capturar todos os momentos, como as passeatas, os comícios políticos, os vizinhos, a vida em família e os objetos do lar deram a Maria Larsson condições de começar a ser conhecida na redondeza por onde vivia. Os empresários passam a lhe encomendar fotos e os vizinhos lotam sua casa esperando por um retrato. Maria pode, então, ela mesma ter uma renda e não depender totalmente da má vontade do marido para dar de comer a seus filhos, cujo número só aumenta a cada reconciliação.

O sucesso da esposa não dá a Sigfrid nenhuma alegria. Ao contrário, ele se sente ressentido e com ciúmes o que, a seu ver, é razão para agir com mais violência ainda contra a esposa traidora. E a vida do casal e de seus filhos segue assim por muitos anos. Enquanto o filme se desenrola a gente fica com aquela esperança de que Maria consiga abandonar o marido e ver-se livre do inferno que é sua vida ao lado dele, mas isso não acontece. A história e o peso do pensamento da época é mais forte que seu desejo de viver ao lado de seu amor platônico, Sebastian ou de ter uma vida livre do peso do casamento falido.

A vida dos Larsson melhora com o tempo e Maria, bem como sua filha mais velha, Maja, vai concretizando o fato de que não era mais do que só esposa, mãe e dona de casa, era fotógrafa.

A obra de Maria Larsson tem sido recuperada através de livros e documentos de família e o filme de Jan Troell, com história de Niklas Rådström e Agneta Ulfsäter-Troell tem colaborado para divulgá-la ainda mais.

Mesmo tendo assistido o longa todo em sueco, sem legendas e entendendo muito menos do que eu gostaria de ter entendido dos diálogos, os eternos momentos de Maria Larsson são ao mesmo tempo dramáticos, extremamente sensíveis e cheios de esperança, o que é ajudado também pela trilha sonora.

O filme termina com uma famosa foto, feita por Maja, de Maria e Sigfrid dançando juntos, protagonizando uma das cenas que mais gostavam de fazer, desde que haviam se conhecido. Com a situação financeira tranquila, os filhos criados e sua inspiradora casa no campo, Maria parece ter encontrado paz consigo mesmo. Deixou os sonhos impossíveis de lado e resolveu viver a vida como ela poderia ser vivida, não sem deixar de tirar o melhor de cada momento através de sua lente.

Talvez porque para além de suas forças estava o olhar inquieto. Parafraseando algumas frases ditas entre ela e Pedersen: nem todo mundo tem o dom de ver. O mundo está aí para ser descrito e preservado. Aqueles que conseguem vê-lo não podem se esquivar. Não podem simplesmente fechar os olhos. É preciso mais do que ver, traduzir isso para aqueles que não tem o dom.

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