12 abril 2012

"Uma música, mil lembranças" - "Quer sorte a nossa, hein?", por Ricardo Perez


("Ai, ai, ai", Vanessa da Mata no "Uma foto, mil lembranças"... para você ler ouvindo....)




QUE SORTE A NOSSA, HEIN?

por Ricardo Perez

"Esta é a história de dois homens, duas canções e uma cantora. Fará mais sentido se você já tiver viajado pra qualquer lugar com que sempre sonhou e, mais ainda, se já tiver amado alguém. Estamos em julho de 2009. Quando chegaram parecia pouco provável que estivessem ali. A maioria dos amigos não achou normal nem recomendável. Mas foram mesmo assim. Embarcaram para uma temporada na Europa como se fosse uma celebração do fim. Isso mesmo. O relacionamento deles havia acabado há pouco mais de um mês. Programada para ser a comemoração de 4 anos juntos, a viagem não foi cancelada e ambos acharam que tudo bem. Tinham sido felizes juntos mas o que fazer se não dava mais certo, se as brigas tinham se tornado mais frequentes que os bons momentos, se havia tantas outras possibilidades, tantas outras paixões perdidas por aí, tantos outros corpos a serem descobertos? Então, pegaram o avião com a certeza de que tinham o que festejar. Seria um final feliz. Desembarcaram em Amsterdã, a cidade dos “cigarrinhos de artista”, das prostitutas em vitrines, do amor livre. E por ser tão libertária, a capital holandesa permitiu aos dois um momento sem regras. Amaram-se. E muito! E como! Ali, tudo pareceu uma grande lua-de-mel. Caretas que são, provaram haxixe juntos e se permitiram viver de brisa. Foram muitos sorrisos, vários sanduíches do McDonald’s, Van Gogh e Anne Frank. Não queriam que acabasse... E quando acabou, uma sequência de trens os levaria a Paris. Por alguma confusão da agência (ou talvez deles mesmo) teriam de trocar 5 vezes de linha para chegar à capital francesa. Eram estações perdidas na Europa, em cidadezinhas nada conhecidas, pelo interior da Bélgica. Tinham 2, 3 minutos de intervalo entre cada trem, mas a correria foi de uma alegria contagiante. Foram naqueles vagões que as músicas entraram na história. Com um celular e um fone compartilhado, ouviram Vanessa da Matta juntos. “Se você quiser, eu largo tudo e vou pro mundo com você meu bem”, cantava em “Ai, Ai, Ai”. E em “Ainda Bem”, ela entoava “ainda bem que você vive comigo, porque senão como seria esta vida? Sei lá, sei lá...” Mesmo em modo randômico, o aparelho parece que fazia as músicas voltarem a toda hora. Eles ouviam sempre em silêncio. Não se olhavam. Não cantarolavam aquelas letras. Chegaram em Paris, a mais encantadora das cidades e dona daquela torre que parece mudar de lugar só para ser vista o tempo todo. Ali, logo na primeira noite, romperam a única regra imposta para a viagem e decidiram conversar sobre o fim. Sentados no Café de Flore, como Simone e Sartre, tomaram vinho rosé e falaram, falaram, falaram. Tentaram não se alterar. Ponderaram o que havia de bom e ruim. O que os atraia e os afastava. Comentaram sobre os amigos, as posturas de cada um após o término. Foi um momento singelo. Terno. Ninguém alterou a voz ou chorou. Pareciam ver tudo com uma certa distância e razão. Mas Paris é sufocantemente bela! E foram muitas noites de calor, discussões, vinhos, porres, amor e raiva. Era tão bom estar ali juntos. E extremamento doloroso. Andaram a cidade toda. Entantaram-se com a vista do alto do Pompidou e com um saboroso chocolate do Café Hugo, sob os arcos da Place des Vosges. Foram a Versailhes e ao canal de Saint Martin. Visitaram o túmulo de Jim Morrison e Oscar Wilde. Vira e mexe, Vanessa aparecia no fone dividido dos dois. “Se quiser, eu vou te dar um amor desses de cinema. Não vai te faltar carinho, plano ou assunto ao longo do dia”. “Se há dores, tudo fica mais fácil. Seu rosto silencia e faz parar. As flores que me mandam são fato do nosso cuidado e entrega”. Mas ali, ela chevaga a irritar. Sua voz era mais estridente do que de costume. Parecia provocá-los. Na última noite na Cidade Luz, eles discutiram feio. Toda a plenitude mostrou-se fraca. Havia uma mágoa incrustrada entre eles. Uma raiva latente. Não era justo. Por que aquilo tudo? Pra que jogar nas próprias caras o quanto poderiam ser felizes? Qual o sentido disso? Não tinham respostas. Amsterdã havia sido uma grande exclamação e Paris pareceu-lhes reticências. Ainda havia um destino no roteiro e ele tinha tudo para ser o ponto final. Numa noite mal dormida num trem, atravessaram a fronteira entre França e Espanha e chegaram à Barcelona. A cidade recebeu-os com um calor infernal e a falta de educação dos catalães. As ruas do bairro gótico estavam infestadas de adolescentes nórdicos barulhentos e beberrões. Algo dizia que poderia ser insuportável. Havia um desejo dentro deles que clamava pelo fim da jornada. Mas restavam 5 noites. E eles decidiram se divertir. As ruelas os levaram a um lugarzinho delicioso chamado Le Xampanyet. Ali, uma cava caseira, meio doce e muito gelada serviu de acalanto. A leve bebedeira acalmou o ex-casal. E então, saíram a esmo, sentiram o sol quente e maldisseram a fila na porta da Sagrada Família. No bairro de L’Exaimple, deram-se as mãos e foram dançar numa das boates. E começou a tragédia. Um deles teve a carteira furtada por um dos frequentadores. Discutiram como antes do fim. Gritaram um com o outro. Sentiram-se dilacerados por tantas palavras que não deveriam ser ditas. Barcelona era a certeza de que não havia mais razão para estarem juntos. Quase adiantaram o vôo da volta. Mas não viram sentido para tanto. Sem paciência para terra de Gaudí, decidiram pegar praia. E eis que o destino reservava-lhes Sitges. Cerca de 30 minutos de trem levam até a cidadezinha, que virou hit entre casais do amor que não ousa dizer o nome. A praia estava tomada por homens de corpos dourados e sungas brancas e bandeiras do arco-íris. E lá estavam os dois. Admiraram-se à distância. Observaram um e o outro no mar. Os sorrisos voltaram com força. Foram 3 dias seguidos à beira do Mediterrâneo e diversas meias-horas de trem. Vanessa ressurgiu por lá. “Aonde o vento é brisa. Onde não haja quem possa com a nossa felicidade. Vamos brindar a vida, meu bem. (...) O que a gente precisa é tomar um banho de chuva”. “Nesse mundo de tantos anos, entre tantos outros, que sorte a nossa, hein? Entre tantas paixões, esse encontro, nós dois, esse amor”. E as curtas viagens entre Barcelona e Sitges foram como filme na cabeça dos dois. Relembraram de tanta coisa. Cenas perdidas de uma história tão admirável. Mas não falaram nada. Mal se tocaram naqueles dias. Voaram de volta ao Brasil como dois estranhos. Pouco disseram nas muitas horas entre aviões e aeroportos. Estavam incomodados. Quando chegaram em Guarulhos, ainda não sabiam o que sentir. Precisaram de 3 semanas. E só então descobriram que não se encontraram pelo acaso. Havia sido sorte. Entre eles havia uma energia tão boa e única, tão notável por qualquer estranho. E na arte do encontro, se reencontraram. Mudaram as cores das paredes do apartamento, reformaram o sofá, voltaram a Paris, conheceram Londres, planejam conhecer os fiordes da Noruega assim que der. Claro que já viveram novos dissabores. Já colocaram o romance em xeque outras vezes. Mas sabem tão bem um do outro. Entendem os momentos de silêncio. Conhecem a respiração de quando o outro está dormindo bem. Brigam algumas vezes, mas dançam tantas outras. E ainda olham nos olhos, choram vendo novela, adoram sushi com proseco e brindam cada bom momento com canapés de carpaccio. Se estão em alguma balada e ouvem umas das músicas da Vanessa, cantam alto, se abraçam. Às vezes, bate uma dúvida esquisita. Mas sabem que precisam apenas é de um banho de chuva. E chuva nunca lhes faltará."


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Ricardo Perez é jornalista, diretor em TV, colunista na revista Revolue, piadista! Amigo sempre cheio dos risos e de um coração maior do que seu peito (que não é nada pequeno!). Participou do nosso primeiro concurso "Uma foto, mil lembranças" com um texto lindíssimo bem como a foto que havia o inspirado. Aceitou meu convite de novo e não deixa por menos nem para si mesmo!  Vem abrir este nosso novo concurso com uma super história e uma música para história nenhuma pôr defeito! Em que dia? Numa data para lá de especial... o dia em que uma das personagens centrais do texto está fazendo aniversário. Daí eu "me forçar" a começar a publicação dos textos recebidos e também inverter a ordem só para fazer disso tudo ainda mais motivo de festa!!!

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6 comentários:

Danissima disse...

Nossa, que lindo! adorei!!! meu preferido até aqui ;-)
Falando sério, cara, que historia de amor!
Felicidades pra vc, vcs e pra Vanessa!

Ivana disse...

Lindíssimo!!
Nada mais a dizer.

Nina disse...

Ai meu Deus, já ganhou, já ganhou, já ganhou!! Fiquei torcendo demais, entre Amsterda, Paris, Barcelona pra que esse casal que parece tao LINDO terminasse bem no fim. E olha, to com lágrimas nos olhos.
AMEI
Lindo lindo lindo texto. Vivi tudinho junto docês.
Ai que lindo meu Deus!!!

Tem gente que nasceu mesmo pra escrever, viver e falar de emocoes ao coracao da gente, vc é um desses, Ricardo.

Ricardo Perez disse...

Muito orbigado a voc~es que leram! Fico feliz com todos esses elogios!

E muito obrigado a você, Somnia, pelo espaço!

Beijos!

Marcela Orsini disse...

Que romântico! E eu também adoro a Vanessinha ;)

Lúcia Soares disse...

O amor sempre vale a pena.
Um texto lindo, forte, vibrante.
Impossível não se apaixonar pelo roteiro. Por isso se re-apaixonaram.
Beijo!