01 abril 2012

É tudo uma história!

(Disponível em "Freaking News")

Depois que escrevi o post sobre como "operações de fachada" nos afetam diariamente, recebi alguns comentários aqui no blog e muitos no facebook sobre o tema. Por conta do texto e do contado sobre o Fórum Landmark, local onde aprendi esta "tecnologia" de compreender-se a si mesmo e levar a vida, eu tive muitas conversas extremamente produtivas com muita gente. Sobre elas. Sobre mim. Sobre o Curso. Sobre a vida.

Em outras palavras, o post foi um sucesso! Na linguagem landmarkiana (tô inventando o termo acho) a gente diz que meu escrito "Operacões de fachada: quais as suas?" tocou muita gente e foi capaz de criar também para elas a possibilidade de perceber suas operações e talvez lidar com elas com maior clareza ou desconstrui-las em favor de uma ação sincera e, por isso, promissora.

Foi, de longe, o post mais compartilhado no facebook. Trinta e dois "curtir" até onde consigo contar. E provavelmente o texto escrito neste blog em que eu mais estivesse despreocupada com como eu ia parecer para vocês e o que iam pensar de mim, mas importando-me, acima de tudo, com o que queria comunicar.

Se o post lhe "tocou", ou seja, comoveu, fez pensar, criou em você o desejo de descobrir coisas em você é porque quando dividi o que ocorreu comigo eu o fiz com tanta sinceridade, livre o máximo possível de "fachadas" que você percebeu como não se tratava de criar mais uma máscara (o que não me livra totalmente de ter caído em alguma durante o processo e ainda não tê-la percebido, ao menos até aqui eu não vi nenhuma), mas de comunicar-me através de uma conversa, através da linguagem com vocês.

Depois da querida Mari, minha nova leitora, me falar sobre como nota em amigos que eles estejam atuando tão bem com fachadas e eu sugerir que ela mesma pudesse ao mesmo tempo estar criando as delas, a Mari me perguntou assim:"eu, mesmo com a minha "operação fachada" não posso perceber que meus amigos estão na operação fachada mesmo assim?"

Sim! Podemos sim, Mari!

Eu me lembro de no Fórum, por exemplo, as vezes ouvir alguém dividindo sua história, seu dilema, seu problema (sempre a desejo da pessoa) e eu identificar em segundos ou minutos algumas operações de fachada da pessoa apenas na fala dela. Eu e outros. A pessoa mesma estava ali repetindo para si "uma história", tão centrada em fazê-lo bem feito que não percebia sua "operação". Então há sim "operações de fachada" dos outros que são óbvias pra gente e vice-versa.

Entretanto, há também aquelas, criadas ao longo do tempo, assumidas em determinadas circunstâncias como num grande trauma, numa vivência que tenha nos perturbado, machucado, desiludido, entristecido ou até mesmo numa situação de muito sucesso e nos leva a assumir uma "fachada" de uma forma tão firme, quase religiosamente que quando nos damos conta nós não estamos operando com "fachadas", mas nós mesmos somos nossa "operação de fachada".

Eu, por exemplo, sempre fui ótima em notar "operações de fachada" dos outros, mas a grande "operação de fachada" minha era estar focada no defeito, no problema, na falha do outro. Focada em desvendar o véu deles eu queria, no fundo, deixar de tirar o meu. Compreende?

Vou tentar dar apenas um exemplo mais simples ocorrido comigo apenas no primeiro dia do Fórum, um dos incontáveis que descobri naquele três dias. Os eventos complexos e suas consequências eu posso dividir um dia pessoalmente numa conversa mais próxima, mas vai este a título de compreensão.

E me desculpem se escrevo muito.

Só vou fazer um pedido muito gentil a você: tente agora desligar sua "vozinha". Sabe? Esta aí que esta lhe dizendo - ao mesmo tempo em que eu converso com você: "Nossa! Coitada dela! Virou fanática e não tá percebendo!", "Nossa! Este Fórum enrola mesmo as pessoas!", "Caramba! Quanta asneira e quanto senso comum nesta mocinha falando!".

Desligue-a. Você consegue. Esta "vozinha" é apenas seu mecanismo de defesa agindo. E eu só peço que você desligue-a durante uns minutos. Me ouça, de verdade. Enquanto você lê você pode, por exemplo, pensar que é como se estivéssemos sentados numa sala muito aconchegante, em poltronas confortáveis, tomando algo gostoso e quentinho, com livros ao fundo, só nós numa "conversa".

Nos primeiros vinte minutos do Fórum que participei em dezembro, eu consegui anotar umas cinco, seis folhas do que o líder, Rui Castelhano, estava dizendo. Era tudo tão novo, tão interessante e eu queria ter tudo anotadinho para usar depois, para me lembrar depois. Anotar sempre foi para mim uma forma de assimilar tudo o que aprendia. Tenho só da graduação uns 8 cadernos anotados dos cursos de Filosofia dos quais participei.

- Por favor, agora eu pediria que quem está anotando guardasse as anotações?, pediu o líder, enquanto eu não ouvi de antemão e continuei escrevendo as penúltimas frases dele.
- Por favor, vocês três ou quatro que estão anotando, podem guardar seus papéis? Não é permitido anotar  no fórum.
- Hahá! Era só o que faltava!, eu disse para mim mesma em voz alta. E com a insistência do homem, mas muito relutante eu guardei tudo.

"Não querem que eu anote porque eu teria o cursinho inteirinho para vender?", "Que absurdo! Qual o problema de eu anotar?", "Que castração horrorosa num curso que se diz para nos ajudar a sermos quem somos!", dizia minha "vozinha" muito, muito irritada.

- Alguém tem alguma dúvida ou colocação?, perguntou o Rui.

Levantei e obviamente fui até o microfone. Expliquei a ele como eu havia atendido seu pedido por reconhecer nele o líder de algo onde eu almejava aprender alguma coisa, mas não concordava em não anotar. Achava uma castração da minha liberdade. Achava isso e aquilo!

- Muito bem Sônia! Obrigada por compartilhar!, disse ele com voz calma e realmente agradecido.  Você pode me dizer Sônia por que você acha que você precisa anotar?

- Por que eu sou muito dispersa!

- Sônia, continuou ele... Tudo bem! Agora tente pensar em uma outra palavra, uma outra interpretação que você daria a você mesma que não seja ser dispersa e que pudesse explicar o fato de você ter perdido sua concentração depois de não mais anotar o que eu falava.

Aquilo era realmente novo.

Pensei rapidamente, tentando rever como haviam ocorrido as coisas naqueles últimos instantes: eu chegando, todo o trabalho que tinha tido para estar ali, a manhã difícil de deixar todo mundo para fazer algo só para mim, as anotações e ... comecei a chorar.

- Uma mãe dedicada.

- Sim Sônia!

- Amorosa!, falou um outro participante.

- Uma pessoa versátil, dinâmica, disse outra, ao mesmo tempo em que eu ia achando outros adjetivos para mim mesma, diferentes daquele primeiro.

Naquele momento eu criei para mim a possibilidade de ser alguém concentrada no que fazia mesmo sem ter que anotar as coisas ouvidas. É simples assim! Eu voltei, sentei-me na cadeira e chorava um tanto. Estava tão aliviada. Para os outros talvez fosse pouco, mas eu carregava o fardo de ser dispersa há anos. A qualquer problema como perder chaves, esquecer coisas, nomes etc eu sempre dizia: "isso aconteceu porque eu sou muito dispersa!". Ou outras quando perdia algo que queria muito e me doía pensar: "caramba! como eu sou dispersa! que raiva!", "Tudo isso aconteceu por culpa minha! porque eu sou muito dispersa!".

Percebi que para cada evento diferente talvez eu tivesse tido problemas motivadores diferentes. Em um eu poderia não ter mesmo prestado atenção ao conteúdo e esquecido nomes, datas. Em outro talvez eu estivesse concentrada e focada em algo mais importante e num outro fazendo tantas coisas legais ao mesmo tempo que não fôra capaz de captar tudo extremamente bem, em...

(um momento, por favor! porque acabo de perceber outra coisa... desculpe... estou de novo emocionada...Ai! meu Deus!...  - lágrimas - É o fórum pipocando quatro meses depois...)

... ser perfeitinha e cumprir bem uma outra "operação de fachada"que era ser sempre perfeita em tudo e, em consequencia, poder ser amada e admirada. Ser dispersa... era uma "operaçãozinha de fachada" simples para dar desculpas e justificar, para mim e sobretudo para os outros, porque eu não conseguia ser perfeita. E ser perfeita eu aprendi que era uma "fachada" que eu decidi ser preciso assumir quando estava na 3a. série e quando, depois de ter tido uma meningite leve e três meses sem ir à escola, ouvi a professora dizendo a minha mãe, enquanto aquela passava carinhosamente a mão na minha cabeça:

- A Sônia é muito inteligente. Ela é muito esforçada. Ela não só passou como ficou entre as melhores notas da sala mesmo tendo faltado quase três meses do ano.

Isso, claro, sem entrar na questão de que eu amava estudar e numa casa de gente tão simples, sem estudo, tal esforço quase não tinha mérito nenhum.

....

Naquele dia eu ouvi tudo que o Rui e os participantes falaram e compartilharam. Eu estive totalmente presente no Fórum não porque eu tinha páginas sobre a fala do líder anotadas, nem porque eu havia deixado de ser dispersa, mas porque eu não estava mais preocupando-me em não ser dispersa. Compreendem? Eu vinha "contando uma história" a mim mesma há muito tempo. Ela com certeza veio de uma "operação de fachada" que eu achei necessária assumir em determinado momento da minha vida. Neste caso, totalmente inconsciente. Eu assumi a operação e a mantive com tanta eficácia que ela se tornou eu. E eu já não me via mais sem minha "operaçãozinha de fachada".

Como eu disse acima, este é um exemplo, poderíamos dizer, bobinho, porque, em comparação com o que eu vim a descobrir no Fórum quando me lancei no "jogo" a discordar do Rui através da "conversa", havia um iceberg inteiro escondido nas minhas diárias, assumidas ou inconscientes "operações de fachada" que me traziam não só algum tipo de sofrimento, como também algum ganho que eu julgava ser interessante ter, mas que ao mesmo tempo me emperravam em ser quem eu não era, em parecer alguém que eu julgava ser necessário parecer que eu fosse tudo isso em detrimento de poder livremente escolher ser quem eu queria ser.

Ser minha fachada ia (me lembrei da Roberta Flack cantando) Killing me softly todos os dias.

A coisa mais incrível para mim é que só numa conversa esta semana com uma amiga (quem decidiu com aquele outro post se inscrever no Fórum) contando este evento eu saquei uma outra coisa: me lembrei exatamente de quando eu havia assumido a "operação de fachada" eu sou uma pessoa dispersa e de como ela havia se integrado a minha personalidade.

Fora num retiro de Carnaval (pois eu quase sempre fugi de Carnaval), quando tinha exatos 19 anos. Me lembro de como tudo naqueles dias havia sido incrível. Eram mulheres e jovens que queriam aprender mais sobre si mesmas etc e se juntado em Socorro, interior de São Paulo. Eu era a mais jovem e entre as presentes estava uma psicóloga incrível, coordenando informalmente o evento. Ela, Salete, vivia com os índios no Mato Grosso, há muitos anos. Uma mulher sábia de quem eu meio que bebia do conhecimento. Em dado momento eu disse a ela que nem sempre conseguia estar presente para tudo que acontecia na minha vida. Eu, sei lá, estava na Missa toda concentrada (foi minha participação na Igreja que me levou à Filosofia) ouvindo alguém e começava a pensar na rebimboca da parafuseta. Então, enquanto algumas tentavam me consolar, dizendo que aquilo era normal e eu era jovem demais, a Salete disse:

- Não é nada disso! Tudo isso acontece porque você é muito dispersa!

Pronto! Estava dada minha sentença. E ela havia sido dada como um argumento de verdade vindo nada mais nada menos do que da psicóloga do grupo. Então, claro! Não havia dúvidas! Eu era dispersa! Eu? Era era dispersa! Eu sou dispersa! Eu só consigo ser dispersa! Foi o que assumi para mim nos últimos vinte anos.

Àquela altura com dezenove anos eu não era capaz de entender que não passava de uma história que a Salete criou para tentar entender minhas reclamações. E nem que até mesmo ela, uma pessoa tão generosa, poderia fazer interpretações erradas, operar com "fachadas", talvez, por exemplo, a de quem sempre sabe tudo.

E é isso! As nossas "operações de fachada" não são ruins porque nós desejamos apenas ser uma outra pessoa e agir diferentemente de quem somos por escolha própria. Algumas vezes parecemos estar escolhendo, mas, no fundo, estamos é condicionados a querer determinadas coisas que julgamos então ser necessário agir com uma "operação". Aí esquecemos que se tratava de uma "história" que havíamos criado para nos safar de tal situação ou pessoa e vamos caminhando daquele jeito.

As "operações de fachada" são comuns em nossa vida e nunca acabam. O que pode acabar, e isso eu aprendi bastante no Fórum, é a rapidez com que eu as percebo e inverto a situação. Pode mudar minha forma de tentar resolver minhas questões se "estou presente" para como as coisas estão acontecendo. Eu agora consigo fazer esta inversão muito rapidamente. Algumas "fachadas" eu nem mesmo chego a assumir mais, eu as percebo antes mesmo de tomá-las, outras eu continuo fazendo e outras eu tenho desmascarado e jogado no lixo.

E tudo isso, minha gente, só é possível numa conversa. Não numa anotação, porque quando eu anotava eu de fato não "estava presente" para o que importava, mas para algo secundário como ter tudo para contar a alguem no futuro e repetir tais palavras. É possível porque o Fórum é feito como se fosse uma conversa, ocorrida ao mesmo tempo entre todos os seus participantes. Em dezembro, éramos 98, e, até onde se avistava, estávamos todos ouvindo uns aos outros e presentes para o que de fato estava ocorrendo.

Era só por essa razão que o líder Rui havia me pedido para fechar meu caderno. Porque ele sabia como me fazer chegar lá... por sorte eu consegui desligar minha "vozinha"...

Obrigada por estarem aí e por terem desligado (ou tentado) a sua "vozinha". Agora você já pode prestar atenção ao que ela diz sobre tudo isso que eu disse, mandá-la catar coquinho na descida ou então ouvir-se a si mesmo... :)

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Se você está interessado em participar ou conhecer mais do Fórum, você pode ligar para o Ênio, o coordenador do Fórum no Brasil, porque ele vai ficar muito feliz em te ajudar. 


O próximo Fórum Landmark, no Brasil, acontecerá nos dias 22, 23, 24 de junho (9-22hs) e dia 26 (19:30-22:45hs).

3 comentários:

Ma disse...

Sensacional Somnia!!
Só uma coisinha, sou a Mari que escreveu, mas não sou a Marilena não.rsrsrrsrs....apenas Mari )

Preciso ler de novo o post para entender melhor, mas achei incrível tudo.
O que falei do "percber" dos amigos é aqueles amigos/companheiros que de tão perto, sabemos como a pessoa mais ou menos é, e suas "desculpas" etc.

O que preciso entender melhor é, dentro das minhas máscaras (para a convivência em sociedade), qual seria legal "tirá-las" e assumir minha iberdade de não ter mascaras e certos momentos, será isso?
Ou não há nenhuma necesidade de eliminá-las?
Certas máscaras, por parecerem confortáveis naquele imediato momento, mas a longo prazo não seriam legais para nossa saúde mental (desculpa o termo, não consegui um melhor) seria isso?

No meu caso, não sei dizer onde começou, mas faz tempo que quero me livrar de ser "boazinha" (na aparência, pois sei que não sou "mais" rs, boa que ninguém, é apenas a casca), mas me sinto confortável, na maior parte d tempo em ser a "boazinha", agradável", e isso eu não gosto em mim, aliás para ser sincera gosto as vezes, mas queria ser Muuuito menos assim.

Bom, vou ler depois de novo Sominia.
Obrigad por compartilhar, e achei muito corajoso, sincero e honesto de sua parte trabalhar isso em vc. Para provar que podemos sempre mudar né ;)
(ao contrário da imagem que temos que depois de adulta é dificil mudar o noso "jeito")..

Beijão!!!!

Mari disse...

opa.sumiram as letras.., é a Mari aí em cima..(não Ma)

Somnia Carvalho disse...

Mari, fico feliz que tenha conseguido encontrar algo pra voce aqui! vou mudar aquele post então.. sorry, acabei esquecendo de dizer que nao era a marilena do canada!

o post "tais sao os caminhos do mundo" basicamente foi em cima do que vc escreveu... voce o leu? beijos
aquele e mais eficiente para praticar!