13 julho 2009

"Na Suécia também não tem" fila preferencial

(Mocinha e velhinhos na fila do supermercado. Fonte: O Camandro

Minha amiga Xu (a quem carinhosamente também chamo de Flávia, Muié, Molé e Baby) semana passada, me mandou um sms assim: 

"Pela primeira vez na Suécia, hoje alguém falou pra eu passar na frente da fila do caixa no ICA (supermercado) porque eu só tinha dois itens na mão."

A frase talvez passasse em brancas nuvens para vocês que estão acostumados com a "gentileza" brasileira. Também em outros países esse é um costume comum, mas não aqui na Suécia.

Não existe fila preferencial em caixa de bancos, supermercados, correios ou qualquer lugar que seja. O que existe é quase sempre aquelas senhas que a gente tira e espera cada qual a sua vez. E tanto a velhinha de 70 quanto a de 94 e eu pegaremos as mesmas senhas e tanto eu quanto elas esperaremos para sermos atendidas quando for a nossa vez.  




Eu creio que vários fatores sociais, históricos e culturais poderiam explicar essa atitude dos suecos que a primeira vista (talvez na segunda vista e na terceira também) parece incomodar bastante. A cultura sueca basesia-se  num princípio de igualdade total de direitos e obrigações. No geral, repito, no geral, as mulheres e os homens, por exemplo, tem direitos (participação na política, acesso a trabalhos considerados só para machos etc) e deveres muito mais parecidos com os nossos brasileiros. Já vi inúmeras vezes mocinhas pintoras de parede profissionais, mulher dirigindo trator e caminhão. Mulher jardineira, cuidando das plantas do parque todo, mulher fazendo manutenção de prédios e por aí vai... Dirigindo ônibus já é corriqueiro. Tem até mulheres muçulmanas dirigindo ônibus de véu. Por outro lado, conheci dezenas de maridos que haviam tirado sua licença paternidade para cuidar dos seus filhos por seis ou mais meses, enquanto a mulher vai trabalhar e mantém a maior parte da renda familiar. O homem não só cuida dos filhos com a mesma responsabilidade que a mulher, como da casa. Ele não é menos por isso, porque tanto trabalhar fora quanto cuidar da casa e dos filhos faz parte das obrigações que a família tem que dividir.


Na escola, os meninos têm aula de costura, bordado etc junto com as meninas, e as meninas aprendem a manejar ferramentas masculinas. Na loja de brinquedos e nas lojas de ferramentas há sempre sessões com miniaturas de tudo quanto é objeto de limpar, consertar que é preciso numa casa, seja na parte das meninas, seja na parte dos meninos. Não fiquei tão surpresa quando minha amiga Paulina havia comprado uma boneca para que seu filho também aprendesse a cuidar de um bebê, o que é normal aqui.




Então, homem, mulher, adolescente e velho são todos iguais em qualquer fila ou, porque não dizer, na vida em geral.

Sem contar isso, a Suécia possui milhares de idosos e idosas, porque a longevidade de vida é quase 10 anos mais do que no Brasil. Eu sempre penso que se algum lugar tivesse fila preferencial para os velhinhos aqui a gente nunca chegaria a ser atendido, porque em qualquer canto há, felizmente, milhares de senhorinhas e senhorzinhos cuidando de suas vidas, ainda que seja com ajuda de um carrinho especial que eles têm aqui.

Além do grande número de idosos o país também sofreu um boom de bebês nos últimos cinco anos. O incentivo com a Lei de Licença Maternidade de 1 ano com remuneração integral ajudou os casais a se procriarem bastante e tem uma outra coisa que você vai ver mais que velhinho nas ruas suecas: são bebês e crianças. Em carrinhos, nas bicicletas, pendurados em seus papais e suas mamães. Eles vêm e vêm em grande número. 

Deixar uma mãe com seu filho passar na frente significa deixar outras 37 que deverão estar na mesma fila que você. Ou então, ter uma fila só para nós mães significaria também mais filas preferenciais do que filas para o restante.

Eu poderia me alongar e aprofundar todos esses temas, mas eles estão aqui rapidamente para ilustrar como a idéia de "ah! você tem a vez porque é mais velho que eu", "você pode passar na minha frente porque tem menos itens" etc não é algo que atinja, por assim dizer, o coração de um sueco. Eles não vão se sentir mal por não dar a vez a alguém, porque a idéia não é a de que eles estão sendo bonzinhos, deveriam ser bonzinhos e educados ou que você mereça tal coisa. É uma idéia - que cada um pode ter uma opinião sobre - de justiça que está por trás desse ato "mal educado". 

Lembro-me do Pedro, aquele português super engraçado, cujo post de título "Descubro que não devo ser cavalheiro na Suécia quando..."), falava de uma senhora que havia olhado com uma baita cara de "tá maluco, meu filho!", quando ele ofereceu a ela a frente na fila do supermercado. Ela não aceitou e ele ficou Pedro da vida. 

A gente pode até ficar mesmo, mas creio que não dá para comparar com o nosso jeito todo camarada de ser e achar que os suecos não o sejam, ou que sejam grossos. Eu sinceramente não acho isso. Eu acho que para eles funciona de outro jeito. E mesmo que a gente pensasse que não custaria nada um sujeito quebrar com essa regra, eles não quebram. Não quebram como, no geral (repito) não quebram outras tantas. 

Finalizando, dá para imaginar que na Suécia não adianta tentar enfiar uma barriga postiça ou ir com o filho da vizinha no colo para tentar a fila preferencial do banco, por exemplo. Também não adianta tentar bancar o simpático na fila. Nem algumas gentilezas, nem alguns velhos truques funcionam no país do povo viking. 

...

Ah! e quase eu ia me esquecendo: "Parabéns Molé por ter amolecido o coracãozinho de um sueco!" (se é que o camarada era mesmo sueco) em apenas dois anos vivendo aqui. Eu moro há dois e meio e nunca tive sequer uma olhadela suspeita de gentileza.


9 comentários:

Camila Castro disse...

Engraçado você postar isso justo hoje... É que eu e Lars tiramos a manhã para resolver a papelada de visto, casório, etc, e então fomos às comprinhas (os malditos takkekort!). Aqui em Bodø eu me impressiono muito com a quantidade de idosos - estão por toda a parte, e são muito ativos. Vários andam de bicicleta pra cima e pra baixo...

Então, hoje tinha um vovozinho bem velhinho na nossa frente, e ele derrubou algo no chão. Me abaixei para ajudá-lo. Olhei pro Lars,que olhava o teto... Perguntei a ele porque aqui ninguém nunca ajudava os vovôs e vós, e ele respondeu "Ajudar porque?". Faz um tempo que me ressabio com isso, mas acho que vc acabou de me dar uma boa explicação.

Adoro morar num país que cuida de seus velhos e de suas crianças. E se o vovô pode pedalar, provavelmente pode pegar o que cair de sua mão, né? Mas eu me acostumo!

Uma ótima semana a você!
Abs

Myrna disse...

Que engraçado, falávamos sobre isso essa semana, aqui está se dando tanta preferencia que logo a maioria vai ficar sem vez, é vaga pra idoso, deficiente, gestante, eu nem entro nessas filas preferenciais, os caixa sempre indicam e eu respondo "olha o tamanho da fila", fora que aqui o povo é simpático, gentil e tal, mas é enrolado demais, espera chegar a vez pra contar o dinheiro, pra pensar oque vai pedir, aí já viu a fila vai aumentando!
Adoro quando você conta essas coisinhas sobre a Suécia!
Beijocas

Cristiane A. Fetter disse...

Menina, resguardadas as devidas diferenças culturais, aqui nos esteires é a mesma coisa.
Só que nos mercados tem aquelas filas rápidas, mas sem distinção de idade.
Eu tb estranhei muito isso aqui, mas depois a gente se acostuma, pois como vc mesma falou, as pessoas se sentem ofendidas quando a gente oferece prioridade.
Mas uma vez, eu estava indo para o Brasil com o filho pequeno, pela TAM e já estávamos a horas no aeroporto de New York quando chamaram nosso embarque, que sempre começa pela primeira classe, e a classe economica é a última a embarcar.
Bem, eu fui até o balcão e fiz as seguintes perguntas a aeromoça que não era brasileira:
Esta cia é brasileira? sim.
O piloto é brasileiro? sim.
A maioria dos passageiros são brasileiros? sim.
Então me dá a prioridade, já que estou com criança de colo e no Brasil é assim que funciona, rs.
O povo da primeira ficou meio chaetado, mas fazer o quê?
Bjks

Luciana Håland disse...

Somnia, aqui é igualzinho, mas quase não podia deixar de ser, dada a proximidade e culturas similares. Eu acho ótimo, e outro dia conversando com meu marido, eu disse a ele que concluía que a longevidade vem exatamente disso, de os velhos não serem e não se sentirem encostados, continuarem vivendo normalmente. Minha mãe, lá no Brasil, trabalha quase todos os dias por 3 turnos, e ainda faz os negócios dela, costura, arruma a casa, bate perna na rua toda, e agora em agosto vai se aposentar, muito a contra gosto dela, e realmente não sabemos como vai ser, pois vai ficar sem o trabalho e provavelmente vai envelhecer em dois anos uns 10 ou mais, isso com quase 70 anos, e minha sogra na mesma idade, preferiu continuar trabalhando e não aceitou se aposentar ainda.
No inverno estava nevando e tinha muito gelo na ladeira antes de chegar aqui em casa, daí tinha uma senhora aguardando eu chegar no final da subida pra me perguntar como estava, se tinha muito gelo, ela já velhinha, daí eu disse que sim, e perguntei se ela precisava de ajuda, daí ela disse que preferia tentar sozinha, que tinha equipamento pra isso(aqueles calcados apropriados e uma espécie de bengala), então eu disse que ia ficar aguardando ela descer e ver se nada acontecia, assim ela tentava só. Também não dou lugar em filas, acho que eles tem mesmo que tentar e assim terem uma vida normal. Mas se eu estou com carrinho cheio e alguém chega na fila com produtos na mão, eu deixo passar, assim como já me deixaram passar na frente nessas condicões.
Mais pela questão de tempo do que pela de condicão física. As grávidas e mâes aqui também vejo que são mais resistentes, talvez inclusive por ter a ajuda do marido.
As filas também são bem mais rápidas do que no Brasil, a última fila que peguei num banco no Brasil, passei mais de uma hora, e isso mesmo tendo lei que determina um tempo máximo, mas não é respeitado. Aqui pegamos o número e sentamos e ainda somos atendidos rapidamente.

Luciana Håland disse...

Obrigada pelo convite, eu adoro festas de criancas, me divirto demais com os pimpolhos, a bagunca, a barulheira, adoro. Infelizmente não vou poder ir, estamos nas economias, final do ano vamos ao Brasil, aí já viu, despesa demais. Essa semana meu marido está de férias, e eu no final do meu momento vagabundagem, pois mês que vem volto pra escola. Mas um dia chego aí pra gente bater papo ao vivo.

Beijo

Mariel Stupp disse...

Poxa, fiz besteira e meu comentàrio nao foi...
O que quis dizer antes é que no Brasil tanto idosos como gràvidas e crianças sao tratadas como incapacitadas. Na Suécia eu sinto mais respeito pela pessoa alì dentro.
Tu jà prestou atençao na criaçao das crianças aqui na Suècia, Sonia? Elas sao tratadas como gente, e nao como bichinho de estimaçao.
Eu, com 23 anos, ainda me sinto criança quando almoço com meus tios no Brasil, e ainda preciso ouvir eles dizerem que minha mae é muito boazinha de me "deixar ir" morar na Suécia.
Resumindo, eu prefiro ser tratada como gente e precisar pegar a fila do tamanho que for pro resto da vida. rsrs
E acho que a chave pra se morar bem em um outro paìs é o que tu disse: "Eu acho que para eles funciona de outro jeito.". Isso è respeito pela cultura. Por mais que a gente nao entenda alguma coisa, a gente tem que pelo menos imaginar o que tem por tràs de tudo aquilo, qual a carga cultural que moldou esse aspecto, né?

Beth/Lilás disse...

Querida Somnia,
Primeiro dizer que gostei mais desse template, pois fica mais clean e fácil de visualizar suas lindas fotos.

Quanto à atitude dos suecos ou povos europeus, agora entendo e vejo que têm razão de assim procederem, já que o país dá o conforto e supre as necessidades que precisam, assim fica até melhor, pois o velho acaba tendo uma melhor auto-estima.

Só para ilustrar, fazendo um parâmetro com seu texto, certas diferenças de atitude até mesmo aqui no Brasil, diferem de cidade para cidade.
Veja você que morei por muitos anos na montanha, Petrópolis, e lá o tráfego apesar de cheio agora, mas o povo tem mais educação e entendimento dos direitos do pedestre, assim que em todas as faixas nas ruas, os veículos param e dão passagem aos transeuntes. Sempre agi assim e, claro, quando cheguei em Niterói fazia o mesmo.
Mas, o povo daqui é como o carioca, bemmal educado no trânsito e não pára nunca em faixas.
Quando eu parava para alguém atravessar, ficavam me olhando como se eu fosse lelé da cuca, dando passagem assim de graça pro povo.
Continuo fazendo isso, pois acho que o certo é assim e não vou mudar mais, mesmo que olhem pra minha cara e fiquem meio na dúvida se devem ou não atravessar.

beijos cariocas

Lúcia Soares disse...

Tô atrasada pra comentar...
Então, Sônia, é questão de cultura mesmo.Aqui no Brsil as pessoas extrapolam em seus direitos. Tem até um caso de um "bacanão",vestido como um boyzinho, com tudo em cima, jovial, cabelos pintados, roupa de grife, que fêz o maior "auê" pra ser atendido numa fila preferencial de banco. Como eu estava na fila e uma senhora que tinha direito à preferencial mas não queria ir, ficou encolhida, vendo o desplante dele, eu a coloquei na outra fila e "fiz" com que ele visse que ela estava na frente dele, ele ficou P da vida e eu falei pa ele ouvir: se queria se passar por jovenzinho, vestido daquele jeito, "marombado", então que usasse a fila "normal". Saí pisando duro, sem saber se ele ouviu ounão. Mas quem ouviu me apoiou!

Celina disse...

Ola,
Eh a primeira vez que comento. Cheguei no seu blog pelo blog da Luciana Haland. Sei que to bem atrasada nos comentarios, mas nao podia deixar de comentar.
Moro no Japao ha nove anos e aqui tb nao tem fila preferencial. Nos bancos pega-se senhas e nos supermercados qdo a fila comeca a ficar comprida, abrem-se mais caixas.
NOs trens e onibus tem assentos preferenciais, entao muitos japoneses nao dao lugar a idosos, a nao ser que sejam muito velhos. No comeco estranhava, mas agora ja acostumei e eu tb so dou lugar qdo eh muito, mas muito velhinho ou qdo mulher ta quase entrando em trabalho de parto. (aqui no Japao os idosos sao tb muito ativos, escalam montanhas, trabalham na lavoura)
Uma das reclamacoe que ouco de muitos brasileiros eh que os japonese nao tem a gentileza de segurar a sacola e bolsas nos trens lotados. Aqui nos trens tem lugares acima dos assentos pra guardar as bolsas (como os onibus de longa distancia no Brasil) e ninguem rouba, entao na cabeca do japones eh, se a bolsa ta pesada e so colocar no quarda bolsas.
Abracos