22 junho 2010

Celebrando a liberdade? Sobre o casamento da Princesa Victoria e as escolhas que todas nós devemos fazer todos os dias


(Indo contra a corrente, a Princesa Coroada da Suécia Victoria entra com seu seu pai, o rei Carlos Gustavo XVI, para celebrar seu casamento, Suécia, junho 2010, fonte: Boda Real)

No ano de 1976, numa sexta-feira a noite, às vésperas do casamento do jovem Carlos Gustavo e a bela Silvia, o grupo ABBA era o único grupo pop a se apresentar na cerimônia cheia de pompa, circunstância e música clássica. Brincando de rei e rainha, os quatro cantores suecos diziam para os noivos tomarem a vez deles, se soltarem, relaxarem e dançarem, porque eles eram os donos da festa! O evento era parte das celebrações do último grande casamento real que a Suécia assistia até sexta-feira passada.




("Friday night and the lights are low...", ABBA no dia do casamento do rei Gustavo com princesa Silvia, 1976)

Foi para os noivos daquele ano que "Dancing Queen" foi criada e provavelmente naquela noite nem o grupo, nem os noivos e convidados imaginariam que até nos trópicos nós passaríamos a dançar esta música por décadas e décadas em outras cerimônias de casamento ou não.

Sexta-feira, 18 de junho de 2009, deixei marido e filho e pedaleis algumas quadras até a casa da amiga sueca Helena, onde tantos outros suecos e mais uma brasileira se reuniam para assistir a tal prévia que concorria com jogo da Copa do Mundo na minha casa e em muitas outras.



(Famoso pré-concerto de casamento, na véspera do casamento de Victoria e Daniel, choro para lá e para cá..., Suécia 18 de junho de 2010)

Há gente que fez questão de não ver. Há gente que viu e teve mais argumentos contra a idéia fácil de se apoiar de que manter uma família real num país parlamentarista é desperdício de dinheiro público...

Eu, por minha conta, já que a coisa estava ali acontecendo, tratei de presenciar o evento, junto de amigos que provavelmente nunca mais verei, num dia em que o país celebrava um dos maiores eventos, também políticos, das últimas décadas.

No último post (para o qual as respostas foram muito boas!) perguntei sobre o que vocês achavam da decisão de Victoria, que nascida e crescida num país onde as leis tentam colocar mulheres e homens no mesmo plano, havia decidido entrar com o pai e não com o noivo Daniel na Igreja. Esse é o costume de décadas aqui e inclusive Victoria só estaria celebrando tal momento como Princesa Coroada, porque esta mesma lei a tratou como "digna de", apesar de ter nascida mulher.



(Victoria enxuga as lágrimas do marido, Suécia, junho de 2010, fonte: Boda Real)

Após as discussões a opinião pública parece ter dado a vez à liberdade da mulher em questão. Victoria entrou sim com o pai na Igreja e, apesar de não ter seguido a moderna tradição de seu país democrático, seguiu seu desejo pessoal. Talvez o amor e o respeito pelo pai, talvez a jogada política de colocar o velho rei - quase esquecido desde seu casamento em 1976 - na mira da câmera novamente. Fato é que por aqui só se fala na beleza de Victoria, na sua simpatia, na emoção tão contida do noivo que desabrochou em dois momentos em muitas lágrimas enxugadas pela noiva.

Milhares de pessoas se sentiram como convidadas no casamento tão especial e sentiram como se dele tivessem participado de fato!

Só vi o casamento pelo youtube, porque estava fazendo compras para a minha Vernissagem e não cheguei a tempo, mas tal como na sexta a noite me emocionei que nem me emociono em casamentos verdadeiros. Vocês podem acompanhar a versão curta que coloquei aqui ou ver outras na internet... Poderão também ouvir em sueco (que eu acho lindo!) a cerimônia que quase todos nós sabemos de cor em português...

Talvez você ache coisa de programa de Amaury Júnior (como meu romântico Renato achou), talvez se emocione como eu...

Fato é que não sei bem a razão, mas eu fico sozinha enxugando lágrima em situações onde sinto amor verdadeiro. Talvez porque eu estivesse exatamente preparando minhas telas, cujo tema são casais apaixonados e no dia de seu casamento, para a vernissage. Talvez ainda, e creio que seja este o motivo mais forte, porque eu tenha me lembrado de 2002, quando entrei com meu pai numa Igrejinha minúscula em Indaiatuba.

(Principais cenas do casamento de Victoria e Daniel e sua entrada com o pai, Suécia,19 de junho de 2010)


Depois de 6 anos de namoro com o moço da minha vida e de nós dois termos situação muito parecida: independentes finaceiramente há anos dos pais, vivendo cada qual em seu canto, juntamos nossas economias para ir morar junto. A idéia de apenas um churrasco informal e uma troca de alianças no meio da partida foi cedendo lugar para mais e mais "tradição". Na época eu lutava para não cair nas amarras do que queriam que a gente fizesse e acabasse perdendo o que era realmente importante para nós dois.

Nesta luta, vestido curto decotado, comprado na MOficcer com meu suado dinheirinho de professora de cursinho. Igreja no meio do campo, casamento celebrado pelo meu amigo de anos, Pe. Mansur, e corte de qualquer formalidade que não fizesse sentido pra gente. Pensando em marcar minha independência e a revolução pessoal que fiz para ser eu mesma, cogitei com minha mãe que iria entrar sozinha na Igreja. Não achava sentido em entrar com um pai, quem eu sempre havia visto como sendo bastante machista e quem sempre me criticava por ter saído de casa para ir estudar e e casar tão "velha" com 31 anos de idade.

Meu pai quando soube por minha mãe da decisão da filha mais velha, baixou a cabeça em sua tristeza e nada respondeu. Passei a pensar em meu ato, pesar o quanto aquele símbolo mudaria o que eu havia sido até e feito até então... e fui mudando de idéia.

Levei meu pai para escolher camisa, terno e vi seu orgulho junto de mim. Dentro do camarim dei-lhe um abraço apertado e disse: "tá bonitão Seu Zé!", e vi estampado um sorriso naquele homem rústico, crescido na roça e que pouco havia aprendido a manifestar seus sentimentos. Ele estava feliz e eu também.


(Eu e Seu Zé, no dia do meu casamento, janeiro de 2002)

Minha entrada na Igrejinha de Indaiatuba foi maravilhosa, embora até então eu nunca tivesse tido a fantasia de que assim o fosse. Senti-me Victoria, princesa, tudo que podia ser... Meus amigos e minha família reunida, apesar da chuva, num dia tão especial para eu e Renato. A alegria tão profunda em meu pai me tomando pelo braço me fez pensar que se ele ainda achava importante me "entregar" para o futuro marido, então assim ele pensasse. Eu havia feito isso eu mesma muito tempo antes e sabia porque estava ali...

Verdade é que eu o amava, assim como amava Renato e não queria magoá-lo em nome de um ato que provasse o que já estava mais que provado.

Um ano e dois meses depois meu pai faleceu. Teve uma parada cardíaca fulminante e recebi a notícia de meu irmão pelo telefone. A dor de tê-lo perdido foi imensa na época e, gracias!, deu lugar para um sentimento muito tranquilo e profundo com o tempo.

Agradeço tanto por eu ter cedido na época porque talvez a culpa tivesse me consumido ainda mais... E não sei se eu me perdoaria... Talvez porque, como eu mesma já entendi há certo tempo, "há certas lembranças que nem as manchas do tempo conseguem apagar"...

E foi pensando nesta liberdade, em tantas questões que fazem diferença para um e não para outro, que provavelmente eu veja na decisão da Princesa Coroada da Suécia uma decisão pessoal a ser respeitada, embora eu acredite que nós mantenhamos sim uma idéia machista de ter que ser levada por quem cuidou de nós e entregue a quem cuidará...

A história dos casamentos arranjados durou centenas de anos e está sim representada no ato que ainda mantemos nas nossas cerimônias. Eu não apóio esta idéia, mas eu creio que casar ou não, entrar com o pai, o noivo ou não, tudo isso pode adquirir significados diversos, dependendo de quem ou como é feito.


(Eu e Renato, entre as nossos desejos e o desejo de agradar os que se ama, no dia do nosso casamento, janeiro de 2002)

Se acho que vou me casar e meu marido tem a obrigação de me sustentar e eu de manter seu prazer e tranquilidade, então mantenho a tradição machista. Não dá para pedir que alguém que se case vendo no seu noivo a figura do patriarca use de símbolos que não lhe façam sentido.

Apesar de achar horrível eu respeito. Não penso assim e usei do mesmo símbolo, resignifiquei né Iara? Vai entender! É mesmo mais complicado do que deveria ser, como afirmou a Daniela nos últimos comentários.

O que sinto é que deve valer é a opinião de quem está no jogo: o noivo e a noiva. Porque melhor do que celebrar tradição ou modernidade é celebrar liberdade. E nessa eu creio que é uma coisa!

...

Ah! para ver fotos exclusivas feitas por uma brasileira na Suécia, clique no blog da Grace Olsson, e confira tudo o que ela fez para conseguir imagens lindíssimas da festa em Estocolmo no sábado.

Outro vídeos e texto em espanhol (sugerido pela Érica) vocês podem conferir neste link oficial do casamento.

Mais opiniões e diferentes links foram sugeridos também pela Dani, cujo comentário está no meu último post. E se você também escreveu sobre o assunto, partilhe o link com a gente nos comentários!

12 comentários:

Josy disse...

Olá!

Me emocionei ao ler este post,você escreveu de uma maneira muito profunda.Eu admirei bastante a atitude da princesa e imagino que os suecos também devem ter se comovido.Como eu disse no post anterior entrar com o pai na igreja já não é mais machismo.Eu fiz um post sobre isso e disse que os tempos mudam.Assim como antigamente somente as virgens podiam entrar com véu e vestido branco e hoje em dia já não tem mais nada disso,assim é entrar com o pai,nada melhor que deixar uma pessoa tão querida te acompanhar neste momento.Quantas vezes nosso papai ou mamãe nos teve nos braços com o maior orgulho e disse é minha filha(o),ou nos abraçou em um simples gesto de ternura...Enfim acho bobeira criar tão caso com relação a isso.Defendo mais a questão da liberdade de escolha.

Forte abraço aqui de Belo Horizonte

Catiana disse...

Que lindo o post! Eu concordo com atitude da princesa,sem falar que estamos no Sec.XXI... temos liberdade de escolha.
Quem dera se meu paizinho estivesse vivo para me levar até o altar....Beijos!!!

Beth/Lilás disse...

Soninha,
Eu tenho certeza que esta sua vernissage em cima do tema 'casais apaixonados' ficará primorosa. Você tem uma característica legal e visivelmente encantadora porque consegue reunir a arte de sua pintura com aquilo que sente e escreve. Na verdade parece que tudo isso faz parte deste seu exercício enquanto pintora.
Sabe, eu também me casei com 30 anos e sabia o que queria e fazia, tudo foi comprado por mim e pelo meu noivo, pouca participação tivemos de nossos pais, a não ser a festa que minha sogra não quis abrir mão e aparecer para seus amigos, mas nós já éramos independentes financeiramente e de nossos próprios pensamentos, fizemos tudo do jeito que quisemos e foi lindo. Cedemos em algumas coisas, apenas para agradá-los, mas foi tudo feito do jeito que quisemos e sonhamos.
Achei você linda de MOfficer, simples e moderna. E o ato de dar o privilégio pro seu pai foi muito maduro, demonstrando assim um espírito grande e amoroso.
Lindo post! Me emocionei lembrando de certas coisas e só vc mesma pra fazer isso comigo, sua danada!
beijinhos cariocas

Iara disse...

Que legal! Contando sobre a minha amiga, sem querer, eu estava descrevendo a sua situação! Ao contrário de mais gente que comentou, eu acho sim muito machista este ato do "ser conduzida". Mas como eu postei, é um símbolo, só isso. Que perde completamente esse sentido fora de um contexto. Não acho que, de maneira nenhuma, compensa magoar alguém que a gente ama por conta disso, se você se sente livre pra fazer suas escolhas. E, olha, que bom que você fez o seu pai feliz, viu?

Lúcia Soares disse...

Adoro casamentos, acho importantíssimo, é um "selar" o compromisso. Pena que a simbologia toda se acabou, hoje a maioria se casa dando festas riquíssimas e em 2 anos estão separados.
Minha filha mais velha casou-se, como ela mesma diz, "do jeito que você quis, mãe", é eu achando o tempo todo que ela estava querendo aquilo mesmo. Muitos anos depois ela disse que para ela e ele, tanto fazia, eles queriam eram viver juntos, não importa por qual cerimônia passassem.
Como os pais dele são espíritas, ele não era batizado, mas como sabia que eu queria muito que se casassem na igreja, ele se batizou, tudo iniciativa dele, não houve pressão nenhuma. Apenas quiseram me agradar. E amaram tudo, e se Deus quiser, é o tipico casamento "... e viveram felizes para sempre"!
rsrrsr (um post).
Você escreve lindamente, emocionantemente e eu sempre concordo com tudo.
Beijos!

Lúcia Soares disse...

Ah, seu vestido é lindo demais! Ainda o tem? Deve ter, né? Chiquézimo e simples ao mesmo tempo, sem "rococós e frufus", no ponto certo.
O da princesa também é maravilhoso.
Defendo totalmente vestidos de noiva que não sejam tomara-que-caia.
Este decote, pra mim, é só de festas. Mas acho noiva linda de todo jeito. Não importa nada. É só gosto pessoal. Cada um com o seu, não é?
Bj

Glorinha L de Lion disse...

Ai Sonia, que emocionante! Chorei muito ouvindo ABBA e vendo o amor nos olhos da Victoria e do Daniel. Que rainha linda e carismática os suecos terão! Podia-se sentir o amor dos dois, no carinho das mãos, no olhar de felicidade e cumplicidade. E o show de música antes do casamento foi emocionante demais! Como não se emocionar com amor de verdade? Eu me casei aos 20 anos. Não tinha mais pai e meu irmão entrou comigo representando meu pai falecido, Eu era jovem demais pra sentir a proporção de responsabilidade e amor que um casamento necesssitam. Sou feliz com meu marido, ele é um homem maravilhoso, mas acho que me casei cedo demais. Agora não adianta mais lamentar, aconteceu o que escolhi que acontecesse nas circunstâncias. Tinha uma mãe repressora demais e pra mim casamento era sinônimo de liberdade. Sou uma romântica incurável como disse antes. E concordo com vc e com os Beatles: all we need is love!
Beijos amorosos.

Beth/Lilás disse...

Soníssima,
Voltei hoje para ver os vídeos direito, pois ontem minha conexão estava aquela coisa.
Que lindo o vídeo do concerto da Vitória e Daniel, ela parece sempre tão feliz e segura, altiva e romântica. Sensacional!
O outro da época de 76, nós aqui no Braisl nem sabíamos que existia uma rainha na Suecia para a qual esta música foi composta, só sabíamos mesmo era rodopiar ao som do ABBA marvilhoso.
Adorei ver e saber dessas histórias aqui por você, porque também sou uma romântica incurável.
bjs cariocas

Myrna disse...

Oi Lindona!!!
Tem selinho pra você no meu blog!
Beijocas
http://www.juntoemisturado.nossoblog.blog.br/?p=50

Beijocas

Myrna

Lu Souza Brito disse...

Somnia, eu estou aqui arrepiada e emocionada com os videos do concerto, do casamento e também d música do Abba. Não tem como não se emocionar.
Eu como a Glorinha sou uma romantica daquelas. Acho que nestas coisas tem que falar o coração. Você estava uma noiva linda! Eu me casei ano passado, depois de morar quase 3 anos juntos. Uma decisão nossa, claro, mas neste ponto familia sempre quer opinar e querem que as coisas sejam do jeito deles. Eu bati muito o pé, sofri muito e cedi muito pouco. Não achava justo. O sonho era meu, nao deles. Nunca tive nada contra a cerimonia de casamento, acho lindo e me via realizando isso algum dia, mas so fiz quando achei que devia. Tive que ignorar as críticas ao eu vestido tomara que caia sem véu e grinalda e sem luvas. Queriam me ver como as noivas de 200 anos atrás. Por este motivo, somente uma amiga que foi comigo escolher o vestido o viu antes da cerimonia. Pra todos os outros foi surpresa. Entrei na minuscula igreja aqui de Aldeia da Serra acompanhada do meu irmão, que estava mais emocionado e nervoso do que eu. Foi lindo e nao me arrependo de nada. Acho também que atualmente quando um pai leva a filha ao altar, não está "passando a responsabilidade ao marido" ou entregando a como um pacote. Acho que isso já era. As pessoas nem pensam nisso. Elas pensam mais no orgulho de poder conduzir alguem que ama em um momento tão unico de sua vida.
Ai que me passou um filme agora sabia???
Adoro casamentos...e a Victoria estava maravilhosa, dá pra sentir o amor deles no olhar, no toque carinhoso...chorei vendo os videos.
Ah..A rainha Silvia em sua ultima visita ao Brasil esteve em Ilhabela e tive o prazer de vê-la a poucos metros de distancia. Carismática, simples, um luxo de pessoa.

Maariah disse...

Somnia, li atentamente este e o post anterior. Obrigada por me fazer pensar. Não sou casada e nem faz parte dos nossos planos o casamento. Sei que a minha mãe prefereria ver a filha casada, mas acho que já se acostumou à ideia. Se por acaso me casasse na Igreja, na realidade nem questionaria se entrava com o meu pai ou não. Entrava com ele e ponto. Se calhar por eu, particularmente, não dar muito importância a isso. Mas achei muito interesante saber que na Suécia a tradição é outra e isso sim fez-me pensar, acho muito interessante esta igualdade de tratamento. Mas a questão aqui era a escolha da Princesa e achei muito bonita. Tal como a sua Somnia, liberdade pessoal acima de tudo.

Agora, o casamento em si foi lindo. Choro ao ver os olhares cumplices, a troca de carinhos, os sorrisos. E Victoria irradiava felicidade. É impossível ficar indiferente a tanta alegria e amor.

Juliana disse...

Somnia, estou com um nó na garganta.
Da sua história, me fica uma coisa fundamental: quando a gente sabe quem é, o que quer, não precisa provar nada pra ninguém,né? Algumas concessões a quem amamos são apenas gestos de amor e ponto.

Adorei o post e o blog.

um beijo.