Pular para o conteúdo principal

Sobre os amores e amizades "incondicionais"

("Amigos são mágicos", Sascalia)

No caminho de volta da escola, vinha eu e minha amiga Liana no ônibus já que o vento e a chuvinha nos fizeram desistir de pedalar. Entre uma prosa e outra acabamos por falar dos diferentes tipos de relações que desenvolvemos com as pessoas.

O assunto começou depois dela virar pra mim e dizer: "Vê se pára de reclamar! Você já reparou como reclamou hoje?"

É claro! Uma alfinetada na sexta-feira não é nada tão aprazível, mas levei mesmo numa boa. Mesmo porque ela disse numa boa e temos daquelas amizade saudáveis onde se tem abertura pra falar o que se está sentindo. E foi aí que expliquei a ela que eu já havia percebido que sou mesmo o tipo reclamão quando estou com ela. Não quer dizer que eu não adore sua companhia etc. Eu gosto e muito! Minha amiga é carinhosa, sabe ouvir, é divertida e é companheira. Sem contar que é meio multi uso, do jeito que admiro.

E obviamente eu não sou só uma mala sem alça ao lado dela, caso contrário, ela também seria maluca de querer alguém assim ao seu lado todo santo dia na escola e fora de lá.

Mas a questão que ficou para mim foi: por que a gente se permite ser um tipo de pessoa com um e um outro tipo com outra?

Quem me conhece no blog deve imaginar uma Sônia super ultra mega positiva o tempo todo? Não sou. Algumas amigas podem até pensar que sou a fala besteira e pensa em sexo e em bobeira vinte e quatro horas? Também não. Intelectual e sempre criativa? Errou de novo. Ah! mãezona e esposa dedicada? Nem sempre. Sou um monte de gente numa só. E tenho certeza que você também. 

A única coisa diferente é que vestimos uma "cara" dependendo do ambiente e com quem estamos.

A gente é sempre uma mistura de tantas coisas. Vocês todos sabem disso e isso não nenhuma novidade.

O que se revelou uma novidade foi eu perceber há algum tempo como eu me permito ser uma chatonilda do caramba com a Liana ou pegar no pé dela e como eu me permito ser super Polyana com outras amigas. 

É curioso perceber os vários "casamentos" que vamos fazendo ao longo da vida. Como a combinação de duas personalidades diferentes ou não resulta num terceiro tipo de relacionamento que não é igual a nenhum outro.

Refletindo sobre a amizade que temos com diferentes pessoas eu tentei explicar a minha amiga que só com ela e mais umas duas outras eu sou de ficar fazendo gracinhas, pegando no pé e reclamando da vida. Me permito ser a Sônia maior chata com ela, mas não quer dizer que o sou com todas as outras. Ela ficou chateada com minha explicação. Porque eu deixo o lado bom para os outros só? 

Não sei se viajo demais na maionese, mas pensando com meus botões eu diria que algumas pessoas não amam incodicionalmente, mas elas parecem amar incondicionalmente.

Pessoas assim estão lá todos os dias e lhe sorriem quando você chega. Elas parecem amar independente do que você faça e estão sempre prontas para lhe ouvir e parecem sempre disponíveis para fazer o que você precisa. Elas cedem o tempo delas e trocam suas atividades pelas suas. Elas deixam de pensar nos próprios problemas para lhe ajudar a pensar o seu. Elas preparam jantares gostosos, trazem presentinhos especiais, cuidam de suas coisas como você mesmo se esquece de cuidar. E você nunca vê. 

Eu faço isso com outras pessoas, faço até no casamento, mas não o faço com Liana. Nem com ela, nem com minha irmã, por exemplo, de quem eu também creio receber amor incondicional. Nem com minha mãe. Talvez eu não faça com gente que não me cobre nada e vai me dando... dando como seu eu só pudesse delas receber. Ou como se não fosse preciso que elas também recebessem de vez em quando. 

A gente geralmente não percebe muito porque está centrado na gente mesmo e, claro, tem a certeza de que esse outro estará amanhã e depois de amanhã também ao nosso lado, pronto para receber a gente de braços abertos. E sorriso no rosto. E ouvido atento.  

A verdade, porém, é que isso é mentira. Elas não estarão lá sempre. Elas provavelmente irão se cansar uma hora. Talvez se distanciarão, talvez simplesmente partam. É assim que acabam as amizades e é assim que acabam os casamentos e relacionamentos amorosos.

O grande erro é que a gente ache que exista algum amor incondicional. Eu não sei nem se o amor de mãe o é. Talvez até seja ou talvez seja diferente. Uma mãe pode amar muito mais intensamente ou mais carinhosamente dependendo do tipo de amor que damos a ela em troca. De uma coisa eu tenho certeza amor entre amigos e entre casais não é e nunca será incondicional.

É preciso regar aquela tal plantinha e dar água em troca. É preciso cuidar da porcelana delicada da qual é feita o amor entre amigos e amantes. É preciso dar e não só receber. 

Isso eu já havia aprendido há um bom tempo quando eu era a plantinha não regada por amigas que não percebiam que só sugavam, sugavam e sugavam. Percebi que de algumas amizades eu deveria me afastar, já que não havia praticamente nada de mão dupla e o amor - qualquer que seja - precisa ser recíproco para ser saudável. Para ser amor de verdade.

Percebi sim isso quando eu fazia o papel de quem só dava, mas só agora venho percebendo que, em alguns casos, eu é que estou na outra posição e posso fazer do outro o que faziam de mim. 

Ainda que minha amiga venha e diga: "Não é bem assim, também tenho coisas legais com você", e eu tenho certeza disso, sei que se é preciso ser mais cauteloso todos os dias para não deixar que amizades morram e se percam porque não se soube cuidar delas. Ou que amores deixem de ser tão intensos porque não soubemos receber.

E todas as vezes que alguma amiga me disser algo que me ajuda a acordar para isso eu sempre vou agradecer porque só isso pode ajudar a construir amizades sinceras e duradouras.

Obrigada querida Liana.

Comentários

Beth/Lilás disse…
Que linda reflexão Somnia!
Você parou e pensou, você deu aquele stop sabe, precisou apenas que ela lhe dissesse esta pequena frase "pare de reclamar!"
Ela é sua amigona mesmo! Asim como sua irmã, sua mãe e aquelas outras pessoas a quem você se revela inteira. Também sou assim, aliás acho que todos nós o somos, porque antes de mais nada, somos humanos e nossa humanidade é que faz com que ajamos assim, mas não quer dizer que não amamos aquela pessoa tanto quanto amamos outras.

Pela terceira vez hoje, estou indicando um lindo texto escrito pela Luma e que serviu como uma luva para complemento desse seu lindo post.
Veja aqui:

http://luzdeluma.blogspot.com/

Depois, passe lá no meu pedaço e refresque-se com o post que deixei hoje, pensando também em você que adora música e é poeta enrustida com estes posts que acabam sempre me emocionando.
Tô ficando apaixonada por ti sua bruaca! kkkkkkkkkkkk

beijinhos cariocas


(Veja email que mando pra ti hoje)
Você pode até ser um "amontado de gente", mas o que mais admiro em você, é sua sinceridade!
O modo como você encara tudo e todos! Parabéns mulher!
Parabéns por ter amigas de verdade! Pode ter certeza que sou uma delas!!

Um lindo fim de semana!!
Lúcia Soares disse…
Profundo, Sônia. O Arthur a T´vola (não sei se se lembra dele, morreu há uns meses, partiu pra carreira política e deixou a poesia e a prosa meio de lado), tem uma frase que diz mais ou menos assim: que a gente trata diferente a quem nos ama, justamente pela certeza desse amor. Podemos maltratar, falar ríspido, mostrar nosso mau humor, que a pessoa está sempre ali, presente.
Eu acho que há amor incondicional, sim. A gente não pode desistir das pessoas. Todos temos momentos bons e ruins, todos podemos ser chatos ou maravilhosos. Não acredtar no amor é meio caminho andado pras coisas não darem certo. É como se disséssemos: Ah, eu SABIA que um dia ia terminar, por isso não...(e aí se desfia um rosário de coisas que não fêz, porque SABIA qe não ia dar certo. Entendeu? Ou "viajei"? (Faço isso muito! Mas é que sua frase "De uma coisa eu tenho certeza amor entre amigos e entre casais não é e nunca será incondicional." me assustou. Claro que existe amor assim!) Bj
Somnia Carvalho disse…
Lilassss,

é etranho ne? tipo assimmmm eu poderia nao dizer o mesmo se fosse outra pessoa. mas tava la minha amiga com quem eu sei que posso mostrar meu lado todo chato dai eu ficava: baita dor de cabeca! a aula nao acaba! bla bla bla! sabe???

e ela me deu um chega pra la! um acorda Sonia!

isso foi otimo, embora eu ache que ela tenha se chateado comigo... mas a gente vai se acertando, espero.

Acho que quando a amizade e boa e assim, mas so para dizer que depois desse seu comentario nAO VAI MAIS ROLAR AMIZADE ENTRE A GENTE... bruaca e a vovozinha do vizinho! rs...

brigada! vc me chamar de bruaca nessa circunstancia foi uma delicia!
Somnia Carvalho disse…
Barbieeee,

fui la no seu pedaco, to tentando enviar o comentario de parabens pela lua de mel e tudo o mais, pelo seu paizinho e nao entra... to esperando, mas parece que nao vai... nao entendo o que e, mas blogspot fica dando erro aqui na suecia a noite... estranho...

entao, brigada mesmo!!! e um beijo enorme
Somnia Carvalho disse…
Lucinha eu lembro sim do Arthur da T Avola!

e isso mesmo que eu penso! a gente nao da valor porque ta ali de graca sempre!

sabe que eu deletei varias vezes minha frase sobre o nao existir amor incondicional.. dai pensei e nao chegava a uma conclusao, mas ainda assim eu deixei.

Veja se eu me esclareco, embora vc possa continuar discordando, claro:

eu imagino que na amizade e num relacionamento entre casal a gente ama mesmo, da tudo e nao espera nada, conscientemente em troca.

mas imagina a situacao de vc dar sempre e esperar algo, e isso nao vem... voce lava, arruma a casa, passa pro esposo (eu juro que nao estou falando do meu), cozinha, cuida dos filhos, incentiva-o no trabalho etc e ele ta la na vida dele... nunca se lembra de dizer: obrigado!

ou o contrario: o marido apaixonado que demonstra tudo pra mulher, traz presente, e carinhoso, ajuda em casa, sempre pensa neles em primeiro lugar ta ta mas a mulher so sabe reclamar... so sabe por defeito!

tem uma hora que o amor vai gastando... eu acho.

Digo isso de urubuservar as pessoas, os relacionamentos... todo mundo vai se cansando.. pode demora um ano, dois, dez.. e pode durar uma vida toda... pode ser que a amizade nunca acabe, o casamento tambem nao... mas gasta, deixa menor do que poderia ser... a via de mao unica nao e saudavel entao alguem vai estar bem menos feliz...

e iss oque eu queria dizer... entend? entao eu creio que mesmo que a gente nao saiba que espere a gente sempre espera algo em troca... que no fundo e amor tambem...
Unknown disse…
olá minha amiga querida,
Obrigada pelo texto, obrigada pelas palavras...me emocionei ao ler e fiquei feliz por voce parar para pensar e refletir...
Sou daquelas que acreditam que a sinceridade, o amor e o carinho sao a base de uma amizade verdadeira. E assim sou com voce!!
Pra mim voce nao combina com o tipo reclamona o tempo todo...voce é muito melhor do que isso, e é por isso que eu perguntei - porque eu tenho que ficar com a "pior" parte??!!
Sou sua amiga sim! E assim quero sentir e viver!
Beijos com carinho
Liana
Daníssima disse…
Oi Somnia,
eu não sei como vc define o lado que dá pra mim... o lado da nossa amizade... mas eu agradeço por tê-lo. Aliás, me sinto super privilegiada por sermos amigas. Obrigada! Fiquei aqui com vontade de abraçar vc e a Liana...
Somnia Carvalho disse…
Li,

simmmm... eu tenho zilhares de defeitos, mas se tem uma coisa que eu nao tenho e de nao conseguir refletir.

Eu acho que quando a gente ouve algo que nao gosta no comeco pode incomodar, doi, da raiva.. isso sempre e mais importante, no meu ponto de vista, do que nao sentir nada... como se nada tivesse acontecido.

Eu realmente acho que tem uma coisa que funciona nos relacionamentos que faz com que a gente seja de um jeito com cada um, mas isso nao quer dizer que eu acha que deva ser assim. Nos temos muita coisas boas juntas e nao e so as criancas, voce sabe disso! Por isso mesmo eu nao gosto de pensar que acabo por tornar o tempo uma chatice, porque aproveito para falar o que falaria para mim mesma.

Andei pensando mais depois que escrevi o texto e acho que tem mais a ver com o fato de estarmos o tempo todo juntas... cria uma intimidade da gente tratar como da familia, entende? E o absurdo e que eu trate alguem que eu sinta como da familia assim... reclamando e tal... ao mesmo tempo eu falo com voce como falo com meu irmao e irma que sao mais novos: eu fico enchendo eles e fazendo gracinhas, dou risada, dou tapinhas...

Eu nao sei bem como reagir com alguem se tenho que pensar muito no jeito como devo ser... e para ser sincera, quando sou muito sincera estando ao seu lado eu sou isso mesmo: sou livre, falo coisas legais, reclamo e brinco ate exageradamente...

eu preciso so compreender ate o ponto que isso deve ir ou deve parar... e isso nao e facil.

beijo
Somnia Carvalho disse…
Danissima queridissima!

Eu precisaria pensar! rs...

mas toda vez que ouco ate sua escrita eu ja ouco sua voz e sinto sua maozinha carinhosa...

acho que a historia nossa toda da unicamp e tal criou um selo diferente: a gente viveu outros momentos juntas e o que foi diferente foi ter que comecar a criar uma relacao onde eu agora tinha um monte de coisa sobre bebe para falar... mas acho que a gente ta aprendendo nao ta?

tenho mooooita saudade de voce! e das conversas da sexta e tudo o mais!

um beijo enorme e um abraco gigante!
Luciana disse…
Ih, esse post eu não tinha visto, então volto mais tarde para ler.
Beijo
Eveline disse…
Oi amiga,
Sabe que amiga boa é aquela que aceita todas as tuas versões. Afinal não somos iguais todos os dias e somente uma boa amiga é capaz de aceitar e gostar do jeitinho que a gente é.
Amei esse post, muito verdadeiro.
Beijos e te cuida
Eveline
Anônimo disse…
A gente acaba confiando tanto no amor dos outros que esquece de cultivar, realmente. Acho que muito disso, no meu caso, se deve ao fato de eu achar que precisa vir là de dentro, quando na verdade eu também posso fazer um esforcinho, certo?
Se somos pessoas diferentes com diferentes pessoas, somos entao de outro planeta quando em outro paìs?
Eu me sinto diferente em lugares diferentes também, e fico feliz de ter a liberdade de mudar, sem ninguém me cobrar o meu "normal" de volta. Afinal, quem cobraria està no lugar onde eu vou voltar a ser "aquele eu" na pròximo vida.
Acho que o importante é viver conscientemente e buscando juntar os melhores pedaços de cada uma pra nos construir.

Postagens mais visitadas deste blog

"Ja, må hon leva!" Sim! Ela pode viver!

(Versão popular do parabéns a você sueco em festinha infantil tipicamente sueca) Molerada! Vocês quase não comentam, mas quando o fazem é para deixar recados chiquérrimos e inteligentes como esses aí do último post! Demais! Adorei as reflexões, saber como cada uma vive diferente suas diferentes fases! Responderei com o devido cuidado mais tarde... Tô podre e preciso ir para a cama porque Marinacota tomou vacina ontem e não dormiu nada a noite. Por ora queria deixar essa canção pela qual sou louca, uma versão do "Vie gratuliere", o parabéns a você sueco. Essa versão é bem mais popular (eu adorava cantá-la em nossas comemorações lá!) e a recebi pelo facebook de minha querida e adorável amiga Jéssica quem vive lá em Malmoeee city, minha antiga morada. Como boa canção popular sueca, esta também tem bebida no meio, porque se tem duas coisas as quais os suecos amam mais que bebida são: 1. fazer versão de música e 2. fazer versão de música colocando uma letra sobre bebida nel

Mãe qué é mãe mesmo...

(Picasso, Mãe e criança, 1921) Mãe qué é mãe mesmo... Já deu uma de cientista e foi até o quarto do bebê só para checar se ele respirava. Já despencou de sono em cima dele, feito uma galinha morta, enquanto amamentava. Já caminhou pela casa na ponta dos pés, como uma bailarina, só para não acordar o pimpolho. Mãe qué é mãe mesmo... Já perdeu a conta das mamadas e esqueceu qual o peito deveria dar. Já deu oi pro lindo rapaz que dormia ao seu lado e dormiu antes de continuar a conversa. Já adquiriu habilidades múltiplas como comer com uma mão só e fazer xixi com o bebê no colo. Mãe qué é mãe mesmo... Ama e odeia, ama e odeia. Às vezes chora e muitas vezes sorri. É ao mesmo tempo carrasca e heroína. Mãe... é uma garota crescida com uma boneca de verdade nos braços. Precisa de atenção e carinho tanto quanto seu brinquedo.

O que você vê nesta obra? "Língua com padrão suntuoso", de Adriana Varejão

("Língua com padrão suntuoso", Adriana Varejão, óleo sobre tela e alumínio, 200 x 170 x 57cm) Antes de começar este post só quero lhe pedir que não faça as buscas nos links apresentados, sobre a artista e sua obra, antes de concluir esta leitura e observar atentamente a obra. Combinado? ... Consegui, hoje, uma manhã cultural só para mim e fui visitar a 30a. Bienal de Arte de São Paulo , que estará aberta ao público até 09 de dezembro e tem entrada gratuita. Já preparei um post para falar sobre minhas impressões sobre a Bienal que, aos meus olhos, é "Poesia do cotidiano" e o publicarei na próxima semana. De quebra, passei pelo MAM (Museu de Arte Moderna), o qual fica ao lado do prédio da Bienal e da OCA (projetados por Oscar Niemeyer), passeio que apenas pela arquitetura já vale demais a pena - e tive mais uma daquelas experiências dificilmente explicáveis. Há algum tempo eu esperava para ver uma obra de Adriana Varejão ao vivo e nem imaginava que