16 setembro 2010

Bleu: porque somos pura complexidade

("Bleu", Azul, Somnia Carvalho, Malmö, maio de 2010)

Estava fazendo uma recordação da Suécia com Ângelo ontem. Ele gosta de ver fotos e vídeos de vez em quando e é triste notar que sua cabecinha de três anos já tem substituído tão rápido suas lembranças.

Ele começa a esquecer nomes, lugares onde foi, músicas e até mesmo o sueco, língua na qual era tão fluente... Difícil lutar contra a natureza, me parece...

É curioso pensar que tantas milhares de recordações, experiências pelas quais vivemos em nossa vida na primeira infância ficarão perdidas na memória... elas inspirarão atitudes e sentimentos, mas serão como um sonho, um filme distante. Vejo isso quando Ângelo franze a sombrancelhinha tentando lembrar algum vídeo em que se vê fazendo algo na Suécia, lugar onde nasceu e viveu desde que tinha nascido até algumas semanas atrás.

Dias desses eu discutia exatamente isso com uma antiga amiga quem veio nos visitar, Ludmila. A Lud perdeu sua mãe pouco antes do Natal passado. Eu estava no Brasil e foi um choque saber que Carmem havia se ido. Sempre ficam as promessas não cumpridas, as culpas, os "e se..." os quais fazem a perda ser ainda mais dolorida.

Minha amiga chorou pensando no que poderia ter feito e sentido pela mãe, uma mãe que ela não entendia o porquê, mas a amava tanto. Então filosofei com ela, tendo Ângelo dorminhoco em meus braços: provavelmente haveria tantas recordações de infância, tanto vivido entre elas que Lud não consegue lembrar, mas que tinham já sido suficientes para que sua mãe a amasse para o resto da vida.

O toque da mão de uma criança segurando a sua, um abraço cheiroso, sentir seus cabelos entre os dedos, olhá-la enquanto dorme, beijar sua face... Tudo isso, imagino, deve ficar para sempre na recordação dos pais. Eu disse isso pensando em mim no futuro, pensando no meu pai que também já se foi e em minha mãe, quem eu só vi duas vezes desde que estou de volta no Brasil. Pensei em como eles certamente me amaram tanto e eu não me lembro.

Essas idéias estiveram, de certas forma, presentes quando fiz a tela acima. Pintada às vésperas da Vernissagem que fiz na nossa "Casa Nova", antes de deixar a Suécia, ela foi comprada por Nik, nosso amigo e também marido de uma das maiores amigas que fiz lá, a Nikol.

Nik (o primeiro homem a comprar uma tela minha em mais de nove anos em que pinto) disse ter amado a tela. A melhor de todas, segundo ele. Gostou das cores, gostou da música com a qual me inspirei para pintá-la. Eu, por minha conta, não sei explicar a tela. Sei dizer que num certo dia de maio acordei com a cor azul na cabeça e a música do filme "Bleu", de 1993, o primeiro de uma inesquecível trilogia do polonês Krysztof Kieslowski. Fiquei a ouvir a trilha sonora com os pincéis, um punhado de azuis e brancos e uma tela em branco a minha frente.

A trilogia de Kieslowski vinha me rondando, porque dias antes eu havia usado a mesma tela tentando compor vermelho, ao som do terceiro filme "Rouge". Sem conseguir o que queria eu havia desfeito tudo e passado novamente branco por cima da cor.



(Piano de Zbigniew Preisner, cena do filme "Bleu", 1993)

Nessa nova tentativa meu sentimento ao ouvir o piano, composição fantástica de Zbigniew Preisner, ao mesmo tempo em que a atmosfera do filme, ainda viva em mim, ia dando vasão a uma série de emoções, foi se somando às cores lançadas na tela.

Bleu, enquanto substantivo, faz clara referência ao tom azul, à atmosfera artística e azulada na qual o filme está mergulhada. Quase tudo é azul e é impossível fechar os olhos e não ter esse tom em mente depois de ver ou relembrar o filme. Ao mesmo tempo bleu, como adjetivo no francês, significa triste. E tristeza é certamente o grande tema do filme. Azul e tristeza no francês estão conectadas, embora no português seja mais comum pensarmos em algo como "tudo tranquilo".

No filme a tristeza é provocada também pela perda. A perda, provocada por intempéries da vida, das quais não temos nenhum controle, como a que sofre a personagem de Juliette Binoche logo no início do filme, quem perde, num único acidente, o marido músico e sua pequena filha. O azul como reflexo desses dois sentimentos ainda abrange a temática da culpa, da solidão e da saudade.

Acho que está aí o curioso da arte: eu não sei exatamente o sentimento que o amigo alemão Nik tem ao olhar para a tela que compus. Eu não necessariamente estava triste ou me sinto triste ao contemplá-la. Lembro de estar mais contida e silenciosa e de ouvir até cansar aquele piano e fazer e refazer cores até chegar numa combinação que desatava um certo nó na minha idéia.

Hoje, tive desejo de começar a postar as telas vendidas na vernissagem, já que preciso ocupar a mente cheia de Marina com algo mais. Ao escolher esta tela, batizada também de "Bleu", todas estas recordações de conversas e vivências me vieram à mente.

Talvez reflexo do dia meio cinza e chuvoso de São Paulo. Talvez também de certa saudade do meu ateliê em frente ao azul do mar na fria Suécia. Talvez ainda desejo de tomar café na casa de Nik e Nikol e ver Ângelo brincar com Iven... De abraçar minha amiga Liana hoje, no dia de seu aniversário, depois de voltar de bike do curso de sueco. Ou de uma espera ansiosa por recordações e experiências que ainda virão com a nova Marina? Quem sabe? Quantas coisas, quantas milhares de experiências cravadas em nós todos os dias nos levam para este ou aquele caminho, esta ou aquela sensação.

A única coisa que consigo pensar para encerrar este post é algo que eu queria ter dito claramente à minha amiga Lud na semana passada: nem tudo pode ser lembrado ou recuperado, isso é fato. É preciso, por outro lado, pensar que nem todo amor precisa ser dito para ser vivido. A vida é mais intensa, mais complexa e abrange muito, muito mais do que as palavras e os gestos são capazes de expressar. E esta não é uma limitação só dela, minha, da mãe dela. É de qualquer ser humano.

E talvez isso seja o que de mais "bleu" Kieslowski tenha tentado passar com seu filme... Somos meras tentativas de. Tentativas de viver, ser e amar com perfeição. Por essa razão qualquer coisa mais que aceitar isso é mero jogo de sofrer.

5 comentários:

Camila Hareide disse...

Esse seu post também "me serve", Sonildes... Linda a tela. Vai ser legal ver um post sobre cada uma que vc vendeu. Isso se der tempo, né... Logo logo tem um bebezinho na sua casa, ai, que legal!

beijo e sodade

Somnia Carvalho disse...

Que rápida ce ta Camilitas!

entao, claro que pensei em voce enquanto escrevia... e pensei em voces em casa tambem... e na nossa conversa naquele restaurantinho no centro de malmo, onde voce chorou...

saudades amiga!

Daniela disse...

Sonia, percebo tristeza na tela e no post, mas pra mim azul é sempre sinônimo de coisas vibrantes, boas, contagiantes.

E ai eu posso ir além na defesa da minha cor favorita e dizer que a solidão azul pode ser contemplativa mais do que triste. E você pode estar só e colorido no meio de uma multidão.

Eu estou divagando e fugindo do post...

Eu quero dizer só assim: muito azul vibrante e contagiante na sua vida que me dá a impressão de estar meio azul-frio, meio azul-cinza ultimamente.

Marininha vem aí pra encher sua vida de azuis e de cores.

Um grande beijo

Somnia Carvalho disse...

Dani hoje to facinha online...

então, por conta de seu comentario to criando outro post...

eu acho que tem no meu post um momento contemplativo, silencioso e de reflexão... rs... nao estou triste, juro... mas estou quieta... numa espera ansiosa... isso ajudou a sentar e escrever o post, o que normalmente eu nao tenho conseguido fazer. Sou o tipo que quase da a luz na rua, porque nao consegue parar sentada, entende?

mas adorei suas reflexoes... beijocas

Lúcia Soares disse...

Adoro azul e a tela é linda.
Ia falar do que ela me lembrou, mas falo acima, no outro post.
Bj