01 abril 2008

De Barão Geraldo para o mundo ou Toda vidinha daria uma bela ópera


(Interior do Teatro Alla Scala, de Milão)


Era a primeira vez que eu estava na Itália e, logo ali, abaixo daquela arquitetura maravilhosa do Duomo de Milão e da Praça do Alla Scala, eu deixei Renato e Ângelo para fazer uma visita ao Museu do Teatro.

Combinamos que iríamos separados, porque não tinha como entrar com o carrinho do Angelito e eu saí meio que correndo, porque tinha que atravessar a multidão que visitava a cidade no último feriado de Páscoa e porque queria aproveitar os meus quarenta e alguns minutos, antes que o bambino sentisse muito minha falta.


(Galeria, na Praça do Duomo, onde todo mundo passeio vendo belas vitrines e parando em deliciosos restaurantes)

Entrei no meio de uma excursão de gringos americanos e passei à frente deles. Não queria que atrapalhassem minha visita com aquele blá blá chato do guia turístico. Segui rápido pelos retratos dos cantores e compositores e fui ao saguão principal. Parei... olhei para cima, onde estavam pendurados alguns lustres gigantes e maravilhosos. Suspirei.

Soltei um "óóó..." sozinha... Tive a impressão de que a arquitetura do Teatro Municipal de São Paulo havia sido inspirada ali... Não tinha certeza.  Saí rápido, fugindo da gringaiada faladeira e fui entrando em algumas portas.

Cheguei rapidamente numa que dava nada mais, nada menos, que dentro do Scalla, de Milão. Lá, onde todos os concertos mais fantásticos, onde todos as vozes mais famosas do mundo já haviam passado, onde a arquitetura faz a gente dizer: "óóó"... e respirar bem fundo, encantado.

Eu nã sabia, mas acontece que a visita permitia que eu assistisse a um ensaio de uma das óperas que estavam sendo apresentadas no Alla Scala, nesta temporada. De uma entradinha, com uma parede transparente, a gente podia ver todo mundo lá embaixo e ouvir, perfeitamente, as vozes todas juntas no coral que aquela hora se apresentava. E ver a peça, lá do alto, com visão para o Teatro inteiro.

Foi uma sensação maravilhosa. Incrível. E eu me transportei instantaneamente a Barão Geraldo. Foi lá, que em 1996, conheci e fiz amizade forte com a Ludmila. Foi da mãe e do pai que ela pegara gosto pelas óperas e pelos clássicos. A mãe, Carmem, que me servia saladinhas e sopinhas, me lembro sempre tocando seu piano de manhã. Dona Carmem sempre acorda e canta salmos, com seu vozerão, em agradecimento ao dia. O pai, Sr. Roberto, deu à Lud o prazer de acordar aos domingos e ouvir grandes concertos no vinil. 


(Lud,  dando uma de Callas, e interpretando músicas italianas bregas, numa foto que talvez ela me mate por pôr aqui)

Em Barão passei muito de meus fins de dia, durante os anos de graduação na Unicamp a ouvir sonatas, concertos e muitas óperas na casa de minha amiga Lud. Com ela aprendi a identificar algumas peças e, através dela, havia assistido a umas duas aí no Brasil. E foi de muitas e muitas milhas de Barão e do Brasil, vendo a semelhança da Lud e de sua mãe com as fotos da Callas, vendo o último ato de Macbeth, ali no Scala, em Milão, do qual ela tanto falava, que me senti tão próxima delas novamente.

Durante o intervalo do terceiro ato, eu tinha saído e visto uma exposição com fotos e vestimentas em homenagem à Maria Callas e a todas as peças que ela havia apresentado no Teatro. Emocionantes.


(Maria Callas como Lady Macbeth)

O ensaio que eu via ali no Scalla era Macbeth, de Giuseppe Verdi, baseada na obra do Shakeaspere de mesmo nome. 



(Montagem de Macbeth para o terceiro e quarto atos, no Alla Scala, do jeitinho que eu vi, pela janelinha escondida)

Mas eu, que sou bem leiga, e nunca havia lido a peça do inglês, demorei a reconhecer a ópera, ou o momento que encenavam... Na verdade, o que me tomou completamente eram as vozes. Elas eram perfeitas. Só por elas já era possível viver o drama de Macbeth e a obra de Shakespeare, musicada por Verdi
Só sei que eu fiquei ali, em pé, na salinha escura, enquanto gente do mundo todo entrava e saía: italianos, orientais, alemães, espanhóis, americanos. Comentavam algo em sua língua materna com o amigo e saiam E eu, eu fiquei. E fiquei... e foi como se tivesse pago um caro ticket, numa das melhores filas.

Tirei gorro, cachecol, casacos para aguentar o calor da saleta... E me entreguei...

Por alguns momentos me senti ridiculamente Júlia Roberts em "Uma linda Mulher", porque algumas lágrimas já escorriam pelo rosto, mas me permiti. Percebi que ver uma bela ópera, com vozes como aquelas que eu estava ouvindo, com uma história como a que Shakeaspeare escreveu me dava o direito de me fazer ridícula e emocionada.

Pensei na Lud e queria ligar de lá e dizer: "Queria que você estivesse aqui comigo, amiga!"
Pensei em todos vocês, porque sempre quero dividir tudo que me emociona com quem gosto.
Pensei no Renato e no Ângelo, dando uma enrolada no Duomo para que eu tivesse aquele momento sozinha (um dos poucos desde que Angelito nasceu) e fiquei tão, tão imensamente agradecida à Vida e a Deus.

Agradecida à Lud, por ter me ensinado a parar e ouvir uma coisa assim. 
Agradecida àqueles que estavam ali cantando e um dia decidiram fazer da música seu ganha pão, me proporcionando aquele momento. 
Agradecida ao amor doação do Renato.


(Rê e Ângelo, bons companheiros em qualquer viagem)

De repente percebi que precisava voltar, meu tempinho estava se esgotando e, como eu havia pego o ensaio na metade, a ópera havia acabado. Peguei todas minhas coisas, enxuguei as lágrimas e quis sair correndo pela praça do Teatro, para encontrar os meus dois tesourinhos e dizer: "Amo vocês, aaaamo vocês, aaaaaaaaamo vocês!"

De volta à luz do lado de fora, enquanto ia ao encontro deles e via tanta gente circulando pela praça, me dei conta de que minha vidinha ou a vidinha de qualquer um, na verdade, tem material para um bela ópera. A minha ida à Itália não foi só maravilhas. Ângelo, como um bebê normal, esteve resfriado, teve febre, etc. Dormimos pouco e aproveitamos a Itália, como nos foi permitido aproveitar.

Mas eu percebi, lá, naquela praça, que apreciar uma bela ópera é simples assim. A gente é transportado para aquilo que conhecemos, para aquilo que vivemos. Percebi que uma ópera não é para os muito "cult", mas para qualquer um que consiga parar, ouvir e deixar-se levar pela história. Se você conseguir fazer isso, acabará por se tornar rapiamente o ator principal, ainda que seja de uma janelinha quente e esdondida, onde todo mundo passa sem notar a beleza do que tem ali sendo vivido.



(Callas, como ela mesma, cheia de sucesso e cheia de dramas)

6 comentários:

Myrna disse...

Oi Linda!!!!

Pena que nem sempre enxerguemos a "vida como ela é"...é simplesmente maravilhoso quando conseguimos perceber essas maravilhas e ver que nossa vida é tão perfeitinha, assim, com todos os seus detalhesinhos né!
Um grande beijo e obrigada por compartilhar esses lindos momentos.

Myrna e Ana
(Ah! Ana chega sábado dia 5)

Somnia Carvalho disse...

Querida Myrna, a vida de vocês está para passar por uma revolução que se chama Ana!

E eu to torcendo para que tudo saia muuuito bem, que voce fique bem, que todos os Anjos te protejam e façam desse momento único, que é trazer uma vida à Terra, algo muito tranquilo para voce.

beijos e fiquem em paz.

Andréa disse...

Nada a ver com o post, mas foi seu niver outro dia, pelo que li aqui no blog. Que dia?? Preciso anotar, prá não esquecer. Também não lembro datas de cor, mas as tenho sempre anotadas na agenda.
Bjs
Andréa

Somnia Carvalho disse...

Dia 18, querida Andréa! E como foi horrível esse seu lápis de memória, agora você me deve uma comidinha bem caseira, na sua casa bem novinha...

Andréa disse...

Uêba!!!! Com todo o prazer... é só gritar quando vier prá cá, tá??
Bjks
Andréa

Desdêmona Macbeth disse...

Olá, Somnia!

Vi o comentário no meu blog e decidi dar uma espiada no seu... Adorei! Conteúdo interessante, ilustrações atraentes!
E ainda por cima referências a Maria Callas [a quem admiro muito] no primeiro post! Felicidades! Bjos!