31 julho 2009

Eu, minha pintura, minha alegria e minha cafonice, tudo de uma vez só.


(Ângelo ao fundo do parzinho de tulipas que achei no lixo do prédio que repintei ontem, Malmö, julho, 2009)


É quase zero hora na pacata Malmö, a noite está uma delícia e meu computador está prestes a virar abóbora.

Do meu ateliê ouço Bob Dylan e tenho as mãos ainda com restos de tinta seca. Acabo de pintar uma nova tela. Três tulipas coloridas em três vasos brancos. O quadro é colorido e simples, mas é significativo. Expressa minha alegria e expressa o porquê dela: o valor das coisas simples. Estou feliz porque Renato voltou para casa e porque depois de matar a saudade, de presentes, abraços apertados e conversa gostosa percebo que somos cúmplices além de amantes. Estou feliz porque minha cunhada chega amanhã e iremos dividir algumas boas conversas de novo. Estou feliz porque liguei para minha mãe no telefone dela e ouvi sua voz acolhedora. Falei com minha cunhada e sei que meu novo sobrinho vai indo bem. Estou feliz porque cheguei à sexta-feira tendo finalizado tudo que esperava no início da semana. Quantas besteiras pode uma pessoa cobrar de si mesma e quantas eu me cobro. Percebi, entretanto, que embora eu procrastine mesmo tanta coisa que disse antes o que me cerca é meu lado artista de ser. Posso ser uma péssima artista para qualquer um, mas eu vejo o mundo como tal. Ontem, quando no meio da casa de perna pro ar parei para pintar duas tulipinhas de madeira que achei no lixo há um tempo, porque não me basta limpar e ajeitar eu preciso criar, eu percebi que nem tudo que a gente vê de mal em si mesmo é exatamente algo ruim.

Percebo que sou confusa. Sou esquecida. Faço e refaço mil vezes os mesmos passos o dia todo. Sou dispersa e me perco. Sou essencialmente focada em um milhão e duas coisas ao mesmo tempo...


(Ângelo de manhã, rabiscando a tela que pintei agora a noite, com a inspiração inconsciente que veio do lixo, Malmö, julho, 2009)

Uma amiga querida me diz por email que sou sua amiga mais forte. Passei a semana sozinha com Ângelo, sem faxineira, sem avó, sem ninguém por perto e vou dando conta, diz ela... Eu, por hora, tenho sempre olhos para os meus defeitos. Os emocionais e os físicos. Enquanto só tenho olhos para minhas rugas, uma amiga diz que alguém lhe disse que eu era linda. Linda? eu? Só podem estar de brincadeira. Só tenho olhos para minhas falhas e ouvido para as críticas. E atenção para o que não consegui fazer e para as flores que não eram exatamente as que eu queria ter colocado no vaso hoje. E porque não tenho um blog engajado e político, mas todo deslumbrete. Porque falo de mim e de coisas simples. Porque escrevo quando estou feliz e prefiro ficar mais quieta os dias que estou triste. Porque a vida pulsa tanto em mim em dias e noites assim que eu não tenho vontade de ir pra cama. Estou viva. Posso amar quem amo, posso abraçá-los e apertá-los ou posso ouvir a voz deles ao telefone. Posso falar o que sinto com gente que nunca me viu mais magra. Posso sujar minhas mãos de tinta numa noite azul cobalto e ver o mar ali adiante. Não sei falar do ruim e acabo sempre parecendo florzinha. Trabalho duro todo dia e me irrito muito mais do que deveria, mas mudo de direção num segundo se uma música me toca, se uma frase carinhosa me atravessa, se um texto me comove, se uma história me cativa, se uma flor me fascina ou uma amigo me emociona.


(Minha amiga Liana, na minha chaise longue, posando para que eu a desenhasse na última terça, Malmö, julho, 2009)

Nessa semana eu fui fazendo e desfazendo. Procrastinava e depois voltava. Fui e voltei. Esbocei um quadro com a amiga Liana, enquanto as crianças dormiam. Fiz uma lavanderia de seis horas e alternei com beijinhos, nhoque e moqueca junto de Liana e sua família. Longe dos meus eu tenho saudade, mas vejo nos que aqui tenho uma amizade fiel. É isso que me deixa tão feliz sempre. As pessoas, as mesmas que também me deixam triste de vez em quando.

Sou tão piegas e assim escrevo. Sou a mesma que era quando criança e adolescente e adoro dizer "obrigado vida" por momentos intensos assim...


(Velhas, sujas e opacas, do lixo para minha casa: nova cor e nova família, Malmö, julho, 2009)

Um beijo para minha sempre professora de pintura Eloísa, porque toda vez que meu pincel colore uma tela eu penso nela e no seu jeito transbordante de viver. Amo vocês todos! E desculpem a cafonice!

30 julho 2009

Diálogos inesquecíveis com Ângelo: "O bom menino..."

("Sapatu du Ângelu"... Ângelo brincando com os sapatos do pai em casa, Malmö, junho de 2009")


Já fazia algumas horas que rolava a festa do Midsomer em casa e Ângelo arriou pedindo para dormir. Ao colocar nele fralda e pijama, ele deitado de perna pro alto todo serelepe, fazendo caras de menino mais novo do que de fato é, eu disse:

- Que bonitinho que o Ângelo ficou na festa mamãe! O Ângelo brincou, correu, pulou, cantou, dançou...

Ao que ele, que fala quase só em português comigo, respondeu em suequês, sem pestanejar, mas já com pose de menino grande:

- Ió ócksô éta mót mamãe! (Jag också  ätit mat) que, embora não perfeito na gramática quer dizer: "Eu também comi a comida mamãe!".

- Noooossa! Verdade, o Ângelo é muuuito lindo e grandão! 

E huuuummm enchi-o de beijos.


29 julho 2009

O que fica na memória? o aniversário do Ângelo por imagens e por vocês mesmas


Os outros (aniversários) a minha mãe mesma fazia o bolo, com uma cobertura de brigadeiro e balinhas de goma pra enfeitar, pipoca, uma jarra de suco e chamava as crianças da vizinhança.
Daniela



Festa boa é aquela que tem brigadeiro e torta de bolacha e ponto final o resto e frescura,
 Eveline


Bolo, brigadeiro, umas "conxinhas" e "espadinhas", de repente, e balões (em SP, bexigas). Precisa mais do que isso pruma criança pequena? 
Camila


Minha festa de 15 anos foi em casa com alguns amigos, assim pude dar atencao para todos e jogar conversa fora sem me preocupar com a maquiagem borrando, vestido apertando ou salto incomodando,
Paola


Tenho ótimas lembrancas de todas as minhas festas. Sem nada de glamour (nos anos 70 nao tinha buffet infantil...rs) mas cheias de muita diversão. Minha mãe nunca deixou passar em branco, e eu só tenho a agradece-la. (Xu-Muié)


... Acho que para crianças nesta faixa de idade do seu é o melhor (festa ao ar livre), pois brincam, pulam e nem comem, só param quando estão morrendo de canseira. No seu caso, combina mais com seu lado borboleta de ser uma festa neste estilo, 
Lilás


Simplicidade é luxo, 
Luciana

Nem precisa ser brinquedos de parque de diversão, pula-pula, rede, piscina de bolinhas... Nada, só os brinquedinhos das crianças e um adulto pra liderar alguma outra brincadeira. 
Lúcia

28 julho 2009

Leia esse post hoje, ou, se preferir, amanhã.

("Meu duplo", Michael Kvium, 1994)


Molerada toda (já que nem um homem se dignou a assumir sua porção maluca),

Para começar, eu ainda não organizei aqueles tais documentos. Aproveitei o fim de semana para ir com meus dois numa Festa Brasileira, na cidade de Båstad (lê-se "bôstód...rs) e estava uma delícia. Obviamente ainda tenho a tal pendência, mas devo dizer que escrever o post, ler vocês e tentar entender meu próprio plano maquiavélico de fazer eu mesma me sentir mal levou-me a algumas atitudes diferentes. Para começar consegui "pôr de lado" a idéia dos documentos por hora e priorizar o que preciso fazer mesmo até sábado, quando chega minha visita. Comecei hoje pela parte prática.

Para continuar, a discussão que vocês sustentaram nos comentários foi extremamente fértil e pensei em aprofundar a idéia do primeiro post, inclusive porque acho que o tema que eu queria mesmo pôr em questão ficou meio diluído em minhas divagações. 

A conclusão das minhas e das reflexões anteriores de vocês foi mais ou menos assim: já que todas vocês também são malucas, então eu sou completamente normal. A questão agora parece ser: por que a gente deva se incomodar em ser normal, mesmo quando isso implique em ser maluco?

Eu diria que o fato de eu não ter feito aquilo que eu disse que "tinha que" fazer só confirma aquela minha parte neurótica. Várias de vocês assumiram, tão genuina e corajosamente, o quanto sentem que procrastinam. Procrastinar é uma característica que assola milhares, além de nós. A gente procrastina de estudar para a prova do ginásio e deixa para repassar a matéria um dia antes. Procrastina, deixando para pagar aquela conta no banco, para declarar imposto de renda, para comprar o presente de casamento do amigo ou para ler aquele livro super legal que emprestou na biblioteca. 

De pronto, isso não seria um problema. Não há nada de mal em adiar uma ação e escolher fazer uma outra por livre e espontânea vontade, mas o problema começa quando isso não só torna-se frequente, quando também nos traz alguma sensação ruim: sentir-se derrotado ou culpado é prova de que houve, de fato, uma escolha e a decisão não foi movida por uma força interior, mas por alguma fraqueza escondida.

Percebo que sou procrastinadora tal qual a Camila, a Lu, a Cínthia, a Mariel e a Daniela se assumiram aí, mas é o que me move a adiar algo em detrimento de outro e me sentir mal por isso que me fez pensar sobre o assunto anteriormente. A Lúcia até me disse para não esquentar e me assumir, caso isso não me incomode, mas incomoda querida Lúcia. 

Não incomoda, por exemplo, num caso como hoje quando parei a limpeza e arrumação ao ver, pela janela, uma regata acontecendo em frente de casa. Com o céu azul, sol e aquele monte de barquinho colorido não tive dúvidas. Peguei Ângelo na Madalena, liguei para a amiga Liana e sua Giovanna e fui! Isso não me deixou mal. O marido tá na terra do Horácio do CSI, estamos de férias e não posso deixar passar a claridade num dia assim. Não na Suécia!


(Duas cenas que pagaram a procrastinação de hoje de manhã: o mar e o céu imensamente azuis com centenas de "barquinhos" ao longe...)

(... e o Ângelo apreciando a vista, Malmö, julho de 2009)

Entretanto, se eu faço isso com menos justificativas racionais ou se faço uma, duas, três, quatro vezes daí o problema é mais em cima. É lá na cabeça mesmo. É isso que me levou a escrever aquele post anterior. Nem todo mundo procrastina. A Lilás, a Lúcia e a Sandra não. O jovem filho da Lilás faz muito isso, e ela até tentou me animar dizendo que não sou a única, mas se eu comparo a diferença de idade, penso que eu já passei da hora de aprender. A Sandra também tentou me consolar dizendo que perdera-se nas milhares de tarefas do dia a dia, mesmo sendo ultra organizada com sua listinha de tarefas, mas eu não acho que o problema dela seja procrastinação. Deve ser outro, com certeza! porque todo mundo tem lá seu probleminha não é? mas procastinação não é.

A Xu também admitiu sua porção maluca falando das caixinhas que ela "teve que" colocar dentro de outras caixinhas para organizar seus álbuns de fotografias antes da chegada da adorada mãe. Mãezinha que, segundo ela, chegou cansada e com fome, mas encontrou apenas álbuns arrumadinhos de fotografias na mesa... São essas manias, como também assumiu bonito a Marilena que tem mania de enlouquecer seu marido Sérgio toda manhã porque não sai antes de terminar de arrumar tudo, que ficam ali fazendo "pám! pám! pám! pám!" no nosso ouvido, nos aterrorizando como um bom filme do Hitchcock. 

Talvez você não pense nisso, talvez isso seja só sua porção maluca que você assume todo dia e tá de bem com ela. Talvez não. Ou talvez a gente não querer pensar também seja um problema. Eu sempre penso que gente que acha que pensar é problemático seja mesmo alguém com um problemão para resolver e não se dá conta. Ao menos desse eu normalmente fujo porque sou o tipo que adora elocubrar sobre tudo que passe pela minha frente.

Você é preocupado demais? Você tem mania de fazer tempestade em copo d´água? Você sempre acha que tá doente ou sempre acha que poder curar os outros? Você gostaria que todas as pessoas fossem normais iguais a você e sempre limpassem, por exemplo, a própria cadeira no restaurante? Você ama o curso que faz, mas sempre tira 5 nos trabalhos por fazê-los na última noite? Você é o tipo que não se conforma quando a empregada não passou assim tão bonitinho a roupa para pôr na gaveta? Ou o tipo que nunca consegue dar um elogio porque acha que todo mundo sempre tem mais a oferecer?

(Casal de idosos preparando-se para o banho de mar do verão, hoje de manhã em frente de casa, Malmö, julho de 2009)

Então é de você e também de mim que eu estava falando. Não que eu tenha essas todas, mas cada qual tem um ou outra. Falo dessas nossas manias que deixam de ser apenas uma característica interessante, quando nos leva para outros caminhos que não esperávamos. Se eu tô feliz e tranquila com a escolha não há no que pensar, mas se a escolha me tira o sono ou me deixa incomodada eu quero pensar, eu quero rever e quero mudar. E, ainda, se a escolha até me deixa dormir bem, mas deixa quem eu gosto perder o sono, então, há algo para se pensar também, mesmo que quem nos ame normalmente deva nos suportar com todos nossos pequenos probleminhas e defeitinhos...

Para terminar sem finalizar o assunto eu digo que escrever sobre isso foi um excelente exercício, porque assumindo para mim mesma e para alguém de fora não só torna o problema mais claro, como me empurra para alguma atitude diferente. É ótimo saber que minhas amigas apreciam quando eu saio de casa e deixo uma tese por ser escrita, por exemplo, para pintar a casa delas, mas o que me move a isso e porque eu assassino as minhas prioridades para colocar a dos outros em evidência é algo sobre o qual eu devo refletir. Eu não digo que vou mudar assim! vápt, vupt! É quase sempre mais forte do que eu, mas eu quero tentar vencer minhas manias algumas vezes. Afinal elas não existem sem mim, mas eu posso com certeza continuar existindo sem elas.


27 julho 2009

Bem-vindo!

(Foto da Praia ao anoitecer ontem no encerramento da Semana Brasileira em Båstad, julho de 2009)

Demorou, mas eu consegui!

Achei uma cara para o Borboleta que gostei muito. Consegui inserir os links de vocês de novo e posso voltar a minha gostosa vida virtual. Percebam que, apesar de tanta chatice, eu mudei e essencialmente continuei a mesma. Eu mesma só me dei conta que mantive as mesmas cores e o mesmo aspecto naif depois de fazer a troca.

Acho que isso prova que a gente até quer e tenta mudar, mas a maior parte do que somos leva muito mais tempo para mudar do que levamos para trocar um template de blog.

Ótimo início de semana!

23 julho 2009

Nossa porção maluca de cada dia

("Hóhóhó, Crazy Harry Puppet)

Que eu tenho andado total sem tempo por conta de estar com Angelinho o dia todo, vocês já estão carecas de saber. E que eu não tenho escrito muito também aqui por conta disso e por conta de "ter que" aproveitar o verão que parece já estar querendo ir embora, vocês também já ouviram mil vezes de mim... mas! de uma coisa vocês não sabem: isso tudo, na verdade, é mentira. 

Quantas vezes eu já estive tão ocupada quanto, mas conseguia escrever e responder aos comentários? Estar sem tempo, estar com o Ângelo que, claro, não me deixa chegar perto de computador se for algo para mim, é apenas uma desculpa que minha porção maluca dá para mim mesma e, por consequencia, para vocês.

Percebi isso agora de manhãzinha, quando pensei: "putz! nunca mais escrevi um post legal no blog". Nunca mais significa talvez uma, duas semanas, depende da idéia de "um post legal" para mim mesma.

Eu cansei da cor do meu blog e tal. Disse que ia mudar e não mudei. Essa é a parte neurótica. Acompanhem comigo: eu não preciso mudar a cara do blog, mas eu tenho que. Eu já "tenho escrito" na cabeça e é só digitar uns 6 posts, pelo menos, que digitei mentalmente nos últimos dias, mas não escrevo. Por que? Porque eu sou maluca. Minha maluquice consiste em ter uma ordem para fazer as coisas que calhe de ser a que imaginei. E decoração, imagem e layout tem que constar sempre nos meus requisitos. Eu não quero escrever um post, porque já imaginei a foto, como as do aniver do Angelinho, mas não mudei a cara do template e olha só que coisa! elas não combinam. 

Minha amiga alemã Nikol disse que é o tipo que se tem que limpar ela começa limpando a casa. Claro, eu acabei de dizer que ela é alemã. Eu preciso limpar a casa e começo mudando os quadros de parede. Vou preparar uma aula e acabo indo parar na loja de tinta, criando um lilás mais pro azul cerúleo, manja? para mudar a parede da sala. 

Isso tudo não quer dizer que sou de falar e não fazer não. Eu faço, mas eu dou voltas. E só eu mesma sei o tamanho que das voltas que dou. Nesse caso do blog, till exemple, em todos os minutos que eu normalmente escreveria um post das última duas semanas eu usei para procurar um template que me agradasse tanto quanto esse agradou daquela vez, mas não consegui achar. Eu exijo demais e mesmo tendo umas centenas a disposição eu continuei insatisfeita com as cores ou com um detalhe aqui e ali que, claro, não combinavam com o título do blog ou isso e aquilo.

Bom, sem contar que até mesmo quando só quero responder aos comentários eu também já queria ter feito a "arrumação da casa" do blog e, então, começo por procurar os templates novamente. Eu não respondo os comentários porque quero ler os posts de vocês e comentar lá, e não leio porque não mudei o template atual que está sem os links de novo. É uma roda e são manias. Manias neuróticas e totalmente descartáveis, mas não consigo mudar muito. Você pode até pensar que isso é coisa de gente que não tem o que fazer, mas eu tenho provas concretas que não. Pode perguntar para uma amiga psicóloga que certa vez me disse que meu problema não era preguiça era hiper atividade. Além de tudo que uma mãe e dona de casa trabalha em suas "férias", em outras épocas eu fazia o mesmo, mesmo com uma tese de doutorado, dezenas de aulas para dar, casa para arrumar, e tudo mais.

Lembro-me que, quando precisava concluir o segundo capítulo de meu doutorado, eu consegui pintar a casa de duas amigas queridas na mesma semana. E dava aula e tinha minha casa para cuidar. São maluquices que me pegam em todos os tempos. Ou vai ver eu preciso só ser pintora de casa!

Veja um outro exemplo: mês passado recebi a visita de uma querida amiga da época da Unicamp, a Daníssima. A gente já tinha viajado, morou no mesmo condomínio de estudantes onde era uma bagunça, mas eu fiz questão de gastar o dia anterior à chegada dela organizando meus cds e dvds (daquele museu que falei antes) que estavam numa caixa, numa desordem só, desde minha mudança. Acompanhem comigo e me respondam: eu não fiz a cama dela, não passei os lençóis, eu arrumei os cds. Ficou lindo! mas os tais cds, claro, minha amiga não teve nem mesmo teve tempo de ver ou ouvir! E eles estavam longe de ser prioridade: não dá para comer, nem dá para dormir neles. 

A Daníssima adorou a estadia e eu também. Foram horas maravilhosas, mas eu já tenho preparado na minha cabeça descompassada que eu "tenho que" arrumar a última caixa antes da chegada da próxima visita que será de minha querida cunhada Dri, daqui duas semanas. A última caixa, percebam que suuuper problemático, é de documentos. Milhares deles que não consegui organizar desde minha chegada na Suécia, mas, obviamente, eu desejo fazer antes da chegada do próximo visitante. 

Quanto ela notará disso? Nada. Nadica. Por que então eu continuo deixando que minha porção neurótica e maluca dite as regras do que tenho que fazer hoje ou amanhã? Por que, na explicação dada por minha outra porção (espero que não tão maluca assim) dá é que se eu assim fizer poderei deixar essa pulga atrás da minha orelha ir embora e descansar em paz. Eu também não terei que procurar cada página de documento quando meu santo marido, que não acha concha na gaveta de conchas, por exemplo, me perguntar onde anda a senha para a senha da loja de senhas. 

Essas são expicações rasas e ralas, sem psicologismo nenhum. Usando deles eu teria que escrever mais uns posts longos que eu não tenho tempo agora, mas poderia arriscar que eu tenho mania de canalizar energia para outro canto e "fugir" de tudo que preciso fazer, fazendo algo que não preciso exatamente naquele momento. Poderia pensar também que sou alguém que necessita de organização externa para as organizações internas, mas aí ficaria a dúvida o que internamente tô precisando arrumar. 

De qualquer maneira não dá para ir nas análises, recorrer à psicologia ou aos psicologismos que eu, de fato, A-DO-RO, porque além de tudo isso passaram-se longos 13 minutos desde o início desse post e meu Ângelo tá pedindo: "Traktor tube, mamãe" que significa "Quero ver vídeo de trator no youtube mamãe!". 

Para terminar eu adoraria se vocês, gente que me apóia em tanta coisa, me provasse que não sou a única maluca na história toda. Eu gostaria mesmo de que alguém mais confessasse aqui, perante esse tribunal virtual, se também sofre de síndromes desse tipo, embora finja muito bem para os seus que nada de normal acontece no Reino da vossa cabeça. Eu vos lhes pergunto-lhes: qual consiste ser sua porção maluca?

Pode confessar. Com ou sem psicologismos. Livre arbítrio.

Talvez isso me ajude a tirar as caixas do ombro ou me ajude a assumi-las e organizá-las sem mais demoras e sem mais culpas.

20 julho 2009

Concerto a quatro mãos...zinhas



(Ângelo e Iven na festa de 2 anos do Ângelo, "Little Beethoven and Mozart", from Renato Cechetti on Vimeo)

De coração, agradeço todos os recados carinhosos de Feliz Aniversário para o Ângelo e de parabéns para a gente também. Fiquei realmente muito feliz, mas estava na correria. 

Pode parecer exagero eu dizer assim, mas, dentro das minhas expectativas de uma festa de dois anos do primeiro filho, a festinha do Ângelo estava perfeita. Ele correu, pulou, brincou, sorriu, abriu presentes, abraçou e beijou, comeu e chorou quando percebeu que todos seus convidados estavam indo embora. 

As pessoas que vieram são amigos que fizemos nesses dois anos e meio de Suécia e estavam tão felizes de estarem com a gente que parecíamos amigos de décadas. 

O Ângelo teve direito aos "Parabéns" em três línguas diferentes e muita animação. E nós tivemos direito a milhares de sorrisos dele inesquecíveis.

Vou postar algumas das fotos bem bonitas depois e espero também escrever mais sobre isso, mas também sobre tanta coisa que tenho em mente para escrever. Agora estou meio um caco. Festinha na Suécia é tranquila e tal, mas a gente trabaia que é um coisa. Aqui a gente faz o selviço da decoração, alimentação, faxina e tudo que tiver direito. Os últimos convidados, inclusive, nos ajudou a recolher tudo do salão de festa do condomínio.

Por hora fica a canjinha que o Pequeno Beethoven e seu amigo Mozart deram na festa. Para nós, simplesmente demais! Eu tenho uma ligeira impressão que eles realmente tem talento para as artes.


16 julho 2009

Por que "todas as cartas de amor são ridículas?" ou: Hoje é aniversário do Ângelo

(Ângelo na praça Gustav Adolf, Malmö, junho de 2009)

Hoje, dia 16 de julho, o Ângelo tá completando dois anos de vida.

Eu acordei já toda sentimentalóide, refazendo grandes cenas que tive com ele nesse tempo, como uma perfeita mão bobona. Tenho certeza que qualquer post de mãe sobre seu pequeno filho deve ser assim, como dizia Fernando Pessoa, algo "ridículo", mas não tem jeito eu sempre corro riscos.

Pensei em coisas muito belas para escrever e pensei numa carta de amor para o Ângelo ler quando fosse grande, mas deduzi que ela também seria, no mínimo, ridícula. Então, sem tempo e com tudo para fazer e organizar, num tempinho que o menino dorme eu pensei num post rápido, sem muitas pretensões, sabendo que ele também corre enormemente o risco de ser, obviamente, ridículo. 

Eu hoje percebi que eu só existo para o Ângilu, ao menos é isso que o Ângilu tem certeza. 
Ângilu é como ele próprio se chama e Sôniááá, sou eu, a mãe dele.

Eu só estou aqui para cozinhar rroz, macarrãão, bócolis, pata saladi (uma salada com pasta sueca) para o Ângilu.
E também a mamãe vive para limpar e organizar as coisas todas do Ângilu e tocá falda do Ângilu e levar o Ângilu para fazer cocô no piquininho.

(Ângelo , no descanso da biciletada com a mamãe, mandando tchau para a Vavá, ontem no gramado em frente de casa, julho de 2009)

E eu também só tenho que passear pelos páqui todos da cidade e ir nos páquinhos todos, sem deixar de dar uma passadinha na páia para que o Ângilu brinque com seu baldêê na areia. E tenho que resistir bravamente a não comprar o "glas" (sorvete) toda santa vez que ele vê o símbolo da Kibon sueca por aqui. 

Preciso pular e rodar com ele ao som de "bä bä vita lanm", ou de "Alllma, deixa eu ver sua alma", fazendo, claro, a coreografia de cada música. 

E não há energia que chegue, porque na hora que o Ângilu tá cassadu, mamãe tem que cantar e tem que "sitta mamãe" na poltrona do lado até que ele pegue no sono, caso não seja o dia que ele qué papai só! para contar as histórias preferidas e tagarelar na cama.

O que fez eu me emocionar hoje de manhã foi isso e tanto mais. É perceber que o Ângelo, essa criatura tão pequena, é alguém com gostos próprios, idéias, sentimentos e exigências. Ele existe de uma forma tão intensa que nos suga inteiros para ele. Ele nos ama e ama demais e quer nossa presença e a certeza de que o amamos. E isso é algo indescritível. É um amor exigente e maravilhoso. 

Eu o abracei de manhã e expliquei que era aniversário dele, que era o "Grattis" (parabéns) igual os amiguinhos da escolinha fazem. Senti por ele não poder celebrar com a criançada do Dagis, já que ele aniversaria nas férias. E senti por ele não poder ser abraçado pelos avós, tios e primos todos. 

Esses dois anos de Ângelo foram intensos, porque nem o Ângilu nem a gente quer deixar passar nada em branco, então que venham as declarações ridículas, porque de falta disso é que o 
Ângelo não vai sofrer.


13 julho 2009

Testando uma outra nova cara de novo

(Bicho preguiça curioso, fonte imagem: Zoológico de Singapura)

Pessoal,

Não pirem comigo, mas eu estou fazendo vários testes com diferentes templates (essa apresentação do blog) novamente. 

Eu gosto bastante daquele que estava usando, mas ele nunca funcionou as janelas que ficam acima. O modelo era antigo e estava com defeito. 

Fora isso, me deu siricutico de novo e tava meio com vontade de mudar...

Tô testando e vou parar agora para dormir. Não será esse ainda, creio, mas não consigo voltar no antiguinho só para não cansar a beleza de vocês...

sorry! e boa noite!

"Na Suécia também não tem" fila preferencial

(Mocinha e velhinhos na fila do supermercado. Fonte: O Camandro

Minha amiga Xu (a quem carinhosamente também chamo de Flávia, Muié, Molé e Baby) semana passada, me mandou um sms assim: 

"Pela primeira vez na Suécia, hoje alguém falou pra eu passar na frente da fila do caixa no ICA (supermercado) porque eu só tinha dois itens na mão."

A frase talvez passasse em brancas nuvens para vocês que estão acostumados com a "gentileza" brasileira. Também em outros países esse é um costume comum, mas não aqui na Suécia.

Não existe fila preferencial em caixa de bancos, supermercados, correios ou qualquer lugar que seja. O que existe é quase sempre aquelas senhas que a gente tira e espera cada qual a sua vez. E tanto a velhinha de 70 quanto a de 94 e eu pegaremos as mesmas senhas e tanto eu quanto elas esperaremos para sermos atendidas quando for a nossa vez.  




Eu creio que vários fatores sociais, históricos e culturais poderiam explicar essa atitude dos suecos que a primeira vista (talvez na segunda vista e na terceira também) parece incomodar bastante. A cultura sueca basesia-se  num princípio de igualdade total de direitos e obrigações. No geral, repito, no geral, as mulheres e os homens, por exemplo, tem direitos (participação na política, acesso a trabalhos considerados só para machos etc) e deveres muito mais parecidos com os nossos brasileiros. Já vi inúmeras vezes mocinhas pintoras de parede profissionais, mulher dirigindo trator e caminhão. Mulher jardineira, cuidando das plantas do parque todo, mulher fazendo manutenção de prédios e por aí vai... Dirigindo ônibus já é corriqueiro. Tem até mulheres muçulmanas dirigindo ônibus de véu. Por outro lado, conheci dezenas de maridos que haviam tirado sua licença paternidade para cuidar dos seus filhos por seis ou mais meses, enquanto a mulher vai trabalhar e mantém a maior parte da renda familiar. O homem não só cuida dos filhos com a mesma responsabilidade que a mulher, como da casa. Ele não é menos por isso, porque tanto trabalhar fora quanto cuidar da casa e dos filhos faz parte das obrigações que a família tem que dividir.


Na escola, os meninos têm aula de costura, bordado etc junto com as meninas, e as meninas aprendem a manejar ferramentas masculinas. Na loja de brinquedos e nas lojas de ferramentas há sempre sessões com miniaturas de tudo quanto é objeto de limpar, consertar que é preciso numa casa, seja na parte das meninas, seja na parte dos meninos. Não fiquei tão surpresa quando minha amiga Paulina havia comprado uma boneca para que seu filho também aprendesse a cuidar de um bebê, o que é normal aqui.




Então, homem, mulher, adolescente e velho são todos iguais em qualquer fila ou, porque não dizer, na vida em geral.

Sem contar isso, a Suécia possui milhares de idosos e idosas, porque a longevidade de vida é quase 10 anos mais do que no Brasil. Eu sempre penso que se algum lugar tivesse fila preferencial para os velhinhos aqui a gente nunca chegaria a ser atendido, porque em qualquer canto há, felizmente, milhares de senhorinhas e senhorzinhos cuidando de suas vidas, ainda que seja com ajuda de um carrinho especial que eles têm aqui.

Além do grande número de idosos o país também sofreu um boom de bebês nos últimos cinco anos. O incentivo com a Lei de Licença Maternidade de 1 ano com remuneração integral ajudou os casais a se procriarem bastante e tem uma outra coisa que você vai ver mais que velhinho nas ruas suecas: são bebês e crianças. Em carrinhos, nas bicicletas, pendurados em seus papais e suas mamães. Eles vêm e vêm em grande número. 

Deixar uma mãe com seu filho passar na frente significa deixar outras 37 que deverão estar na mesma fila que você. Ou então, ter uma fila só para nós mães significaria também mais filas preferenciais do que filas para o restante.

Eu poderia me alongar e aprofundar todos esses temas, mas eles estão aqui rapidamente para ilustrar como a idéia de "ah! você tem a vez porque é mais velho que eu", "você pode passar na minha frente porque tem menos itens" etc não é algo que atinja, por assim dizer, o coração de um sueco. Eles não vão se sentir mal por não dar a vez a alguém, porque a idéia não é a de que eles estão sendo bonzinhos, deveriam ser bonzinhos e educados ou que você mereça tal coisa. É uma idéia - que cada um pode ter uma opinião sobre - de justiça que está por trás desse ato "mal educado". 

Lembro-me do Pedro, aquele português super engraçado, cujo post de título "Descubro que não devo ser cavalheiro na Suécia quando..."), falava de uma senhora que havia olhado com uma baita cara de "tá maluco, meu filho!", quando ele ofereceu a ela a frente na fila do supermercado. Ela não aceitou e ele ficou Pedro da vida. 

A gente pode até ficar mesmo, mas creio que não dá para comparar com o nosso jeito todo camarada de ser e achar que os suecos não o sejam, ou que sejam grossos. Eu sinceramente não acho isso. Eu acho que para eles funciona de outro jeito. E mesmo que a gente pensasse que não custaria nada um sujeito quebrar com essa regra, eles não quebram. Não quebram como, no geral (repito) não quebram outras tantas. 

Finalizando, dá para imaginar que na Suécia não adianta tentar enfiar uma barriga postiça ou ir com o filho da vizinha no colo para tentar a fila preferencial do banco, por exemplo. Também não adianta tentar bancar o simpático na fila. Nem algumas gentilezas, nem alguns velhos truques funcionam no país do povo viking. 

...

Ah! e quase eu ia me esquecendo: "Parabéns Molé por ter amolecido o coracãozinho de um sueco!" (se é que o camarada era mesmo sueco) em apenas dois anos vivendo aqui. Eu moro há dois e meio e nunca tive sequer uma olhadela suspeita de gentileza.


12 julho 2009

Nasceu meu terceiro sobrinho e eu queria estar aí!

(Mão e filho", Gladiola Sotomayor)

Tem poucos momentos que dá uma coisa de não poder apenas pegar um carro e ir parar aí do ladinho de todo mundo. Acabei de saber de minha família que meu sobrinho Gustavo, filho de meu irmão Lê, nasceu hoje. Veio umas semaninhas mais cedo e tanto ele quanto minha cunhadinha fofa Vanessa passam bem.

É um sentimento engraçado esse de ter mais um membro na família. Parece uma aliança invisível, um laço mágico. Eu já o amo como amo loucamente meus sobrinhos, Luana e Júnior, como amo meus irmãos, minha mãe...

É como se fôssemos todos aqueles bichinhos daqueles programas lindos da Discovery tentando coçar uns as costas do outros, tentando cuidar bem direitinho um do outro.

Me dá uma ponta de tristeza de não estar lá com eles e poder abraçar, beijar, cuidar do menino, ajudar os novos pais, de dizer a minha cunhada: "Calma que é difícil, mas ele ainda pega o peito...". Ainda bem que a tristeza passa rápido quando penso neles, na alegria que estão tendo e na delícia que será poder encontrar a família ainda maior, quando estiver de novo aí! 

Família tem sempre lá seus problemas, mas é danado de bom ter uma...


09 julho 2009

Me diz suas prioridades e direi quem tu és!

(Iven, Alfred, um suequinho e Ângelo no churrasco de aniversário do Iven, junho de 2009)


Estava listando aqui algumas coisas mais do que básicas para resolver urgente para a festinha de 2 anos do Ângelo que será daqui há dois sábados. 

Eu nunca tive e não tenho pretensões de festas cheias de requintes. Eu respeito quem faça, mas não faz meu estilo. Eu já achava isso e tava aqui vendo uns salgadinhos, cachorro quente, um bolinho que fosse gostoso com direito a docinhos que nem os do Brasil e até já convidei algumas pessoas e faltam outras...

Tudo ia bem, obrigada, até eu decidir agora há dois minutos, dar uma busca no google sobre festas infantis. Pensei, ingenuamente e tolamente falando, que podia vir assim uma idéia super bacana pra eu fazer no dia e que me desse menos trabalho. Idéia de brincadeira, idéia não sei de quê...

Eu não espero ofender ninguém, mesmo, mas a verdade é que fiquei com vergonha. Fiquei envergonhada do que se faz com uma festa infantil e o que as mães buscam provar com a festa dos coitados dos filhos. Logo de cara alguns sites "especializados" davam todo tipo de instrução, inclusive como escolher a temática da mesinha conforme a moda dos desenhos infantis passados na televisão. Fiquei ufa, com uma coisa ruim, sem exagero. Talvez eu seja apenas uma mãe que também usa de meu blog pra fazer campanha a meu favor criticando outras, mas o fato é que achei demais pra mim.

Eu sei. Você pode me dizer: "Sônia, mas as crianças gostam e tal..." Eu sei que elas gostam. E eu sei também porque elas gostam. O Ângelo, por exemplo, nunca viu o Homem Aranha mais gordo, coitado, e tem meia, cueca e chapéu do Spider Man. E ele ainda diz: "homi alanha, bá!". Quem achou bonitinho e ensinou foram os pais deles. Ceis conhecem? Sim, eles mesmos. Sim, porque é super bonitinho um menino com roupa do Spider Man e menina com roupinha das princesas Barbies. Não precisa ter ne-ces-sa-ri-a-men-te alguma coisa de mal nisso tudo, mas acaba tendo.

Parece um efeito corrosivo. 

Eu detesto pompa e circunstância. Tentei fazer nosso casamento ser o mais "normal" possível, tentei fugir o quanto pude dos esquemas, comprando um vestido numa loja "normal", e não fazer os bem casados e não fazer isso nem aquilo, mas ainda assim caí em muitos. E mesmo fugindo lembro-me de que algumas pessoas criticaram o fato de eu ter entrado no salão, esperado todo mundo e dado uns abraços ali mesmo, agradecendo quem veio. Não fiquei rodando  feito barata tonta de mesa em mesa, ao contrário, tentei curtir quem estava feliz comigo e dancei a noite toda. Comi e me diverti, mas lembro de um ou outro reclamando a falta de formalidade e que eu não havia passado na mesa deles. Oi vida...

É cansativo. Pompa e circunstância exige demais e, na minha leiga opinião, não acrescenta nada. Eu adoro ir a qualquer festa de casamento, de criança e tudo o mais, mas quando sou eu preparando, prefiro mesmo o simprão. Não acho que formalidade demais acrescente algo na vida, não acrescenta nem a um adulto, imagina a uma inocente de uma criança para quem o prazer é apenas estar com quem ama, brincar relax numa roupinha de malha, comer umas comidinhas gostosas e dormir na hora que desejar, mesmo que a festa não tenha acabado. Aliás, quando a criança começa a exigir coisas requintadas e priorizar aparência ao invés de diversão algo está bem podre no reino encantado dela.

Então, nesse ponto, é mesmo bem mais fácil fazer uma festinha na Suécia, embora, claro, eu quisesse todo o pessoal com a gente. Aqui até incomoda a informalidade para alguns, no sentido de que não tem toalhinha nas mesas de restaurante, por exemplo, porque dá trabalho e porque precisa alguém pra lavar, secar, passar e tamtamtamtam. Entende? Eu mesma já pensei: caramba! mas podia estar assim mais arrumadinho. Mas não dá, porque para estar precisa daquela senhorinha que fica atrás da casinha do Papai Noel fazendo o serviço sujo pra que todo mundo apareça na festa lindo e imponente.

Aqui não tem a senhorinha, então as festas são festinhas mesmo. São quase nada, se a gente comparar com qualquer festa corriqueira de qualquer pessoa "normal" de classe média brasileira. Tem gente que odeia, tem gente que acha bom e para mim, nesse caso da festinha infantil, tá de bom tamanho. Eu não fui a muitas festas infantis aqui, mas é comum alugar um lugar onde as crianças brinquem, cortem o bolo e pluft. Tchau. É também muito comum pôr um balão na porta de casa, acenando que haverá uma festa lá. Chama-se uns coleguinhas, só as crianças brincam e comem e pluft. Tchau e benção. Não é que eles não se importem. É que eles priorizam outras coisas e fazer uma festa para os outros e preocupando-se com as aparências é o que os suecos - ou talvez seja uma característica mais eruopéia mesmo - não tem. Aliás, já vi umas duas vezes em Copenhaguem, os pais celebrando os aniversários dos filhos nos parques públicos, comendo um piquenique.

Para mim uns balões coloridos, com uns comes gostosinhos e uns brinquedinhos pra criançada, junto com seus pais que eu gosto muito sei que vai deixar o Ângelo e a gente bem alegres. No ano passado, quando ele ainda era pequeno e eu ainda estava meio perdida com tanta coisa, achei mesmo que esse ano eu faria algo maior e tal, mas mudei de idéia quando vi como todos os amigos celebram por aqui e como vi que a gente acaba se sentindo obrigada a celebrar no Brasil.


(Ângelo, Iven e toda a criançada se matando de tanto brincar e gritar, quintal da amiga Nikol, aniversário do Iven, junho de 2009)

Eu concordo se você me disser que tem mãe que consegue fazer bonitinho e tal e fica um dia marcante, que elas gostam de preparar tudo perfeitinho. E que não é só o caso de fazer coisa cara e tal, mas com capricho. Eu respeito, já disse. Eu respeito, mas não quero pra mim a parte do exagero, da imposição, do fazer porque precisa aparecer que se fez algo assim e assado para alguém pensar bem de mim e do meu filho. E do meu marido. Eu não acho que pague a pena, não acho que faça realmente sentido. A vida a dois num casamento não depende da festa do casamento e a vida de uma criança não depende das suas festas de aniversário. Elas são parte de. E tenho certeza de que o que fica mesmo é o quanto se sentiram especiais naquele dia. 

Essa é, ao menos, a idéia fantasiosa que tenho, desde os meus 7 anos de idade, quando tive uma festa (a primeira que eu consigo lembrar) extraordinária de aniversário. Nela, me lembro bem, vieram todos meus quinhentos e vinte e cinco primos e primas e os milhares de tios. Ganhei um liquidificadorzinho de brinquedo do tio Cido, o tio "rico", e lembro de minha mãe fazendo o bolo. Lembro de minha alegria quando vi todos chegarem porque era o meu aniversário. Lembrei disso, inclusive, quando todos os parentes por parte de minha mãe, todos eles pobres, simples e de um coração enorme, vieram me visitar em janeiro passado, quando fiz um churrasco em casa para tentar ver todo mundo. Então, o que me lembro sempre é das pessoas, do jeito com que elas me olharam e me abraçaram, do jeito com que me fizeram sentir especial seja em 1978, seja agora em 2009.

E eu não sei se um dia, olhando as fotos, ele ou mais alguém poderá pensar que a festinha fora simples demais ou sem graça demais. Talvez... Mas se eu e o Renato já achávamos que a celebração do aniversário de dois aninhos do Ângelo seria assim e o Renato também, agora, depois de 2 longuíssimos minutos olhando um ou outro blog de mamães que vivem para preparar as festas de seus pimpolhos ou de gente que recebe pra me dizer qual bichinho tem que ter na festa da criança com quem eu vivo dia e noite e conheço perfeitamente, agora eu tenho certeza de como será. 

Eu sei que pode parecer tão bobo quanto, mas se a gente começa a fazer uma concessãozinha às pompas aqui e outra às circunstâncias lá, a gente vira escrava delas. E agora eu estou mesmo decidida a fechar com meus poucos e nobres salgadinhos e cachorros quentes, a ir na lujinha amanhã e ver umas coisas tipo pratinho, copinho tralalá com ele e ver por qual ele se interessa mais. Tenho quase certeza que será coisa de carrinho, mas a festa é dele e o coitado do meu Angelinho já terá que cumprir protocolo demais pela frente. Por enquanto, um pouco de felicidade e lembrança já bastam. O resto deixa a vida levar, como já dizia o filósofo carioca Zeca Pagodinho.


08 julho 2009

O que é bom no Brasil é bra, mycket mycket bra na Suécia!

(Ângelo na praia no fim de semana, cheio de fantasias customizadas pela amiga virtual Lilás, julho de 2009)

Quer entender o que significa estar num verão sueco?

Vai vendo... 

Gente na rua com bicicletas, patins, patinetes, correndo, andando, andando com cachorro, andando com criança, fazendo piquenique, fazendo piquenique na praia, jantando no quintal de casa, jogando futebol no gramado, brincando nos parquinhos e parques, fazendo topless na praia, tomando sol de biquini nas praças, chupando sorvete de manhã até a noite, fazendo churrasco na laje com vinho branco gelado... De segunda à segunda...

Parece muito diferente do Brasil? Só um pouco: estamos aqui com temperatura medida pelo MSN Weather a 21 graus. Em São Paulo, por exemplo, está fazendo 24 graus. Como é? Aí tá meio frio? Ah não tá! Entendi! Só não tá assim tã bom assim né!

É isso. Quando eu digo que é verão significa que tá todo mundo assim, como Ângelo na foto lindíssima (customizada e photoshopada pela minha amiga virtual Lilás), curtindo cada minutinho do calor no corpo que se pode pegar.

A diferença do verão daqui com o do Brasil, além de uns 15 graus a menos no termômetro, é a animação de um povo que sofre a perda de tudo isso a cada 6 meses. Perder e ter, ter e perder de novo é a chave do segredo de um verão tão cor-de-rosa como o nosso daqui.

...

* bra: bom
** mycket: muito

07 julho 2009

"Alô, alô, responde, responde com toda sinceridade!"

(Domingo de sol, calor e praia boa, Ângelo posando para o pai, julho de 2009)

Gente querida,

É tarde na bonita e quente Suécia!
Vocês com certeza perdoariam meu sumiço e minha demora em responder os comentários se eu dissesse que aqui tem feito tempo bãooo na casa dos 30 graus.

Acho que me perdoariam se eu dissesse que como daqui dois meses não havera choro nem vela que me dê sol, calor e dia azul de novo, eu preciso e me forço mesmo a sair todos os dias de casa. 

Também me perdoariam se eu explicasse que estou com Ângelo em casa nesse mês de férias e que estamos pulando de parquinho em parquinho, como manda o menino, e enfiando o pé na jaca de tanto brincar. 

O porobrema é que eu sou assim complicadinha e não me sinto perdoada não. Eu andei não escrevendo posts direito porque quero sempre responder os comentários primeiro. E não respondo os comentários porque quero responder com calma, com carinho que eu quero dar e vocês merecem. But!!! apesar dos pesares eu acabo não fazendo... É isso! verão na Suécia significa posts pela metade, promessas não cumpridas, blogs de amigos não visitados, comentários não feitos e não respondidos. Ao menos pra mim que além de fazer isso tudo que citei na lista boa de cima sou pau pra toda obra aqui no Reino da Suécia self service.

É tarde e é hora de dormir. Só vim para dizer ao povo que deixei de embromation e RESPONDI TODOS OS COMENTÁRIOS de todos os posts dos dias que se passaram. E vou dormir feliz e em paz. Não totalmente porque ainda me falta visitar vocês!

Amanhã! eu creio!

Boa noite!

04 julho 2009

"Alguma coisa acontece no meu coração..."

(O baiano Caetano Veloso de voz doce e sotaque que lembra minha casa, o Brasil)


"Alguma coisa acontece no meu coração"...

Eu não sei o que acontece no meu coração, mas acordei ouvindo Caetano Veloso, cantando aqui com o Ângelo e rolando no tapete.

"Shy moon..."

Adoro música popular brasileira. Adoro Chico Buarque, mas ele me exige mais. Chico é pros meus dias mais sóbrios e Caetano para os dias de saudade. Caetano é alguém que consigo ouvir num sábado de manhã, por exemplo. O violão é alegre e sua voz faz eu me sentir muito em casa.

As letras me lembram a época de República da Universidade quando minha amiga Dri Silveira tocava Jockerman e tantos outros no seu violão e nos alegrava com sua voz.


Essa noite tive um sonho estranho. Sonhei que havia uma celebração especial do dia do Brasil, algo assim e todos os brasileiros residentes na Suécia haviam se juntado numa praça e a gente começou a cantar e cantar, como em coro, todos em pé, dançando juntos e foi contagiando o povo que vivia nos apartamentos quietinhos.

Deve, com certeza, ter a ver com os elogios que a amiga sueca Paulina ontem nos fez durante um jantar na casa dela. Ela dizia que tinha ficado contagiada com a alegria dos brasileiros e brasileiras que estavam na nossa festa de Midsomer. Segundo ela, um sueco só consegue começar a mexer o esqueleto depois de muita cerva na veia. 


Bom, sábado de sol, céu azul e a distância e saudade do Brasil deve aumentar quando eu ver as paisagens lindas de outro lado daqui da Skåne e pensar que queria dividir com minha mãe, irmã, irmão, sobrinha, cunhadas, sogros, amigos todos e por ai vai.

Saudade gostosa. Gostosa e saudável. Gostosa como cantar essas músicas e saudável como esse dia de sábado.

"Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu.."

02 julho 2009

"And the Oscar goes to.."

("Dançá mamãe!", eu e Ângelo numa das dezenas de coreografias da festa do  Midsomer, julho de 2009)


Pessoal maioral, vim para dizer ao povo que o primeiro concurso de blogueiras da Lola terminou e o Oscar foi para... :

A Borboleta!!!!

Heeeee! Palmas pra ela, palmas pra ela! porque ela merece! Ela merece! 

Brincadeirinhas à parte, a disputa pelos votos no concurso que a Lola promoveu para divulgar textos de blogueiras foi acirradíssima. Eu fiquei ali, grudadinha com a Daniela, do Histórias de Menina, por vários dias. Ela sempre na frente, e vocês iam lá e pluft! mais um voto! E, então, alguém mais ia lá e ploft! Daniela!

Eu, inclusive, fui uma das que ploft! votou nela. Não que eu mesma não recomende meu texto, mas eu meio que me excluí do meu próprio jultamento. Entre os vários outros textos legais, o da Dani foi o que mais me cativou.

Com um texto lindo, chamado "Menina vai pra guerra", ela conta sobre o sentimento assustador e ao mesmo tempo encorajador de ter sido alvo de preconceito mascarado por preferência estética. Dani acabou assumindo seu cabelo black power, depois de perceber que ele era alvo de tanta crítica não fundada e que assim ela deixava de seguir a onda de querer parecer com todo o resto do mundo. 

No final da votação, a menina recebeu 52 votos e a Borboleta 60, carinhosamente depositado por todos vocês que gostam de mim e do que escrevo, excluindo meu marido, claro, porque ele me disse ontem: "ah... eu esqueci de votar!". Vejam que santo de casa não faz milagre mesmo! Massss...

Digo, sem nenhuma falsa modéstia, que ficaria realmente se ela também ganhasse. Eu deixei um recado no blog dela e ela me respondeu outro super carinhoso dizendo que já conhecia meu pedaço e que gostava dele. Bom mesmo né? Também digo BRIGADUUU!!! sem orgulho nenhum e digo que foi super gostoso participar e saber que meu texto estava sendo lido por novas pessoas ou relido por alguns de vocês.

Obrigado por serem leitores e amigos presentes! Obrigado pela animação que muitos de vocês me passaram e por valorizarem minha participação. Obrigada Lola por ser uma feminista nada egoísta e ótima escritora sem medo da concorrência! rs...

Na verdade, estou seriamente pensando em comprar um franquia da Lola e promover algum concurso aqui no Brabuletas também, já que não necessariamente as minhas leitoras são as mesmas de lá e já que divulgar bons textos é mesmo algo super interessante.

Não sou escritora de profissão, mas amo escrever.
Assim como tantos e tantas de vocês tenho essa paixão recolhida desde muito tempo, quando acumulava na gaveta folhas e folhas de escritos para mim mesma.  
E acho que a internet e os blogs fazem um enorme favor de nos dar essa chance de escrever e de partilhar com gente que se identifica com o que sentimos. Ou até com quem não se identifica, mas gosta de troca. 


("Qué cavalu mamãe!", Ângelo no cavalo de madeira, cópia da idade média, no Castelo de Glimmigehus, Simrishamns, 2009)  

No texto "O primeiro vôo do Anjo", que escrevi em agosto do ano passado e o qual você pode ler apenas dando um clique no título, eu falava da angústia que me tomara conta quando deixei o Ângelo pela primeira vez na creche aqui na Suécia. Ele tinha apenas um ano, mas havia sido uma decisão baseada em muito pensar e muito pesar. Sofri muito aqueles meses que se seguiram, embora isso possa parecer realmente ridículo para quem nunca tenha vivido tal experiência. Sofri porque sentia um vazio e uma ponta de culpa. Gracias a vida e ao quanto é bom socializar, o Ângelo seguiu cada vez mais feliz na escolinha e o resultado foi algo que nem eu mesma esperava.

Há duas semanas, uma das professoras, Susanna que também é louca pelo Ângelo, fez uma reunião particular comigo e me disse que o meu pojke é dos mais sociais da escola toda. Ele sabe e chama toda a molecadinha pelo nome, assim como as professoras. Ela disse que estava surpresa como ele vinha dominando o idioma sueco e como ela percebia que ele falava também português, já que ela entende espanhol. Elogiou sua alegria, sua participação nas brincadeiras, ginástica, sua energia que não acabava e seu apetite enorme. Ela me fez tantos elogios e disse que não tinha nada de ruim pra dizer a não ser que "Han är ett perfect barn och han är mycket glad här" *. Naquela hora duas lágrimihas rolaram, mas não eram mais de incerteza, culpa ou tristeza, embora, claro, isso eu tenha deixado lá no ano passado mesmo, quando tinha percebido que era mesmo o melhor caminho para meu Anjo e para mim mesma.


(Eu e Ângelo, curtindo o sol, os passarinhos, as vacas, a amiga, a paz  no topo do monumento Ales Stenar, Kåseberga, 2009)

Sem contar o quanto eu realmente acredito que a creche meio período tenha sido bom para o Ângelo eu posso dizer que um ano depois estou muito mais confiante. Menos cansada e muito mais animada para brincar com ele quando estamos juntos. Aprendi sueco e consigo falar pelas ruas e por onde vou, sem mais precisar do inglês. Não falo buniiito, mas falo e já recebi elogio de muita gente. Visitei Museus e escrevi alguns textos. Pintei alguns poucos quadros e vendi outro. Organizei meu ateliê e tenho dezenas de projetos. Estou feliz. Creio que o fato de eu sentir que também cresci esse tempo e não só fiz crescer ao meu filho me ajuda a justificar o tempo que não estou com ele.

Continuo achando que nenhuma mãe, nenhuma avó, nenhuma babá consegue dar a uma criança a alegria e o crescimento que a relação com outras crianças pode dar. E nenhum amor, por maior que seja, consegue superar o cansaço do dia após dia de dedicação. Acho que a cobrança acaba vindo de alguma forma e a frustração também. Talvez isso não seja verdade para alguma Mãe Maravilha, mas o é para mim. Assumo isso sem vergonha de parecer fraca, pouco dedicada ou o que seja. Quem me conhece e conhece o Ângelo deve presumir que essas não são características que me tomam. Eu, por minha conta, estou satisfeitíssima. Embora bastante imperfeita sou a mãe e a mulher que desejo ser.


...
* Pojke: menino
* *Han är ett perfect barn och han är mycket glad här: Ele é uma criança perfeita e é muito feliz
 aqui.