03 abril 2009

Calar-se ou não...

(O Lavrador de café", Cândido Portinari, 1934)


Gente, eu havia programado de escrever um post comentando a poesia "Modernidade" do post anterior, mas a Irene mandou um comentário tão bom que acho que quero começar por ele.

Além de comentar outros aspectos da paternidade e maternidade, ela disse:

"Eu nunca vi uma mãe, negra, com uma babá, branca, passeando no shopping. Moderninade só se for o shopping."

A percepção da Irene sobre a única coisa que tem de moderno no poema foi ótima. 

Lembro de alguns alunos meus na aula que dei sobre esse poema, dizendo que era moderno porque uma mulher branca e uma negra hoje em dia podem trabalhar juntas, serem amigas e passearem no shopping, mesmo uma sendo empregada da outra.

Lembro também que quase chorei com essa leitura, inclusive porque é bom ressaltar eu dava aula para alunos que queriam entrar numa universidade, eu dava aula em cursinho...

Bom, acho que esse poema traz aquela questão que a gente debateu bastante esses dias, sobre a importância de curtir os filhos crescendo, sobretudo no nosso tempo livre, já que a vida exige que abramos mão do resto todo. Creio, porém, que a autora faz uma brincadeira com o título "Modernidade" e uma crítica muito forte à estrutura social brasileira. 

Ainda em tempos tão modernos, nos quais passeamos em shopping center luxuosos, as diferenças educacionais, culturais e econômicas deixam transparecer centenas de anos de discriminação pela cor. Essa cena, corriqueira, parece não incomodar mais ninguém. Ainda que a babá nunca possa entrar numa loja do mesmo shopping que a patroa e comprar umas coisinhas para seus moleques, elas caminham lado a lado, como amigas ou boas companheiras. 

Se há um trocadilho meio irônico com o título, o poema faz outros trocadilhos não só irônicos, mas também tristes. O fato das duas mulheres, uma branca, uma negra, estarem passeando juntas e o fato de que "vão no maior ti ti ti", não significa algo positivo. A roupa branca da babá, uniforme que marca a condição de empregada e de inferior na relação com a outra, em contraste com a roupa preta, sinal de elegância, da mãe, mostra que o ti ti ti é apenas ingênuo. Ou falso. 

A tristeza fica por conta de nem a mãe branca parecer se dar conta de que repete uma história de dominação e um papel tão antiquado, como o da mulher rica que tem a "escrava" negra e nem a empregada negra que sua situação possa ser tão miserável. 

Na descrição do poema, a mãe está em momento de lazer, mas traz sua "mucama". Ela tem seu bebê querido no carrinho o qual ela nem mesmo faz questão de empurrar. 

A miséria está em não reconhecermos em cenas assim algo tão arcaico, tão consolidado e tão difícil de ser questionado. 

A gente não questiona porque já se acostumou. A gente não questiona porque não quer ter um dia triste e cheio de preocupações mais além daquelas que já temos e porque posts alegres dão mais ibope. A gente não questiona porque sabe que é algo bem difícil de se mudar. A gente não questiona porque conhece gente que gosta e que faz o mesmo. Ou... a gente não questiona porque faria o mesmo, sendo brancos ou negros, desde que tivesse dinheiro e que "precisasse".

O grande valor desse poema anônimo é que ele faz e força a gente a questionar.


...

A semana aqui está com milhares de tarefas para eu cumprir, sem marido e com Angelinho ficando doente. tchau! tchau! beijos!

Valeu!

6 comentários:

olhodopombo disse...

eu vivo imaginando um mundo aonde a cor da pele das pessoas seja irrelevante em relação a verdadeira existencia como ser humano....

Mariel Stupp disse...

E essa é sò mais uma mostra de como a mao-de-obra no Brasil é ridiculamente barata. Nòs contratamos pessoas para quase tudo, desde alguém pra lavar o carro por fora como alguém pra trocar um chuveiro queimado. Nesse caso, alguém pra "empurrar o carrinho". Ou seja, parte da populaçao é mimadissima e a outra metade ralando duro pra ter o minimo de comida na mesa.

lola aronovich disse...

Que ótima análise, Somnia! Esta e no outro post também. Eu queria poder comentar, mas estou correndo.
Sabe, eu tenho uma amiga que mora em Malmo, a Pia. Ela é sueca. Estudamos juntas na sétima série. Mas faz uns anos perdemos contato.

Somnia Carvalho disse...

Fátima queridona, eu tombém!!!

Somnia Carvalho disse...

Mariel eu penso sempre a mesma coisa...

sabe que uma das coisas que mais me incomodou nessa visita ao nosso Brasil foi ter alguem para empacotar minha compra? Juro!

e fui num mercado que tinha 24 caixas e 24 empacotadores as 9 da manha... numa praia cara... e eles estava parados, sem fazer nada porque o mercado ainda tava vazio... E exatamente porque eles tem o salario de miseria que voce disse... e claro que ta todo mundo pensando: "sorte deles que tem!"

Somnia Carvalho disse...

Oi Lola! ce achou? so por falta total de tempo eu não linquei esses dois textos com um seu sobre empregada e um da Paola... fui procurar e começou a demorar, dai desisti. Mas tanto voce quanto meio que me motivaram a escrever isso que eu ja tinha pensado em escrever qundo estava ainda na visita ao brasil.

Ah! me da o nome inteiro da sua amiga que aqui na suecia e facilimo de achar alguem... e so eu jogar na internet o nome completo dela que eu devo conseguir achar telefone e endereco. tem uns sites daqui especializados.