Pular para o conteúdo principal

"The look of love", a perfeita combinação entre música e arte

("Tonight", detalhe da instação de Valeska Soares)

Em mais um dos muitos dias que eu me dirigia à USP durante os longos anos do meu doutorado resolvi passar pelo Museu de Arte Contemporânea, o MAC, um excelente museu que a Universidade mantém e onde tive contato com inúmeras obras e artistas nacionais e internacionais.

Em uma dessas minhas visitas e viagens, fui tomada por uma música que me levou de passos no ar até uma sala escura, com luzes verdes em 3D que se cruzavam acima de uma pista de dança real. Projetados no espaço, com corpos translúcidos, um casal virtual, dançava ao ritmo suave e contagiante da composição de Burt Bacharach e Hal David, "The look of love". Embalados pela voz suave de Dusty Springfield que ecoava pelos quatro cantos, com seus corpos cheios de movimento eles me tomaram totalmente. Ouvi uma, duas, três e não sei quantas vezes. Sentei, tirei meus papéis e comecei a anotar o que via. Ao mesmo tempo que refletia sobre a obra de arte que estava ali, eu tentava perceber detalhes de como Valeska Soares (a artista brasileira, residente em Nova Iorque, até então desconhecida para mim) havia criado sua obra. Eu olhava e olhava aquele par "não real", criado perfeitamente pelas mãos de alguém no computador, e pensava como conseguiam criar em mim sensações tão reais.

Na época fiquei louca pela música, mas só consegui a versão do grupo Café del Mare, já que a única referência que eu tinha era o título da obra "Tonight", mas hoje aqui, fuçando em sites de museus, me lembrei daquele dia e voltei a procurar na rede até encontrar o original, inclusive na mesma voz.


("Tonight", detalhe da instação de Valeska Soares)

Naquela manhã ou tarde, não sei dizer, levei muito tempo dentro do MAC e só saí quando senti fome. E naquele dia eu sabia que todos os anos do meu doutorado, do mestrado ou da graduação, aos quais vieram após eu deixar de trabalhar em pequenas empresas na minha cidade, onde eu havia feito tudo muito bem obrigada por dez anos, tinham sim valido a pena.

E tem sido momentos assim, ocorridos desde minha escolha pela filosofia e pela arte, em experiências particulares, únicas e inesquecíveis que eu agradeço por um dia ter tido coragem de mudar totalmente o sentido de minha vida. Isso porque pode parecer exagero, mas a pintura, a música, a arte em geral, é tão parte de mim que não há um dia sequer sem que eu faça algo sem esse contato.


(The Look of love, Dusty Springfield)

Para quem sabe, Dusty Springfield foi uma das vozes mais famosas dos anos 60, interpretando canções que marcaram a época e também foram reproduzidas , em sua ou outras vozes, em trilhas sonoras conhecidas por todos nós. Clique nos títulos se quiser ouvir:

- "The Look of Love", em Cassino Royale (1967),
- "I just don´t know what to do with my self", "Wishin and Hopin" em O Casamento do meu melhor amigo (1997),
- ou "Son of a Preacher Man" que ouvi muitas vezes na trilha de Pulp Fiction (1994).

Acabei usando a reflexão e a experiência daquele em minha tese de doutorado, quando comparo o casal de Valeska e sua leveza com um dos desenhos de Anita Malfatti, ao qual eu analisava na época. Abaixo reproduzi uma parte do meu falatório formal da tese e aqui também vai o desenho dessa outra brasileira que me fez viajar por quatro anos.


(Casal Dançando, Anita Malfatti, 1910-1920, acervo IEB-USP)


"... esse desenho de Anita Malfatti, "Casal Dançando", assim como se poderia trazer aqui outras referências da artista, evidencia um intercâmbio muito forte entre tradição e novo. Mescla um aspecto rústico a uma leveza, criatividade com simplicidade. Ele nos traz à memória outros trabalhos de artistas contemporâneos brasileiros que recorrem a mélange, não na pintura necessariamente, mas nas artes plásticas de forma geral. Um paralelo poderia ser feito com Tonight, uma instalação de Valeska Soares, de 2002, na qual a artista usa de uma projeção lançada sobre um palco, criando a sensação de que a cena seja real. Alguns dançarinos se movem neste palco “imaginário”, em quadrados uniformes de material frio. A rigidez e minimalismo do lugar contrastam com a volúpia da dançarina e seus pares e com o clima aconchegante criado pela música de fundo (Tonight, Café del Mare). A referência ao romântico, colocada através da dança de salão que os dançarinos embalam, se mistura ao cenário e à musica contemporâneos. “A estética predominante de Soares combina um vocabulário formal minimalista - aço inox polido, espelhos, repetição seriada - com uma tendência romântica a associações poéticas, que são freqüentemente despertadas por outras percepções sensoriais. É preciso prolongar-se para ler a história, entender a superposição da voz, descobrir a fragrância essencial à estrutura de uma instalação. Seu trabalho demora para ser assimilado, entra devagar em foco distinto. Mas a paciência do apreciador é bem recompensada.”

Sônia Maria de Carvalho Pinto, "A controversa pintura de Anita Malfatti", USP, 2007.

Referências bibliográficas: HILL, Joe, “New York: The Bronx Museu of the Arts”. Disponível em: , acesso em: 03 junho 2006. A obra foi exposta também na “Exposição Territórios” do Museu de Arte Contemporânea da USP.

Comentários

Lia disse…
eu nunca tinha ouvido falar da artista, mas fiquei muito curiosa para saber mais.

na verdade cai de amores por essa m]usica!

lindo post!
Beth/Lilás disse…
Querida,
Eu não sei comentar sobre arte com este gabarito que você tem, posso apenas dizer que gosto do que vejo e do que você fala porque quando nos explica alguma coisa sobre uma ou outra tela, consegue passar sua verdadeira paixão pelas artes e pela filosofia.
Deve ser um grande barato ver esta obra numa sala assim como descreveu e com esta linda música no ar, acho que também ficaria embevecida, olhando e admirando.
Seu mundo parece-me delicioso, pois faz aquilo que gosta e isso é tão importante e realizador para um ser humano.
E só fui conhecer sobre A.Malfatti contigo através do blog e hoje, vendo algumas telas maravilhosas dela pelo jornal. Realmente encantadora sua obra.
beijocas cariocas
Somnia Carvalho disse…
Lia,

eu também adoro ouvir essa musica. Na verdade ha pouco na internet sobre a artista... ela mesmo deveria tentar fazer um site ou o que seja, assim a gente entrava em mais contato com a obra...
Somnia Carvalho disse…
Lilas,

eu viajo na maionese ce sabe... mas tambem conhecer os termos e conhecer outras obras ajuda.

na verdade o importante e a gente conseguir apreciar obra de arte... essa e a diferenca entre os reles mortais e aqueles para quem a vida vale um momento mais...

Postagens mais visitadas deste blog

"Ja, må hon leva!" Sim! Ela pode viver!

(Versão popular do parabéns a você sueco em festinha infantil tipicamente sueca) Molerada! Vocês quase não comentam, mas quando o fazem é para deixar recados chiquérrimos e inteligentes como esses aí do último post! Demais! Adorei as reflexões, saber como cada uma vive diferente suas diferentes fases! Responderei com o devido cuidado mais tarde... Tô podre e preciso ir para a cama porque Marinacota tomou vacina ontem e não dormiu nada a noite. Por ora queria deixar essa canção pela qual sou louca, uma versão do "Vie gratuliere", o parabéns a você sueco. Essa versão é bem mais popular (eu adorava cantá-la em nossas comemorações lá!) e a recebi pelo facebook de minha querida e adorável amiga Jéssica quem vive lá em Malmoeee city, minha antiga morada. Como boa canção popular sueca, esta também tem bebida no meio, porque se tem duas coisas as quais os suecos amam mais que bebida são: 1. fazer versão de música e 2. fazer versão de música colocando uma letra sobre bebida nel

Mãe qué é mãe mesmo...

(Picasso, Mãe e criança, 1921) Mãe qué é mãe mesmo... Já deu uma de cientista e foi até o quarto do bebê só para checar se ele respirava. Já despencou de sono em cima dele, feito uma galinha morta, enquanto amamentava. Já caminhou pela casa na ponta dos pés, como uma bailarina, só para não acordar o pimpolho. Mãe qué é mãe mesmo... Já perdeu a conta das mamadas e esqueceu qual o peito deveria dar. Já deu oi pro lindo rapaz que dormia ao seu lado e dormiu antes de continuar a conversa. Já adquiriu habilidades múltiplas como comer com uma mão só e fazer xixi com o bebê no colo. Mãe qué é mãe mesmo... Ama e odeia, ama e odeia. Às vezes chora e muitas vezes sorri. É ao mesmo tempo carrasca e heroína. Mãe... é uma garota crescida com uma boneca de verdade nos braços. Precisa de atenção e carinho tanto quanto seu brinquedo.

O que você vê nesta obra? "Língua com padrão suntuoso", de Adriana Varejão

("Língua com padrão suntuoso", Adriana Varejão, óleo sobre tela e alumínio, 200 x 170 x 57cm) Antes de começar este post só quero lhe pedir que não faça as buscas nos links apresentados, sobre a artista e sua obra, antes de concluir esta leitura e observar atentamente a obra. Combinado? ... Consegui, hoje, uma manhã cultural só para mim e fui visitar a 30a. Bienal de Arte de São Paulo , que estará aberta ao público até 09 de dezembro e tem entrada gratuita. Já preparei um post para falar sobre minhas impressões sobre a Bienal que, aos meus olhos, é "Poesia do cotidiano" e o publicarei na próxima semana. De quebra, passei pelo MAM (Museu de Arte Moderna), o qual fica ao lado do prédio da Bienal e da OCA (projetados por Oscar Niemeyer), passeio que apenas pela arquitetura já vale demais a pena - e tive mais uma daquelas experiências dificilmente explicáveis. Há algum tempo eu esperava para ver uma obra de Adriana Varejão ao vivo e nem imaginava que