04 dezembro 2007

"Receita de Ano Novo": Trocar Skakespeare por Drummond.



("Mariana", John Everett Millais, 1851)

A bela e contagiante tela acima, de John Millais (não confundir esse inglês com o francês Millet), pertencente ao acervo do Tate Gallery, em Londres, é ainda mais impressionante quando vista ao vivo.

Enorme, com cores muito, muito vivas, brilhantes, aveludadas, a tela "Mariana", que tem como tema a personagem da peça "Medida por medida", de William Shakespeare, prende o expectador dentro dela. Prende a atenção sobre Mariana, seus trajes, seu quarto e sua beleza.

No entanto, apesar de jovem e linda, Mariana é infeliz. Rejeitada por seu grande amor, o governador de Viena e seu amante, Ângelo, ela se isola em sua tristeza. Nada mais fora de sua própria tragédia, de seu abandono e sua infelicidade a mantém. De dentro de seu quarto e de seu desespero ela se põe a esperar pelo retorno do amado.

Millais soube captar o desespero da bela e seu confinamento a partir de uma pintura que simbolizou muito bem a peça do dramaturgo. Millais é perfeito como representante do Simbolismo.

Skakespeare, por sua vez, retratou muito bem a sociedade opressora e repressora do século 17. Não à toa, suas peças têm o drama e a tragédia como tema.

Mas, se Millais é maravilhoso de se ver e Skakespeare lindo de se ler, para nós, mulheres e homens do século XXI, Drummond é a escolha perfeita para viver.

Nada de dramas,
Nada de peninha de si mesmo,
Nada de "e se",
No Ano Novo, melhor trocar o velho e surrado Skakespeare pelo sábio e prático Drummond:


Receita de Ano Novo

(Carlos Drummond de Andrade)

"Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)


Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.


Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre."

Um comentário:

Somnia Carvalho disse...

Somnia,
gostei muito do texto!
embora ninguém tenha feito comentário, adorei
pensar em deixar o drama no próximo ano!

Sônia.