10 março 2008

Lá na minha terra...

("Minha terra tem Palmeiras"... - Ângelo curtindo o sol e sombra brasileira)

Depois de um ano vivendo na Suécia e um ano fora do Brasil, a última visita teve um sabor de "Canção do Exílio".

Eu tava falando com minha amiga Mafer sobre a diferença de sentimento dessa minha ida e daquela primeira, em outubro do ano passado, e percebi ainda mais o que eu havia dito daquela primeira vez, porém, de forma mais intensa.

Sou estrangeira aqui.
Sempre serei.
Como estrangeira nunca conseguirei sentir, nem viver, nem ser, como um sueco. Por isso mesmo consigo ter um olhar sobre esse lugar que quem sempre viveu aqui não tem.
Sou louca pelas árvores secas do inverno, adoro respirar o ar puro da manhã e viajar de trem. Contudo, me irrita ter que prever o imprevisível, ser organizadinha como os suecos são e resolver tudo por telefone, ao invés de falar pessoalmente.



("Minha terra tem": sol o ano todinho)

Se você já viveu fora de seu canto um tempo, você entenderá o que eu quero dizer.

Ao sair, você volta diferente.
Não se encaixa muito mais na rotina que sempre viveu e se irrita com coisas que ninguém mais nota, como, por exemplo, o uso exagerado de sacolinha plástica no supermercado. Por outro lado, se encanta, tal qual um estrangeiro ou um viajante, com coisinhas que ninguém mais dá bola:

Dessa vez eu me apaixonei novamente pelo Brasil e por suas coisas. E, como estrangeira, suspirei ao olhar os coqueiros - tão exóticos -  à beira das praias na Bahia, torcidos e dançando ao som do vento. E tomar água de coco! hum... que delícia!

Como boa filha que à casa retorna, abracei apaixanadamente a família e os amigos e tive uma dor de saudade já no abraço de chegada.



("Minha terra tem": amigos que falam a mesma língua que eu - Ângelo curtindo os amigos Fernando, Max e Pedro)

Mas, como caixeira viajante, senti o prazer de pisar em terra sueca de novo e cruzar a fronteira na grande ponte que separa Malmö de Copenhaguem. Olhar para tudo e ter orgulho de poder viver essa "vida dupla".

Ainda assim, é estranho como nada mais é como antes.

Tudo é lindo aqui e imperfeito.
Tudo é imperfeito aí, mas tão gostoso.
Acho que a diferença é que na "minha terra tem Palmeiras, onde canta o sabiá...", como bem lembrou a Mafer, ao citar o Gonçalves Dias.

Acho que só hoje entendo bem uma lição aprendida no cursinho sobre a Canção do Exílio, desse poeta. Só no exílio é que o "ser estrangeiro" e o pertencer a uma outra terra nos faz ver o mesmo com outros olhos. 

Embora viver fora te dê a estranha sensação de não se sentir mais pertencendo a lugar nenhum, o local onde você menos se sente estranho é sempre o seu ninho. 

Hoje eu olho para o Brasil de forma diferente. Assim como para a Suécia.
Nem melhor, nem pior. Apenas de forma estranha.



("Minha terra tem": gente que me entende e me acha "o máximo", como minha vó Maria e a vavá)

Canção do exílio

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar –sozinho, à noite–
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que disfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá. 


Gonçalves Dias

5 comentários:

D. disse...

Somnia,entendo um pouco do que você fala. Gostei tanto do seu post que até citei o seu no meu último texto. Dá uma olhadinha lá...

Beijos

Dani
1daystand.blogspot.com

Somnia Carvalho disse...

Dani, adorei a referência e as reflexões em comum!

A coisa existe mais ou menos assim em mim:
eu adoro qualquer lugar onde vivo. Me adapto muito facilmente, por isso curtia viver em São Paulo, apesar dos pesares. E sei que você também curte um tanto...
apesar de. Entretanto, adaptar-se não quer dizer que você consiga se sentir inteira. Acho que é esse sentimento que tenho agora vivendo fora do Brasil. O ninho, por enquanto é a Pátria, mas, como você, também sou tão eu mesma quando volto a Sumaré, na casa dos meus pais...

É uma bagunça só! nem sei se me explico! beijao

Andréa disse...

Gente, o que esse menino tá fofo!!!!! Sinto mais ainda não ter dado umas beijocas nele por aqui. Vou ter de esperar agora, né??
Bjs
Andréa

Irene disse...

" Como pode um peixe vivo viver fora d'agua fria."
Como é díficil viver longe desta linda e fofa companhia.
Muitos beijos!!!
Vavá Irene.

Somnia Carvalho disse...

Vavá,

É difícil pra gente também ver que a coisa fofa aprende coisas novas e lindas todos os dias e tem só a gente para paparicá-lo, tirar foto, beijocar etc etc etc...

Mas eu creio que um dia ele possa colher algum fruto dessa experiência também, embora agora ele seja só nosso pequenino bebesito.