29 janeiro 2008

Aprendendo a patinar: 1 ano de Suécia

(Brian Jourbet, um dos melhores de 2007)

Há um ano atrás eu acompanhava, pelo canal de esporte da TV daqui, o Campeonato Europeu de Patinação Artística no Gelo. A gente tinha acabado de chegar do Brasil para viver aqui por dois anos e ficamos um mês em Lund até acertar apartamento em Malmö.

Naqueles dias frios, chuvosos e com neve, eu saía, com uma pequena barriga de grávida, e caminhava muito por Lund, sedenta por conhecer tudo, e vivia me desequilibrando nas ruas, quando a neve caía. E quando vi que todo mundo andava junto às paredes e ia se segurando para não cair, fui tentando fazer o mesmo.

Estava começando tudo novo, num lugar todo diferente e vivia carregando o laptop e os livros, porque tinha uma tese para ser terminada. E, em meio àquilo, foi muito gostoso acompanhar aquelas finais de patinação, quando voltava para o apê quentinho.




Me lembro perfeitamente de algumas apresentações e de alguns patinadores. Alguns deles tiravam o fôlego da gente, fazendo saltos (não sei os nomes corretos), coisas fantásticas em cima de um patins. Já outros faziam a gente perder o ar, mas não pela técnica, pela emoção que causavam. 

Desses, eu guardo a sensação até hoje. 

E eu pensei que aqueles patinadores ensinavam muito, enquanto estavam ali. Sei que o esporte, de maneira geral o faz, mas eles, de maneira especial.  Comentava com o Renato quem havia me chamado atenção e ficava reflexiva mesmo, enquanto babava em cada música e dança




Engraçado que, de certa forma, me entristecia o fato da maioria que competia e que, com muito esforço, havia chegado até àquelas finais, iria para casa sem medalha nenhuma. Muitas vezes, voltaria sem mérito,  frustrados, porque haviam se saído muito mal, em algo no qual já se sentiam preparados.

Havia ali gente que vinha se dedicando anos e anos de sua vida treinando, se machucando, tentando as melhores acrobacias, escolhido e treinado pelo menos, por um ano, coreografias e interpretação. Havia sonhado e se animado por estar concorrendo com os melhores. E mesmo assim, às vezes, o tombo, era inevitável. Ou o nervoso transformava a apresentação num show de erros e insegurança. 

E nesses deslizes, tudo encerrado. Ao menos por aquele ano.

Esta semana liguei a TV rapidamente e percebi que estão transmitindo as finais de 2008, que eu nem sei se já terminaram ou não, ou se é replay do canal. Me lembrei, então, das eliminatórias de 2007 e me dei conta de que já se passou um ano. 




Vendo uma patinadora cair três vezes no gelo, me lembrei também como cada atleta, daquela final do ano passado, havia lidado com sua situação da perda: perder o título; não cumprir o esperado pelo treinador; não agradar e impressionar o júri e, pior, não cumprir oas próprias expectativas.

Para alguns a frustração se transformava em raiva profunda. E isso era nítido no rosto de cada um, quando viam as notas. Outros, ao que me parecia, conseguiam lidar bem com a situação e encaravam como sendo parte daquilo que escolheram fazer, competir. Não necessariamente vencer. E às vezes, apenas davam de ombros e continuavam sorrindo, abraçando o treinador e esperando se dar bem nas outras modalidades que viriam no outro período do dia.




Mas o que me chamou atenção em 2007 e, agora novamente, era que, normalmente os melhores, eram não só os mais preparados, mas os mais seguros. São os melhores porque conseguem combinar a mais emocionante música,  a melhor coreografia, o mais belo figurino com uma técnica incrível, claro.


(A dança do vitória de Brian Jourbet, em 2007)

Mas, mais que isso: a expressão deles e, a forma como deslizam no gelo, é de quem sabe exatamente porque está ali. Não é a competição o mais importante, mas patinar. Patinar prazerosamente, mesmo quando tem tanto em jogo. Há paixão pelo que fazem, e há, sobretudo, um saber saber dosar a importância do campeonato. 



(O casal de francêses que havia me emocionado em 2007, e que ganhou medalhas neste)

E exatamente porque conseguem não dar tanta importância assim àqueles jurados com olhar de desdém ou indiferença, eles se arriscam mais e ficam ainda mais confiantes, e nooossa! Arrasam! 

Acho que o maior desafio nosso de cada dia é aprender a "patinar" como os melhores. Não apenas manter-se de pé, mas tentar o equilíbrio perfeito.

E arriscar-se.
E se preocupar apenas na medida certa com o que a torcida e o júri pensa de nós.
Porque o importante mesmo é que a gente patine porque goste. 
E aproveite o momento.
E se delicie ou assuma que caiu porque não sabia ou apenas aceite que a sorte sorriu para outro.



(Rê, meu adorável companheiro de patinação, brincando de ser Brian Jourbet, Janeiro de 2007)

Acho que nesse um ano de Suécia, tenho tentado aprender a me equilibrar como os patinadores. Vencer o Monstro do O cortado ao meio foi o primeiro desafio de muitos que vieram depois. Patinar com um bebê tem sido a mais desafiante e emocionante. E tudo que me desafia me faz crescer e me dá prazer. 

E isso eu acho só é possível se a gente não tiver medo de pegar os patins nunca usados e lançar-se ali na pista. E esperar por tombos inevitáveis, mas aceitá-los como parte do combinado, porque é preciso treinar todos os dias para conseguir o perfeito equilíbrio. É preciso aprender que um dia a gente cai e que em outros se ganha uma medalha e que a imagem que acabamos por guardar e os outros também não são a dos tombos, mas as dos belos e acertados saltos.


(Nota: As imagens dos patinadores acima podem encontradas no site da
"Europe On Ice, Worldwide Figure Skating With Europe On Ice", bem como nomes e informações dos patinadores que ilustram este post)

12 comentários:

Ed. disse...

na minha época de "lombadinha" em rio preto eu "brinquei" de ser instrutor de patinição no gelo.
cai e dei quatro pontos no queixo.

A verdade é que "patinar" é uma arte e eu nem sabia ainda que o queixo seria a parte menos dolorida que eu cortaria...

ah se tivessemos o manual...

Anônimo disse...

E voce jah colocou os patins e se aventurou no gelo? Eu tentei patinar alguns anos atras e levei tanto tombo que acabei me desanimando um pouco. Como estao os preparativos para mudanca e viajem? Me mande seu novo endereco para meu e-mail pessoal. Se nao nos falarmos facam uma otima viajem e aproveitem o sol e calor por mim, please.

Bjs.
Sandra Reynolds

Somnia Carvalho disse...

Ed instrutor de patins*???
quem diria...

rs...

Somnia Carvalho disse...

Sandra,

ainda vou por os tais patins...
por enquanto so na ideia messss!

mandarei tudo por email!!! bjsssssssss! otimo te ver por aqui...

Daniela disse...

Somnia, adorei este link que vc fez com a patinação e sua experiência aí neste país distante. Gosto da maneira que você vê o mundo e me identifico com ele! Memso não te conhecendo consigo sentir algo energeticamente muito bom vindo de você.

beijos

Dani
1daystand.blogspot.com

Ed. disse...

Vc me deixa comentarios Foferrimooos sempre

assim vou acreditar que to no caminho...rsrsrsrrsrs

bjo na familia

Irene disse...

Como sempre.Lindo texto!Acho que já faz um bom tempo que voces colocaram patins nos pés e um par de asas nas costas.Um equilibrio perfeito de sustentação e superação.Merecedores de muitas medalhas pela coragem de enfrentar desafios,saudades,alegrias,tristezas risos, choros.Parabéns! Continuem a deslizar!!
Vavá do Ângelo.

Somnia Carvalho disse...

Dani, tombém me identifico com você!!! haha... e quem sabe a gente um dia se conhece além das telas?

Somnia Carvalho disse...

Ed, eu poderia ficar calada, mas eu nao fico. Se elogio você e porque e sincero. Sobre isso eu realmente nao consigo mentir...

Somnia Carvalho disse...

Irene,

obrigada novamente pelo comentário super elogioso!

eu acho que perdi varias medalhas! haha... e eu me sinto, muitas vezes, mais merecedora da categoria do arriscar... nem sempre consigo esse equilibrio aí não... na verdade, acho que na maior parte do tempo, só busco por ele...

pelo menos a gente ta tentando acertar ne?

beijosssss

Anônimo disse...

hey


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Anônimo disse...

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