30 julho 2007

Curiosidades sobre a Suécia (Parte 4): Sociedade "servi-servi"


(Crédito do desenho: (http://siankeegan.typepad.com/sian_keegan/images/2007/03/16/swedish047_copy_3.jpg)

A CURIOSIDADE:

Estava aqui lendo emails e pensando num post, mas não longo demais. O motivo vocês já sabem qual é e ele repousa no berço agora. Vi o Renato passar para o banheiro, levando roupinhas do anjo para lavar. Aqui na Suécia, como em vários lugares da Europa, dificilmente há lavanderia dentro do apartamentom, porque os prédios da cidade, como aqui em Malmö, são bem antigos e a arquitetura não incluía este item na casa. As máquinas de lavar e secar quase sempre ficam dentro do banheiro (que normalmente são bem grandes). Aliás um detalhe que agora já gosto bastante, porque a roupa sai do corpo, as vezes, direto para a máquina de lavar.

O que há nos prédios é uma lavanderia gigante com grandes máquinas para todo os moradores. É uma vantagem a mais se você as tem dentro de casa, porque pode organizar suas lavadas como preferir ao invés de ter que agendar a lavada para cada semana o que, inclusive, não é problema para os suecos acostumados a essa organização. Minha vizinha de porta, Brigitta, mora aqui há 27 anos, teve três filhas aqui e usa a máquina do prédio sempre, quase como um ritual.

Entre as tantas coisas que nos chamam a atenção neste país, quando comparamos com a nossa vivência no Brasil, é o fato de que praticamente tudo é você próprio quem faz. E a gente já tá tão suequinho que essa atitude que descrevi do meu super marido se tornou natural entre nós dois. É uma sociedade "servi-servi" (sel-service), como diz o pessoal mais simples no Brasil.

Alguns pontos ajudam nisso, como comentei num post anterior:

Os trabalhos manuais são caros aqui, muito caros. Isso porque a maioria da população tem acesso à boa formação e acaba escolhendo outras funções, o que concorre para que os poucos que desempenham essas funções sejam bastante requisitados e cobrem o valor que seu trabalho vale.

Na verdade, uma coisa que o Renato sempre comenta é como é curioso que a maior parte do serviços que ainda existem no Brasil simplesmente não existirem mais aqui. Isso nós notamos logo que chegamos quando nós mesmos tivemos que achar o carro alugado num estacionamento gigante onde não tinha nenhum funcionário. Depois, pagamos o pedágio entre a Dinamarca e a Suécia na estrada com cartão e a catraca abriu sozinha. Tivemos que entender como e onde se deixava o carro porque precisávamos pagar para deixá-lo na rua... e por aí vai...



Há, entretanto, um fator que influencia ainda mais esse auto serviço: para a maioria dos suecos, deixar que alguém de fora cuide de suas coisas, como lavar, passar, cozinhar, tomar conta do bebê etc. é algo que vai contra seus princípios. Primeiro, porque mostra que ele não é capaz de cuidar de sua vida e sua família e de tarefas que julgam ser simples, já que estão acostumados a fazer isso desde pequenos. Segundo, porque vou pagar para outra pessoa, que deveria estar tendo tempo de cuidar da vida e da família dela, para cuidar da minha. E, terceiro, a questão de que esse é um trabalho caro e eu posso empregar esse dinheiro em coisas que eu não possa fazer. Essas foram coisas que notamos, mas também foi dito pela própria Brigitta, professora primária aqui.

Então, se você vive por aqui, não importa muito se é o prefeito da cidade, uma professora, uma cabelereira, um gerente etc. Você, como todo mundo, cuidará de suas tarefas domésticas.

No início foi estranho e complicado, agora estamos já habituados. Praticamente em tudo, você põe lá as moedinhas, lê as instruções e resolve você mesmo. Não. Não tem a mocinha para tirar dúvidas. Ahn? Não. Não tem o rapaz que te ajude, caso você não consiga. Há instruções em sueco para quê? Só seguir o manual! E como as velhinhos que vão ao caixa conseguem tirar sua aposentadoria? Todas elas estão habituadas a esse sistema há muito tempo e como velhinhos suecos tiveram formação no passado para se virarem sozinhos. Até mesmo os passeios, os supermercados etc eles fazem sozinhos, ajudados apenas por um carrinho onde velhinhos e velhinhas (de 60, 70, 80 ou 90 anos de idade) se apóiam e rodam a cidade todos cheios de independência.

(Centro de Öland, maio 2007)

Curiosidades sobre a Suécia (Parte 4): Cadê meu entregador de pizza?


(Crédito da charge: www.cartuns.com.br/ pizza.GIF)

DAS ATIVIDADES:

Só para ilustrar melhor, algumas atividades que nós mesmos fazemos aqui, porque não há alternativa de pagar alguém para fazer ou porque o serviço é extremamente caro:

1. LAVADOR DE CARROS
Não existe o lavador de carros. Vamos a um lugar onde cada qual põe sua moeda, escolhe as funções e lava seu carro. Depois, seca. Depois, lustra... ui.. depois põe os tapetes... Ajudei o Re fazer isso no oitavo mês de gravidez e não achei nada glamouroso.

2. MANOBRISTA
Não existe o manobrista de carro: não há o tiozinho do estacionamento particular que pega suas chaves. Nananinanão.! E em todas as ruas da cidade, todas, é necessário pagar para estacionar. Se tem o campeão que toma conta pra você por 5 reais? Não. Tem máquinas pela cidade toda, você põe as moedinhas, escolhe as horas que quer ficar e põe o papel dentro do carro. Claro que o detalhe (que o Re também notou) é que os carros podem ficar nas ruas e o recado pode avisar que você só vai voltar a tal hora, porque não tem o bandido que vai se programar o roubo naquele horário. Mas aí, entra em outra questão, a segurança na Suécia, que merece outro texto.

CAIXA DE PEDÁGIO
Como eu disse acima, nem nos pedágios, assim como em estacionamentos pivados, não há um caixa que recebe o dinheiro ou cartão e lhe dá um recibo. Você mesmo desempenha as funções dessa pessoa.

4. CARREGADOR DE MALAS
Em hotéis, logo você repara que falta alguma coisa... Claro! os mocinhos que carregam a mala para você até o saguão ou até o quarto. Isso deve ser um assunto primitivo para eles aqui. Cada qual carrega suas toneladas de mala para o quarto, para o taxi, para onde for preciso.

3. CABELEREIRO, MANICURE/PEDICURE
Existe a cabelereira e a manicure... Mas, o setor de beleza e higiene pessoal é muuuito caro aqui. E eu lastimo todas as vezes que me lembro. Eu tava bem (ou mal) acostumada no Brasil a fazer as minhas unhas toda semana, indo ao cabelereiro e à depilação toda sexta. Não precisa ser madame para se ter este agrado no Brasil. Agora vejo que o serviço era praticamente gratuito aí. Eu pagava mais ou menos 12 a 20 reais para fazer pé e mão no Brasil, em salões perto de casa. E nem tô falando de salões ruins não. Por uma depilação básica eu gastava uns 60 reais num bom salão. Aqui eu não tive o privilégio de usar os salões porque eu pagaria a reles quantia de 200 a 250 reais para fazer a manicure. Sem tirar cutículas. Sem o pezinho, porque nem todo lugar faz o pezinho pra você não. A depilação segue o mesmo tom: super cara. Bom, mas sem perder o foco. Isso quer dizer que a maioria das suequinhas loiras lindas fazem, elas mesmas, sua depilação, suas unhas etc. Quando fazem... (vi isso na aula de ginástica aquática para grávidas rs...) Agora, no verão, os cabelereiros e salões ficam cheios, todas elas se cuidam muito. Unhas pintadas, cabelos coloridos com cortes maravilhosos. No inverno a coisa é um tanto diferente, inclusive porque do corpo a gente só vê mesmo os olhos.

Ah! existe uns produtos para cabelos que nunca vi no Brasil. Tintura com todos os acessórios para, você mesma, fazer suas luzes e mechas. E por aí vai... Uma manicure é um luxo que pouquíssimas pessoas pagam para ter.

4. AS BABÁS


É um serviço raríssimo e muito mal visto por aqui. Infelizmente.
Uma mãe sueca que trabalhe tem direito à licença maternidade de 1 ano e meio, sendo que o governo paga integralmente uma parte dessa licença. A outra é parcial. Elas podem dividir a licença com o marido ou este tirá-la integralmente e cuidar de seu bebe. Então, você verá mães louras e pais louros lindos pela cidade inteira, com seus carrinhos de bebês a cuidar de seus rebentos. E como a cidade é segura e limpa, eles se espalham pra todos os lados. É comum ver grupos de mães com seus bebes em carrinhos ou de pais com seus amigos que também estão de licença. Vi mais carrinhos de bebês na rua aqui em 7 meses do que vi em toda minha vida no Brasil.



(Este pai não é sueco nem louro, mas já cuida muito bem de seu bebê)

5. FAXINEIRAS
As mães, quase todas, amamentam. e cuidam, elas mesmas, dos seus bebês. Limpam a casa, vão ao supermercado, lavam, passam, Só para ter uma idéia, quando fomos visitar o bebê da Marie, uma sueca casada com um sueco que trabalha com o Re, e que tinha tido parto natural (como de praxe), ela estava a lavar, passar, cozinhar, cuidar do seu bebê de um mês e... construir a casa com o marido. Sim... eles estavam fazendo a parte de cima da casa e a Marie tava linda e magra ajudando. Se eles não podem pagar por um pedreiro? Não é este o ponto. Os dois estudaram na Universidade de Lund e tem cargos muito bons em empresas daqui, além de conhecerem inúmeros países e falarem três línguas. Ocorre que fazer sua própria casa, instalando o piso, as janelas e tudo o mais é algo que eles se programaram fazer e acham que são tarefas que podem e
devem fazer.


(Foto tirada em Lund, em abril deste ano. Estes bulbos são famosos aqui. Todo sueco que se preze, faz um jardim lindo e cuidadoso com eles na Primavera)

6. PEDREIRO
Só para fechar este item, construir e reformar, cuidar do jardim não são atividades que um sueco creia que o transforme em menos por isso. Ao contrário. Ele se sente orgulhoso de dar conta disso tudo e tem prazer em cuidar dessas tarefas que circundam sua vida. Não à toa, o IKEA, uma loja de móveis típica da Suécia (linda e ma-ra-vi-lho-sa) é um dos passeios preferidos deles aqui, principalmente se tiver chovendo. Aí quase não sobra vaga no mega estacionamento. Toda suecada vai pro Ikea, inclusive os brasileiros aqui...

7. MONTADOR DE MÓVEIS
No Ikea (uma espécie de Tok Stok com preço de Marabrás) tudo que você compra precisa montar depois, assim como quase tudo que se compra por aqui. Até uma caixinha de papelão que comprei para por trecos do escritório eu precisei montar com parafusinho. O bercinho do Ângelo, o trocador, armário e uma infinidade de coisinhas foi o super pappi engenheiro dele que montou.

8. ENTREGADOR DE PIZZA
Esse é uma lástima... Das coisas que eu mais sinto falta no Brasil é poder pedir uma pizza quentinha e gostosa na sexta-feira à noite. Em casa era quase sagrado. Eu e Renato não ficávamos sem. Aqui não tem jeito não. Se você quiser uma pizza (que normalmente é feita pelo mesmo cara que faz um kebabi, em outras palavras, uma pizza da "Paolo pizzaria", feita por um grego, e a qual quase sempre terá um pimentão e champignon no meio, mesmo que você não peça), então, deve por seus sapatos, casaco, o que for preciso e ir buscar. Encomende e busque. Nada de moleza, mesmo que esteja -10 graus lá fora. Os rapazes das motos trazendo aquela pizza quentinha e gostosa na porta do seu prédio? Só em São Paulo e aí no Brasil. Creio que a falta desse serviço deve ter a ver com o que falei até aqui, sem contar que um mocinho na moto a -10 daria uma pizza meio cara.. Snif...

Como eu disse, há exemplos que não acabam mais. E esse post tá ficando mais longo do que deveria, porque o meu Ângelo, tá dormindo um pouquinho mais do que eu esperava.
(Na verdade, hoje faz 3 dias que comecei este post e só hoje estou aqui, tentando finalizá-lo. Sempre começo com uma idéia curta que vira um texto gigante. Todo mundo diz que eu escrevo demais, então tô tentando separar meu texto em partes. Não que sejam textos super elaborados. As paradas para mamadas, choros e sono me ocuparam os dias anteriores.
Eu, na verdade, só tenho uma meia hora para escrevê-los. Demoro mais para achar as imagens ou para conseguir dar uma lida final. Se passar erros, me perdoem. Façam de conta que é por causa da minha dificuldade em me adaptar a tantas línguas e porque tô esquecendo o português... rs...

Sem tentar ser positiva demais ou mentirosa demais eu diria que esse sistema auto-serviço da Suécia, país que só perde para a Noruega em distribuição de renda e qualidade de vida, com certeza parece exagerado demais para nós que estamos acostumados a ter ajuda em tudo, quando se tem o privilégio de poder pagar para isso. Entretanto, é assim que se vira a grande maioria da população brasileira , foi assim que se viraram meus pais e muitos dos meus parentes, porque não tem como ser diferente. A diferença é que eles só tem a parte "ruim e árdua" que um sueco tem aqui, porque a parte "boa e fácil" (os benefícios que a Marie que opta por construir a casa tem) fica só para alguns aí na nossa sociedade.

26 julho 2007

Vie Gratuliere!!!



Parabéns a você número 1000 que acessou o site hoje, a você que tentou ser o número 1000 e a nós também!

Infelizmente o número 1000 parece ser um tipo tímido, não dado a viagens e festas e preferiu não se identificar. Infelizmente, eu, Angelito, Renato e a princesa Vitória não teremos a quem entregar o prêmio.

Mas fica aqui nosso obrigado!!!

Um beijo do blueberry brasileiro mais famoso na Suécia, o Ângelo.'

Estamos quaaase na primeira milhagem!!!


Gente,

Só para chamar vocês para pegarem suas taças comigo e brindarem daqui a pouco, quando o visitante número 1000 clicar no blog.

quem será? o visitante número mil ganhará uma passagem para Malmö, onde terá estadia "de grátis" na casa de um dos mais aclamados casais brasileiros e de seu Ângelo.

Terá comida free e poderá curtir várias noites ao som do choro do bebê... E não é só isso: Também poderá trocar algumas dezenas de fraldas e terá o privilégio de entrar para a história, posando em foto inédita com os três mais a princesa da Suécia. E tem mais: você poderá perder até 8,5 kg em 1 semana e meia de estadia, apenas cuidando do bebê!!! É viagem, spa e diversão, tudo junto!

Haverá publicação simultânea do evento neste blog e em vários meios de comunicação brasileiros e suecos.

Se você for o visitante mil não deixe de colocar um recado no post ou ali no cantinho!!! você merece receber seu prêmio e vamos todos comemorar juntos!!!

A entrega ocorrerá na capital da Suécia, em Estocolmo, e o prêmio será entregue pela adorável princesa Vitória (que recentemente teve no Brasil visitando as favelas do Rio de Janeiro) e é filha da rainha Silvia, que tem descendência brasileira. Vitória disse que faz questão de participar desta festa conosco.

Este sucesso não é só nosso!!! É também de vocês! Já temos leitores assíduos que não são só as adoráveis Vavá Irene e Vovó Maria José. Tia Dri estabeleceu contatos na TV, amigas que estão amamentando seus bebês nos leêm todos os dias. Colegas de trabalho do pappi no Brasil dizem estar acompanhando o blog diariamente. É um sucesso geral!

Prometemos, com isso, tentar manter o mesmo nível dos textos (como o deste) e fotos do blog e contamos com o apoio de vocês!

Parabéns ao blog e obrigado a todos!

(Hoje, em especial, tô adorando lembrar de minhas aulas de Redação nos cursinhos no Brasil, sobretudo a aula em que eu trabalhava o senso comum com os alunos e, como vêem, estou praticando... )

"A união faz a força!"

ps: Colabore com este post, enviando para os comentarios ditados populares que se relacionem com a frase acima e os escreva no espaço à esquerda do blog,


(Vista aérea de Estocolmo, capital da Suécia)



(O famoso casal e o lindo bebê suja fraldas)

(Crédito da charge: http://usuarios.lycos.es/kronoxweb/humor/grafico/Olimpiadas.jpg)

25 julho 2007

Das coisas mais belas do mundo




(Tirei a foto deste barquinho ha uns dois meses, em Öland, uma ilha ao sul da Suecia, e hoje ela me veio muito a calhar)



Não tem me faltado temas para escrever aqui no blog. Na verdade, tenho uma lista em mente, mas se não falta assunto e inspiração, ainda falta tempo. Tô num dos intervalos angelicais, mas queria deixar hoje uma canção maravilhosa do grupo português Madredeus.

Há muitos anos tenho o costume de ouvir música tranquila durante o café da manhã. E foi assim minha gravidez inteira. O Madredeus, a Fortuna, a Enya etc além de muitas rádios de música clássica. Do Madredeus foram muitos e muitos dias ao som do álbum "Existir" que eu considero das coisas mais lindas de se ouvir.

Qual não foi minha surpresa ontem, quando colocamos o cd para tocar de manhã e o Ângelo, com apenas 8 dias de vida, parou o que tava fazendo, foi se virando, com olhos bem abertos, procurando de onde vinha o som e ficou lá... quietinho, praticamente reconhecendo a música e curtindo... super relaxado. Foi outra das coisas mais belas do mundo.

Esta música, O Navio, é das minhas preferidas. Fala do afastar-se, tomar um navio e seguir sozinho quando se precisa estar longe da multidão. Coincidência ou não, fala do tema que coloquei no post passado. Aqui o navio toma lugar do túnel que falei anteriormente.

Para mim, mesmo quando não se está a deriva, colocar-se no mar e ouvir uma música assim é bom demais. É quase uma prece.

A letra segue um pouco a melancolia do fado português, mas o efeito da música não é de tristeza, ao contrário, é uma quietude e uma paz interior maravilhosa. Infelizmente aqui vai sozinha a letra. Enjoy...


Madredeus - O navio
(Álbum Existir)

"Só deixei no cais a multidão
a terra dos mortais
a confusão
navego sem farol, sem agonia... distante
e vou nesta corrente
na maré
no escuro da menor consolação
acordo a meio do mar que me arrepia
e foge...

a minha paixão é a loucura

ando...
numa viagem perdida
o navio anda à deriva
sozinho
não é grande o mal, bem pouco dura
e quando...
afundar a minha vida
se calhar sou prometida... do Mundo"

22 julho 2007

A saída do Túnel


(Millet, Os colhedores)


(Van Gogh, A siesta)

Esses últimos dias tem me vindo diariamente uma outra canção que eu cantava nos anos de comunidade: "Há um tempo para tudo, de nascer e de morrer, láralálálálá... "e fiquei pensando o porquê deste trecho, baseado no livro do Eclesisastes do Antigo Testamento, não me sair da cabeça.

Há uns dois meses atrás a Kerstin (a Barnmörska, ou enfermeira-obstetra) disse que no dia do parto eu entraria numa espécie de "túnel" e que seria difícil eu conseguir me comunicar com o mundo, daí a necessidade do Renato ficar atento na hora do parto percebendo se eu estava com sede, frio etc., já que a experiência intensa e dolorida não me permitira essa comunicação e só ele, me conhecendo bem, poderia me ajudar nisso.

Até um ou dois dias atrás eu ainda me sentia dentro do túnel. Na verdade, nós nos sentíamos. Cortamos quase toda a comunicação com o "mundo exterior" e nos centramos praticamente em viver e dar conta do nascimento e da adaptação com essa nova pessoa que agora existe entre nós dois aqui. Colocamos toda nossa energia nisso e agora começamos a sentir a tranquilidade de quem conseguiu atravessar o túnel, necessário para a chegada do outro lado onde sabíamos teria luz. Estamos agora do outro lado, mas não mais do mesmo modo como entramos na semana passada. Uma nova vida começa.

O Renato me olhou esses dias, com um ar muito profundo, reflexivo, emotivo e disse: "nossa... nós geramos uma vida..."

Revendo rapidamente a experiência de tantos amigos, da família e de gente conhecida eu sinto que o trecho do livro Eclesiastes, embora possa ser lido com uma idéia de que tudo esteja preparado anteriormente, como se fosse um caderninho onde tudo que aconteceria com voce durante sua vida estivesse anotado, eu, na verdade, vejo e sinto uma outra coisa. Talvez por isso eu gostasse tanto de cantar a música da época de comunidade.

Há um momento em que nossa necessidade pessoal nos guia para o plantar, outras, para o colher.
Há outros em que o chorar substitui o rir e o bailar o gemer.
Quando é chegada a hora de cada coisa, eu vejo que o que nos cabe é viver este tempo presente, mas pensar que ele é o resultado de uma opção passada e que é preciso vivê-lo intensamente para que o futuro planejado aconteça.

E embora a vida seja mesmo este viver o tempo para isso e para aquilo, acho que nas nossas experiências mais profundas (como a morte de um ente querido, o nascimento de uma nova vida, o casamento, o separar-se de alguém amado, a saudade dos que amamos etc) um instinto quase natural nos leva a entregar-se a este tempo. E sumir. E não ter tempo para responder os emails carinhosos dos amigos, e não ter tempo para escrever um texto no blog, embora haja milhares de coisas para contar.

Mas há um tempo de voltar.
De reestabelecer comunicação com o mundo e de deixar que outros momentos agora aconteçam.

Renato e eu agradecemos, de coração, tantos emails lindos e recados carinhosos aqui no blog e nos nossos emails. Lemos e nos deliciamos com cada um, mas foi difícil responder pessoalmente. As mamadas e os chorinhos tomaram conta do nosso tempo os últimos dias. O mais gostoso foi sentir que nosso tempo não foi só nosso. Tanta gente falou "choreiiii, ao ler que o Ângelo nascera". Outros disseram: "esperei muito pela notícia junto com vocês". E isso não porque eu ou o Re ou o Ângelo sejamos "especiais". Isso é o que acontece com todo mundo, porque eu vejo que nós seres humanos, somos como todos os mamíferos que vejo naqueles lindos programas sobre o Mundo Animal da Discovery: nós cuidamos uns dos outros. Nós nos preocupamos, nós vivemos não só o nosso próprio tempo, mas também o tempo do outro, porque o que nos é comum - a dor e a alegria, a morte e a vida - é o que nos une, nos identifica uns com os outros e nos ajuda a entender o que ocorre com o outro.

Agora, por exemplo, ouço um chorinho e a natureza diz que é tempo de amamentar. Até o próximo intervalo.
No outro post o lindo texto do Eclesiastes que pode servir de reflexão.

Agora é tempo de...



(Somnia Carvalho, "The Happy Family")



"Há um momento para tudo e um tempo para todo propósito debaixo do céu.
Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derribar, e tempo de edificar;
tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;
tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de abster-se de abraçar;
tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de deitar fora;
tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;
tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz (...)"

18 julho 2007

Ângelo e Sônia em casa



Após colocar algumas primeiras imagens no blog, além das muitas mensagens de congratulações - as quais agradecemos muito - começaram as primeiras perguntas. Será que o nariz é do pai? Cabelo de quem? A mão é assim ou assado? Para os que ficaram com essas dúvidas, ai vai mais algumas fotos. Aqui ainda é o Renato quem escreve. A Sônia está bem, já voltamos todos para casa. Porém a árdua rotina de novos pais já começou, entre uma trocada de fralda e outra eu escrevi este post. A Sônia está tirando um merecido sono, ou melhor, cochilo até a próxima mamada...


17 julho 2007

Nasceu o Angelo!




Feito no Brasil, nascido na Suecia, Angelo nasceu pontualmente na data prometida: 16 de Julho. O parto foi normal, mãe e bebê passam muito bem, o Angelo logo se aventurou a mamar na primeira hora após o nascimento. Angelo nasceu bonitão igual ao pai e mãe, olhem só as fotos...os dois tem cara de que vão ser muito corujas. Agora são mais de 5 da madrugada e o blog é da Sonia, depois vem mais post sobre o Angelo. Renato.

13 julho 2007

Pausa para 'ganhar' o nene


Essa e a entrada da maternidade da Universidade de Lund. To mandando este post daqui, do celular, para dizer que tudo vai bem. Estamos trabalhando duro pra ver se ganhamos um nenem pra eu e o Re brincarmos de mamae e papai...

11 julho 2007

Noutro lugar



Há provavelmente mais de quinze anos atrás caiu em minhas mãos um livro delicioso: "O Profeta", do poeta libanês Gibran Khalil Gibran (1883-1931).
Só muito depois vim a saber um pouco mais sobre sua vida: nascido no Líbano, viveu a maior parte de sua vida nos Estados Unidos e estudou na Europa. Vim saber também que o poeta era também filósofo e artista, tendo ele próprio ilustrado seus livros, além de ser autor de inúmeras outras pinturas.

"O Profeta" é dividido em várias mensagens que Mustafá, o Profeta, um homem que havia se mantido sozinho numa montanha em busca de reflexão e iluminação, fala à comunidade que espera por ouvi-lo. Os textos abordam questões simples e, ao mesmo tempo, profundas da vida: o amor, o casamento, os filhos, o trabalho, a liberdade etc, mas com um olhar mais reflexivo e, portanto, mais sábio.

Quando eu ainda meio adolescente li o livro de minha adorável amiga Susette (uma Profeta em busca de iluminação) eu logo comprei para mim um exemplar (o qual emprestei para alguém e acabei perdendo) e sempre que podia relia as histórias. Hoje tenho aqui comigo um outro que comprei num sebo em São Paulo. Velhinho, com capa soltando, cara de ter sido muito lido na vida, tem o nome Claudina Campinho, assinado na contra-capa, "O Profeta" vem me inspirar novamente nesta manhã. Vem me fazer pensar uma coisa curiosa sobre o tema que reproduzo abaixo. É a primeira vez que lendo-o eu me imagino noutro lugar que não o de filhos e a lição agora toma outra dimensão.

Aqui em Malmö, 16 graus lá fora, a rua quietinha porque a cidade está em férias de verão e eu de 39 semanas e 1 dia de angelês, aqui quietinha, cada vez mais perto de assumir o outro lugar.

Espero que as palavras de Mustafá, o personagem profeta do livro, agracie o dia de vocês também.




Os Filhos

(Gibran Khalil Gibran, "O Profeta")

Uma mulher que carregava o filho nos braços disse: "Fala-nos dos filhos."
E ele disse:

"Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como ele ama a flecha que voa,
Ama também o arco que permanece estável."

09 julho 2007

“Como nossos pais”



"Não quero lhe falar meu grande amor
Das coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo"

Como Nossos Pais

Sempre adorei uma frase atribuída à Santa Teresa D´Avila: “ A paciência tudo alcança”. Talvez porque eu persiga esse dom e tente incorporá-lo à minha personalidade. Diga-se rapidamente: incorporar à minha personalidade de pisciana sensível, extrovertida, entregue às emoções e sensações do mundo. Seria esse "ser de peixes" que teria me levado a me afogar pelo mundo do pensamento, estudando filosofia da graduação ao doutorado, me entregando às análises mais adornianas sobre a sociedade moderna e me jogando hoje no mundo da pintura? Pouco ou nada eu posso afirmar disso, embora quase sempre as definições de uma pessoa de peixes caibam bem em mim.

Com certeza contribui muito mais o fato de ter nascido e crescido numa pequena cidade do interior de São Paulo, dentro de uma família simples e lutadora com a vida. Alguém, cuja mãe sempre teve o hábito de atender todas as dezenas de pessoas que batiam à nossa porta para pedir comida, roupa ou um trocado. Desde bem pequena sempre reparei em como minha bondosa mãe tratava todos aqueles que precisavam de mais que ela. Mesmo pobres e simples, em casa nunca se negou comida ou aconchego para quem pedisse alguma ajuda, porque era assim que minha mãe sempre fazia.E quantas vezes chorava pensando no sofrimento alheio! Ë assim, inclusive, que ela faz até hoje. Um coração do tamanho do mundo é o que a Dona Maria tem. É lá que se aconchegam os netinhos, os filhos e quem mais necessitar. Dela, herdei esse "pensar no mundo".



"Viver é melhor que sonhar
E eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa"

Foi esse sentimento genuíno e o desejo ingênuo de “mudar tudo” e “ajudar todos" que me levou por uns tantos caminhos diferentes: do sonho meio infantil de ser freira missionária e entregar todo meu tempo ao outro à busca por uma sonhada ascenção social através de cursos e trabalho mais “pé-no-chão”, depois o querer ter respostas mais concretas para minhas questões pessoais e sociais num longo curso de filosofia. Mas essa personalidade mista de tanto desejo e carente de tantas experiências, creio eu, tem ainda a contribuição genética de meu querido pai, mais do que imaginava a minha vã adolescência.

Sua personalidade era curiosa. Era piadista e bem humorado. À parte suas encrencas com minha mãe, Sr. José foi um metalúrgico artista. Tocou sua sanfona a vida toda e não passava um dia sem assoviar suas músicas prediletas.

Tinha um desejo imenso de simplesmente “sair pelo mundo”, conhecendo algumas cidades e passeando no carro com a família. Queria conhecer melhor e nos levar a conhecer as Minas Gerais (de onde ele e minha mãe vieram), o Paraná e o interior de São Paulo no automóvel (a Variant café com leite, a Brasília verde, o passat cinza) da família. Vivia inventando uns roteiros malucos para ir com gente no fim de semana.
Mas nem o carro sempre muito velho, ou o jeito "desligadão" dele dirigir davam ânimo em minha mãe que preferia ficar em casa a se pôr na estrada com os filhos, sem lenço nem documento, só com desejo de conhecer outros lugares.

"Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantada
Com uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
O cheiro da nova estação"

Recordando rapidamente a minha primeira viagem sozinha, me lembro que foi para Bragança Paulista. E tinha já uns 18 anos. Tomei meu violão e fui me encontrar com umas amigas num retiro espiritual. Me lembro até hoje a sensação maravilhosa que me tomou conta... Era a primeira vez que eu deixava meus pais e saía sozinha. Eles, embora preocupados, tentaram confiar em mim e me deixaram ir. Lembro de pensar: “que eu tenha uma vida que me permita viajar...”

Pensando agora em minha última viagem aqui na Suécia, para uma ilha chama Öland, junto com o Renato (o melhor companheiro de viagem que poderiam ter me arranjado) vejo que este espírito do: "vamos tomar o carro e sair..." ainda me pega. Eu adoro passear meio sem rumo. Eu adoro pensar em conhecer lugares e gente diferente. Me aventurar por um mundo que eu ainda não conheço. Embora eu seja uma aventureira mais contida, diferente, por exemplo, de duas amigas maravilhosas e malucas como a Luciana, que se jogou numa ilha depois de abandonar o mestrado que lhe incomodava, ou a Fá, que se meteu num barco e foi sozinha para a Amazônia, ainda assim, me sinto me aventurando pelo mundo. Pena o Sr. José não estar aí para conferir.

"Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo
Tudo tudo que fizemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como nossos pais"



O mais engraçado é que quando se é adolescente ou muito jovem nós julgamos que tudo que fazemos e escolhemos vai contra os nossos pais. O que digo aqui está longe de ter alguma novidade. Da psicologia à música de Belchior, cantada por Elis, fala-se da dor de vermos que repetimos vários erros e atitudes que antes condenávamos em nossos pais. Mas eu acho que reconhecer isso não traz necessariamente dor ou lamento. E acho ainda que não só a maturidade chegando, como o fato de você um dia estar no lugar deles é que traz uma nostálgica alegria de “sermos o mesmos e vivermos como nossos pais”.



Ainda ontem eu e Renato comentávamos sobre como só nos imaginado como pai e mãe conseguimos ter uma vaga noção do quanto um dia nosso pai e nossa mãe nos amou e ter uma idéia de que provavelmente não fazemos idéia do que eles viveram pra nos trazer até aqui.

As memórias que ficaram são pequenas para nos fazer agradecer à altura, elas talvez estejam mais presentes como sensações, essa sensação que nos invade de ternura e de afeto por aqueles que um dia lutamos tanto para superar e que, sem dúvida nenhuma, nos esperaram como nós agora esperamos pacientemente pelo fim da gravidez e o início de uma nova vida em família.

E se a paciência tudo alcança, escrever este blog para vocês tem ajudado muito.

Relato de uma naufrága barriguda na Suécia



Preparando a alma...

Em textos anteriores, escrevi sobre o pré-natal e o parto natural aqui na Suécia e de como as suecas se preparam psicologicamente e fisicamente para o grande evento que ë o parto.

Grávida no Brasil eu estaria experimentando sensações deliciosas e poderia dividir minha barriga e tudo o mais com as pessoas que amo de uma forma mais intensa.
Grávida aqui eu perco tudo que teria de bom vivendo aí, mas tenho, por outro lado, passado por uma imensidão de sensações que me permitem viver de outra maneira, mas não menos intensamente, essa fase da minha vida. Acho que além de preparar-se emocionalmente e cuidar do corpo é preciso que a gente consiga preparar a alma. Para o parto. Para a nova vida.

Na verdade, hoje sinto que estar grávida pode ser uma experiência que transcende qualquer expectativa que se possa ter sobre essa fase. Difere de qualquer vivência que se pode ter na vida, embora eu esteja convencida de que nem toda mulher precise estar grávida para se sentir transcedendo sua existência. Não vejo como uma necessidade para a vida da mulher. Eu continuaria sendo muito feliz, totalmente realizada no casamento, como pessoa e como mulher mesmo não tendo engravidado. A diferença é que se pode experimentar a vida por um outro ângulo. Eu tenho amigas que ficariam horrorizadas com o fato de se imaginarem grávidas porque isso, definitivamente, não está no calendário e nas expectativas de vida delas. É uma escolha, mas se houve a escolha eu acho desperdício que ela passe em vão.



Entre esse "viver e saborear cada momento" há um que ficará para sempre em minha memória.

Fiz algumas aulas de ginástica especial para grávidas na água em uma academia aqui em Malmö. Não é exatamente a nossa hidroginástica, porque os exercícios são preparados já pensando o parto e a preparação para ele e só grávidas participam. Nossa... foi lindo! se tem coisas maravilhosas que eu vou guardar dessa Suécia, uma das coisas será essa aula. Eu, uma peruana e umas 25 suecas (loirinhas, olhos azuis, barrigãooo gigante e perninha sem depilar) fazíamos a aula e no final a professora punha umas músicas muito calmas. Em uma em especial, do Vangelis, a gente fazia um círculo, todas abraçadas na água. Em sueco, ela falava umas palavras para nos acalmar (que não entendia "inte") e uma sim, uma não, íamos subindo as pernas e nos apoiando nos braços da outra. O círculo, quase uma espécie de mandala, começava então a girar (movido pelas que estavam em pé) em sentido horário carregando aquelas que estavam deitadas... Depois de alguns minutos, invertia-se e quem estava em pé, se deitava... Eu ali, na água, com mulheres que nunca mais eu iria ver na minha vida, ouvindo uma língua cheio de is e muito diferente do portugues, sendo acolhida naquele círculo onde todas os barrigões boiavam carregando bebezinhos.

Foi muuuito lindo, profundo e me ajudou a viver com maior intensidade ainda essa entrega que está longe de ser só minha. As imagens provam!



04 julho 2007

“Little Children”: porque crescer é difícil




"Little Children": sobre o filme

Eu detesto ser estraga prazeres, mas neste caso não vou me controlar muito não, caso você ainda não tenha visto “Little Children” (2006), um filme de Todd Field, o mesmo autor de “Entre quadro paredes”. O triste título em português, “Pecados Íntimos”, é ruim porque não leva a uma gostosa descoberta que vai se dando ao longo do filme a respeito do título dado no inglês.
Apesar de ir com calma no enredo o diretor vai deixando uma pulga atrás da orelha sobre o que essas “Little Children” irão aprontar ou o que irão aprontar com essas pobres crianças pequenas que nos levarão ao clímax da história. Não é um filme daqueles nos quais o tema é explícito ou um filme carregado de emoção daqueles que você não se agüenta e puxa a manga da camisa para assoar o nariz. É um filme discreto, mas muito interessante e que faz pensar.
A história se desenrola a partir da vida de quatro personagens que, ao meu ver, amarram a trama: uma mulher casada, Sarah, (Kate Winslet) mãe da pequena Lucy; Brad (Patrick Willson) também casado e pai do pequeno Aaron. Os quatro moram no mesmo bairro classe média-alta dos Estados Unidos, no mesmo lugar onde vive Richard (Gregg Edelman), um ex-policial, e Ronnie (Jackie Earle Haley, em atuação comovente), um “ex-pedófilo” condenado, se é que posso chamar alguém assim.
Sarah e Brad são figuras conhecidas nossas: frustrados com suas vidas de casados e com o fim que seus sonhos juvenis levaram eles se dedicam ao cuidado de seus filhos. Os quatro se conhecem num playground freqüentado por outras mães frustradas e hipócritas e suas respectivas crianças pequenas. Sarah é colega do grupo, apesar de não ter muitas afinidades com ele. Brad cuida de Aaron em tempo integral enquanto sua jovem e bela esposa trabalha o dia todo e sustenta a casa. Ele também se dedica a estudar para um concurso no qual nunca passa, motivo pelo qual se sente desacreditado pela mulher, pela sogra e principalmente por si mesmo.
O que era só uma atração física inofensiva entre Sarah e Brad logo se transforma em traição freqüente quando Sarah descobre que o motivo do sem graça de seu marido não lhe dar atenção é que ele seja um viciado em sites pornôs, gastando todo o tempo livre que tem em frente ao seu computador. Cansada de cuidar da casa, da filhinha cheia de personalidade ela se deixa envolver numa história, de início, muito inocente entre ela e o atraente e atencioso Brad. Para este, muitas são as frustraçõeszinhas que o levam à traição: a cobrança da esposa e sua preocupação excessiva com as contas da casa, o fato dele se sentir ignorado e sem valor para o filho quando a mãe logo põe os pés em casa (dilema que normalmente toma conta das mães que se dedicam integralmente à casa e aos filhos), seus eternos estudos que não o levam ao emprego desejado etc.
Enquanto esse romance proibido acontece, Ronnie (o desajustado sexualmente) passa o filme todo sendo perseguido pela comunidade do bairro, principalmente pela figura do ex-policial Richard afixionado em colocá-lo de volta na cadeia. Como uma figura carente e problemática, Ronnie é cuidado por sua dedicada mãe que tenta protegê-lo e cuidar para que ele volte a ter uma vida normal. No entanto, trata-o como uma criança, tal qual Sarah e Brad fazem com seus filhos.
O ódio e a fixação de Richard pelo pervertido Ronnie esconde, na verdade, o ódio que tem por si mesmo e por não se perdoar pelo passado: um erro e a morte de um jovem inocente é que o fizera deixar de ser policial. O que ser e o que fazer depois disso? Ele não sabia. Por isso criara uma função para si mesmo: cuidar da comunidade vigiando e ameaçando dia e noite o pedófilo que punha todos em risco.


Como se fossem pequenos e apenas brincassem

Aos poucos vamos vendo que os adultos do filme são quase todos infelizes, frustrados e perdidos. Todos eles escondem pequenos pecados cometidos todos os dias, mas não deixam de apontar os pecados do outro. A figura mais sincera da trama curiosamente é a de Ronnie que admite ser uma pessoa complicada e perigosa e conhece suas limitações em ter uma vida normal como deseja sua mãe. Ele luta consigo mesmo para ser um “bom garoto”, como pede a mãe antes de sofrer um ataque fulminante, provocado por mais uma das histerias do ex-policial.
Os únicos felizes e, por incrível que pareça, responsáveis da história são as crianças que cumprem bem seu papel: brincam, se divertem, amam seus pais e lhes exigem atenção e cuidado. Lucy, em certa ocasião, faz um lindo porta-retrato para receber sua mãe de volta de um encontro com Brad. Ao tentar dar-lhe o presente, a mãe aparece deslumbrada com o encontro dentro do banheiro e não consegue dar atenção à filha, a exemplo das criancisses que seu marido também lhe fazia. Há uma certa angústia provocada pelo enredo porque a gente se põe a imaginar o que essas crianças farão que desembocará numa tragédia do enredo: elas contarão em casa sobre o caso de seus pais? Sofrerão algum acidente que deixará seus pais arrasados? Ou serão vítimas do pervertido Ronnie?
Essa idéia que nos ronda enquanto vemos o filme, motivada pelo título vai se desfazendo. À medida que a história avança, vamos nos dando conta das infantilidades, irresponsabilidades que as pequenas crianças adultas vão cometendo. Das mais ingênuas às mais perigosas: a esposa de Brad deixa-se guiar por uma atitude impensada quando põe o lindo filhinho em sua cama para dormir entre o casal e não percebe que, como mulher, está cada vez mais distante do marido; o marido de Sarah deixa mulher e filhas de lado por uma tara voyerística; Richard age feito menino quando picha a casa de Ronnie, chora ao perder um jogo de futebol e ao ser trocado por Brad, que se mostra um jogador melhor no time; Brad fantasia ser o herói do jogo e se sentir novamente com poder de tomar as rédeas de sua vida. Confunde a brincadeira com a realidade, como se pudesse transferir os papéis e sonha em ter uma vida descontraída como dos adolescentes que brincam de skate na praça perto de sua casa. Sarah põe sua vida segura e a vida de sua filha em risco quando se entrega à paixão com Brad dando pistas extremamente adolescentes para a comunidade e para a esposa traída de que ela é a amante de Brad. Freqüenta a piscina do clube todos os dias para se encontrar com o amante, vai ver um jogo dele e o aplaude como uma fã de torcida organizada.
Dito assim pode parecer que os personagens sejam todos pessoas problemáticas, excessões das quais queremos distância no nosso dia-a-dia. Pessoas que vemos “por aí”. Ao contrário, elas representam os adultos que tentamos ser. Elas são as “Little Children” ao qual o título se refere porque estão o tempo todo entre o que devem fazer e ser e o que desejariam fazer e ser. Estão entre a realidade e a fantasia e não conseguem unir as duas coisas. Olham para os sonhos ou os erros do passado como se esses ainda pudessem construir o presente e o futuro, mas não percebem que só crescendo, só superando esses sonhos e erros é que podem caminhar mais felizes.

Sarah e Brad só percebem isso quando ao marcarem de fugir de casa, Sarah encontra Ronnie chorando no playground a noite, depois de voltar do hospital com a notícia de que sua protetora havia morrido. Ao perder sua filhinha por uns minutos Sarah se põe em total desespero e é só a sensação rápida de que podia perder quem mais amava, Lucy, que a põe de volta no carro no meio da noite, rumo à segurança de casa. Brad só cresce quando, indo ao encontro de Sarah e para a fuga calculada, pára no caminho para tentar pular de skate com os adolescentes da praça e se machuca todo. Quando percebe que não é mais um garoto como aqueles que invejava, que deveria estar em outro lugar que não era nem com eles, nem com Sarah, mas com sua linda mulher e seu carinhoso filhinho. É só o tombo que o faz notar que agia feito criança e se aproximara de Sarah porque se sentia apenas mais acolhido. Embora o final não pareça feliz, os dois parecem ter voltado para casa, mas não necessariamente assumindo os mesmos papéis de antes e sim com uma nova perspectiva. O futuro parece se libertar do passado.
O mesmo acontece com Richard. É a morte da mãe de Ronnie que o faz encarar que agira com total irresponsabilidade, que não podia dar segurança a ninguém, mas que ele sim era uma ameaça. Um belo encontro se dá quando a culpa o faz buscar Ronnie para pedir desculpas e este está no playground chorando, tentando se mutilar para por fim ao seu sofrimento e ao sofrimento que causa à comunidade. O ex-policial tem a chance de se redimir tratando decentemente àquele que tanto perseguia e levando Ronnie ao hospital.

A dura e incômoda tarefa de crescer

Pensar nas nossas tolices diárias na verdade não é nada agradável. Ser adulto o tempo todo é chato e cansativo. O problema é quando o desejo de extrapolar, de não se sentir pressionado ou de “deixar as coisas rolarem” nos levam para caminhos em que perdemos mais do que ganhamos. Adiar uma tarefa imprescindível em troca de horas de sono ou diversão, gastar mais dinheiro do que posso na compra daquele lindo vestido ou aparelho de som etc são coisas de início gostosas de se fazer, mas que depois nos causam mais culpa e desconforto do que antes. A vida não é prazerosa o tempo todo e como adultos devemos perceber que o “Princípio de Prazer”, ou seja, aquilo que Freud entendia como sendo o desejo de obter prazer em tudo, o tempo todo, típico de uma criança, não pode se sobrepor ao “Princípio de Realidade”. É preciso assumir a condição de adulto, sem necessariamente deixar que a vida vire uma chatice, uma rotina em que não queremos estar. É possível continuar tendo uma vida prazerosa como de uma criança sem, no entanto, agir como criança. Mesmo porque quando avançamos um pouco o resultado pode ser melhor e mais gostoso do que o esperado, ainda que crescer possa ser difícil e doloroso demais.

(créditos: desenho de Luana da Silva Carvalho, a sobrinha que eu queria manter sempre pequenina)

03 julho 2007

Curiosidades sobre a Suécia (Parte 3): O parto natural


Creio que algumas coisas fazem realmente diferença para que a mulher vá mais tranquila para o parto aqui na Suécia.
Além do acompanhamento pré-natal que mencionei no post anterior, toda grávida aqui sabe que terá ao seu alcance acupuntura, oxigênio, banho quente em banheira, caminhadas pelo hospital, analgésicos, anestesia, o que escolher para aliviar sua dor. E poderá ficar na posição mais confortável na hora do parto: em pé, sentada, deitada, de cócoras etc. Ao menos em teoria foi a instrução que recebi e também foi o que me confirmou inúmeras mulheres aqui.

A grávida não terá, entretanto, opção de escolher uma cirurgia (ou cesárea) para alívio da dor ou da ansiedade. Uma cirurgia é vista pelos médicos aqui como um último recurso em caso grave, quando há risco, doença. E a dor do parto não se caracteriza como tal. Além disso, todos nós sabemos que os riscos numa cirurgia sempre são muito altos.
Enquanto estive no hospital fiquei "amiga" de várias barnmorskas e elas ficavam me perguntando sobre o Brasil, como era o parto, a gravidez etc. Os suecos se mostram muito curiosos e admiram muito os brasileiros e nosso país, mas punham a mão na boca de espanto ao ouvir os números das cesáreas que a gente pratica. Não vou me alongar aqui e nem quero, nem tenho moral para ficar analisando os casos de cesareana. Tenho muitas amigas queridas que optaram por esse tipo de parto ou tiveram que fazer por algum problema ou pressão do médico no Brasil. Eu acho mesmo que a mulher deve poder escolher o que deseja para si num momento tão importante como esse. Mas acho também que nos brasileiras acabamos por escolher sempre o mesmo (semelhante ao que acontece na teoria adorniana sobre a indústria cultural: eu acho que gosto dessa música e compro esse cd porque só conheço isso e porque há uma rede toda me dizendo que essa música é boa) porque somos quase programadas para evitar a ansiedade e o medo. E eu como ultra sensível e ansiosa dificilmente escaparia de uma oferta de cesareana desnecessária aí também.


Para além do preparo psicológico...



Nos hospitais suecos, a mãe é preparada para usar de exercícios respiratórios, estar calma no dia, controlar o medo e ansiedade que são coisas que não colaboram para o processo todo que está prestes a ocorrer. O pai é preparado para ajudá-la em tudo que puder e o papel da barnmorska é dar suporte emocional e técnico, acompanhando tudo que acontece com a parturiente. O que me deixou muito tranquila e que era uma idéia pré-concebida que eu tinha é que não haveria um médico comigo no parto e sim uma "parteira". Ou, como a gente diz no Brasil, eu não teria "o meu médico". Aquele que me acompanhara na gravidez e que eu paguei para estar comigo naquela hora. Esses dias que passei aqui, no hospital de Lund, me mostraram que as enfermeiras obstetras se comunicam com o médico de plantão o tempo todo. Nunca decidem nada sozinha. Aliás, o médico ou médica toma a decisão (quando ainda é possível) junto com a grávida. Eu conheci uns 6 médicos do início da gravidez até agora, mas eles apareceram quando houve suspeita de algum problema ou necessidade de se tirar dúvidas. E todos eles, sem exceção, foram muito atenciosos. A eficiência, aliás, é incrível, parece coisa de filme. Passei 4 dias no hospital e todos os médicos e as muitas barnmorskas que me visitaram sabiam exatamente quem eu era, que lingua falava, o que tinha ocorrido comigo desde minha chegada e sempre, sempre, sempre estavam com uma suuuper sorriso no rosto. Sempre muito carinhosas e informadas.

A idéia que eu fiquei é que ser barnmorska é algo que elas escolheram fazer porque gostam muito. E elas fazem isso muito bem feito. Não estão ali querendo que meu parto corra rápido porque tem uma outra cesareana para fazer. Acho que isso é algo que diferencia muito nosso sistema do da Europa ou o daqui, em geral. Os nossos médicos, ultra especialistas, não vão mesmo querer passar 8, 12, 20 horas com uma mulher esperando o bebê dela nascer se ele tem outras cirurgias, pacientes para atender. Ele foi treinado, se dedicou e estudou para resvoler problemas, não ser uma doula ou um "barnmorsko". Quem pode fazer isso sem preocupar-se? a pessoa que foi treinada e estudou e cuja função é: ajudá-la a "ganhar" neném (a gente, eu e Renato, morre de rir com essa expressão que usamos no Brasil).

Por fim, o que ocorre é: se a mãe não aguenta mais empurrar o bebê e estiver muito cansada e o parto se esticar muitas horas sem necessidade, ou se a mãe tiver algum problema como pré-eclampsia ou se o bebê estiver sofrendo por alguma razão etc, então parte-se para a cesareana.
Apesar de ter sido informada pela Kerstin sobre isso e no hospital os vários médicos terem me confirmado isso, numa conversa recente com duas amigas brasileiras que tiveram bebê aqui elas acham que há uma certa pressão para que a mulher aguente o máximo possível antes dessa decisão. Isso é algo que eu realmente vou ter que averiguar para conseguir formar uma opinião melhor e escrever um post só sobre a cesareana na Suécia.


O "estar aqui" e a mudança

Se tô tranquila? É incrível! mas estou sim! E o engraçado é que sempre ao falar com alguém do Brasil, a qualquer comentário meu sobre a ansiedade dessas semanas a maioria dos amigos e amigas ou alguém da família pensa que estou a falar do medo do parto. Mas não é isso! Nem eu acredito, mas é verdade! É ansiedade por ver o pezinho que me chutou todos esses meses e pegar esse Ângelo no colo na hora do nascimento. É ter certeza de que ao fim dessa loooonga jornada estarei com um bebê saudável nos braços e que tudo correrá bem, sem necessidade da cirurgia. É pensar que minha vida vai mudar radicalmente quando voltarmos com o pacotinho de volta do hospital. É um misto de muuuita alegria com uma ansiedade por viver tudo isso que está por vir. E não é uma ansiedade ruim! Mesmo porque desde o primeiro mês de gravidez tudo, absolutamente tudo, que estava programado para acontecer com meu corpo, aconteceu.

O processo é tão natural, a natureza tão perfeita que se você presta atenção às transformações desses meses saberá que o parto é o final desse processo pelo qual seu corpo passou. Como diz minha querida amiga Maria Fernanda é ápice do processo. Mesmo para quem nunca havia sido tão fã de gravidez ou de parto eu fico absolutamente maravilhada com esse processo. Estive e estou maravilhada com o que é gerar a vida. Nunca sequer imaginei que a relação entre uma mãe com seu filhote na barriga pudesse ser tão intensa e bonita.



Dos cinco meses que estou aqui na Suécia (em Malmö) e dos dois ou três que estou mais focada na gravidez e no parto, porque antes eu sö pensava em terminar e enviar minha tese ao Brasil, eu vi dezenas de filmes sobre o parto natural, algo que eu julgava feio, nojento e ave-maria-jesus-josé, horrível! Li muitos sites muito bons, a maioria americanos sobre o parto natural e toda a preparação. Aqui no pré-natal elas me emprestaram vários filmes sobre parto, amamentação (outro tema que não tem discussão quase aqui, porque as mulheres são fãsérrimas da amamentação, o que merece outro post) e sempre com a sugestão: "veja com seu marido". O Re viu tudo comigo, comprou cd-rom, quase é um "doulo", como ele diz. Estamos felizes, ansiosos e muito confiantes. Minha mãe sempre me manda ler o salmo 71 ("Tu és minha parte desde as entranhas maternas" ou na tradução da Bíblia dela "Fui eu quem te tirou das entranhas da tua mãe") e eu gosto muito do trecho porque, independente da crença religiosa que uma pessoa possa ter, o fato é que viemos todos à vida da mesma maneira e encarar esse momento como natural é o melhor que uma futura mamãe tem a fazer na minha opinião.

Eu fiz uma grande amiga aqui, brasileira (uma das duas citadas acima) casada há anos com um sueco e mãe de duas filhas. Ela teve uma experiência ruim no primeiro parto dela aqui na Suécia. O fato disso tê-la deixado insegura no segundo parto levou os médicos a fazerem a marcar com antecedência uma cesareana para o segundo caso. O que ouvi até agora de muitas mulheres foi praticamente o mesmo: nenhuma louuuuca adora ficar horas e horas com dor e optaria por isso, caso pudesse abrir uma portinha na barriga e tirar o bebê facilmente (sonho que a Kerstin diz que muitas mulheres têm no fim da gravidez), mas a consciência de que é o melhor a fazer para o bebê, para ela própria é tão forte que supera qualquer outra opção. E a consciência gera tranquilidade e, no fim, uma atitude muito mais positiva e de sucesso quanto ao parto natural.

Aqui, alguns dos sites que me ajudaram bastante, com destaque para o primeiro. Nos sites brasileiros encontrei alguma coisa legal sobre gravidez no geral, mas sobre parto natural há pouca coisa ou muito superficial.

http://www.babycenter.com/
http://www.askdrsears.com/default2.asp
http://www.babysitio.com

Um livro interessante, embora mais teórico, sobre como o medo é causador da dor: "Childbirth without fear", Michel Odent. E um CD Rom com conteúdo extraordinário que o maridão doulo comprou e que vimos juntinho foi: "Childbirth, a multimedia course and resource kit", Dr. Allison A. Fitzgerald, M.D.

Curiosidades sobre a Suécia (Parte 2): Pré-Natal




Parto Natural e Medo


Desde pequenininha, no Brasil, ouço histórias horrorosas sobre parto normal ou, se você preferir, parto natural: na família, na conversa entre as vizinhas, nas choronovelas etc... Eu adorava ficar meio do lado de minha mãezinha nas conversas ouvindo o papo dela com a mulherada a respeito das dores terríveis do parto e do processo todo e ia formando um filminho na minha cabeça. Me sentia gente grande no meio delas. Não sei o quanto veio dessas histórias, das imagens da TV etc e o quanto veio de minha fantasia de menina. É difícil ter certeza, mesmo porque, esses dias, minha mãe me contou coisas lindas sobre como foi a noite em que me teve e isso eu nunca lembro de ter ouvido. Mas me parece que muitas outras mulheres no Brasil também cresceram com a mesma idéia de um filme de terror, incluindo nossas próprias mães: "O meeeeedo do parto", com direito à musiquinha de filme do Hitchcock: "pém, pém, pém". E esse medo parece sustentar pensamentos do tipo: "que droga que pra ter um bebê precisa-se sofrer tanto!", "que azar meu se eu escolher um dia engravidar". Essa, aliás, foi uma das coisas que eu pensei quando tava na sexta série. A professora de Educação Moral e Cívica dizia que mulher nascera para sofrer. Inclusive nessas aulas sobre "mulheres" os meninos saiam da sala. Isso sim era horrível. Certa ocasião eu me recusei a ficar e disse que não tava interessada, mesmo porque nem sabia se eu um dia queria ser mãe. As meninas me olharam muuuito horrorizadas. Fiquei muito mal depois, me sentindo uma ameba. Um outro recorrente pensamento feminino brasileiro parece ser: "se eu puder pagar, claro! não vou querer sofrer e vou fazer uma cesareana."



Mas como será na Suécia?

Eu tenho pensado e falado muito sobre esse assunto com meu marido Renato aqui. Um assunto óbvio para um casal grávido de 38 semanas. Mas é realmente muito curioso o que o "estar aí" (No Brasil) e o "estar aqui" (na Suécia) (fazendo um trocadilho chulo com a teoria do "dasein" do filósofo Heidegger) pode mudar radicalmente o que uma pessoa pensa e, automaticamente, como essa pessoa sente.

Até ano passado, antes de engravidar, minha idéia sobre o parto ainda era de muito, muito medo. Embora eu nunca tivesse pensado em cesareana como saída para o meu medo, quando fiquei sabendo que estava grávida, um mês depois de ter acertado a vinda para a Suécia fiquei apavorada. E claro que não faltaram muitos incentivos do tipo: "venha fazer o parto aqui". "é loucura, lá elas não tomam anestesia " (o que é mentira, porque além de muitas tomarem usam da epidural mais avançada que tem, aquela que permite à mulher continuar caminhando, ter o parto de cócoras etc), "na Suécia, o parto é como no tempo das cavernas", "aqui é muito melhor", e por aí vai. Ouvi inclusive isso de gente que se diz muito entendida na área da medicina, médicos brasileiros que acham que ser de primeiro mundo é poder usar de tecnologia como a cirurgia para substituir o parto natural.

Mas quem é essa Sônia agora, que vinda do interiorrrr paulistano, cheia de medos, agora vem querer dar uma de "sabida" pra cima da gente?

O fato é que eu estou quase convencida de que no Brasil somos educadas para o medo do parto e essa é a grande diferença entre nós e as mulheres suecas ou outras européias. Desde que cheguei sou atendida no sistema público de saúde daqui. Sou melhor atendida no sistema público de saúde daqui do que era em muitas clínicas para as quais sempre paguei caro no Brasil. Diga-se de passagem tudo é muito limpo, bonito, organizadíssimo e toda sala de consulta tem uma biblioteca que as suecas adoram usar. O mesmo atendimento que eu tenho, todas as outras mulheres (suecas ou não) também têm. Talvez esse ponto da igualdade também incomode uma ou outra pessoa que goste de estar num ambiente diferenciado da rede particular. Na verdade, porque eu acho que nossa idéia do "meu médico" nos dê algum alívio psicológico para viver um processo tão longo e intenso.


Pré-Natal na Suécia: para além dos exames de ultrassom

Mas há tantas diferenças no modo de levar o pré-natal e conduzir o parto que eu teria que escrever demais e iria cansar vocês. Vou tentar ficar nas coisas que mais me chamaram a atenção e que conseguiram me dar uma tranqulidade muito grande até aqui.

Na Suécia, como na Inglaterra, nos Estados Unidos, Holanda, na Noruega etc, uma mulher grávida é acompanhada, desde o início pelas enfermeiras obstetras, em sueco, pela barnmorska. A tradução para o português é ruim porque parteira é aquela mulher bem intencionada que conhece a prática do parto no Brasil, mas não teoria. Não estudou para isso. Aqui minha barnmorska Kerstin estudou (e muito) para ser enfermeira e obstetra. Ela trabalhou aqui e na Nicarágua onde fez centenas e de partos. Fala fluentemente 3 línguas. Quando queremos, fazemos a consulta eu falando em português, ela em espanhol, embora na maioria das vezes falemos em inglês mesmo. Aliás, toda barnmorska fala, no mínimo, um inglês fluente. A idéia é que a gravidez não é uma doença e, como tal, não precisa de acompanhento médico se tudo estiver correndo bem. A mulher precisa de cuidados, informações que a levem a ter um bom parto.

A primeira consulta com ela foi uma lonnnga entrevista. Ela quis saber tudo sobre minha vida no Brasil, doenças na família, meus hábitos alimentares e de saúde, o que eu esperava da gravidez e do parto. Logo aí, me entregou uma pasta onde eu deveria ir pensando sobre como queria planejar meu parto e escrever tudo ali. As outras consultas sempre foram seguidas de informação sobre o parto natural, check-up para ver se tudo corria bem e sugetões de como me preparar. Uma coisa muito interessante é que (a exemplo do que acontece em quase todos os setores aqui na Suécia) a mesma Kerstin fazia tudo isso, colhia e examinava meu sangue e urina, ia para o laboratório na mesma hora, usava a máquina que ela mesma sabia operar e me dava o resultado naquela mesma consulta de 30 minutos ou 1 hora (contados milimetricamente no relógio, inclusive porque os suecos são malucos com pontualidade, o que merece outro post, rs..). Logo depois introduzia todas essas informações na rede do sistema de saúde, ou seja, no computador ultra potente que ela também sabe usar muito bem. Como o sistema é quase único e interligado, quando eu tive que ser examinada e fiquei hospitalizada na semana 34, devido a um trabalho de pré-parto, no outro dia a Kerstin estava com todas as informacoes do que acontecera comigo, porque já havia recebido tudo e sabia exatamente como proceder.

Essa rotina segue até o fim da gravidez, sem mencionar os cursos que os casais fazem, como aí no Brasil. A diferença é que o casal visita o hospital. Uma barnmorska explica tudo que irá acontecer no dia do parto e como será o papel do papai. Sim! aqui o papai participa ATIVAMENTE do parto e eu não estou falando de tirar fotos ou fazer a filmagem nossa e do nosso bebezinho lindo com carinha de joelho, o que já é muito legal. Tô falando que o Renato irá me acompanhar como uma espécie de "doula". Doula é uma pessoa que você contrata para te ajudar no dia do parto com a respiração, movimentos, massagens etc. Aliás, ele não teria muita escolha, sorte que ele tá adorando. Ele irá me ajudar a puxar o bebê, se precisar ou quiser (a mãe também pode fazê-lo) e terá de cortar o cordão umbilical, o que, aliás, tem importância muito grande devido ao simbolismo que tem. Ele inclusive vem me ameaçando dizendo: "eu vou cortar este cordão entre você e o Ângelo, aháháhá!". Mas aí já estou falando do momento do parto propriamente dito e é assunto pra outra conversa.

02 julho 2007

O fantástico e encantado reino da Suécia e incompleto porque...

Não tem a Lu e o Juju para eu apertar e beijar muuuito.


Não tem o milho verde refogado da Dona Maria e nem a maria mole da Dona Irene.


Falta a Dri para passar em casa no fim da tarde pra comer e tagarelar com a gente.


E é chato não ter as caras e bocas do Lê e os sorrisos da Sandra e da Vanessa no fim de semana.



E muito sem graça também é não ouvir o ronco do Caetano e da Kika depois do churrasco do domingo.

É por essas e outras que, como diria o sábio e profundo Roberto, "a minha saudade faz lembrar de tudo outra vez..."