24 julho 2010

"Já está chegando a hoooora.. de ir..."

("O avião do Ângelo", Somnia Carvalho, tela que fiz há 2 meses a pedido do Ângelo para o quarto dele, julho de 2010)

Desculpem aí os emails sem respostas, o mais ou menos silêncio dos últimos dias e os encontros fracassados. Não deu para fazer mais.

Depois de uma festa surpresa de despedida ontem em que todos nos debulhamos em lágrimas, só o olho no amanhã e muita certeza de que tudo vai recomeçar com novo brilho e muita, muita alegria...

Um beijo enorme e obrigada por todo o tempo em que estiveram com a gente nessa passagem da Borboleta pela Suécia...

"Só me resta agora dizer adeus e depois o meu caminho seguir..."

Tchau, tchau, bye bye, hej då! E deixa eu ir antes de começar o xororô de novo!

Pessoal no Brasil, família querida, estamos quase caindo nos seus braços! Beijos!!!

Sônia, Renato, Ângelo e Marina.




Já está chegando a hora de ir
Venho aqui me despedir e dizer
Em qualquer lugar por onde eu andar
Vou lembrar de você
Só me resta agora dizer adeus
E depois o meu caminho seguir
O meu coração aqui vou deixar
Não ligue se acaso eu chorar
Mas agora adeus
Só me resta agora dizer adeus
E depois o meu caminho seguir
O meu coração aqui vou deixar
Não ligue se acaso eu chorar
mas agora adeus

Roberto Carlos

22 julho 2010

Carta da Rainha Silvia da Suécia à Embaixatriz Deslumbrette

("Hej då! Somnia!", Os recém casados Victoria e Daniel, príncipes da Suécia e a Rainha Silvia, dando seu último adeus à Borboleta Deslumbrette, julho de 2010)


Gente, por esta eu não esperava!

Tudo bem que nossos amigos mais chegados querem fazer programa com a gente a semana toda e a despedida tem sido difícil, mas, antes de ontem, por ocasião da minha mudança da Suécia e minha volta ao Brasil, recebi a seguinte carta da mãe de uma das primeiras amigas que fiz aqui:



Soube hoje pela manhã da sua repentina partida. Pensei em pedir que marcassem um encontro. Em seguida, mudei de idéia. Preferi registrar o que sentia por meio deste texto.

Queria dizer que me emocionei com a alegria com que abraçou e aqueceu meu gelado país. Senti-me grata por ver como recebeu meu povo, como divulgou uma terra ainda pouco conhecida no seu verdadeiro lar. Então, parei para pensar porque você amaria tanto uma pátria passageira. Não precisei refletir muito. Porque a beleza e o afago oferecidos por essas terras estão também nos seus olhos. Nesse momento, a tristeza pela sua partida deixou espaço para esperança. Você vai levar toda a sua alegria, toda a sua paixão intensa por onde passar, porque um paraíso não será um paraíso se não o olharmos como tal. Reconfortei-me nesses pensamentos.

Você não estará aqui, mas já conseguiu com que muitos estivessem mesmo nunca tendo estado. Obrigada por seu trabalho de Embaixatriz. Continue levando pra onde quer que você vá seu olhar sonhador e carinhoso de sempre. Minha querida, bata asas!

Com admiração,

Rainha Silvia"


...


E é claro que eu fiquei pra lá de inflada de alegria... como não daria para ser diferente não é Dri?

21 julho 2010

"O tempo passa, o tempo voa e..." os medos mudam


Hohoho,

Já estava a caminho do banho quando achei nem sei como um site de ortopedia, onde encontrei uma entrevista que dei há vários anos sobre o meu medo de dentista, citada num texto chamado "Medo atrapalha tratamento no dentista".

Meu! pra falar verdade nem sei para quem dei a entrevista na época, mas sei que alguém aproveitou bem o meu melodrama dentístico...


(...) O medo também pode ter raízes no passado. "Muitas vezes, o paciente torna-se odontofóbico porque vivenciou dor ou teve alguma experiência negativa com dentistas na infância", afirma a odontopediatra Eliana Amarante. Foi o que aconteceu com a professora Sônia Maria de Carvalho Pinto, 32.

"Acho que meu medo começou quando era pequena e fui a alguns dentistas ruins que fizeram o tratamento de qualquer jeito; até desmaiei por causa do medo de sentir dor", lembra. Já adulta, ela passou por outra experiência ruim: mesmo depois de seis doses, o anestésico não surtiu efeito, e ela foi obrigada a tratar um canal sem estar anestesiada. O medo até provoca insônia. Neste mês, ela teve de extrair dois pré-molares para usar aparelho ortodôntico. "Fiquei sem dormir três noites, tomando chá para tentar me acalmar", diz a professora."



Morri de rir comiga mesma e pensei: "uau! que maravilha que os problemas mudam, os traumas tem chances de diminuir e a gente de crescer!"...

Eu aqui, nesta cama de hotellll, num canto norte do Globo, com minha barriga indo e vindo em ondas de chutes da Marina, esperando para voltar ao Brasil em dois dias dou de cara com a Sônia antiguinha... Tudo bem que ainda de-tes-to ir ao dentista, mas tá melhor... tá melhor... oi se tá!

Depois de ter tido filho em parto normal na Suécia ainda consigo fazer drama para dores, porque é mais forte que eu, mas vamos combinar que a mocinha de anos atrás era demais de exagerada não?

20 julho 2010

"Dream about me": ainda sobre o amor de Sonildes e Suécio

("Girl in a Hundertwasser Landscape", Belinda Billylee)

Já passavam das onze e meia da noite e Sonildes fritava de lá pra cá, daqui pra lá na cama. Apesar do cansaço terrível o sono não vinha e ela se pegou tentando adivinhar o que aconteceria na próxima semana. Que tipo de sensação a tomaria quando estivesse finalmente não mais vivendo com Suécio? Sentiria muita saudade? Desejaria voltar? Choraria sem parar como quem perde um grande amor ou esqueceria voluvelmente como se tudo não tivesse passado de um de seus sonhos malucos?

Não sabia... Não conseguia saber...

Restavam-lhe apenas mais quatro noites antes de partir definitivamente para perto de Brasil de novo e cada noite a menos era um passo a mais perto do seu tão próximo futuro e, ainda assim, tudo lhe parecia apenas história para alguém dormir...

A história de Suécio e Sonildes havia se firmado quando ela, decidida a viver só um de seus dois amores, havia escolhido provar da companhia, da calmaria, da segurança e da maturidade de Suécio. Por muito tempo ela havia vivido entre o alegre e festeiro amor de Brasil e o sóbrio e profundo amor de Suécio. Tinha os dois quase ao mesmo tempo. Deixava um quando se cansava do outro e assim ia bem obrigada até perceber que precisava experimentar muito do pouco.

E havia sido assim nos últimos anos. Dia e noite, dia após dia. Somente ela e Suécio.

Franzindo a testa debaixo do edredon macio, Sonildes tentava lembrar de quanto tempo exatamente havia estado ali, mas um pensamento se seguia de outro e outro... Ah! Sim! Algumas memórias do dia em que chegou, de suas primeiras semanas na cidade de Suécio, de seus passeios de mãos dadas, da conversa deliciosa no fim da noite... Uma memória se sobrepunha à outra e ela mesma se esqueceu de novo de tentar calcular o tempo.

A vida ao lado de Suécio desde que deixara Brasil era tão intensa que às vezes Sonildes tinha dificuldade para se lembrar de como vivera antes... A verdade, porém, é que isso não era novidade. Sonildes era o tipo de pessoa a qual tomava um leme e seguia em frente. Ia, ia até se pegar pensando: como é que era mesmo antes de eu chegar aqui?

Havia sido assim quando deixara a casa dos pais para viver um casamento informal com Brasil. E também da mesma maneira quando vivera entre os dois amores de sua vida, sem conseguir se decidir por um ou por outro, como se tivesse sido de ambos sua vida toda.

Era como se a única vida que tivesse fosse somente a atual... Sempre! E tem isso algo de errado?, perguntou-se ela como se falasse com alguém.

Sonildes não sabia. Ou não se importava. Ou não estava de fato interessada em saber.

O que sabia e a coisa com a qual agora ela se importava realmente era que sua vida mudaria de novo. E muito. E que ela sentiria saudades demais do seu loiro, de olhar calmo azul a tomar-lhe a mão nas noites frias...

E por que era mesmo que ela havia decidido ir embora e deixá-lo? Hummm... ah! por muitas coisas que agora já não pareciam mais ser tão significativas assim... mas provavelmente deveriam ser senão ela não teria optado por partir, afinal de contas era desmemoriada, mas não maluca...

Ah! sim! aquelas coisas todas!, quase exclamou em voz alta. Claro! Havia uma porção delas! Fato era que Sonildes não se lembrava muito bem. Ela normalmente não se lembrava de todas as coisas mirabolantes as quais pensava e sentia. Era como se no verão ela se esquecesse que também era possível o inverno. E quando esse chegava sentia como se não fosse possível viver sem seus casacos, gorros e cachecóis... A vida e os sentimentos subiam e desciam tão rápido que ela realmente se esquecia. Mas também não estava a fim de pensar nisso... Não agora. Agora ela precisava era dormir.

Virou-se pela milésima vez na cama e ajeitou o travesseiro deitando novamente de frente para Suécio que já dormia profundamente. No escuro foi procurando por uma das mãos do quase ex-companheiro e encaixou a sua mão direita dentro da grande mão esquerda dele.

O corpo dele era quente. O cheiro era suave e a respiração profunda.

Sonildes queria ficar ali quieta sem precisar pensar na próxima semana. A próxima semana viria de qualquer maneira e ainda era futuro... O melhor a fazer era viver o presente curto que lhe convinha e dormir ali bem colada a Suécio enquanto podia...

E então ela fechou os olhos e sorriu para si mesma, meio que sussurrando no ouvido dele: "Dream about me..."

18 julho 2010

"(des) Encontros & Despedidas": o vôo de volta da Brobuleta, por Ju Moreira


("Mãe e filha", Natalia Tejera)

Como muitas e muitos de vocês, uma das primeiras coisas que fiz quando decidimos vir morar na Suécia foi pesquisar na Net tudo que podíamos sobre o lugar, as pessoas, as comidas, os costumes, as dificuldades etc do misterioso lugar onde deveríamos passar, inicialmente, os próximos dois anos de nossas vidas.

No meio de coisas das quais me esqueci fácil e de outras bem legais encontrei o blog da Ju, uma jornalista do Recife, quem vive em Estocolmo com seu grande amor viking, com quem também já viveu na França. Passei a frequentá-la, ler seus posts e me inspirar e aprender um pouco mais da vida de alguém que mais ou menos se parecesse comigo e morasse na Suécia, Devorava seus posts, como os da Denise, do Síndrome, que havia vivido pouco tempo por aqui, mas escrito muito sobre.

Tempo passou e me lembro bem de que tive seu blog em mente quando comecei a escrever o meu... Tentei aprender com elas como fazer blog, embora eu tivesse lá meu jeitão nada jornalista de escrever...

A troca de visitas gerou comentários e troca de idéias. Depois foi a vez de publicar, a convite da Ju, no Brassar, site com o qual ela colabora, escrito para brasileiros que vivem na Suécia. O primeiro e o segundo texto publicado, ambos sobre arte, funcionaram como uma injeção de ânimo para que eu voltasse a querer não só escrever, como pintar mais e novamente... Além disso, também trocamos emails sobre coisas que pensávamos de vez em quando...Fomos mantendo um desejo grande de nos conhecer pessoalmente e sempre uma promesa: a gente ainda se encontra!

Não foi bem assim que aconteceu. Tentamos na semana passada que isso se tornasse verdade, mas não deu certo... O desencontro junto da despedida gerou em mim uma certa tristeza. Eu queria mesmo ter encontrado a Ju, como pude encontrar a queridíssima Camilíssima, que vive na vizinha também branquela Noruega e veio visitar meu sol e a adorável e não mais perdida Françoise, quem hoje também escreve seu diário inspirado na vida na Suécia. Bom, fato é que não foi dessa vez...

O que sei é que nesta semana a Ju me deixou ainda com mais lamento por não termos tido nosso encontro na festa de despedida aqui em Malmö, quando me mandou o link de um post seu. Nele, ela escreve falando de minha volta ao Brasil e despedida da Suécia e também de como sente algumas coisas que escrevo, além do fato de que minha relação com a Marina, ainda no início, lembrou-lhe de sua infância com a mãe e a avó num texto intitulado:


Então este meu post é para divulgar o texto da Ju com o qual eu me emocionei. É uma coisa muito estranha e interessante esta de pensar que a gente pode ter tanto em comum com alguém que nunca vimos. E que podemos sentir carinho por esta pessoa e querê-la bem.

Ju, obrigada por este texto lindo e pelas músicas dedicadas a mim! Obrigada por ter me inspirado a criar o Borboleta! Obrigada por ter me convidado um dia para escrever para o Brassar, espaço para o qual adorei ter participado, mas dado minha condição de pessoa bagunçada eu parei de fazê-lo sem nem mesmo dar satisfações... Obrigada por ter a sensibilidade de perceber em textos que escrevo com o coração coisas que me são caras.

Foi um prazer imenso conhecê-la, embora eu nunca tenho mesmo tido o prazer de conhecê-la! E, apesar do tom de despedida, eu estou aqui, escrevendo (com uma baita dor na "poupança" de tanto ajeitar a Casa Nova para a entrega) da cama do hotel, de dedos cruzados para que os desencontros não aconteçam no futuro e a gente possa ficar só entre os encontros e as despedidas, porque disso não dá mesmo para fugir...

Beijo, Somnia.

14 julho 2010

Diálogos inesquecíveis com Ângelo: teoria darwinista e um pouco mais...



Ontem, eu e Ângelo voltávamos da escolinha dele. Ele na cadeirinha atrás no carro e eu dirigindo:

E então ele diz quase em tom filosófico:

- Mamãe só macaco sobe em árvore...

- O que foi Ângelo?, respondi tentando me virar um pouquinho e confirmar a frase...

- Só macaco sobe em árvore mamãe!

- Hahá... É... bom... na verdade eles sobem, mas também tem outros bichos que sobem e a gente também pode subir em árvores.

- Nããão mamãe!, disse ele negando e rindo de minha teoria super furada.

- É sim! A mamãe subia na árvore com a tia Sandra quando a gente era pequena...

- Ahhh...! Onde?, perguntou ele pondo minha afirmação em débito.

- Na casa da Vó Maria, no quintal...

Silêncio profundo. Reflexão. E então pura lógica talvez fundamentada na teoria de Darwin ou em alguma frase proferida na escolinha:

- Mamãe... quando você era um macaco você subia na árvore?!


Lógica angelista da história: se você algum dia subiu em árvores isso não prova que os macacos não são os únicos a subirem em árvores, mas que você, com certeza, foi macaco um dia...

"Idas Sommarvisa": pertencer a algum lugar é mais do que viver nele é partilhar de seus sentimentos


("Idas Sommarvisa", letra de Astrid Lindren)

Logo no primeiro verão que vivi na Suécia, em 2007, ouvi essa música lindíssima e não consegui partilhá-la porque não sabia nome, não entendia a letra, não sabia nada a respeito...

Hoje, penúltimo dia na nossa "Casa Nova" e há 9 dias de embarcar de volta para o Brasil, eu acordei com a mesma canção na cabeça e percebo quanta diferença esses três anos e meio fizeram. O que antes era apenas uma canção bonita hoje é algo o qual faz todo sentido para mim. Não apenas entendo o que se canta nela, mas sinto que ela expressa exatamente aquilo que também sinto e vivo.

Olho para meu termômetro e confiro os 25 graus que estão fazendo já as 8 da manhã. Sol forte, céu azul intenso e muitos pássaros cantando lá fora... Muita gente na praia, quietinha, tentando aquele seu contato mágico com a natureza.

O verão sueco chegou com toda sua beleza, com toda sua mágica e agora sei dizer a vocês que "Idas Sommarvisa", a canção acima, é da mais famosa escritora sueca: Astrid Lindgren. A música foi escrita para um dos muitos filmes baseados nos livros infantis da escritora, Emil, de 1973, embora Astrid seja mais conhecida como a criadora de Pippi Långstrump, cujos livros foram traduzidos para inúmeros idiomas, incluindo o Português.

Os suecos amam amam Pippi, amam Emil porque através deles Astrid Lindgren fala de coisas simples da vida e de sentimentos importantes como o da transformação que sofremos com a chegada do verão que é, na verdade, a grande paixão deles.

Esse transformar-se por completo como se fôssemos outros não é o mesmo que sinto no meu país. Aí vivemos intesamente o verão, a claridade, o verde todos os dias. Talvez por isso sejamos mais alegres o tempo todo, mas, por outro lado, creio que muitos de nós não saibamos ver essa vida toda na natureza com tanta facilidade.

Em "Idas Sommarvisa", que eu consigo traduzir como "Eu faço do verão um show", a letra conta como é possível reconhecer o verão, porque, depois do longo tempo de inverno (que neste último ano foi de mais 8 meses) e neve, no verão somos capazes de fazer festa com as flores crescendo e se colorindo, com os animais a correr no pasto e com a água a descer pelo rio. É possível se fazer os morangos deliciosos para as crianças e é possível que estas brinquem soltas por todos os cantos. No verão nós podemos fazer a noite e tudo o mais bonito e mais divertido. Podemos fazer dos dias uma festa e um show particular. Tudo é vida e muita vida!

Minhas caixas estão espalhadas pela casa. Estamos empacotando e fazendo nossas despedidas, porque amanhã um grande container estará em frente de casa para levar tudo que é nosso para o Brasil. E hoje, mais do que nunca, eu tenho certeza de que a Suécia me conquistou tanto porque aqui ainda é possível, em 2010, viver a tranquilidade, a paz e a segurança que talvez meus avós viveram no Brasil.

A Suécia de Astrid Lindgren, nascida em 1907, provavelmente mudou muito, mas ainda permite uma vida pacata sem portões e grades que nos cercam em nossas casas e uma calma interiorana, apesar de estar no topo dos países mais desenvolvidos do mundo.

Vou embora e sinto que entendi quase perfeitamente o sentimento de "Idas Sommarvisa" e fico imensamente feliz de ter entendido melhor o que é este país chamado Suécia e o povo que aqui vive.


Idas Sommarvisa

(Jag gör så att blommorna blommar)
Eu faço as flores em flor

"Du ska inte tro det blir sommar,
ifall inte nån sätter fart
på sommarn och gör lite somrigt,
då kommer blommorna snart.

Jag gör så att blommorna blommar,
jag gör hela kohagen grön,
och nu så har sommaren kommit,
för jag har just tagit bort snön.
Jag gör mycket vatten i bäcken,
så där så det hoppar och far.

Jag gör fullt med svalor som flyger
och myggor som svalorna tar.
Jag gör löven nya på träden
och små fågelbon här och där.
Jag gör himlen vacker om kvällen,
för jag gör den alldeles skär.

Och smultron det gör jag åt barna,
för det tycker jag dom kan få,
och andra små roliga saker
som passar när barnen är små.
Och jag gör så roliga ställen,
där barnen kan springa omkring,
då blir barna fulla med sommar
och bena blir fulla med spring."

Text: Astrid Lindgren / Musik: Georg Riedel

13 julho 2010

"Ohhhh I want to break freeeeee yeah yeah!!!"...

(Sem saber da semana de homenagens à frida pensei que nem Mulher Maravilha nem nenhuma outra poderia me dar espírito mais libertador e forte que Frida Kahlo!, julho de 2010)

Sem tempo para o falatório, para os agradecimentos, para as legendas nas fotos e tudo o mais, mas aqui algumas das quase quatrocentas fotos que tiramos no sábado passado...
Dia de festejar anos do Ângelo e dia de dizer adeus a maior parte dos amigos que fizemos aqui!

E o modelito e a alegria não deixaram nada por menos!

Em ritmo de quase flash back a gente se esbaldou ao som do Queen de novo... Homens, molerada e criançada bem no espírito do "I want to break free!", como Frida Kahlo, como Fred Mercury como tanta gente inspiradora...

Valeu pessoal!!!


(Sim!!! Nós queremos nos libertar!!!, eu e molerada na festa de despedida, julho de 2010)



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Em-pa-co-tan-do, simbolica e literalmente falando


Gente boa,

É tarde, tô morta de cansada e tem muito pra fazer.
Quinta é o dia D e sexta dia de carregamento...

Sentirei saudades, mas volto quando for possível...

Por enquanto o futuro espera para que eu o organize em muitas caixas de papelão...

Beijos, Somnia.

10 julho 2010

"Heroes of war"...


("Heroes of war", Rise Against)

Faltam apenas mais treze dias e noites que temos ainda nessa nossa segunda casa chamada Suécia...

O dia é bonito, o termômetro já marca 25 graus, apesar de ser apenas nove da manhã.

Com dezenas de mesas, cadeiras e bexigas começo a arrumar a casa e o jardim para a nossa grande festa de Despedida que é também a festa de aniversário de três anos do nosso Anjo...

Em meio à empolgação com minha fantasia (surpresa) para a festa do Spider Man, o cansaço da barriga pesada e dos movimentos fortes de alguém aqui dentro de mim, vou preparando tudo com carinho... Celebraremos mais um ano de vida de uma pessoinha que significa tanto para nós junto dos muitos amigos que fizemos aqui e para quem diremos já um pequeno adeus.

Enquanto isso, sinto ao mesmo tempo uma onda de lembranças tomando conta de mim... Todas elas muito boas, todas elas muito profundas... Um arrebatamento, um choro do fundo do coração de saudade, saudade de tanto que vivi e do que ainda viveria aqui...

Dizem que os hormônios da gravidez fazem mesmo isso com a gente... os mesmos hormônios que, segundo minha amiga super enfermeira Mariana, são os responsáveis por me dar tanta energia e conseguir encarar uma mudança tão grande prestes a ter um bebê... Sim encaro, embora não sem choro...

E então as lágrimas são de saudade de estar aqui nesta casa com os meus queridos e de estar com as amigas daqui e partilhar o futuro delas, de ver suas crianças nascerem, crescerem ou aprenderem a falar... De viver nessa internacionalidade tão rica, de falar três idiomas ao mesmo tempo para me comunicar, de ouvir histórias nunca ouvidas antes...

Assim como já sinto saudade de ver Ângelo pedalando sua biciletinha sem as rodinhas, de ver outros verões a começar depois do inverno rigoroso... De cuidar dessa pequena família como tive o privilégio de cuidar nesse tempo que passou...

Dou-me conta de quão difíceis são as mudanças, as escolhas depois que temos filhos. Mudar-se antes não era fácil, mas também nunca fora difícil. Nas sete outras vezes que nos mudamos a empolgação sempre ajudava a cortar um pouco as raízes, mas agora sinto-me mas cada vez mais agarrada, vinculada ao lugar onde meus filhos (já falo imaginado o futuro) aprenderam viver e a amar... Sim, eu sei eles aprenderão a amar outros lugares... eu sei...

E mesmo quando temos a mais certeza de que estamos sim seguindo rumo bom, melhor, de que pesamos os prós e contras ainda assim quebrar esse vínculo, romper esse amor diário é tão difícil...

E ao mesmo tempo que as lágrimas invadem meu rosto todo eu vou agradecendo... Por este passado ainda recente, pelo futuro que nos aguarda... Pela oportunidade de poder ter vivido uma vida tão diferente... Pelo vento que balançou meus cabelos na bicicleta, por poder ter ouvido o barulhinho da neve caindo e do meu pé se enfiando na neve branca, por ver a "morte" do verde e seu nascimento de novo...

E assim enxugo as lágrimas, tomo um temperado de manga para aprontar com yogurte natural com o qual os amigos deverão comer as cenouras e os pepinhos crus que aprendi a adorar nessa terra de quase ninguém... Cenouras e pepinos crus na entrada e bobó de camarão no prato principal... É a mistura perfeita entre as duas terras que amo...

A Suécia me mudou completamente e, como disseram mais de uma pessoa esta semana: o que vivi aqui e no que me transformei ninguém nunca mais será capaz de tirar de mim...

E viva la vida!

...

ps: conectei meu Spotify e estava ouvindo esta música aí da qual adoro a voz do cara, o violão, esse tom forte, embora a letra otimamente crítica não tenha nada a ver com meu momento de agora... Acho que todo este toque me pôs ainda mais no xororô, já que foi a mesma música que eu estava ouvindo no dia que voltava sozinha do meu segundo workshop, ainda no inverno de março...

07 julho 2010

Dicas Mil: vida prática na Suécia: comida, tempero e cozinheira brasileira só para você!


Creio que entre a lista de simbologias, objetos e coisas as quais mais nos liga a um lugar e mantém nossa memória afetiva conectada, a comida está entre as principais delas.

Sentir o mesmo cheiro, o mesmo tempero, comer algo que alguém lhe preparava com carinho ou que lhe remeta a uma situação passada é simplesmente muito prazeroso...

Depois de aproveitar uma manhã de sol na praia de Holviken, paramos num restaurante no centrinho da cidade para almoçar e, como boa grávida, fui direto procurar o banheiro. Nos fundos do restaurante encontrei um outro, todo informal e vi logo umas panelas de ferro numa das mesas...

O cheiro de alho (na Suécia não se usa quase alho como no Brasil) sendo refogado, uma música que reconheci logo na vitrola e uma placa onde se lia "Capirinha a tantas coroas" me deixaram em povorosa.

"É um restaurante brasileiro?", perguntei logo em português.

"Sim", respondeu a cozinheira...

E foi assim, totalmente por acaso, que descobrimos esse lugar, onde você poderá comer não só feijoada, mas também moqueca, bobó de camarão, lazanha brasileira, escondidinho de camarão e outras tantas cositas deliciosamente brasileiras mais.

Lilian, uma mineirinha muito ótima, filha de uma simpática e muito boa cozinheira baiana, casada com um sorridente dinamarquês, estará neste lugar até final de agosto, quando acaba o verão, tomando conta do "Sandálias Copacabana".

A idéia do restaurante é otima, mas infelizmente tem prazo marcado para acabar já que o lugar é um puxadinho do restaurante da frente, é todo aberto e tem os fundos numa areia onde se pode jogar voley e deixar as crianças brincarem.


(Cheiro, música, mesa quase ao ar livre, num clima muito brasileiro, Restaurante Sandálias Copacabana, Hollviken)

Para comer os cardápios brasileiros especiais você precisa ligar para este número aqui e fazer a "encomenda" para o dia que deseja aparecer por lá, já que os suecos não conhecem ainda a comida e não há tanta saída para eles.

Foi o que fizemos no domingo: pedimos feijoada e bobó de camarão (sim! tudo junto para matar dois coelhos) e elas preparam um buffet (149 coroas suecas ou uns 35 reais por pessoa), com sobremesa inclusa, e fomos com os amigos chegados brasileiros que lamberam os beiços e repetiram até a barriga ficar parecida com a minha.

Para mim foi ainda mais especial, também para o Renato, porque parece uma certeza de que há coisas que nos conectam ao Brasil e das quais sentimos sim tanta saudade e faz uma diferença bem grande quando se tem. Comer o bobó feito com tanto carinho por elas, assim como a feijoada, sentir aquela conexão carnal com o Brasil deu mesmo uma ponta de alívio junto com mais certeza de que é se é difícil partir é também muito bom voltar para casa.

Ficamos todos tão empolgados e agradecidos que cada um tomou o folheto do lugar para divulgar mais para os brasileiros residentes na região, já que as meninas começaram há apenas um mês e ainda não tem uma boa freguesia para essas comidas típicas deliciosas.

A maior parte vem da suecada e escandinavos vêm para happy hour e consomem mais os pratos comuns daqui...

Então se tiver por aqui, se quiser aproveitar o verão sueco à moda brasileira dê uma ligada ou simplesmente uma passadinha lá. Eu agarantio que você não vai se arrepender!!!


Restaurante Sandálias Copacabana
email: copacabanabar.hollviken@gmail.com
celular: 0722414046 ou res: 0406669071
Endereço: Falsterbovägen 83
Mellem Shakespire og Spanish Garden, Höllviken, Sweden 23651


05 julho 2010

Por que beleza é fundamental?


("Mulher nu com colar", Pablo Picasso, 1968)

Desde que o regresso ao Brasil foi confirmado eu tenho ouvido das mais diferentes pessoas, sendo a maioria suecas ou brasileiras, a mesma pergunta: do que eu sentirei falta ao deixar a Suécia?

Em todos os casos não hesitei em dizer que há, com certeza, muitos itens na minha lista, e passei a citar alguns deles, mas a insistência da pergunta ou de uma resposta mais objetiva, como a que um amigo francês e uma sueca me fizeram: "Não, Sônia, do que você vai MAIS sentir falta?" me fez eleger sem sombra de dúvida o que para mim é o mais forte, a liberdade.

Foi, porém, só o repetir do meu argumento me levou a perceber que minha resposta é ainda muito complexa. Na minha experiência de vida aqui e dado o tipo de pessoa, de formação e do que espero de uma sociedade e das pessoas eu sinto que sentirei falta de liberdade em inúmeros sentidos e vou começar a lista de posts citando um dos quais já há tempos não me sai da cabeça: a liberdade de ser "feia" ou de não ter que estar bonita.

Eu sei que a discussão é longa e complexa demais, mas deixa eu tentar esclarecer o que seria isso.

Desde muito pequena, numa cidadezinha do interior paulistano, aprendi no antigo primário que eu não tinha vez na dança da laranja baiana, porque simplesmente eu não era a moça bonita que os meus colegas imaginavam e a qual a letra da parlenda exigia: "Laranja baiana que vira em pó, galo que canta corocócó, pia que pia piripipi, moça bonita não sai da....qui!"

Nem eu, nem minhas duas outras amigas também esmilinguidas de magrelas, nem as morenas quase negras, nem as gordinhas, nem as de traços não delicados, nem as desengonçadas eram escolhidas. E olha que a gente tentava! Entretanto, só as meninas loirinhas, clarinhas, de corpinho bonitinho e de preferência olhos azuis eram selecionadas por todos da sala. E como os feios nunca eram indicados eles também não podiam fazer uma revolta e escolher outros feios e provar que beleza era algo subjetivo, por exemplo.

Sem revoltas no primário!

Bom, verdade é que isso me marcou profundamente, como deve ter marcado todas as outras meninas e meninos que não se encaixavam no padrão de beleza aprendido não sei direito de onde. Talvez de nossos pais em casa. Talvez da televisão. E ainda dos livros...

Junto de todas as piadinhas comuns da infância eu lembro ressonar na minha cabeça os versos de Vinícius de Moraes que lemos nessa época entre a 4a. ou 6a. série na aula de Língua Portuguesa. Não entendi bulhufas da análise do texto (nem mesmo sei se a professora o fez) mas eu lembro, ah! se lembro! certinho da primeira frase do poema Receita de Mulher: "As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental".

E lembro-me agora do quanto naquela época consegui odiar o tal poeta quem, na minha opinião, era "machista", apesar de eu não saber direito o que significa tal palavra. Essa exigência do que e como eu devia, precisava, tinha que ser para ser aceita me parecia mesmo horrível! E não me importava quem era, tinha sido ou seria Vinícius de Moraes, porque aprendi naqueles versos que precisava ser bonita para ser amada. Eu não fazia idéia também do que significa ser "bonita", mas imaginava que era não ser como eu era.

Você pode achar estupidez, mas não era. Eu era uma menina vivendo no início dos anos 80 no Brasil, onde todas as apresentadoras de tevê eram no mínimo loiras, altas e de olhos azuis. Eu não estava entre as eleitas e nunca estaria! Qual a saída? Desenvolver meu lado intelectual e ser bem agressiva com quem tentasse me lembrar daquela história. Perdi a conta de quantos tapas de mão aberta dei na cara dos meninos que me enchiam com apelidos do tipo "Olívia Palito" etc.


("Lolita", Maria Scavullo, in: Trigger)

E fui vivendo. E me valorizando como pessoa e também como mulher. Fui lendo muitos outros poemas e romances. Fui aprendendo e conseguir pôr em xeque toda aquela exigência que eu mesma acabei por me fazer... Senti que desenvolvi um estilo Somnia de se vestir e ser e isso ninguém mais me tiraria e conheci homens para quem a definição de beleza era um pouco mais ampla.

E eles viram beleza em mim, porque eu também já via...

Tudo parecia ir bem, obrigada! até que eu vir morar na Suécia. E até que depois de uns meses aqui voltei, como mãe, para o Brasil a passeio. É impossível esquecer como me senti: nas ruas, no supermercado, na padaria, no reencontro com amigos e família aquela olhadela looonga, fulminante, medindo-me do fio do cabelo à ponta dos pés, numa tentativa de confirmar rapidamente se eu, após ter tido filho e vivendo na Suécia havia engordado, emagrecido, caído, envelhecido, o diabo a quatro.

E é curioso como provavelmente as tais olhadelas já fossem uma realidade também antes, mas como eu só dei tanto valor depois de viver num lugar onde o que eu faço do meu corpo e das minhas roupas é simplesmente um problema meu. Onde eu mesma havia reclamado num outro post que NINGUÉM te encara na rua, ou te seca com os olhos, te critica ou te deseja.

Não quero dizer com isso que suecos e suecas sejam cegos ou que não sigam tendências de moda e idiotices para ficarem lindas também. Seguem! Adolescentes principalmente. Vi quatro meninas numa loja semana passada comprando e-xa-ta-men-te a mesma blusa-estilo-torcida-de-time-americano. Provavelmente influência de algum seridado que não conheço, mas a verdade é que se elas saírem de agasalho de torcida, de vestido de renda punk todo rasgado, de sapato tamancão e roupas pretas góticas, vestido transparente ou mini saia aparecendo o peito da bunda isso não fará a menor diferença para os suecos e suecas que cruzarem com elas. Dentro do pequeno grupo com o qual querem se identificar creio que sim, mas não fora dele.

Aquelas olhadas fulminantes que faz a gente sentir que está nua estando vestida eu juro que nunca senti aqui, a não ser de uma ou duas pessoas também brasileiras (ou latinas).

No último janeiro aí, com calor de 39 graus, saí de blusa decotada e shorts com o Ângelo no meu bairro em São Paulo e ouvi, além das várias buzinas de carros, olhadas do tipo "eu sei que você se vestiu assim dengosa pra mim!" uns desaforos do tipo: "E aí, tiazona, vem pra mim..."

Essa "liberdade" de dizer o que der na cabeça, de criticar e intimidar o outro de acordo com os padrões rígidos, machistas e ultrapassados brasileiros é algo que com certeza aqui eu não encontrei.

Em todas as voltas ao Brasil, sem exceção, senti novamente aquela cobrança enorme para que eu seja linda, ou pareça, ou ao menos me esforçe para ser linda. E tudo bem que há dias que a gente queira estar linda e se cuidar, mas tem dia que não se está mesmo a fim! E aí?

O que vejo é que mesmo as conveniências, as quais eu mesma estava acostumada a ceder e gostar como manter o cabelo legal, fazer manicure, pedicure, mega depilação, sandália, vestido, TUDO que faz parte do pacote de quem se preocupa em não estar entre as "muito feias", me irritaram profundamente se percebo que PRECISO fazer porque alguém vai me olhar e achar que sou menos, valho menos porque não estou querendo e tentando ser linda!

Ao mesmo tempo que é uma delícia poder pagar tão pouco e me dar a esses "luxos" os quais a Suécia não proporciona, não dá para negar a sensação de sufocamento quando percebo que minha escolha se torna uma necessidade. Que minha escolha NÃO É UMA ESCOLHA.

Não sei se tem a ver com o clima, porque nos mostramos mais do que nos mostramos na Europa, onde o inverno toma quase 6 meses do ano ou mais, como aqui. Talvez sim. Eu posso estar redondamente (bem redonda agora de 7 meses!) enganada, mas quando alguém me mede assim nas minhas chegadas aí ainda sinto aquela voz dos amigos do primário que não sabiam direito o que cobravam, mas estavam ali para julgar quem era e quem não era bonito. Quem estava e quem não estava adequado para entrar na roda.

O mais triste, além deste fator é que normalmente quando agimos assim de forma sádica, medindo as medidas dos outros estamos nós mesmos sofrendo o mesmo tipo de pressão. Não só dos outros, mas de nós mesmos. "O inferno são os outros", Sartre já previa... e o outro pode estar no espelho refletido...


("Mulher em frente à janela", Fernando Botero, 1990)

Sinto em tantas mulheres brasileiras ainda um deixar-se dominar muito grande. É claro que não é via de regra, mas se comparo com a moda na Europa, os nossos cabelos são muito mais longos, escovados, compridos e... sensuais... As blusas são mais grudadas, as calças jeans e o sapato alto parecem ser um esforço para marcar a... sensualidade. As unhas vermelhas, o batom, a bolsa colocada da mesma forma que outras milhares do lado são uma combinação perfeita para dar um efeito... sensualíssimo... Isso tudo sem contar o número gigantesco de cirurgias plásticas feitas todos os dias até mesmo em pré-adolescentes como forma de entrar na linha...

Eu concordo que o cuidado etc e tal, tudo isso pode até ser lindo, mas o importante ao meu ver é pensar: é lindo para quem? Para nós mesmas que acreditamos que dizemos que vamos à manicure toda semana porque gostamos ou para o marido, o namorado, o paquera, os amigos e parentes dele e nossos?

Eu tenho a mais absoluta certeza que há nisso alguma escolha, mas também me sinto numa arapuca quando sei (porque já ouvi) que quase a maior parte das mulheres que conheço no Brasil julgam o que julgo como liberdade por aqui algo que prove como as suecas, ou muitas européias são desleixadas, sujas, porcas e não sensuais. Quer dizer: não há muita chance de dizer que prefiro ser como as européias porque isso inclui assumir que gosto de ser "desleixada, suja tatatá..."

Eu mesma, apesar de querer ver o mundo com outros óculos, tenho dificuldade, com toda esta cultura do "tem que ser linda, gostosa e sensual", de não me sentir constrangida quando, na academia de ginástica que frequentava, as suecas ficam todas peladonas se trocando, abaixando, pondo o sapato enquanto põe à mostra suas nádegas e peitos. Malhadas ou fofuchas, morenas ou branquelas, sem ou com muuuito pêlo elas não se preocupam com o que eu vou pensar. O que eu vou pensar não é problema delas. É problema meu! E pareceu-me que dez em cada dez suecas, com as quais deparei nesta situação, estão se lixando se e eu ou você achamos que alguém só pode tomar banho na academia se não for "muito feio" e se estiver dentro dos padrões exigidos pela academia de sensualidade brasileira.

Dá para entender um pouco do que tento explicar aqui? É essa liberdade de ser feia, peluda, gorda, magrela, fedegosa, sem sex appeal OU LINDA que eu acho legal. É ver o pessoal no mercado de terno, de camiseta, de roupão, de casaco por cima do pijama que me faz sentir que posso escolher as muitas facetas de mim mesma no dia que mais me convém.

Aqui não é perfeito não! Tem pressão também, tem crítica também, mas é aqui que frequento um grande shopping center onde na entrada se vê a placa com a foto de dois funcionários dando boas vindas e eles são respectivamente uma moça bem gordinha (e linda) e um moço de pele escura.

É esse ser livre a ponto de nem sequer se preocupar com a questão de se "beleza é ou não fundamental", inclusive porque beleza é um conceito tão complexo e que muda tanto dependendo da época em que se vive do qual eu já pressinto que terei muitas, mas muitas saudades...

04 julho 2010

Quer sua vida com fundo musical? Spotify agora liberado para todos os países!


(Nelson Freire interpreta Gluck, "Melody")

"Hoje é domingo, pé de caximbo..."

Sim. E domingo para mim é dia de acordar com calma, tomar café da manhã mais cuidadoso com a pequena família ao som de música clássica. Normalmente piano.

Aprendi a gostar de música clássica já "velha", com uns vinte e poucos anos, depois de conhecer minha amiga Ludmila, na universidade que, além de ter na sala de sua casa um lindo piano que sua mãe tocava todas as manhãs, também tinha uma bagagem musical excelente porque cantava e estudava música, além de filosofia, e acordava com seu pai ouvindo música clássica todos os domingos de manhã...

Uma das muitas boas consequências disso foi então eu conhecer, por exemplo, Nelson Freire, um dos melhores pianistas brasileiros (sobre quem também vi um dos filmes mais marcantes de minha vida), da mesma forma como os maiores compositores do mundo...

E foi ao som dos Noturnos de Chopin que terminei o café, vesti o meu "moleque" com uniforme de jogador e fiquei ali fora, com o sol cegando-me um pouco, enquanto os meus dois saíam de bike para jogar com outros homens e meninos num campo aqui perto...

Talvez um momentos dos milhares que a gente vive diariamente, mas penso que a música (além de outras óbvias coisas como saber que esta é uma das últimas vezes que eles farão o mesmo por aqui) ajudou-me a perceber ainda mais o seu valor. Pensei que não deveria dividir com vocês algo que eu soube esta semana: o spotify, este programa livre e legalizado de música sueco que ouço aqui está agora aberto a todos os países do mundo.

São três novas versões que incluem a versão free, com 20 horas de música por mês. É muito menos do que eu tenho, porque tenho a versão antiga, sem limite de horas (embora free e com comerciais ainda), mas já vale o esforço de instalar o programa, juro!

Uma janela do mundo se abrirá para você, tenho certeza!

Aqui, descubro uma nova música (nova para mim, não necessariamente nova para o mundo), um cantor, cantora nova todos os dias... E, desculpe minha empolgação, mas é fantástico ter o mundo musical assim ao seu dispor. E ouvir a vida pulsando em cada momento...

Pense, sonhe, imagine uma música que você queria ouvir, sempre quis e não sabe direito em que álbum, de quem é, em que filme... Vá digitando nomes e você com certeza vai cair nela...

Foi com o Spotify, inclusive, que consegui achar quase todas as músicas (De Roberto Carlos a tema do filme "Blue") que eu precisava para as pinturas das telas inspiradas em música... Sem contar a qualidade, que não se compara com a maior parte dos programas free de música.

É isso... Só para dividir com vocês que tentaram da outra vez que divulguei o programa, mas não puderam instalar porque ainda não era liberado fora da Europa.

Você pode optar pela versão OPEN, que é grátis, 20 horas de músicas por mês, a qual inclui alguns comerciais entre as músicas. Pode, ainda, optar por pagar a UNLIMITED, que suta 49 coroas suecas (mais ou menos 11 reais) por mês, ter acesso ilimitado às músicas, sem propaganda, mas com restrição para baixar as músicas em celular. E se preferir há a versão PREMIUN que inclui todos esses acessos sem limite algum, inclusive lhe dando o direito de baixar as músicas.

O link é:

www.spotity.com

Daqui só consigo acessar o link em inglês que é este aqui, mas que provavelmente no seu país sairá direto na sua língua.

Bom, agora posso continuar meu domingo, na verdade meu ante penúltimo domingo de Suécia, meus afazeres e meus pensamentos mergulhados em mais música...

Ótimo domingo para vocês ao som de mais Chopin, Noturno n. 9, in B, opus 32, n. 1...

E agora Spotify pode me dar minha versão Premiun de graça!!! :=)

...

ps: não consegui achar um vídeo do Freire tocando os Noturnos que eu estava ouvindo... então postei esta música maravilhosa do Gluck que ele toca aí em cima, mas para terem uma idéia do talento dele... Se quiserem ter uma idéia de que música falo dá para tentar em links como este aqui, de usuários do youtube...

01 julho 2010

As telas das ganhadoras do concurso com um pouco de filosofia e psicanálise de botequim



("Sigmund Freud", Andy Warhol,

Se vocês forçarem um pouco a memória aí lembrarão do concurso que fiz em março para as leitoras que deixassem resposta à pergunta "Que tipo de coisa consegue lhe deixar realmente feliz", num post feito por ocasião de meu aniversário.

Devem também se lembrar que as ganhadoras Mariahh, do Alentejo, Lilás, do Rio de Janeiro e Liana, de Malmö, foram as vencedoras e talvez nem mesmo elas se lembrem que receberam a promessa de uma tela minha de presente.

Depois de muito pensar, de tentar alguns rabiscos e telas que coloquei de lado, finalmente aqui estão as telas de presente para as três. Entretanto, como já conhecem de outras datas, minha empolgação com arte, filosofia e psicanálise não me deixa apenas postar as fotos dos três quadros.

Isso porque, enquanto fotografava e olhava para as telas feitas, fui pensando como não existe nenhuma ação nossa que não seja resultado de muitas outras ações, de pensamentos e vivências que tivemos. Sofremos influência de tudo e de todos ao nosso redor, desde que nosso cérebro ache "adequado" sofrer tal interferência.

Desde nossa história passada, o jeito como nossa mãe nos segurou ou afagou no colo quando crianças até o instante anterior a este, todos eles se somam ao que somos. Eu acredito que nossas escolhas (até mesmo uma simples de entrar ou não com o pai na Igreja) são resultados disso tudo e é por isso que não dá para subestimar o efeito que uma experiência ou educação maravilhosa ou traumática possa ter em nossa vida...

Bom, passando à filosofia da criação das telas e o porquê de eu ter mudado minha idéia inicial de criar para cada uma dessas três mulheres um abstrato inspirado na paisagem na Suécia, eu começo dizendo que o fato de saber quem elas eram tornou bem mais difícil a pintura do que em qualquer outros casos. O pouco ou o muito que sei de cada uma, o que imagino delas e de suas expectativas tiveram que se somar ao que eu também queria criar para cada uma, ainda tentando expressar minha liberdade de criar e meu estilo...



1a. A história de Mariahhh e de sua tela...







Sunset, Somnia Carvalho, junho 2010
24 x 30, mixed media work


Mariahhh está entre as leitoras e comentadoras com quem mais eu tenho trocado idéias filosofais. Um pouco no blog e bastante por email. Ela vive no Baixo Alentejo, em Portugal, e como eu (infelizmente eu não por muito tempo) tem o privilégio de viver perto do mar. Em nossas conversas eu soube que ela gosta de algumas telas abstratas minhas e uma das coisas pelas quais é apaixonada é ver o pôr do sol em algumas épocas possíveis do ano:


"No final do dia, com o sol a pôr-se e principalmente nesta altura do ano (Primavera),
temos um contraste de cores e luz lindíssimo.
Muitas vezes ao deparar-me com imagens dessas, dou por mim a pensar no quão feliz eu sou.
São momentos, mas são tão importantes e a nossa felicidade não é mais do que o somatório de todos esses momentos."


O sotaque escrito da Mariahh, seu jeito poeticamente português de ver a natureza, de ver tanta sensibilidade no que eu escrevo e sua vida jovial, mas carregada de tanto sentimento fez com que eu primeiro tentasse apenas criar uma pintura de um pôr do sol da frente da minha casa. Tentei, mas o resultado cheio de realismo me incomodou e me desfiz da tela.

E, então, meu desejo de criar algo que tivesse a ver com Mariahh me fez lembrar dela descrevendo estar doente deitada, lendo meus posts, ouvindo músicas que eu já havia postado e que ela também gostava... Se somou ainda ao desejo de criar algo colorido, abstrato, mas que ainda tivesse referência com aquele pôr do sol. Tinha que ser algo para uma jovem que sabe apreciar de Sivert Hoyen a heavy metal, porque gosta mesmo é de Singularidades.

(O pôr do sol em frente de casa, pelo qual me apaixonei desde que vi, verão passado, maio de 2009)


Não sei se Mariahh se gostará ou não do que criei, porque pintura é normalmente assim: a gente é ama ou odeia, mas são todas essas vivências grudadas em minha mente que se juntaram nesta tela... e cores, muitas delas, enquanto eu olhava para a foto que fiz na sacada de casa no ano passado.


2a. A história de Beth Lilás e de sua tela...







The yellow Sweden, Somnia Carvalho, junho 2010
24 x 30, mixed media work

O segundo nome tirado por Ângelo em um dos papéizinhos daquele mês de março havia sido inacreditavelmente a pessoa quem mais fez comentários neste blog, desde sua criação em 2007.

Beth Lilás, do Mãe Gaia, a Beth, a Betona, a Lilla, a Lilasona, a amiga virtual com quem adoro fazer trocadilhos de nomes e com quem também troco um pouco da vida por email, com quem sinto junto a natureza ou a vida quando leio seu blog... A amiga de muitas outras de vocês e que faz questão de deixar comentários na caixa de todos os blogs pelos quais passa...

Eu sabia desde o início que uma paisagem dos tais "amarelinhos" suecos (plantação de canola) dos quais falei muito aqui cairia bem para ela que adora subir literalmente a serra e aproveitar seus fins de semana junto da natureza. A mesma pessoa enlouquecida por flores e cores, que se deleita enquanto cuida de seu jardim.

Também descartei um pastel que havia feito para ela e acabei ficando com esta tela. Aqui criei esta paisagem do início da primavera que, apesar de ser característica em muitos países da Europa, é para mim o símbolo da Suécia onde aprendi a ser mãe e a ser a Borboleta Pequenina.

Aqui se junta massa corrida para dar volume aos azuis do céu e muitas florezinhas secas, as quais ganhei de presente de uma querida amiga, a Márcia, outra que cuida de seu jardim como cuida de suas filhas e dedica horas de seu tempo, todos os anos, a fazer um jardim todo colorido, quando a primavera chega. A Márcia colheu estas flores e me deu no dia de minha vernissagem e logo que vi as florezinhas caindo em minha mesa de jantar sequinhas eu pensei ao mesmo tempo na Lilás. Vi nas duas amigas algo em comum e nas flores algo que as une entre si e as une a mim.

Escolhi a dedo a cantora Laleh, uma iraniana-sueca, e sua música "Big city love", já que esta segunda ganhadora vive numa das maiores, mais contraditória e linda cidade do mundo, o Rio de Janeiro, cidade que ama, mas de onde também foge para além dos muros tentando sentir outro tipo de amor.










Big City Love

Along the big city walls
I walked for a while
looking for that face
I always recognise
hello hello
it’s been a while
ages ago
but your voice still feels

this it what they call
big city love
just play it by heart
‘cause I believe in true love
this is what they call big city love
play it by heart
though it’s a sad sad call

this it what they call,
big city love
‘cause I believe in true love

there’s no where to fall
along the city walls
along the city walls

...

And all the letters that you wrote
I want them all gone
I send them back to you
with a red heart on them
and in my memories I’ll try
erasing you for good
and all the hopes I had
projected on you

was looking for
was looking for
a place to hide away, to hide away
instead I lost, instead I lost the
heart I gave away,
oh we sang those songs
sang those songs
you comfort me you comfort me
and now and now
let’s call it destiny

This is what they call
big city love
play it by heart
cause I believe in true love
this is what they call
big city love
play it by heart
though its a sad sad call
This is what they call
big city love
play it by heart
because I believe in true love..

There’s no where to fall
along the city walls.
Laleh


3a. A história de Liana e de sua tela...



"Amor perfeito", Somnia Carvalho, junho 2010
20 x 60, mixed media work

Esta tela distoa das outras paisagens e talvez seja porque eu seja uma pessoa, uma tentativa ainda de artista cheia de dissonâncias.

Quando estava criando mais algumas telas para a vernissagem pensei que para a Liana tinha que ser algo daquele meu louco projeto "All we need is love". Tinha que ser porque não conheço gente mais apaixonada e cuidadosa que ela por seu romântico, lindo e amante de música brega, Thiago.

Ele quem vive cantarolando tudo quanto é tipo de música prega apaixonada brasileira e fazendo caras e bocas para sua amada.

Ela, quem tem na chamada do seu telefone a voz do marido cantando "É o amoooorrr... que mexe com a minha cabeça e com meu coraçãããooo..."

Conheci a Liana por acaso no curso de sueco e descobrimos que morávamos no mesmo bairro em Sampa, frequentávamos até a mesma padaria... Nossos filhos brincam juntos, cozinhamos, dividimos inúmeros momentos juntas... Sei de seus amores, seus sonhos, suas dores e sua inabalável crença no amor.



("Amor Perfeito", Roberto Carlos, Pacaembu, 2004)

Foi então automático que minha memória buscasse um dos nossos maiores românticos e apaixonados para me inspirar na tela... Ao som da sofridíssima "Amor perfeito", do Robertão Carlos, uma música com a qual eu também bregamente chorei na minha adolescência, eu acho que fiz e desfiz umas seis tentativas de tela.


("Casal", Pablo Picasso)


Provei dezenas de cores, jeitos diferentes de compor essa idéia sofrida que todos nós românticos sem chance temos sofre perder nosso grande amor. E brinquei com uma foto deles que eu havia tirado ano passado. Brinquei com letra do reconhecido romântico brega Michael Sullivan e com um desenho lindo do Picasso, o qual usei como colagem... Junto, bijouteria e miçanquinhas coloridas, tudo aquilo que faz parte de um sonho de garota sobre como o grande amor da nossa vida nos é essencial.

E assim cheguei nesse resultado que, ao meu ver, é um mix de porta-retrato feito cheio de amor e também uma referência às reproduções de fotos de famosos impressas em telas de Andy Warhol, mas de uma forma muito mais otimista, porque ao contrário dele, eu acho que todos nós damos material para uma bela ópera e também porque eu acho que tudo o que nós mais precisamos mesmo é de amor...


Amor perfeito




Fecho os olhos pra não ver passar o tempo, sinto falta de você
Anjo bom, amor perfeito no meu peito, sem você não sei viver

Vem, que eu conto os dias conto as horas pra te ver
Eu não consigo te esquecer
Cada minuto é muito tempo sem você, sem você

Os segundos vão passando lentamente, não tem hora pra chegar
Até quando te querendo, te amando, coração quer te encontrar

Vem, que nos seus braços esse amor é uma canção
E eu não consigo te esquecer
Cada minuto é muito tempo sem você, sem você

Eu não vou saber me acostumar sem sua mão pra me acalmar
Sem seu olhar pra me entender, sem seu carinho, amor, sem você
Vem me tirar da solidão, fazer feliz meu coração
Já não importa quem errou, o que passou, passou então vem

Vem, vem, vem

Roberto Carlos