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"Uma foto, mil lembranças": Lembranças em preto e branco, por Loide Branco

(foto de Sandri Alexandra, trabalhada em preto e branco)


Faltando só dois dias para encerrar as incrições para o nosso concurso "Uma foto, mil lembranças" eu ainda tenho aqui textos lindíssimos para publicar para vocês!

O texto de hoje é da Loide Branco, uma brasileira, estudante de Direito em Coimbra. A Loide também é blogueira e escreve bastante sobre sua experiência de estudar fora e poder conhecer outros lugares e pessoas.

Assim como outras e outros participantes a Loide trouxe aqui memórias saudosas da família. No caso, memórias de sua relação com o pai e do seu tempo de criança. Apesar de falar de saudade ela prova que nem sempre saudade é algo triste... A saudade existe na nossa vida como parte integrante dela. É prova de que vivemos algo importante e isto nos pertence através da memória. Conseguir ter saudade sem se sentir triste, acredito eu, é algo que pouca gente o sabe fazer. Na verdade, só talvez as mais sábias.

Obrigada Loide!

Lembranças em Preto e Branco


"Era novembro de 1965, tempos difíceis de repressão, de mudanças sociais no Brasil dos anos sessenta, ela havia acabado de completar 26 anos e ele já estava com 66 anos e em seus braços a pequena nenê que a poucos dias nascera, a primeira filha de seu segundo casamento a oitava dentre os filhos que tivera e que trazia uma nova esperança, um recomeço.


Ali eu, pequenina, nos braços de meu pai à 45 anos atrás não sabia que só teria a presença dele por mais 7 anos, mas o que conta o tempo? Se o que importa é a qualidade de nossas sentimentos.


Retiro a pequena foto preto e branco da caixinha do meu coração e fecho os olhos por um pequeno instante, e consigo recuar no relógio do tempo e volto a ter sete anos e a ter um pai amoroso, cuidadoso, sinto a minha mão pequenina na tua, pequenos flashes de recordação enquanto caminhávamos e como tu parecias tão alto diante de mim e também a sensação de estar contigo na velha cadeira de vime branca de balanço a qual tu embalavas-me enquanto contavas-me histórias e também a pequena marca em minha mão direita de quando tu perdestes o equilíbrio e caístes sobre mim.


Sim, sempre quando olho para esta pequena marca lembro com saudade o tempo que tivemos juntos de como fui feliz e afortunada.


É verdade, o tempo passou, já não sou mais aquela nenê mas o que importa é a doce lembrança da primeira infância e saber que não importa o tempo que passou, nem o fato de você não ter me visto crescer ou participado das grandes coisas da minha vida, porque estivestes e estarás para sempre vivo dentro do meu coração através do amor que sempre senti por ti.


Hoje aos 45 anos muitas mudanças políticas, sociais, econômicas aconteceram no nosso país, o regime militar já não existe vivemos numa democracia relativamente jovem e com certeza tu te encantarias com os dois netos que te dei e as nossas pequenas e grandes conquistas e também te surpreenderias com as descobertas dos cientistas, o avanço tecnológico mas também te indignarias com o mundo em que vivemos, com a pobreza, as guerras, a fome e a falta de amor e fé.


Ainda com a foto em minhas mãos, trago-a para junto do meu peito e volto a guardá-la no meu coração."


Loide

...

ps: a Loide não conseguiu a foto que inspirou o texto porque ela mora em Portugal e a foto está "perdida" nas coisas do Brasil. Ela me pediu para usar uma outra da internet que conseguisse nos transmitir aquela tida em mente ao escrever.

Comentários

Beth/Lilás disse…
Mais um lindo texto, cheio de ternura, lembranças afetivas e amorosas que moram dentro dela para sempre.
Parabéns a Loide e a você Borboletinha por apresentar por aqui a cada dia, pessoas tão sensíveis e talentosas com as palavras!
bjs cariocas e saudades
Que lindo texto, emocionante...me fez me lembrar do meu pai que perdi aos 15 anos..."saudade dói, mas enverniza o peito", e aí, ficam as lembranças... beijos às duas,

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