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Esqueçam tudo o que eu disse ontem: a dor e a alegria são sempre relativas!

(Gustav Klimg, "Beethovenfries: Die feindlichen Gewalten", O friso de Beethoven: as forças hostis)


Escrevo este post num quarto escuro e a única luz que tenho é a do computador à minha frente. Ali fora há barulhos e sons e bipes, mas aqui só o ir e vir da respiração e o contínuo do ventilador...

Não estou sozinha e a razão de eu estar aqui está logo atrás de mim. Dormindo.

Há 24 horas eu escrevia um post sobre minha angústia de querer me mudar logo e também sobre o quanto ainda havia por fazer até a semana acabar e eu não ver a hora que a nova vida começasse.

Até aquele momento eu ignorava totalmente o que viria acontecer e também que escreveria este outro post, tão diferente, logo após aquele. Embora algumas coisas já fossem realidade naquele momento elas tomaram uma outra direção e me levaram em uma direção e há lugares nem de longe esperados.

Ontem, ao fim do dia, eu não estava em casa empacotando coisas para a mudança, nem cozinhando para Ângelo, dando banho em Marina, esperando por Renato para discutir mais alguns detalhes faltantes da reforma, da bagunça toda que ainda precisaríamos resolver até a próxima segunda. Eu estava cruzando uma das grandes avenidas de São Paulo, Avenida Angélica, com minha carteira debaixo do braço, sozinha e parada num semáforo enquanto a certeza de que eu deveria falar disso para alguém veio certeira.

Os minutos nos quais permaneci ali esperando o sinal verde duraram quase uma vida toda. Alguns ônibus cheios de gente cruzaram para cima e para baixo. Gente apressada dentro dos carros, tudo acontecia como num vídeo avançado e eu só via em câmera lenta aquele homem grande, forte, moreno, com sua barba suja, todo maltrapilho puxando seu carrinho cheio de lixo.

Ele ia de costas, o carrinho à frente, subindo naquela louca avenida e fazia uma força descomunal a cada passo dado. Ele sofria. Eu também!, pensei. Imaginei rapidamente a dureza de sua vida, de suas perdas para estar ali levando a vida de jeito tão difícil e tive pena. Dele. De mim. Minha dor não era visível. Eu sofria tanto por dentro e ele não sabia. Ninguém sabia.

Cruzamos nossos olhares por um milésimo de segundo. O semáforo ficou verde. Atravessei e continuei até o hospital onde minha pequenina cria estava.

Sim, eu passaria minha primeira noite num hospital com um filho doente e a dor era horrível.
Racionalmente eu compreendia: o quadro não era tão terrível. Marina fora diagnosticada, depois de uma tarde inteira de exames, com infeção urinária. Necessitaria ficar sob cuidados médicos, tomar antibióticos, refazer exames e voltar segura para casa depois de alguns dias.

A verdade, porém, é que eu sofria tanto por vê-la sendo furada por agulhas a procura de veias, por apertões daqui e dali, por ver seu incômodo com a dor, sua vontade de sugar, sugar o peito da mãe em busca de consolo... Eu sofria por ver sua fragilidade e o quão frágil poderia é sempre a vida, ainda mais uma tão pequena. E então eu pensava no sofrimento do mundo todo. O mundo sofria e eu agora entendia isso.

Pensava em meu querido amigo Kenth, de quem ouvi com detalhes a história de como perdeu o movimento de suas pernas num acidente... Eu pensava: Deus! como ele, eles devem ter sofrido!
Pensava em minha mãe cuidando de mim em minhas várias internações e lamentava sozinha: nossa! como ela deve ter sofrido!

Havia sofrimentos diferentes e milhares acontecendo ao mesmo tempo. Havia pessoas superando perdas duras, de casa, de gente, de amores, de sonhos e eu nem mesmo as conhecia. Entretanto eu compartilhava de suas dores e, ao partilhar de suas dores, eu compreendia que a minha dor, por sorte, era bem pequena.

Eu não consigo direito explicar como, mas foi quase aquela sensação de despertar súbito logo quando estamos quase pegando no sono e parece que vamos cair num precipício. Era assim a maneira pela qual eu me sentia. Como se tivesse acordado.

Tão curioso eu estar tão focada no meu sofrimento e ao mesmo tempo ele me direcionar para o sofrimento dos outros.

Talvez porque agora eu entendia como era ver o mundo correr e uma ter uma dor no peito e algo que não dependia de mim para se resolver. Talvez minha impotência me desse uma outra lista de prioridades não pensadas naquela manhã e ela agora era muito clara: nada mais dito de manhã me importava. Aquilo (reforma, mudança, decoração) eu resolveria. Com certeza!

A noite foi passando... Velei o sono de Marina e acordei dezenas de vezes com ela a noite toda. Dei literalmente meu sangue, meu suor, minhas lágrimas para que ela se recuperasse. Tomei dois litros de água tentando pôr água no meu corpo e transformá-la em leite. Comi e dormi pensando em fica forte para cuidar dela quando acordasse.

Enquanto o soro pingava calmo pelo canal de plástico até a veia clarinha da minha neném eu também pensava em Ângelo em casa sem nós duas. E no pai dele. E no quanto eu queria estar lá com eles... Ao mesmo tempo sabia que, como mãe, eu deveria ser forte, estar calma, deixar o leite juntar e descer tranquilo. Como mãe eu deveria cuidar e para cuidar eu não deveria ter pena de mim. Não deveria desviar o foco. Eu não era vítima. Eu era mais uma pessoa vivendo e enfrentando as dores (não tão duras, graças a Deus!) da vida.

E foi assim que com a visível melhora física, vieram uns sorrisinhos de volta e às cinco da manhã minha dor dilacerante do peito já havia dado lugar para um contentamento tão grande enfatizado pela cantoria de Marina. Uma esperança de ir embora para casa logo, de fé em que tudo ia logo dar certo de novo e de que tudo não tinha passado de um susto maior. De mãe de segunda viagem e primeira de hospital.

Então estou aqui... Marina dorme e reclama de vez em quando. Renato deixou este meu mac book para que eu tivesse uma distração e comemos um lanche juntos. Ângelo deve já estar dormindo e eu provavelmente terei uma noite mais calma.

A mudança está meio por um fio de acontecer no prazo. Alguns pedreiros furaram e outros estão lá terminando bonitinho o combinado. Só agora começo a retomar na mente as imagens do novo apartamento, de como vou desejar cada detalhe bonito, colorido, mas só uma coisa, do fundo do meu coração, agora me importa: é voltar para minha família com Marina cheia de saúde de novo e levar nossas vidas todos cheios de saúde.

A "Casa Grande", como foi batizada por Ângelo, será sim palco de grandes encontros e de deliciosas festas, mas sinto estou um pouco mais preparada do que estava ontem porque hoje entendi como a dor e a alegria são relativas e, como tal, extremamente mutantes.


Comentários

Beth/Lilás disse…
ô meu Deus, como isso aconteceu com a neném? Assim de repente, que susto!
Eu faço uma idéia como tua cabeça não ficou por estas últimas horas. As coisas mudam de prisma de acordo com as nossas necessidades e um filho doente, sentindo dor é algo que acaba com a gente.
Mas, ela vai melhorar e vai dar tudo certo, entretanto parece-me que você é como eu, tudo que vai fazer é misturado com dor, alegria e muito esforço. Mas não desista e agora, neste momento, o foco é ela, somente ela.
Achei linda a sua atitude de mãezona, preparando-se como alimento para fortalecer sua cria.
Que Deus lhe abençoe e tire agora esta sensação de agonia que ainda deve ter no coração!
Se eu morasse em Sampa, certamente estaria junto contigo numa hora dessas.
Acho que vou ter que me mudar para aí, quem sabe?! haha
Melhoras para vocês duas!
um abraço apertado
Somnia Carvalho disse…
Eita Lilas que voce e a mais rapida e eficaz comentadora que ha por essas bandas! rs...

amiga, juro, ontem eu tava numa coisa tao triste, um aperto, um medo, mas hoje to tranquila que so... calma e serena... como disse no post refletir sempre me faz bem...

entao e ela ta bem melhorzinha e animadinha, isso ajuda! voce venha a sao paulo logo pra gente por um cafe em dia e com sotaques muito misturados! vai ser uma delicia, mas deixa eu arrumar a casa e ela ficar linda... levarei assim umas duas semanas! rs
Somnia Carvalho disse…
ah.. e eu ainda estava na tpm... bem naqueles dias tensissimos... agora, boa noite querida!
Danissima disse…
Oh, que dor!
Doeu aqui, do outro lado do oceano, na minha cama...
Anônimo disse…
Desejo à você força ... mas com tanto amor em seu peito tenho certeza da rápida melhora de sua pequenina !
Um abraço bem , bem , bem apertado na família toda . Claudia Ellero
Beth/Lilás disse…
Oi, Borboletinha!
Como está a neném Marina?
Espero que já esteja em casa debaixo das suas asas. hehe
Mande notícias tão logo possa, ok.
beijocas cariocas
Ai Borboleta, que peninha que fiquei de vc e sua Marinoca, tão pequenina e já toda furadinha de agulhas. Minha filha tb passou por coisa parecida quando era bebê, ficou internada duas noites numa clínica por causa de uma crise alérgica que fechava a laringe. Sofri tanto, que lembrei na hora em que te li. Tomara que a essa hora já esteja tudo bem e vcs já estejam todos em casa. Estou daqui, na torcida! beijos,
Mari disse…
Pois é, Sonia, eu passei minha noite em claro porque a Luisa vomitou 4 vezes. Eu bem imagino sua angustia e sofrimento. Já passei algumas noites assim com minhas crias: em um quarto de hospital. É desesperador ver nossos bebezinhos sendo picados, muitas vezes sofrendo e nos olhando sem entender direito porque nao os pegamos no colo e levamos pra casa.
Mas tudo passou para os meus assim como passou para a Marina e são nestes chacoalhoes que a gente consegue perceber o que realmente importa na vida.
bjs e boa sorte com a mudança.
Lúcia Soares disse…
Soninha, estava viajando e longe de computador, por mais de 12 dias.
Hoje me deparo com seu depoimento, tão lindo, bem escrito, sofrido.
Graças a Deus Marininha está bem e isso é que importa.
Como mãe, claro que sua angústia foi sem fim. Nunca passei por internação com meus filhos e agora nem com os netos, Deus é Pai e nos livrer!
É difícil demais não poder sofrer a dor deles, mas podemos sofrer com eles e por eles. É nosso papel.
Crianças se recuperam rapidamente e o sorriso dela, no post acima, atesta isso.
Deus a abençoe!
Beijos, amiga.
Olha, sem ciúmes (rsrrs), mas também vou pra esse chá com a Beth, viu? Nem pense em me esquecer! rsrrs

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