17 agosto 2010

Estranhamento no. 2: Minha deusa, a tevê


("Acerca do futuro 1984" 58/365, TwistedPrincess ' photostream)

Eu já havia escrito várias vezes sobre a relação quase doentia que acredito que nós brasileiros temos com a televisão, sobretudo em dois posts da série "Na Suécia também não tem... ". O primeiro deles sobre TV em consultório e hospital" e o segundo sobre câmeras no elevador". Por essa razão não imaginei que esse seria tema dos meus muitos estranhamentos na volta ao meu país.

Tenho pensado em escrever sobre o tema há vários dias, mas hoje vendo a constatação do Leo (morador de minha antiga cidade, Malmö), sobre o que ele ainda acha impressionante de ver na Suécia, eu quis muito falar a respeito desse meu estranhamento e adiantei o que deveria ser o número três na sequência dos posts.

Logo na primeira semana de retorno ao Brasil, com virose e dores abdominais, fui parar num hospital lá pelas cinco da matina. Para ser simpática (e porque um hospital particular tem desses luxos "necessários" à recuperação de um doente, a recepcionista nos mostrou onde sentar e esperar o médico e ligou o aparelho televisivo, meio colado ao teto. Ela e uma amiga pararam em frente para ouvir a notícia,dada em alto volume: um homem havia matado o filho da ex-amante, um menininho de uns dois ou três anos, e atirado nas vizinhas dela, porque não se conformava com a separação.

Tendo ouvido, voltaram-se para o trabalho e continuaram suas vidas. Nada havia mudado. Nem lá, nem cá. Explorar a violência parece dar até ibope, mas não transforma a realidade, apesar das emissoras e de muitos de nós afirmarmos o contrário.

Depois disso, frequentei algumas padarias deliciosas do meu bairro. A que mais gosto comprou dois televisores a mais desde o último verão. Ambas gigantes, tecnologia LCD, e as colocou assim, no meio das mesas, para que os clientes possam almoçar e ir se informando sobre tudo que acontece. A padoca caiu no meu conceito, mas não no de muitos que por ali passam.

E então eu via o pessoal, classe média, no horário do seu almoço, devorando a comida, com olhos arregalados no televisor. Se sozinho, a tevê era companhia. Se acompanhado, todos podiam partilhar da mesma notícia e soltar alguns comentários senso-comum, superficiais sobre o assunto e passar à sobremesa.

O detalhe ficava por conta do canal escolhido: outro de notícias bizarras e exploração da violência. Esse estilo mais nojento Datena de ser da vida. Ou é isso ou então algum programa onde pessoas estão trancadas, quase peladas e se esfregando num local fechado... Ou o contrário total para dizer que todos estão perdidos, menos você que está conectado naquele outro programa religioso ou naquele futebolzinho que distrai dos problemas diários.

E assim tem sido: no salão fazendo manicure e pedicure eu posso ver umas duas grandes tevês ligadas. E também na concessionária de carros, no açougue, no restaurante do shopping, no barzinho descolado da vila, na casa de todos por onde passo.

Ligada em volume bem alto ela está lá. Colorida e poderosa. Ditadora. E ela não perde para nada e ninguém, porque outro mundo, outra vida que não passe por ela com certeza nem mesmo existe. Existe? Não... só se por acaso se tratasse de gente biruta, desconectada e desantenada do mundo... gente que com certeza não entende o importantíssimo papel que nossa Deusa tem.

Ou então ETs de um país gelado, sem graça e distante... onde o povo ao invés de preferir imagens prefere as letras... no trem, no ônibus, na sala de espera do médico, no restaurante, em casa...

Gente estranha, com gostos e hábitos esquisitos...


14 comentários:

Luciana Håland disse...

Somnia, que é isso?!!! Agora o povo não vai mais ter vida mesmo, vai ser tv e internet o dia todo e assim a vida passa e ninguém ver, não a vida própria, mas a dos outros. Quando eu morava no Brasil lembro de TV na academia e nos consultórios, pelo seu post estou vendo que o número de tvs e de lugares onde elas concretizaram a invasão aumentou. Gente esquisita mesmo.

Beijo

Camila Hareide disse...

Sonildes, quanto à TV, acho que no momento o jeito é ignorar. Ao menos em SP, uma explicação seria manter as pessoas "ocupadas" com a Deusa porque pensar na vida é difícil e dá trabalho? Ler, num consultório, só se for revista de fofoca e a Reinaldo AzeVeja, ou qualquer outra mídia manipuladora e golpista tipo a que existe no Brasil. Já pensou entrar num consultório chique na Vila N. Conceição e achar uma Carta capital? Infelizmente não rola, não... Livros, o pessoal tem preguiça... O jeito, molé, é continuar carregando teus livros a tiracolo, ou aprender a tricotar, por exemplo, rsrsrs...

Aqui a matéria do Parque da Água Branca, um pecado esse governo estadual - e parece que SP terá mais 4 anos de PSDB, infelizmente. Lembrando que o parque foi tomabado pelo Condephaat... Muito triste...

http://colunistas.ig.com.br/ricardokotscho/2010/07/26/parque-da-agua-branca-ameacado-depois-dos-bichos-as-arvores/

beijaço!

Beth/Lilás disse...

Sua constatação pós-europa é a que já venho sentindo faz tempo neste país. Só que ultimamente me atennho de comentar porque vão dizer que tô velha, tô querendo falar mal de algum político (e eu odeio todos, não gosto de nenhum), tô falando mal do meu país e isso é errado, não devemos apontar assim abertamente para que outras pessoas de outros países vejam nossas mazelas.
Mas é verdade!
Estamos sob a dominação da Deusa e de mídias manipuladoras e o povo parece que gosta, mas está mesmo é anestesiado, adora ver sangue, notícia dantesca, mães chorando o filho perdido, como a audiência que vem lotando a peça da atriz Cissa Guimarães no RJ, talvez para ver se ela está sorrindo ainda ou vai chorar a qualquer momento.
O povo gosta disso, infelizmente.
No meu bairro, toda e qualquer birosca, barzinho fashion, padaria, supermercado, consultórios médicos e até nas barcas tem Tv de plasma, grandes e que faz o povo ficar olhando com aquele olhar bovino.
Que tal formar um Clube de Leitura?
Tenho um que frequento de 15 em 15 dias com 5 amigas e é uma delícia, faz com que eu tenha sempre um livro em minha bolsa para as esperas nestes consultórios chatinhos.
E, Sonildes querida, vi também este crescimento de Tvs ligadas em estabelecimentos públicos em Portugal, influência nossa, talvez, para enfiarem goela abaixo dos portugas as novelinhas brasucas.
Um nojo isso tudo! blergh

beijos cariocas

Beth/Lilás disse...

Caso tenha muitos erros de concordância nas minhas frases, não repare, pois tenho mania de não corrigir os comentários que faço.
Gosto de escrever como me vem na cabeça e enviar.
Desculpa aê!

bjs

Gabixi disse...

Mto triste isso mesmo, quando eu e meu namorado saimos para jantar (e ate com nossa familia) nunca sentamos perto da televisao e ficamos sempre olhando as pessoas, casais, pais e filhos, diria que 70% das pessoas (mesmo sem televisao por perto) nao conversam! E quando a televisao esta por perto, sentam na mesa de maneira a nao ficar de costa par a televisao.. afff Que coisa triste ne´?

Ivana disse...

Somnia, neste momento especial que vivo, em que tenho a felicidade - e o privilégio - de poder ir decorando minha casinha aos poucos, tenho pesquisado muito os sites suecos sobre decoração, já que eu adoro casa com cara de casa mesmo, daquele tipo que tem a história do dono, a cara de quem lá habita. Mas o que quero te dizer é que eu já havia reparado que, em muitos sites com fotos, não há tv nas casas ou, se há, elas não parecem ocupar um lugar de destaque. Muitas vezes, já vi salas com tvs bem pequenas, colocadas em um canto que diz muito que ela (a tv) não deve ser muito usada. Bem diferente da gente aqui. A tv tem que ser grande, de preferencia LCD, colada na parede, se possível, quase como em um altar.
Não me isento de culpa, porque sendo brasuca, também tenho esta ligação com a Deusa, mas juro que me policio para ter um olhar mais crítico e principalmente para cultivar o gosto pela leitura.
Li este seu post para meu marido (que acho que tem alma sueca neste quesito tv) e ele adorou!
Beijos!

Leonardo disse...

Um contra-exemplo foi o que fizeram recententemente aqui na Dinamarca. Instalaram em cada vagão dos S-Tog (trens) duas TVs e os vagões silenciosos que havia no meio foram transferidos para a ponta. Tenho certeza que foi para faturar mais porque as TVs mostram mais propagandas que conteúdo, e as empresas não devem pagar pouco para anunciar ali. Achei uma m... porque agora ficou mais difícil cochilar ou concentrar-se na leitura porque aquele troço fica fazendo barulhos, especialmente na hora dos comerciais onde o volume fica maior, naturalmente.

Anônimo disse...

Entao pessoar, so para comentar rapido o que voces vem dizendo, depois respondo com mais calma...

cheguei agora de um exame de curva glicemica, o coisa horrivel! porque to refazendo exames que havia feito na suecia...

entao, na saleta minuscula horrorosa do laboratorio particular tinha eu e mais 5 pessoas, sentadas todas colocadas direcionadamente para uma televisao pequenininha, mas barulhenta que so! o som tava taoooo alto que parecia que eu tinha ido para festejar algo nao para fazer exame, de jejum e ainda ficar 3 horas ali trancada sem poder sair...

entao eu dei so uns exemplinhos, mas tem tv para tudo quanto e lado messsssmo... e para mim tem sido quase sufocante!

minha reacao foi pedir: pelo amor de deus abaixem o som dessa televisao....

Françoise disse...

Oi amiga,

Saudades, muita saudades de você!!!! Fui viajar e vi que perdi muita coisa.
Volto para te ler com calma.
Abraço bem apertado em todos vocês!

novavidanovelhomundo disse...

Sabe que eu não consigo mais ver uma TV num consultório/salão/... sem lembrar de ti, né? rsrs Lembro sempre daquele primeiro post, que me chamou a atencão pra essa diferenca.
Mas não, não vou me render a essa deusa brasileira, continuo com o meu livro pocket embaixo do braco onde quer que eu vá!!! rsrs Depois que se aprende o que é bom, não se troca mais assim facinho, não...

http://graceolsson.com/blog disse...

Olha, quando eu vou ao Brazil, fico muito desesperaDA DE TANTO VER NA TV DESGRACAS, TRAGÉDIAS E, por icnrivel que paca, na segunda semana ai, eu fico rezando para pegar o aviao de volta.

Olha, depois que se vive noe xterior, a adaptacao demora e muito...

http://graceolsson.com/blog disse...

incrivel que pareca

Lúcia Soares disse...

Soninha brasileira, que bom ler você!
Também acho um exagero TV ligada em todo lugar que se vai. Meu açougue perto de casa tinha uma!
Depois que o rapaz se casou, acho que a mulher dele levou-a pra casa, ou pra que raio de lugar for, mas ela sumiu do açougue.
Não entendo coisas desse nosso país, onde há tanta pobreza, tanto contraste, uma ostentação inesgotável.
Tenho amiga que tem TV em todos os cõmodos da casa, menos nos banheiros e na cozinha. No resto, em tudo: cada quarto, sala de estar, sala de visita, sala de refeições.
Ficam ligads, ela precisa ouvir o som, enquanto trabalha pela casa...
O brasileiro gosta muito de TV por falta de $$$ e falta de programas culturais, divertimento fora de casa, etc.
Gosto muito,mas quando viajei por 17 dias, mesmos nos quartos de hotéis não ligávamos a TV. Acho que o hábito já se instalou tanto, que assistimos sem sentir.
Marina, Ângelo, marido, você, mamis, irmãos, sobrinhos, tudo na paz?
beijos!

Beth/Lilás disse...

Soninha querida!
Como estás?
Será que nossa garotinha Marina já está no planetinha?
Morrendo de saudades e curiosidade, apareça, please!
beijos mil