Pular para o conteúdo principal

Estranhamento n. 1: a minha, a sua, a nossa língua portuguesa

("Rasgado", Catherine G McElroy)

O primeiro dos muitos estranhamentos sentidos por mim, neste meu retorno ao Brasil, depois de quase 4 anos na Suécia, deu-se ainda no Heathrow, maior aeroporto em Londres, onde fazíamos conexão.

Na Escandinávia vivem e passam muitos brasileiros, como em todo canto do mundo, mas quase nada se compararmos com as mais famosas capitais mundiais. Quando você chega lá, você nota facilmente isso, o que talvez lhe deixe triste por não conseguir decifrar nadica de nada do que se fala nas ruas, nos shopping center, nos bares e restaurantes. Mesmo no aeroporto em Copenhaguem, de onde se faz conexão do sul da Suécia para cá, por exemplo, é muito raro ouvir português e na Suécia eu poderia contar as vezes em que encontrei brasileiros falando pela rua.

A Escandinávia não é, sem sombra de dúvida, o destino de turismo escolhido pela maior parte dos brasileiros.

Foi por conta disso minha primeira sensação muito esquisita no imenso aeroporto inglês: comecei a reconhecer e entender 100% o que algumas centenas de pessoas falavam por ali... Eu também entendia o inglês de outros, mas toda aquela gente ali comigo falava a mesma língua que eu. E não havia nenhuma palavrazinha que eu precisasse decodificar.

"Ali tem uma loja de roupas linda!", falavam duas moças entre si.

"Cadê meu passaporte, foi você quem disse que iria pegar?", "Não fui eu não! Eu vi você guardando no bolsinho da mala!", respondia a mulher a seu marido nervoso.

"Mãe pára! Por que você faz sempre isso comigo?!", dizia uma jovem meio revoltada à sua mãe.

"Oi, filha?, estamos no aeroporto e estou trazendo sua encomenda... O Edu já chegou?"

E falavam e brigavam. E discutiam coisas pessoais. Em alto volume, claro.

Foi então quando eu, brasilianamente, tentei cochichar com Renato que estava ficando cansada de entender tudo o que todo mundo dizia em voz tão alta que percebi que eles também podiam me entender perfeitamente.

Eu sabia conscientemente que era parte do grupo que ali estava. Eu era brasileira como todos, falando com a mesma naturalidade com a qual respiro e ao invés de ter uma sensação confortante e gostosa senti um enorme estranhamento, como se eu fosse um bicho estranho no ninho...

Estranho perceber que a língua que eu desejei ardentemente ouvir quando havia chegado na Suécia, a qual eu amava e havia por anos ensinado outros a amar era tão esquisitamente assimilada por mim.

E ouvindo os comentários grudentos de uma mãe ao telefone com a filha, controlando de Londres o que ela faria naquela noite eu pensei horrorosa e preconceituosa comigo mesma sem poder expressar o que sentia: era melhor quando eu podia não entender bulhufas e ninguém podia entender o que eu dizia!

Estranho e ruim esse despertencimento. Talvez minha raiva contido fosse só a frustração que assola todos os expatriados em sua volta à terra mãe: nem mesmo minha língua portuguesa conseguia dar conta do sentimento de não ser sueca e não ser brasileira.

E eu sabia que começar a reconstruir minha identidade perdida não seria nada, nada simples. E eu precisaria muito mais do que a língua para me sentir unida ao Brasil de novo.


Comentários

Oi minha querida!

Que bom que chegou bem! Imagino a correria para reorganizar tudo e pensar na Marina que deve tá chegando também!!
Desejo felicidades e boa sorte neste novo começo, é tudo novo de novo, não é mesmo?

beijos no coração e nos filhotes!
Lúcia Soares disse…
Sônia, imagino que não deva ser fácil mesmo. Quando se volta depois de amar o lugar onde se estava. Se fosse o contrário, seria alívio por estar no Brasil. Mas como ama a Suécia com muito amor, a volta será decepcionante no começo.
Em que pese as alegrias de se estar na pátria amada, há toda uma perda do que ficou pra trás.
Acho que a melhor maneira de se adaptar é não fazer comparações. Viver aqui perderá de muito para o viver lá.
Pense apenas nos benefícios de estar aqui.
Mas, não sei porque, não imagino vocês por muito tempo no Brasil.
Acho que a Europa conquistou vocês para sempre.
Beijos!
Camila Hareide disse…
Sonildes, dá um desconto bem grande. Explico porque... Nessas situações (viagem, aeroporto, férias, etc) as pessoas tendem a mostrar o pior de si. Palavra de quem enfrentou os monstros de 4000 passageiros a bordo POR SEMANA, por mais de 9 anos...

Se isso te acontecer também no xópicentis em São Paulo, por exemplo, aí dá um desespero maior... Além do que, na Suécia, assim como aqui no vizinho, as pessoas não tem o hábito de falar alto (e às vezes de propósito, pra que o resto escute mesmo, ê, mania de povos latinos....) em locais públicos. Então o estranhamento faz parte, mesmo. Não se condene por isso, viva-o. Um dia vc vai notar que, puf, ele se foi...

Muitos beijos e força na peruca, que tudo se ajeita!
Iara disse…
Depois de 1 ano na França, meu primeiro estranhamento foi em Cumbica mesmo: ver o português na televisão. Eu andava com muitos brasileiros, mas o português era uma língua privada, não pública. Casou o mesmo desconforto pra mim voltar a ter nossa língua como a corrente para todas as comunicações. Apesar de nem de longe imaginar todas as adaptações que envolvem depois de ficar mais tempo fora, e em família, essa da língua me é bem familiar.
Beatriz disse…
Oi Somnia,
Gostei muito depassar por aqui! Seu relato do aeroporto é fantástico! Vou voltar mais vezes.
Bjs,
Bia
www.biaviagemambiental.blogspot.com
Ivana disse…
Sômnia, imagino que não deva ser nada fácil mesmo... E olhar para nós mesmos, como brasileiros, depois de muito tempo fora, é, no mínimo, um processo interessante. Mas, a um passo de cada vez, tudo estará em seu devido lugar.
Um beijo!
Anônimo disse…
Obrigada por colocar em palavras muitos dos choques que tive/estou tendo, tanto nesse post como naquele do "americanizada"! rsrs É incrível como as sensacões são parecidas, e eu que me sentia tão única nesse mundo de "voltar às orgiens"! rs
Beijão e aproveitem o final de semana!
Beth/Lilás disse…
Soninha querida!
Chiiiiii, pior é que eu senti isso aí no aeroporto, justamente este Heathrow, no ano passado e olha que fiquei apenas 15 dias fora daqui!
Sei lá, brasileiro quando viaja pra fora e em grupo fica mais mal educado ainda, falam alto e pensam que ninguém os está entendendo. Eu e marido ficávamos olhando um pro outro com cara de decepcionados na constatação do que somos. É frustrante mesmo, mas não tem jeito! E comjo disse a Lúcia aí em cima, é melhor somente pensar nos benefícios que serão para vocês por este momento atual.
Saudades docê, danada!
um beijo grande carioca e bom fim de semana!
Silvia disse…
Oi Sonia, eu voltei de Estocolmo na sexta feira depois de passar um mes por la... vim por Milao e senti o mesmo rs. Tinha uma brasileira que falava altissimo aos quatro ventos que ela estava voltando para o Brasil e nunca mais queria colocar os pes na Italia pq estava se separando... fiquei triste com a cena. Por sorte era a Italia... e os italianos gostam de se expressar tb rs.
Bjs e novamente boa sorte para vc, muita energia pra ti.

Postagens mais visitadas deste blog

"Ja, må hon leva!" Sim! Ela pode viver!

(Versão popular do parabéns a você sueco em festinha infantil tipicamente sueca) Molerada! Vocês quase não comentam, mas quando o fazem é para deixar recados chiquérrimos e inteligentes como esses aí do último post! Demais! Adorei as reflexões, saber como cada uma vive diferente suas diferentes fases! Responderei com o devido cuidado mais tarde... Tô podre e preciso ir para a cama porque Marinacota tomou vacina ontem e não dormiu nada a noite. Por ora queria deixar essa canção pela qual sou louca, uma versão do "Vie gratuliere", o parabéns a você sueco. Essa versão é bem mais popular (eu adorava cantá-la em nossas comemorações lá!) e a recebi pelo facebook de minha querida e adorável amiga Jéssica quem vive lá em Malmoeee city, minha antiga morada. Como boa canção popular sueca, esta também tem bebida no meio, porque se tem duas coisas as quais os suecos amam mais que bebida são: 1. fazer versão de música e 2. fazer versão de música colocando uma letra sobre bebida nel

Mãe qué é mãe mesmo...

(Picasso, Mãe e criança, 1921) Mãe qué é mãe mesmo... Já deu uma de cientista e foi até o quarto do bebê só para checar se ele respirava. Já despencou de sono em cima dele, feito uma galinha morta, enquanto amamentava. Já caminhou pela casa na ponta dos pés, como uma bailarina, só para não acordar o pimpolho. Mãe qué é mãe mesmo... Já perdeu a conta das mamadas e esqueceu qual o peito deveria dar. Já deu oi pro lindo rapaz que dormia ao seu lado e dormiu antes de continuar a conversa. Já adquiriu habilidades múltiplas como comer com uma mão só e fazer xixi com o bebê no colo. Mãe qué é mãe mesmo... Ama e odeia, ama e odeia. Às vezes chora e muitas vezes sorri. É ao mesmo tempo carrasca e heroína. Mãe... é uma garota crescida com uma boneca de verdade nos braços. Precisa de atenção e carinho tanto quanto seu brinquedo.

O que você vê nesta obra? "Língua com padrão suntuoso", de Adriana Varejão

("Língua com padrão suntuoso", Adriana Varejão, óleo sobre tela e alumínio, 200 x 170 x 57cm) Antes de começar este post só quero lhe pedir que não faça as buscas nos links apresentados, sobre a artista e sua obra, antes de concluir esta leitura e observar atentamente a obra. Combinado? ... Consegui, hoje, uma manhã cultural só para mim e fui visitar a 30a. Bienal de Arte de São Paulo , que estará aberta ao público até 09 de dezembro e tem entrada gratuita. Já preparei um post para falar sobre minhas impressões sobre a Bienal que, aos meus olhos, é "Poesia do cotidiano" e o publicarei na próxima semana. De quebra, passei pelo MAM (Museu de Arte Moderna), o qual fica ao lado do prédio da Bienal e da OCA (projetados por Oscar Niemeyer), passeio que apenas pela arquitetura já vale demais a pena - e tive mais uma daquelas experiências dificilmente explicáveis. Há algum tempo eu esperava para ver uma obra de Adriana Varejão ao vivo e nem imaginava que