30 setembro 2007

Inativo por tempo determinado



Eu creio que nos próximos dias eu não terei muito tempo para escrever aqui.
Estarei tentando abraçar demoradamente minha família queridíssima e alguns amigos com quem eu cruzar.
Estarei defendendo uma tese que, na verdade, defendi por quatro anos e meio.
Estarei tentando comer meu pãozinho francês com queijo quente na padaria da esquina,
Estarei tentando matar a saudade...
na mesma plataforma onde o encontro se tornará outro momento de despedida,
como já sabia o Milton Nascimento...



ENCONTROS E DESPEDIDAS

(Milton Nascimento/Fernando Brant)


"Mande notícias do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço, venha me apertar
Tô chegando
Coisa que gosto é poder partir
Sem ter plano
Melhor ainda é poder voltar
Quando quero

Todos os dias é um vai e vem
A vida se repete na estação
Tem gente chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar

E assim
Chegar e partir
São só dois lados da mesma viagem
O trem que chega é o mesmo trem
Da partida
A hora do encontro é também
Despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida"

Até daqui algumas semanas... Hasta la vista baby!

27 setembro 2007

"De todo un poco"


(Somnia Carvalho, "Que medo!")

Sempre ouvi dizer que amigos mesmo a gente sempre têm poucos para contar, mas nunca acreditei muito nisso.
Tive e tenho a sorte, a grande alegria de perder a conta dos amigos queridos, fiéis, sinceros e companheiros que coleciono até hoje...

Muitos amigos, muitos e bons amigos.

Voltar ao Brasil tem esse gostinho também... de saborear "de todo un poco" na amizade.


"AMIGOS"

(Oscar Wilde)

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer,
mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim. Para isso, só sendo louco.
Quero-os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta.
Não quero só o ombro ou o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice.
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos,
bobos e sérios,
crianças e velhos,
nunca me esquecerei de que "normalidade"
é uma ilusão imbecil e estéril.



(Cris Misteriosa, Faditas Maluquérrima e Responsável, Lu Louca e Mística, Virso Só-Risos, alguns dos muitos queridos amigos dos quais eu não tenho foto aqui pra por)

26 setembro 2007

Você é uma pessoa suficientemente boa?


("Os girassóis" de Vincent Van Gogh, pintor suficientemente bom e talentoso, mas que vendeu um único quadro em vida))


Você é uma pessoa suficientemente boa?
suficientemente forte?
suficientemente organizada,
suficientemente amorosa???

Você é uma pessoa suficientemente clara?
suficientemente objetiva?
suficientemente esclarecida,
suficientemente dedicada???

Você é uma pessoa suficientemente competente?
suficientemente informada?
suficientemente "pra frente"?
suficientemente amada???

Se sua resposta for SIM a todas essas questões você deve ser uma pessoa suficientemente santa, portanto,
suficientemente morta para que tenha se transformado na pessoa mais maravilhosa do mundo. Ou então, "ai que medo de você!"... Você deve ser uma pessoa suficientemente megalomaníaca porque acredita ser capaz de reunir todas estas dificílimas e exigentes qualidades em você mesma. A dica seria deixar de admirar o próprio reflexo narcisístico, olhar e aproveitar as qualidades de quem está ao seu redor.

Se sua resposta for NÃO a todas essas questões, não fique magoada nem chore não, mas você tem grandes chances de ser uma pessoa suficientemente paranóica, com mania de perseguição ou cheia de piedade por si mesma. Precisa urgentemente fazer uma auto-avaliação, procurar um bom terapeuta, se olhar no espelho com calma e dizer: "Eu te amo", porque julga ser incapaz de possuir boas e suficientes qualidades para continuar sendo uma pessoa suficiente.

Se sua resposta for SIM a algumas questões e NÃO a outras, parabéns! Você é uma pessoa suficientemente normal.
Pode conseguir ter uma vida suficientemente tranquila.
suficientemente alegre,
suficientemente triste,
suficientemente razoável e por isso
suficientemente saudável.

Se você optou pela alternativa C de Chico Buarque (sábio compositor que percebeu que não podia ser suficientemente feliz e lindo o tempo todo, como a Primavera) você pode pôr bem alto esta canção e tantas outras e dançar ao som da vida, porque entendeu que como a natureza nós temos em nós quatro estações.


Chico Buarque (De que callada manera)
Pablo Milanés/Nicolas Guillén/Chico Buarque

De que calada maneira
Você chega assim sorrindo
Como se fosse a primavera
Eu morrendo
E de que modo sutil
Me derramou na camisa
Todas as flores de abril

Que lhe disse que eu era
Riso sempre e nunca pranto
Como se fosse a primavera
Não sou tanto
No entanto, que espiritual
Você me dar uma rosa
Do seu rosal principal


(Ouça esta música em: http://cliquemusic.uol.com.br/artistas/artistas.asp?Status=DISCO&Nu_Disco=4728)

25 setembro 2007

Navegar e viver



Na próxima semana eu e o meu Ângelo vamos embarcar para o Brasil e talvez por isso eu tenho pensado muito no poema do Fernando Pessoa...

"Navegar é preciso; viver não é preciso".

Esta frase, que não é dele mas é citada por ele no famoso poema que coloco abaixo, fala da precisão que os navegadores daquela época julgavam ter com o advento de novas técnicas de navegação e com os conhecimentos que eles tinham sobre o assunto. Provavelmente porque os bebês ficavam em casa com as esposas...

Eu agora tenho uma "precisão" de viajar e garantir minha defesa de tese. Preciso ir neste momento por conta de prazos, porque além de navegar agora ser preciso, viver também o é. Apesar disso, eu nâo devo me esquecer de que se viver nâo é preciso, navegar pode ser totalmente impreciso quando se leva na bagagem um Angelinho de 2 meses e meio. Imprecisa como é uma defesa de tese. Impreciso como quase tudo na vida... Impreciso, assustador e apaixonante como a vida, o Ângelo e as viagens...


(O treinamento já começou aqui em Malmö... Pappis Re e Angelito tomando trem para Helsingborg)


(Angelito deslumbrado com tudo dentro de seu saco preferido... o mesmo que o levará para o Brasil...)

Navegar é Preciso
(Fernando Pessoa)

"Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso".

Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:

Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo
e a (minha alma) a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.

Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça."


(Vista do alto de Castelo em Hensingborg, Suécia, de onde se vê outro castelo - que não é o prédio que vocês vêem ao fundo - de Helsinborg, na Dinamarca... )

21 setembro 2007

Salve! o mico leão dourado...


(Lúcia Cleide, Cremildes, Angelinho e Bangalau, na Fazenda da tia Inga-lil, no dia de checar o peso)


Salve! o mico leão dourado
Salve! o oratório e
Salve o Angelinho Olho D´Ameixa também.


SAIBA

(Adriana Calcanhoto)

Saiba: todo mundo foi neném
Einstein, Freud e Platão também
Hitler, Bush e Saddam Hussein
Quem tem grana e quem não tem


Saiba: todo mundo teve infância
Maomé já foi criança
Arquimedes, Buda, Galileu
e também você e eu


Saiba: todo mundo teve medo
Mesmo que seja segredo
Nietzsche e Simone de Beauvoir
Fernandinho Beira-Mar


Saiba: todo mundo vai morrer
Presidente, general ou rei
Anglo-saxão ou muçulmano
Todo e qualquer ser humano

Saiba: todo mundo teve pai
Quem já foi e quem ainda vai
Lao-Tsé, Moisés, Ramsés, Pelé
Gandhi, Mike Tyson, Salomé

Saiba: todo mundo teve mãe
Índios, africanos e alemães
Nero, Che Guevara, Pinochet
e também eu e você.



(Esta música, que o Ângelo já gosta de ouvir, faz parte do lindo albúm "Partimpim" de Adriana Calcanhoto. Toda vez que a ouço fico imaginando um dia ele me perguntando: "quem é Nero? quem é Galileu? e eu explicannndo...)


20 setembro 2007

No dia do seu aniversário


(Lago do Jardim de Versailles, verão de 2006)

NO DIA DO SEU ANIVERSÁRIO...
eu sempre tenho uma desculpa perfeita
para parar um pouco
para pensar um pouco
para rever meu filminho particular que gravo há 11 anos em minha cabeça...

No dia do seu aniversário
eu posso te mandar uma carta de amor
e não ter medo de ser "ridícula"
E dizer o quanto você é especial.
Não porque me faz o jantar quase todas as noites ou me traz café na cama quando estou doente.
Não porque me traz lembranças carinhosas de viagem ou sempre me telefona dizendo "cheguei" quando está longe.
Não porque me dá um beijo antes de dormir ou porque me traz flores no dia do aniversário de casamento.

Não...

Você é especial não porque faz eu me sentir especial
mas porque você não conseguiria ser diferente.
Você é especial porque só se revela aos poucos.
Porque não entrega seu sorriso e suas brincadeiras a qualquer um.
Porque sabe ser sério e responsável quando necessário,
mas sabe fazer mil caretas engraçadas,
mudar a voz para falar com seu Angelinho,
esfregar os dedos dos pés para irritar sua irmã,
teimar sobre os ingredientes de um prato que sua mãe sabe fazer,
fazer caretas quando tento tirar fotos de viagem

Você é genuíno.
Tem um humor único.
Uma alegria sábia.

É alguém de quem é muito bom ser amigo, porque é fiel.
De quem é delicioso ser namorada e esposa, porque é companheiro do dia-a-dia.
De quem é bom ser pai e mãe, porque dá tranquilidade.
De quem é bom ser genro, porque faz feliz a filha.
De quem já é bom ser filho, porque não mede sorrisos.

Você é isso, Renato, e muito mais.

E por tudo isso eu te admiro.
E por tudo isso quero te dizer
Que desejo que a vida seja serena com você
assim como você é sereno com a vida e com quem está com você.

Feliz Aniversário.


(Renato em horário que "dobram os sinos", Bruges, Bélgica, 2006)


.........................

ALGUNS OUTROS POEMAS, QUE EU GOSTARIA DE TER FEITO PARA VOCÊ...


(Somia Carvalho, Beijo em Versailles, coleção: Adriana Cechetti)

O AMOR É UMA COMPANHIA
(Fermando Pessoa, como Alberto Caieiro)

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.


CASAMENTO
(Adélia Prado)

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.


(Rê com Ângelo no dia de aniversariozinho de 2 meses, 16 setembro 2007)

Parabéns ao visitante 3.000!


Se você for o visitante 3 mil de hoje, parabéns!
Imprima esta página e guarde. Caso a sorte bata a sua porta, apresenta a ela o papel e diga que você tem direito a três vezes daquilo que ela te oferecer. Cruze os dedinhos e boa sorte!

17 setembro 2007

Acostumar-se ou não: eis a questão.


(Vista aérea de São Paulo)

Você conhece o poema abaixo?
Eu sempre gostei dele e, embora alguns digam que o autor seja desconhecido, foi com ele que a poeta e artista Marina Colasanti ganhou o Prêmio Jabuti. Eu também sempre achei que ele tinha tudo da mais pura verdade...
Esses dias, entretanto, andei me lembrando dele e pensando um pouco diferente sobre a primeira frase: Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.".

Trago abaixo o poema para que eu possa me explicar melhor.. Aí vai:


(Castelo de Kalmar, Sul da Suécia, maio de 2007)

"EU SEI, MAS NÃO DEVIA" (Marina Colasanti)

"Eu sei que a gente se acostuma.

Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.

Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida.

Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma."


(Daníssima, eu e Gi, três retirantes que se acostumaram e continuam se acostumando às delícias e às dores de viver fora do Brasil, Alpes Suícos, março de 2007)


EU SEI, MAS EU GOSTO DE SABER...

Ao mesmo tempo em que eu tenho me lembrado deste poema, eu lembro de uma música, em espanhol, cantada pelo Caetano Veloso... "Tu me acostumbraste"... lalala...

Tú me acostumbraste
(Frank Domingues)

Tú me acostumbraste a todas esas cosas
Y tú me enseñaste que son maravillosas
Sútil llegaste a mí como una tentación
Llenando de ansiedad mi corazón
Yo no comprendía cómo se quería
En tu mundo raro y por ti aprendí.
Por eso me pregunto al ver que me olvidaste
Por qué no me enseñaste cómo se vive sin ti?
Por eso me pregunto al ver que me olvidaste
Por qué no me enseñaste cómo se vive sin ti?
Por qué no me enseñaste cómo se vive sin ti?
Por qué no me enseñaste cómo se vive sin ti?

E nesta música gostosa de se ouvir o autor fala de coisas muito boas as quais nos acostumamos, como todas as sensações gostosas envolvidas numa paixão, e de como é difícil viver sem elas depois disso.


(Eu, me acostumando à neve e ao frio, Centro de Malmö, Suécia, inverno de 2007)

E eu tenho feito o meu próprio poema na minha cabeça...


EU SEI E SEI QUE É PRECISO...

Eu sei que a gente quase não quer se acostumar,

Mas devia.

Às vezes é preciso sim se acostumar a acordar cedo para trabalhar ou
a experimentar novo emprego, novos pratos, novo clima, nova terra, nova gente.
É preciso se acostumar a ter saudade,
quando é impossível ter perto aqueles que amamos.
É preciso se acostumar com a ausência de gente e de coisas que passaram,
É preciso entender que a vida é breve e que tudo muda.
É preciso se acostumar a confiar em novas pessoas e
descobrir nelas o prazer de novas amizades.
É preciso conseguir esquecer um grande amor,
quando este amor se torna inviável.
É preciso se acostumar a tomar banho, a sentir frio e dor quando antes só se conhecia o ventre da própria mãe...
Às vezes é preciso se acostumar a se acostumar com coisas que simplesmente são parte da vida,
porque a vida, já dizia o amigo Freud, é mais do que só prazer, é também realidade.
É preciso se acostumar e se adaptar sempre, porque é assim que pôde caminhar a humanidade.


(Ângelo, boneco irritadinho da Estrela, que já se acostumou a confiar no pai e a nadar em outras águas que não minha barriga)

11 setembro 2007

"Aparências, nada mais..."



Lembra daquele cantor brega que vivia no Silvio Santos? o Márcio Greyck?
Quer dizer, eu acho que ele vivia indo no Silvio Santos... não tenho certeza. Me desculpem, eu tenho mania de inventar memórias... Além de confundir nomes (como fiz no post sobre o Proust em que eu o chamei de Michael e não de Marcel, o que foi bem lembrado pela amiga Janete) eu invento coisa que não aconteceu e acho que me lembro delas.

Claro que isso é coisa de gente maluca, mas como de "médico e louco todo mundo tem um pouco", acho que vocês não vão se importar se eu der algumas destas gafes intelectuais de vez em quando.

Lembrei do famoso cantor ao escrever este post e por isso dei este título que está aí, mas este texto não tem nada a ver com o Márcio Greyk e sim com um filme em que a aparência não conta.

Já há algumas semanas quero falar sobre ele, mas não conseguia e acabei pensando nisso novamente.

A temperatura aqui em Malmö está caindo e o dia se tornando cada vez mais curto e escuro. O clima está mais e mais propício a estar em casa, com um abajur aceso, um café ou um chá na mesa, uma boa música tocando e uma boa conversa. Sem contar que é sempre perfeito para ver um bom filme, puchando a mantinha pra cima das pernas e devorando alguma guloseima.

Vi que em São Paulo hoje faz média de 18 graus, mais quente que aqui que faz 13 agora de manhã. A diferença de temperatura se tornará ainda mais diferente conforme os dias passam e logo o fuso entre Suécia e Brasil deixará de ser cinco, como agora, para ser de três horas.

Então, antes que o verão chame todo mundo pra sair de casa, vai essa dica muito saborosa: Nacho. Sim, mas não a comida, o filme.

Se você, como eu, passou pela prateleira da locadora e viu uma capa estranha com uma super herói gordo e colorido e pensou que este seria com certeza filme daquelas pessoas que riem de piadas sem graças e gostam de qualquer comédia, então cometeu o mesmo engano que eu.



"Nacho Libre" é arte pura. A trilha sonora, encantadora. A fotografia lembra uma pinura naif.
O filme proporciona uma alegria infantil, genuína. Dá a mesma satisfação de tomar esse chá gostoso ou café cheiroso numa tarde fria com um amigo querido e confiável ou de se lembrar de como era bom ver a sessão da tarde com os irmãos ao voltar da escola. "Nacho Libre", pra mim, vale por uma visita a uma sala de museu. É muito bonito de se ver e de sentir.

Não vou comentar a história não, pois, apesar de o desejar, não consigo o tempo necessário. Entretanto, se passarem por alguma prateleira e verem o filme, acreditem em mim, pois a capa estranha pode enganá-lo sobre o belo conteúdo que ali está. Lembre-se do sábio Márcio Greyk: são só "aparências, nada mais".

A beleza, ternura e ingenuidade de "Nacho Libre" e de seus e personagens recupera os sonhos que um dia tivemos, mas que foram podados porque alguém disse que éramos gordinhos demais, magrinhos ou burrinhos demais para tal feito. Entre uma música contagiante e imagens coloridas, "Nacho Libre" fala de amizade, de amor e dedicação e do quanto é preciso abandonarmos os pré-conceitos para vermos o herói que existe dentro de cada um.

(Ouça a música tema do filme - "Religious Man, Mr. Loco", no link do youtube ao lado)

10 setembro 2007

Os desafios nossos de cada dia


(Somnia Carvalho, "Perder a ternura, jamais", 2005)


Há desafios e desafios na vida. Desafios muito grandes. Desafios mais amenos. Desafios muito esperados. Desafios que aparecem de última hora. Independente de qual seja, qualquer desafio torna-se prioridade quando a hora dele chega.

Meu último desafio tem se concentrado bastante numa figura peguenina e cabeluda. Na verdade, ele me lança desafios novos a cada minuto. Mas na semana passada eu me peguei surpreendentemente feliz ao conseguir uma coisa que eu mesma acharia ridícula há algum tempo atrás. Depois de semanas tentando passear ou sair com Angelito de carrinho sem que ele me deixasse embarassada na frente das suecas com seus filhos comportadinhos e dorminhocos, consegui que ele se comportasse, gostasse e me ajudasse a fazer inveja pras mães que têm bebês inquietos.

Uns dias depois falei com duas queridíssimas amigas que tiveram filhos recentemente também. Uma mora no Brasil e é amiga dos tempos da faculdade, a outra nos Estados Unidos e é minha amiga de infância. As duas falavam da dificuldade de deixar seus bebês na creche ou na escolinha. As duas diziam que haviam chorado, chorado ao ter que encarar esta nova empreitada. E o desafio dessas duas já passou por coisas nada simples como passar num bom vestibular, se formar num curso difícil, trabalhar em grandes companhias, mudar de país, aprender outra língua etc. Assim como houve um tempo em que meu desafio era dar uma aula que agradasse uma centena de alunos dentro de uma sala de cursinho. Assim como houve tempos em que tudo que eu pensava era como escrever um trabalho decente ou conseguir uma bolsa de mestrado ou doutorado ou passar num concurso ou ganhar uns trocados para comprar uns livros ou ainda perder uns quilos na academia.

A verdade, me parece, é que não tem nada na vida da gente que seja fácil, facinho de fazer ou conseguir. Pra tudo é preciso uma entrega. Pra tudo é necessário algum tipo de mudança de nossa parte, de renúncia. Renunciar ao chocolate para perder a barriga é mais fácil do que renunciar o descanso para estudar para a prova? Depende. Renunciar a horas de sono para escrever uma tese de doutorado ou gerenciar uma empresa é mais difícil do que dar conta de um bebê chorando ou deixá-lo na escolinha com desconhecidos? A resposta é não, se o desafio do momento é o bebê e não o trabalho e vice-versa.

Não há desafio menor.
Não há desafio que não exija doação.
Não há desafio que vá embora sem deixar alguma transformação e crescimento.
Perceber, entretanto, que eles são apenas mais um dos tantos que ainda encararemos em nossas vidas
NÃO TEM PREÇO.

(A tela que coloquei acima se chama "Perder a ternura, jamais" e foi inspirada em duas queridas amigas que tiveram câncer de mama, se curaram e continuaram enfrentando outros tantos desafios na vida com a mesma força e ternura de antes. Tive a alegria de ter a tela comprada por outra amiga, Daniela Mendonça).

05 setembro 2007

"Em busca do Tempo Perdido"


(Os avós da personagem, Elisabethi Stacchine e Santi Cechetti)

"Professora, casada e mãe de dois filhos, cujo sonho sempre fora conhecer suas origens na Itália e a cidade onde seu pai nascera, sai em busca do tempo perdido, mas conhece mais do que sempre esperava: presente, passado e futuro se juntam nesta trama em que o nascimento do neto na Suécia motiva a realização do grande desejo."

Este trecho acima bem que poderia ser a sinopse de algum filme bem gostoso de ver no domingo. Entretanto, a personagem acima, apesar de buscar intensamente seu "tempo perdido", como o fizera Marcel Proust ao escrever suas memórias em vários volumes, está longe de ser ficção.

Irene Cechetti, filha de Ubaldo e Conceição Cechetti nasceu no Paraná. De lá, veio para São Paulo em busca de um sonho ainda não perdido: o de ser professora. De lá para cá muita coisa aconteceu e Irene realizara não só aquele como outros inúmeros sonhos: casou-se com Caetano e teve dois filhos: Renato e Adriana.


(Os pais, Ubaldo e Conceição Cecchetti)


(O marido, José Caetano Pinto)

Depois de quase trinta anos como professora primária de escola pública, Irene aposentou-se e viu-se então com uma vida que não esperava: os filhos criados deixaram o ninho. O filho casado, tivera o esperado neto num continente distante. Era chegada então a hora há muito desejada: sair e conhecer a Itália, de onde seu pai havia vindo quando criança. Sair e ver de perto a cara dos lugares que ela conhecia de ouvir falar. Sair e se sentir parte de uma história que seus avós construíram, tomar lugar numa família que ela nunca conhecera, mas da qual sempre sentira saudade.


(O filho, Renato, e o netinho, Ângelo)

Se o nascimento do neto (que garantirá o futuro) fora o estopim para o contato com o presente ele acabou por ser também motivador do encontro com o passado. A procura de Irene pelas memórias, por conservar aquilo que foi tão caro a uma outra geração e possibilitou a existência de muitas outras, não é filme, mas lembra um. Um delicioso exemplo é "Everything is Illuminated" ou "Uma vida Iluminada", que tem como protagonista Jonathan, vivido por Elijah Wood, o rapaz do "Senhor dos Anéis". Neste belo, colorido e intenso filme, Jonathan, personagem central, vai até a Ucrânia, onde espera encontrar uma senhora que ajudara seu pai na guerra.


(Cena de "Everything is Illuminated", na qual o taxista que aguarda Jonathan o espera com uma placa onde escrevera o nome da forma que entendera)

Jonathan coleciona objetos estranhos. Coleciona tudo que ele crê fazer parte de sua história. E são esses objetos estranhos que o aproximam de alguns outros personagens da história, como o taxista e sua família. No filme, a dificuldade da língua acaba sendo motivo de riso. O engraçado e simples taxista ucraniano, por exemplo, não consegue pronunciar corretamente seu nome e o chama de Jonfen.

A viagem do personagem do filme é bela e excêntrica e o encontro com a tão esperada mulher extremamente emocionante. É numa paisagem quase sul realista que seu sonho se realiza e onde ele encontra seu "tempo perdido".



Tão bonita quanto esta trama hollywoodiana que assisti cerca de um ano atrás, ainda no Brasil, é a história de Irene e de sua família. Lembra o filme, ou este lembra a história de Irene: a mesma dificuldade da língua que também gera ansiedade e riso, por exemplo. Irene e Caetano não falam italiano, nem inglês. Os parentes, por sua vez, não falam o inglês nem o português, mas o passado e a história que um dia se pais e avós construíram lhes permite entederem-se bem e sentirem-se parte de uma mesma família.



Neste momento em que escrevo estas linhas, Irene e Caetano, os personagens da nossa história real, estão em Perugia, região da Umbria, na Itália. De cima de uma montanha, próxima à casa onde nasceu seu pai, Irene falou há pouco com sua filha, Dri.
Em êxtase e realizada, ela sente que o tempo, antes parecido perdido, agora não lhe escapa mais as mãos. Ela tem material para juntar sua própria memória. E assim como Jonathan, nosso personagem ficcional, ela ganhou de presente a amizade de uma prima que entrou na história por acaso e agora lhe mostra a cidade e os parentes. Assim como a de um primo, Enzo, que há muitos anos tentou entrar em contato com os familiares no Brasil. Foi a partir de uma carta deste primo, perdida no Paraná, mas valorizada e colecionada por Irene, que ela pôde juntar os pedacinhos do seu belo e emocionante quebra-cabeça.

A vida pode parecer filme às vezes, mas a verdade é que ela mesma é material para a arte. É baseado em histórias emocionantes, gostosas e marcantes iguais as da Irene e sua família que tantos filmes e livros são feitos. O fato é que a vida é muito mais criativa que a arte. Só é preciso um olhar mais atento de nossa parte e um interesse pelas rugas de quem um dia já foi tão jovem e sonhador quanto nós o somos hoje.


(Os tios, Ester Cecchetti (filha de Santi e Elisabethi) e João Traguetta)


(Os tios, Olívia Cechetti (filha de Santi e Elisabethi) e Francisco de Lima)

ps: Assista ao vídeo de "Everything is Illuminated" no link ao lado deste texto)

02 setembro 2007

Qualquer canto



Sábado à noite aqui em Malmö. Friozinho lá fora (16 graus), quentinho aqui dentro.
Aqui em casa só o trio novamente, os sogros, que tem mais do que boca, já estão em Roma e a vida aqui vai seguindo seu rumo.





Hoje passeamos pela enésima vez em Copenhaguem, capital da Dinamarca, que fica a meia hora daqui de Malmö. Embora a cidade seja linda, charmosa, cheia de gente, foi a primeira vez de todas elas que eu realmente enxerguei a cidade. Antes eu olhava, mas não via.

Andar por Copenhaguem faz a gente sentir-se num filme cabeça ou personagem de um comercial de grife famosa. A cidade é chique, as pessoas são descoladas. Mil cores cobrem os sapatos, os cachecóis e os cabelos. A arquitetura antiga, linda de morrer, se mistura com as lojas novas, com cafés gostosos, com gente do mundo todo transitando. As milhares de bicicletas cruzam as avenidas no meio dos ônibus amarelos e dos carros coloridos. Carrinhos e mais carrinhos de bebês e crianças multi-coloridas enfeitam as ruas.




(As mães dinamarquesas, assim como as suecas, preferem deixar seus bebês do lado de fora dos cafés e restaurantes para que eles tomem ar puro)

Os parques agora estão cobertos por um tapete de grama verde, tão verde que parece pintura. As pessoas se deitam, comem, bebem, namoram e brincam como se estivessem sempre em férias.

Tirando algumas fotos esta tarde pensei que seria bom poder mostrar a cidade aos amigos, à família. Pensei que em um lugar tão lindo a vida realmente pode ser bela. Mas rapidamente me veio à memória uma praça em Campinas que eu gostava muito. Eu a atravessava todas as manhãs para ir dar aula e adorava passar entre os Jequitibás. Sempre passava por lá cantarolando e pensando no meu dia... agradecendo à vida. E então me lembrei que tinha a mesma sensação quando estava na horta de minha mãe. Entre as muitas flores que ela plantava junto às verduras de meu pai, eu me sentia rezando ao ar livre.

Fui percebendo então que o lugar pode dar mais ou menos inspiração, mas ela só acontece quando a alegria brota de dentro. É só um dispor-se a ver de corpo e alma que pode transformar qualquer canto num canto inesquecível.



"A hora do encontro é também despedida"....



Uma homenagem à Irene e ao Caetano que atravessaram o oceano para encontrar o neto,
Uma homenagem à minha mãe que ficou no Brasil, mas me mandou um avião de beijos e abraços,
Uma homenagem à família... num dia de domingo.


(Bolo de Cenoura que a Mê fez antes de ir embora)

Infância

(Carlos Drummond de Andrade)

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras.
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala - nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu...Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro...que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.






(Eu, Luana, meu avô João, minha mãe, minha avózinha Maria, Juju e o cachorro, em minha despedida do Brasil, janeiro 2007)