10 maio 2012

A ponte de Munch e a garota que se recusa a olhar o curso do rio

(Tentando ser a "Menina na Ponte", eu e Munch no Kunsthalle, Hamburgo, agosto de 2009) 

"A Garota na Ponte" , 1902, sempre esteve entre as obras de Edvard Munch das quais eu mais gostei. Ao contrário de tantos outros, de atmosfera  escura, às vezes angustiante, em outras dramática e até incrivelmente triste, este quadro está entre os mais coloridos do artista. O verde do vestido de uma menina contrastando com o vermelho da outra, o azul do rio ao fundo do chapéu e o cabelo amarelo da menina...

A obra segue a tendência de outras obras do mesmo período de Munch: além do contraste de cores há o movimento numa pincelada quase contínua. A pintura é fluida, o tema quase escorrega, se decompõe. A pincelada parece líquida. O quadro está vivo, os sentimentos nele contidos movimentam-se para além da tela.

Como todas as obras do norueguês esta é extremamente simbólica mas, diferentemente do famoso "Grito", não é o desespero, o medo, a depressão angustiante do jovem escandinavo que está em evidência. Ao meu ver, além da tristeza contida em outras obras, aqui a temática é a resignação. E a menina da ponte, aquela alheia ao que tanto seduz as outras jovens ali na ponte, é o retrato do próprio pintor não alheio aos seus desejos mais íntimos. Resignado, decidido a não seguir o fluxo do pensamento feliz, um feliz de quem não reflete, que simplesmente aceita a vida como ela é. A menina, ou Munch, está reflexiva e até mesmo ensimesmada, envolta em profundos questionamentos, ainda atada à ponte, mas de costas a ela...

("O Grito", Edvard Munch, 1893)


A vida de Munch foi, de fato, uma vida cheia de dramas. Seu pai, um médico que servia ao exército era não só rígido, distante, mas um defensor da religião e do trabalho. Nada mais natural que exigisse do filho disciplina, dedicação aos valores que pregava e obediência severa a ele e a Deus. Tudo isso só agudizou-se ainda mais quando se viu sozinho, sem a mulher, para cuidar de seus quatro filhos. Munch perdeu a mãe e a irmã quando ainda era adolescente. Tanto a mãe carinhosa, quanto Sofia, sua irmã mais querida, morreriam de tuberculose e o deixariam numa vida solitária.

Vivendo de perdas, tumultuado com sua própria personalidade conflituosa e tentando provar seu valor para um pai distante, Munch - um dos maiores representantes do movimento Expressionista - transfere para a pintura não só aquilo que sente, mas o faz de forma a não se conformar com a pintura acadêmica, com a repetição dos mesmos temas, com o contorno contido, com a obra facilmente aceita em galerias naquele século XIX.

Depois de apenas alguns anos na Suécia é estranho sentir que consigo entender melhor tanto este pintor escandinavo quanto suas pinturas. Não consigo mais ver Munch separado do local onde cresceu, do "espírito do norte". De sua cultura contida, trabalhadora e da natureza tão bela na primavera e no verão quanto opressora no inverno.

Aos 15 anos Munch era um jovem morador de um dos lugares mais frios do mundo, onde o inverno esconde o sol e a claridade por dois terços do ano, numa época em que a vida era facilmente ameaçada por doenças e vírus. De sua rua Åsgårdstrand, numa casinha tão próxima ao mar, Munch tomou o tema para várias de suas telas. Era, portanto, de sua vida, do seu drama e do drama das pessoas a sua volta que Munch falava.

("Melancolia", Edvard Munch, 1894-96)

Embora eu tenha sempre me impressionado com o expressionismo das obras de Munch, foi só quando, tentei reproduzir as feições da menina, ao lado da tela da "Menina na ponte" no Kunsthalle, em Hamburgo na Alemanha, que me dei conta de quão profunda a expressão da menina era. Quanto absorta, tomada por um mundo só seu, um mundo interior quase impenetrável ela estava. Ao brincar de ser a menina na ponte me surpreendi com o tamanho de sua tristeza, embora a "alegria" das tonalidades do quadro não tivesse me revelado isso tão rapidamente.

Há mais de um ano e meio, comecei a introduzir uma reflexão sobre "A menina" aqui neste blog, na série "O que você vê nesta obra: uma obra de arte ou mil palavras" e o curso do rio me tomou. Fui levada pela corrente de tantas formas que me esqueci do assunto. Voltei a pensar nele hoje ao me lembrar de uma conversa ontem com um novo amigo, professor de Literatura no Colégio onde dou aula, o Luís Damasceno.

O Luís é daquelas pessoas profundas, conhecem? Para quem a poesia, a música e a conversa verdadeira são mais valiosos que quase qualquer bem material deste mundo e para quem a dureza da vida não tira a beleza e a sensibilidade para momentos cheios de profundidade.

Ontem, em minha aula de Sociologia sobre a ideologia das várias gerações, eu coloquei na vitrola o "Imagine", de John Lenon. Inesperadamente, meninos e meninas da minha sala se uniram rapidamente em cantoria e a voz linda deles ecoava pelos quatro cantos da sala. De braços levantados no refrão e os olhos cheios de algo profundo, de uma vida que só é possível quando se tem perto de 15 anos, a cantoria chegou até a turma do Luís, onde ele, como professor mostrava dois pontos de vistas sobre haver e não haver mais amor em São Paulo. Lá, Xico Sá "debatia" com a música de Criollo , o primeiro tentando provar o contrário da tese do segundo.

A música alta da sala ao lado poderia ter incomodado um professor fechado, centrado no curso do seu riozinho, cumpridor das tarefas docentes do dia a dia, aquele que ensina, mas não vive. Diz, mas não faz. Fala de esperança, mas vive na sombra da falta de amor. O Luís, entretanto, estava ali, resignado a olhar o mundo da mesma forma que tanta gente cansada de ver tanta dureza nos corações paulistas e humanos o fazem.

Abrindo as janelas e cortinas ele chamou todos a imaginarem um mundo diferente com John Lenon. Se emocionou com a coincidência dos temas e com quem cantava em coro na minha sala. Tomados pela canção, pelas palavras do mestre os estudantes do Luís começaram a bater palmas. E mais palmas entusiasmadas com a alegria do inesperado. E então subiram nas cadeiras para aplaudir o mestre que, entre lágrimas, reconhecia a catárse do momento.

Está aí uma das belezas incríveis de uma obra de arte. Seja ela pintura, poesia ou música. Está aí a beleza de poder encantar-se com elas.

Não se debruçar na ponte, não apenas olhar o rio que segue, não se contentar em olhar a mesma cena que todos essa talvez tenha sido uma mensagem da "Menina da Ponte" na qual hoje eu não parei de pensar e desejar sempre viver.

Hoje, venho novamente lhe perguntar: "O que você vê nesta obra?"



3 comentários:

Beth/Lilás disse...

Soninha querida,
Você é mais do que professora, uma artista sensível e que está fazendo agora um trabalho fantástico junto a estes jovens, dando a eles o prazer de pensar, refletir e se divertir também.
O professor Luís deve ter tido um dia de glória com toda essa manifestação em sua sala de aula e que você e ele tragam mais temas e músicas que toquem os corações dos jovens desta linda e complicada cidade chamada São Paulo.

E aproveito para parabenizá-la pela maravilhosa mãe que és, dedicada e carinhosa.
Feliz dia das Mães com seus mais amados!
beijos cariocas

Anônimo disse...

Ola , gostaria de pedir uma linguagem mais facil nesse blog. ! voce parece trazer noticias bem legais mas por favor voce nao esta na academia de letras pra usar essa linguagem tao descomum . obrigada ,Gina

Milena F. disse...

Entrei por acaso por aqui e adorei a reflexão sobre Munch e sua obra, que admiro muito. Ainda não conheço a Suécia mas acredito que entendo o que você quer dizer com essa "alma do norte".
Realmente, antes de morar na Europa alguns temas, como o mundo da arte, por exemplo, eram muito complicados para mim, mas aos poucos é todo um universo que vai se revelando!
Também gostei da forma como você escreveu o texto, é bom ler algo que sai do ordinário!