08 maio 2012

"Uma música, mil lembranças": "A história de amor entre Pingo e Laura", por Nina Sena


("Com minha mãe estarei")

Acordei hoje cantarolando (again!) a música da Helena, aquela danada! Aliás, ontem, quando um aluno fofo me perguntou ao fim da aula como deveria escrever seu texto e eu mostrei rapidamente o primeiro parágrafo da "The Story" da Helena ele encheu os olhos de lágrima e disse: "ai que lindo!"...

E então me lembrei da trilha sonora do amor do Ricks e Paulo e do ABBA amado pela Ingrid! Caramba!, pensei, como este concurso me pega! Como estas histórias entram para a minha história! Eu assumo a vida delas como sendo o clipe para estas canções!

Foi quando, preparando, o texto de hoje eu de novo fui pega por mais uma porção de lembranças: as da Nina Sena.

A Nina é muito artista, embora seja engenheira florestal por formação! Costumava elaborar, lá da Alemanha onde vive com marido e três amadas crianças, lindos desenhos para histórias enviadas a um de seus blogs. Em outro, "Entre mãe e filha", ela escreve muito bem sobre coisas diversas que lhe agradam e que ama fazer, meio como eu aqui.

Recebi o texto da Nina há quase um mês e normalmente eu só leio os textos antes de publicá-los para passar aqui a emoção que senti ao lê-los. E foi assim que me vi no início dos anos 80, com meu pai, meu querido pai comigo em seu colo, cantando "Com minha mãe estarei"... E lembrei-me de minhas avós, tão católiquinhas... e revivi momentos com elas... Minha história e da Nina se cruzam e a dela é daquelas recheadas de amor do tanto de amor que as relações nossas são feitas. Tenho certeza de que o mesmo ocorrerá com você!

Obrigada, querida Nina!!! E, todos vocês, chorem a vontade! Depois? É só escrever o seu texto e mandar pro nosso concurso "Uma música, mil lembranças".

...


Difícil. Dificílimo escolher uma música em meio a tantas que amo. Complicadíssimo pra alguém que cresceu ouvindo música soar alto pela casa na vitrola de sua mãe, enquanto essa brigava com a filharada e com o marido mulherengo, escolher uma só. Dou minha palavra que tentei. Procurei muito. Enquanto procurava, aproveitei pra matar as saudades de algumas coisas, pra lembrar de outras, pra dançar na sala, pra chorar num canto. Esse concurso mexeu com minhas emoções. Mas desde que vi esse anúncio no teu blog Sonia, uma música não saia da minha cabeça. Na verdade, eu não queria escrever sobre ela. Tive receio de parecer meio jogo sujo, sabe? Mas ela queria fazer parte, melodiando  meu texto. Não teve jeito.

É a netinha da dona Laura que eu dou permissão pra escrever agora.

Com vocês, Pingo de Gente:


"Oi. É que essa música deveria ser uma das mais queridas da minha avó, e é aquela que mais me lembra a vó Laura.

Bom, deixe-me primeiro me apresentar. Meu nome é Nina Rosa, mas todos me chamam de Pingo, porque sou muito pequena, a menor de todos os irmãos. Esse apelido quem me deu foi minha avó, mas houve adaptações. Há quem me chame de Pingulino, de Sugulino, e de Sugu. Às vezes me chamam de Mucama, por brincadeira de irmã mais velha que pode ser bem malvada, porque sou também a mais escurinha das irmãs, ou de Vaquinha Mococa, porque sou nesse quesito que a vaca tem ao dispor de seus bezerrinhos, a mais avantajada das irmãs... mas gosto de Pingo. Mas só quando minha avó me chamava assim.

Eu adoro lembrar da minha avó. Porque foi com ela que senti amor pela primeira vez na vida. Foi ela, com seu jeito simples de mulher interiorana e lutadora e mãe de uma penca de filhos e avó de uma porrada de moleque, quem me ensinou sobre cuidar do outro, sobre solidariedade e amar a todos sem fazer desdén de ninguém. Eu nunca havia pensado nisso, mas foi vovó quem me ensinou o dom de ser generosa. Ela repartia o amor tão bem entre os netos quanto a sopa que sempre fazia em quantidade bem maior que precisava porque sabia que sempre iria aparecer alguém na sua porta com fome. Esse amor era tão bem distribuído que se você perguntasse pra cada um dos netos quem era o mais querido da vovó, cada um iria dizer: eu mesmo, claro!

Eu cresci achando que era a sua neta mais querida. Vi com o passar dos anos que outros netos sentiam o mesmo. Então é isso. Ela era uma sábia em repartir e compartilhar seu amor generoso e bonito. Era sábia, mesmo não sabendo ler. E é aí, nesse ponto, que quero me prender. A velhinha não sabia ler. Ia à igreja. Pegava aqueles folhetos de domingo e fazia cara de quem entendia tudo. E entendia! Com o coração. Foi a seu pedido que fiz primeira comunhão, não que eu quisesse ou achasse isso algo muito importante, mas por homenagem a minha doce velhinha, que enchia a casa de amor e carinho enquanto costurava na sua velha Singer, barulhenta, preta e dourada, ainda com pedais. Ainda posso sentir os cheiros e a maciez dos seus jérseys, ao fazer nossos babydolls. Ou nossas bruxinhas de estopa. Gostava de sentar perto dela enquanto ela costurava e contava seus causos, suas piadas, sua risada era gostosa, seu olhar bondoso, ela mastigava o nada enquanto enquanto costurava e falava sozinha, era engraçada. Vejo seu cabelinho longo e escorrido preso num coque infinito, indefectível, sempre preso por um pentinho de plástico marrrom. Gostava de sentir sua pele molenga e cheirosa e seu cheiro de vó, quando a abraçava ao chegar em sua casa pra passar noites com ela e ela tinha aquele cheiro de lavanda no pescoço. Comíamos juntas bobagens escondidas da minha tia. Vovó não podia comer tanta guloseima, mas ela sabia que eu gostava e eu sabia que ela gostava, então éramos ali, cúmplices amorosas.

Amo as muitas lembranças que tenho da vovó. E não há um dia que eu lembre dela e não chore. Às vezes me vejo como naquele filme antigo, "O Pássaro Azul", quando os dois irmãozinhos vão visitar os avós no cemitério. E eles ficam felizes porque sempre que alguém lembra deles, eles voltam a viver... se depender de mim minha avó nunca morreu. Ela mora e vive pra sempre. Em algum lugar dentro de mim.

E a música? Você deve estar se perguntando.

Essa música ela cantava quando já estava de cama, em seu último leito. Passou meses num hospital. A família a levou pra casa.  Melhor que ficasse sob seus cuidados do que em meio a doentes que a faziam piorar por dentro. Ficou até o fim dos seus dias nessa cama. Sem poder se levantar mais, com tantas dores, tantos calores e tantos amores. Sim, amores, rodeada que sempre esteve de amor e atenção. Cantava a música sozinha. Quando eu chegava da aula de catecismo ela pedia pra eu ler a Bíblia pra ela. Só ali descobri que vovó não sabia ler. Nos enganava direitinho quando dávamos cartões do dia das mães e ainda elogiava nossa letra ... velhinha esperta! Perto de sua partida, cantava a mesma música, sem poder mais falar, gemendo. Ela gemia essa música. Que não sai da minha memória.

Foi-se minha avó. Há quase 29 anos ela se foi. Deixou uma netinha que ainda se acha a mais amada, digam o que disserem os outros netos.

Está lá, com sua virgem Maria. No céu. No céu. "  


14 comentários:

Beth/Lilás disse...

Ahhh, a Nina, essa menina-mulher que tem tanta sensibilidade!
Ela escreve lindamente, passa de verdade aquilo tudo que lhe vai na alma e ao final de sua história fiquei aqui, imaginando a pobre velhinha cantando este hino à Maria que minha mãe também gostava.
Este concurso está muito lindo e vai ser difícil escolher um entre tantos bons escritores.
beijos cariocas

Nina disse...

Obrigada Beth querida!

Obrigada Sonia, pela oportunidade. Na verdade,uso todas que tenho pra escrever sobre ela, sabe?

E claro, to aqui chorando de novo! :-)
Costumo escrever mt pra ela, sempre em homenagem a ela, meu grande amor.

ps. cliquei no filme que vc colocou, aaahhh obrigada tbm por isso, a cena dos avós acordando, geeeeeente, vi de novo. Que bacana, fazem tantos anos...

Um abracao Soninha, com mt carinho

Juli disse...

Oi Nina!

Você sempre falando com tanto amor e carinho da sua amada vozinha... lindo como você descreveu, tão simples e tão bonito, tão cheio de amor, de verdade!

Bjs, que Deus nos abençoe!

Danissima disse...

Nina,
sua danada! tô aqui debulhada em lagrimas...

Liza Souza disse...

A Nina é uma linda e escreve com a alma! Fácil, fácil arranca lágrimas e risos da gente.
Parabéns, Sonia, o concurso está fantástico e concordo que será dificil achar um vencedor.

Anônimo disse...

Nina,Nina...sus palavras são mágicas!

Essa música me faz lembrar minha primeira comunhão...boas lembrançs!

Beijinhos!!

Thaís
t.thaismarques@gmail.com

Anônimo disse...

Nina,Nina...sus palavras são mágicas!

Essa música me faz lembrar minha primeira comunhão...boas lembrançs!

Beijinhos!!

Thaís
t.thaismarques@gmail.com

Luma Rosa disse...

Acho que essa música fez parte da infância de muita gente, além de "Maria de Nazaré".
Lendo o texto e ouvindo a música, voltei no tempo junto com Nina! E junto com o texto da Nina, chorei! Porque a saudade é algo que não se define e na mesma proporção do amor, aumenta conforme o tempo nos distancia das pessoas amadas.
Obrigada Nina, por me levar à passear no tempo de um tempo muito feliz!!
Beijus,

ingrid disse...

que linda historia,parabens nina!

freitasmh disse...

Puts, muito lindo, me lembra minha mãe!!!

Nina disse...

Oi meninas, mt obrigada pela palavras bacanas!!!

Bj no coracao.
Tbm pra ti, Somniaaaaa.

T@t1@N@ disse...

ai, amei, viajei aq... imaginando cada cena.... amei nina!

aurelina kitzinger de sena disse...

Como vc diria! Sua danadinha, consegues ir fundo não só ao coração mas, na alma. Está em nossas veias essa sensibilidade, e vc ver além de tudo o que desejamos. "Parabéns" tenho o maior orgulho de ser sua prima,e nós duas sabemos muito bem do que somos capazes. Te amo!!! continue sempre a escrever, pois teu dom jamais deverá ser esquecido.

vanessa renée(nessinha) disse...

linda rosa chamada nina!! vc como sempre e desde criança continua sendo essa inteligencia rara!! parabéns querida amiga!! continue brilhando nesse teu caminho de sucessos!! bjs irmã!! te amo!!