19 dezembro 2011

"Você também faz parte...", uma reflexão sobre a cor, o status e o status quo

("Você também faz parte II", Nelson Leirner, 1964. Somos mais uma fechadura funcionando bem na engrenagem? Estamos trancados? Ou temos a chave para abrir outras possibilidades?)

A vida é dura, reclama a maior parte das pessoas que conheço.
Sim, ela com certeza é em muitos momentos.

Ontem, entretanto, o óbvio ficou grudado na minha mente: ela é dura, mas dependendo da cor da tua pele, meu camarada, ela com certeza será também muito injusta.

Fui participar de uma confraternização de Natal do condomínio onde vivemos em "Sumpaulo", um bairro gostoso porque tem algumas árvores, mas básico e simples, já que não tem nada mais do que algum comércio, casinhas, muitos prédios e fábricas antigas. E então eu tive um choque. Sim, um tipo de choque.

Vocês sabem que há coisas com as quais convivemos desde o dia em que nascemos. Crescemos e vemos iguais, pouco mudam e aí assumimos como sendo o que são. Não questionamos mais. Não lamentamos, não desejamos mais gastar algumas horas da semana para transformá-las, porque nós simplesmente estamos bem e mesmo quando não estivemos e a culpa nos corroía, ou tentávamos de algum modo ir contra a corrente, elas permaneciam mais ou menos estáveis.

Quando cheguei no salãozinho de festa havia, entre outras mesas com suas respectivas famílias branquinhas, duas mesas com famílias negras e, embora seja quase ridículo eu ter coragem de afirmar isso, eles me chamaram muita atenção. Meus olhos foram imediatamente de encontro a elas porque, só aí  minha consciência se deu conta de que eu nunca vejo moradores negros aqui.

As pessoas na mesa eram alguns moços e moças com quem falo todos os dias, topo o dia todo, mas uniformizados para o trabalho no prédio. Junto também alguns bebês e crianças, filhos desses funcionários. E o fato de ter constatado que as únicas mesas com famílias não brancas eram as deles eu fiquei realmente muito desolada, triste mesmo!

E aí eu me lembrei de novo de algo que também me deixara tristíssima quando voltei da Suécia para viver de novo no meu velho Brasil que era o fato de em quase 150 famílias das torres deste atual condomínio haver apenas 1 (u-ma) única família negra. Há pessoas morenas claras, ou pele clara, cabelos pretos, mas negras só nesta família. E não é uma família pobre. Eles tem muito mais recursos, bens materiais e funcionários que a maior parte aqui. Eles, no entanto, são uma ENORME exceção.

Sim eu sei. Esta é a realidade. "Você não sabia disso hein Sônia?". Sim eu sabia. É a nossa realidade, mas vamos concordar que é uma realidade muito, muito injusta. Uma realidade permissiva, nojenta e viciada.

Ela é a estampa do quanto ainda somos extremamente preconceituosos em nosso país, ao contrário do que gostamos dizer sobre a miscigenação das "raças". Ela é uma vergonha, porque os rapazes eficientes e muito gente boa, ou as meninas trabalhadoras da faxina viajam todos os dias algumas horas para trabalhar aqui que já não é uma região central. A cor da pele pode ser vista na cor da linha do metrô ou para onde segue a linha final do ônibus.

Empregadas domésticas, babás, carpinteiros, seguranças em sua maioria, negros, que lotam o transporte público que vai para as periferias gigantes da cidade continuam servindo aos brancos. A nós, por acaso nascidos brancos. A muitos de nós que vão sempre justificar a falta de acesso a boas escolas, à cultura, à leitura, viagens etc que este povo não tem dizendo que ao menos conseguimos dar a eles empregos. O que eles fariam sem nós? Sim! Claro! Que bom que ao menos emprego para comer eles tem! Mas qual tipo de trabalho nós estamos sempre dispostos a oferecer mesmo? Qual tipo de trabalho eles estão aptos a conseguir? E apesar de todos os trabalhos terem sim seu valor se perguntássemos ao Gilson, ao Paulo, à Luciana do meu prédio será que nenhum deles teria um sonho branco? O sonho de ser médico? O sonho de ser engenheiro? Piloto ou advogado como o são a maior parte daqueles que eles vivem para servir e proteger?

Sim eu também sei. Não há como esgotar algo assim num postezinho de blog, mas isso tudo me levou a outras constatações que minha consciência adormecida vê, engole seco, e tenta me confortar dizendo "pára de ser neurótica!": aqui no prédio a maior parte dos trabalhadores que não são negros-pretos ou mestiços são as babás, porque babás vocês sabem, frequentam festinhas infantis das crianças que cuidam,  ficam em cena muito mais tempo que as domésticas e elas também lidam diariamente com as crianças. Então quanto mais "clarinhas" parece ser o melhor.

As fotos das domésticas e babás em agências de empregos virtuais, como essa aqui por exemplo, são sempre "bonitinhas", clarinhas, porque, claro, se tiver uma empregada doméstica com a cara de que são realmente a maior parte das empregadas domésticas brasileiras a demanda não será muito boa. Veja só eu não estou dizendo que uma empregada doméstica não possa ser apresentável e bonita por si só, estou dizendo que o fato delas serem bonitas e brancas parece as colocar num patamar superior às que assim não sejam.

Isso tudo é apenas uma daquelas verdades horrorosas de serem constatadas e sobre as quais a gente nem mesmo gosta de falar e perceber, porque o que isso vai dizer pra gente? Que somos horrorosos! E ser mais um na engrenagem horrorosa e preconceituosa que é a nossa tão misturada sociedade brasileira não é nada agradável. Porque aí é preciso ou se conformar ou mudar alguma coisa.

A miséria e a pobreza tem cor sim, a cor negra, e isso sempre me faz relembrar "Haiti" do Caetano. E a pobreza, quando não estampada no tom exato da pele, também está quase sempre estampada nos cabelos quebradiços, na pele sem cremes, nos dentes não cuidados da infância, na fala errada, na bolsa do camelô, no olhar sofrido e nas mãos calejadas. Em detalhes para os quais a gente pensa não dar importância, mas se vê avaliando e julgando alguém exatamente por ter esse e não aquele estereótipo.

A pobreza com certeza tira do caminho muitos sonhos que a pessoa nem sequer teve o direito de sonhar e se essa pessoa nasceu com o tom de pele tido como "errado" para os padrões branquinhos de beleza que vendemos então a vida dela será dura, será injusta, será cheia de mágoa, ainda que contida, de não ter a liberdade de ser e viver bem com aquilo tudo que ela é.

Na semana passada, na nova linha do metrô, a amarela, subia nas escadas rolantes uma mãe com seu filho pré-adolescente. Ela ia num carinho tão grande com ele, mãos no ombro, com um cuidado enorme, um zelo e proteção. Ele ia feliz, sorrindo e os dois encostaram a cabeça uma na outra confidenciando alguma coisa muito boa que haviam conversado ali... Eles eram negros. Suas roupas eram muito simples. O calcanhar dela estava todo rachado na sandália de liquidação. Talvez o mesmo lugar onde comprara o tênis do filho querido. E eu juro pra vocês, sem vergonha de ser tão piegas como sempre sou, que eu rezei em silêncio por aquela família. Eu desejei, como outras vezes o fiz, pará-los e dizer algo. Dizer "Parabéns! Vocês são inspiradores!", mas a pressa e os pensamentos me impediram sem contar o fato de que até minha atitude poderia ser em si mesma entendida como preconceituosa (bem como este texto corre o risco de ser sem querer) porque eu estava vendo neles mais do que eram em si mesmos, mas estava lendo neles o preconceito no Brasil.

Eles tomaram seu caminho e eu o meu. E fiquei apenas na torcida para que aquele menino pudesse ter o mundo à disposição e escolher seu futuro ao invés de se tornar mais um na multidão de meninos invisíveis do país.

3 comentários:

Érica disse...

Muito bonito o seu texto. Antes de eu entrar na universidade, eu era totalmente contra o sistema de cotas. Mas quando eu entrei e vi que quase todos os meus colegas era loiros - isso mesmo, loiros - comecei a repensar. Os colegas que eram negros eram os que entraram pelas cotas e um que não concordava com esse sistema. E depois quando li que dos mais de dois mil professores apenas sete eram negros - eu pessoalmente só conheço um -, as coisas ficaram confusas na minha cabeça. E piorou quando li a pesquisa que uma professora fez sobre os alunos cotistas. Hoje eu não sou contra nem a favor, não consigo me decidir. E ler um texto como o seu me faz lembrar disso.

Lúcia Soares disse...

Sônia, é tão correto o seu texto, mas infelizmente os próprios negros são os primeiros a se discriminar.
Já ouvi muitas vezes algum dizer: "O que você queria? Preto, pobre, sem estudo, eu só podia dar nisso mesmo" (uma fala mais ou menos assim). Mas em contrapartida, conheço negros engenheiros, médicos, pessoas que vieram de família média e lutaram pra viver. A engenheira, uma negra linda, perfeita de rosto e corpo, disse que nunca se sentiu discriminada e ela mesma só tem amigas...loiras e só namora homens brancos...O negro, médico, é casado com uma branca.
Sempre tive empregada doméstica e algumas eram claras, outras morenas, negra mesmo não tive nenhuma.
O fato é que, infelizmente, o negro no Brasil é tratado, sim, com discriminação, ainda que tenha uma boa situação financeira e ainda que se diga que aqui não há racismo.
Minha última empregada (está em licença-maternidade e não é negra) me disse que não quer deixar de ser doméstica, pois é o que sabe ser melhor.
Acho que cabe a cada um se orgulhar de ser o que é e de buscar a oportunidade na vida, pois sendo branco ou negro todos têm sua vez, só o que não pode é se envergonhar nem desanimar.
Quanto aos empregadso que participaram da confraternização e ficaram meio deslocados, eu também sempre me senti deslocada em festas da empresa do meu marido, porque as mulheres eram muito "madames" e eu nunca gostei de sê-lo.
As pessoas, na maioria, se "conformam" em ser o que são e nada fazem pra modificar.
Um dos meus melhores amigos, pardo, veio do interior aos 16 anos, morou numa favela, fêz faculdade e hoje é diretor de uma multinacional (diretor de um setor). Então, quem quer cava o seu, custe o que custar.
E num país que não preza a educação, ter um emprego, por mais simples que seja, já é considerado uma conquista.
O problema é de cada um, que não se valoriza o suficiente, seja branco ou negro.
Pareço discordar, mas concordo totalmente com tudo que você expôs, seu ponto de vista é certíssimo.
Mas continuo achando que cada pessoa se valoriza ou ela mesma se discriminam, às vezes em nem sentir.
Beijo!

Beth/Lilás disse...

Soninha querida!
Já percebi que estás ótima, voltando à ativa e escrevendo seus lindos textos filosóficos e reflexivos.
O que você percebeu aí, no seu condomínio de brancos, é chocante realmente e mais ainda, incomoda um bocado e faz nossa cabeça ficar confusa, se bem que acho que só fica assim, quem tem um olhar maior e alguma sensibilidade, pois duvido muito que a maioria tenha percebido ou se incomodado com esta situação.
A Lucinha disse uma coisa muita certa nisso tudo, pois já vimos que quem realmente faz, luta e deseja algo maior, não fica no limbo, não se entrega facilmente. Aqui perto de mim mesmo, essa situação é bem visível, pois o meu marido tem amigo engenheiro que estudou com ele na escola técnica e se fez gente, formou-se e trabalha e ganha dignamente como qualquer cidadão de bem merece.
Talvez esta situação que você presenciou por aí em Sumpaulo não tenha o mesmo impacto que aqui no Hell de Janeiro, pois os condomínios da Barra estão recheados de famílias pardas ou negras, muitos em situação financeira bem confortável e, por ser a cidade mais heterogênea, não causa tanto impacto. No entanto, nas ruas, os camelôs do meu bairro, são todos negros ou mestiços e moradores de comunidades carentes bem próximas do bairro, que parecem bastante à vontade em circular pelo bairro, aos gritos com suas mercadorias, as mulheres que vendem sempre de shortinhos curtos agarrados e piercing no umbigo, os guardadores de carro de sandálias havaianas e bermudas de praia, pois logo depois que fazem um dinheirinho vão para um mergulho na praia, ou seja, acostumaram-se a esta vida livre, mesmo sem dinheiro ou estudo, mas curtem estarem assim , juntos na liberdade das ruas e de um estilo muito próprio que eles criaram para sobreviverem a todo este descaso que o governo e a sociedade lhes impôs.
Às vezes, quando passo de carro e observo toda esta lida de minha cidade, consigo imaginar que continuam escravos, rotos, descalços, quase sem roupa, enquanto nós, os brancos, no meio deles agora, misturados e fingindo que tudo mudou.
Que nada! A escravidão continua aí e agora, mesclada entre brancos e negros, numa sociedade abandonada pelo poder público e por um governo desalmado que só pensa em encher os bolsos e viajar para a Europa a fim de gastar com o melhor que há na vida.
Não tem jeito não, querida!
Para isso, precisaremos de mais 300 anos, com certeza!
beijinhos cariocas