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Berlin by car: todo pensamento que a paisagem permite

(De dentro da balsa-navio que nos levou da Dinamarca à Alemanha, várias gaivotas nos acompanhavam. Algumas chegavam muito perto, como essa que pairava tranquila no ar, maio 2008)


“Nada te perturbe,
Nada te amedronte,
Tudo passa,
A paciência tudo alcança.”

(Canção baseada em pensamento de Teresa D’Ávila)


Há um ano atrás, tendo chegado do Brasil em terras suecas eu tinha um mundo a explorar e, por outro lado, alguns desafios grandes a vencer.

Um dos primeiros seria se instalar, vencer as primeiras dificuldades com a língua, conseguir ir ao supermercado e trazer o pote de margarina e não de fermento para casa e, dos mais difíceis, superar a saudade da família querida e do país onde nasci.

Havia também a necessidade de finalizar a escrita de minha tese de doutorado. Grávida, com enjôos, com dores comuns do período, um mundo inteiro novo lá fora para ver, tive de sentar, dia após dia, na solidão de um apartamento na Suécia, e escrever linhas, páginas. Centenas delas. Boas e inovadoras. Essa era a exigência. 

Dia após dia, venci o desafio. E houve momentos em que pensei desistir. Dar fim ao trabalho e dedicação diária, às exigências difíceis e simplesmente desistir. Mas, então, um prazer sem conta me tomava quando escrevia, descrevia e analisava os quadros de Anita Malfatti. Quando precisava recorrer a pinturas que eu havia visto em maravilhosos museus e a oportunidade de criar um texto era uma experiência fantástica.

(Os geradores de energia que geram energia em mim. Alemanha, maio 2008)


A tese que um dia pareceu interminável foi finalizada. E então a barriga foi pesando.
O bebê que falava comigo através de chutes foi crescendo cada vez mais e, então, era o parto que eu esperava e queria vencer.

E a espera parecia tão eterna quanto a espera que havia passado há pouco.
E dia após dia, venci o peso da barriga e o incômodo, me deixando levar pela cantoria que me tomava conta ao sentir aquela vida, que eu já amava tanto, dentro de mim.

O parto, que me fez entender a expressão “um parto!”, veio. E, se aquelas horas pareciam impossíveis de serem superadas, elas também passaram. Com seu fim, o momento mais intenso de toda minha vida: receber nos braços uma criança perfeita. Eu e Renato havíamos gerado um vida e ela estava ali nos olhando. Essa nova vidinha que levamos aqui atrás conosco. Essa vidinha que pulsa de energia e agora dorme, enquanto seguimos rumo à Berlim.

Superado aquele desafio, outros vieram. As grandes e tempestuosas dificuldades dos primeiros meses de vida de um bebê também davam a idéia de que o período difícil duraria anos. Noite após noite, cuidado. Foram meses seguidos de cansaço. E assim parece ser a vida de um casal logo após a chegada de um bebê. Mas... eles também passaram.

(Um parada para reabastecer o corpo... e alma. Ao fundo, paisagem alemã com dezenas de "moinhos de vento modernos" branquinhos, confundindo-se com as nuvens, maio 2008)

E agora, escrevendo este post de dentro do carro, é exatamente disso que me dou conta: olhando a paisagem ao meu lado, intensamente amarela, verde e azul celeste me faz notar que os dias cinzentos e frios do inverno desse ano se foram. Vencemos os dias com neve. Vencemos o cansaço de sair todos os dias sem a energia do Sol. E aqui está ele agora. Invandindo o caminho. Transformando a paisagem seca em uma tela extremamente colorida. Extremamente vangoghiana.

(A paisagem amarelinha que eu não me canso de fotografar. De Malmö a Berlin, tudo amarelin..., Alemanha, maio 2008)

E se a tecnologia me permite não perder esse sentimento, tomando meu lap top e dividindo isso com vocês, a vida me permite perceber que Teresa D’Ávila estava totalmente certa: tudo, absolutamente tudo passa. Só disso temos certeza.

Então, o melhor é que o mínimo possível nos perturbe, porque com paciência poderemos passar o inverno e chegar novamente à Primavera. 

Vivencio agora o óbvio, mas duro conhecimento de que o tempo leva consigo o momento presente. Torna-o distante de nós e esse instante, que já começa a ser passado, precisa ser vivido com a maior intesidade e clareza possível. 

Sei cada dia mais que TUDO PASSA, que os antigos desafios se foram, mas novos virão. Novas tristezas e também novas alegrias. O tempo leva tudo embora, seja a alegria que num determinado momento soa como infinita ou a dor que por tempos parece eterna.

O tempo não me pertence, ele corre, como a paisagem do lado de minha janela. 

O que tenho a fazer, então, diante dessa realidade?
Fazer meu "carpe diem", saborear cada momento dessa nossa viagem até Berlim, porque ela tá só começando! E... Viver como o trigo nos campos.


Comentários

Anônimo disse…
Que texto lindo! Deu pra fazer essa "viagem" com você.

Bjs,

Tia Dri
Somnia Carvalho disse…
e deu pra ver os moinhos de vento moderninhos rodando também, tia Dri? rs...

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