Pular para o conteúdo principal

"Enquanto isso, na silenciosa Bahia...": A história de uma mãe, sua filha e da sonoridade da surdez

(Kátia e Cláudia, mãe e filha em lançamento do livro "A sonoridade da Surdez", de Kátia Franco, fonte foto: Mídia Social Notícias)

"Cidade de Palmeiras, localizada na Chapada Diamantina, a 439 km dc Salvador...
Quando pequena, Cláudia, que é surda, ficou indignada com a escola pois não conseguia aprender a ler e escrever. Desesperada, Cláudia pulou os muros da instituição e foi para casa chorando. Comovida com a situação, sua mãe Kátia tomou uma decisão que mudaria sua vida: resolveu estudar letras e passou a ser a professora da própria filha. Primeiro, aprendeu a Língua Brasileira de Sinais (libras) para facilitar a interação. Depois, ensinou a libra e o português para a filha. A garota conseguiu dominar as duas línguas. Hoje com 21 anos, Cláudia consegue fazer todas as atividades de uma pessoa sem deficiência, como ler, pegar ônibus ou colocar roupas na máquina de lavar."... (Texto do 



Escrevo este post neste dia chuvoso e frio de Junho enquanto estou ouvindo o piano e a suave voz que entoa "The Ludlows" da trilha sonora de "Legends ot the fall". Fico pensando como eu poderia traduzir esta sensação para a Cláudia e da mesma forma como o mundo dela está cercado de sensações e sons que eu desconheço e não entendendo bem como são vividos. Eu nem mesma conheço, mas já admiro...

 A história, cujo trecho coloco aí acima, fala de uma pessoa quem estou ainda conhecendo, mas sobre quem não resisti em vir aqui falar um pouco.

A Kátia Maria de Oliveira Franco, essa baiana porreta, de sorriso constante e alegria contagiante e que vocês podem ver neste vídeo aqui, tem uma história de vida admirável. Ela e sua filha, Cláudia, tem ensinado pelo Brasil como uma deficiência física só limita a pessoa se a gente deixar que isso aconteça!

A Cláudia é uma jovem que nasceu com surdez e teve sua mãe como sua principal educadora. A Cláudia não se conformou de não receber um tratamento decente e poder aprender como qualquer criança normal quando frequentava a escola e a Kátia não se conformou em ter sua filha tratada com indiferença apenas porque ela era diferente. 

Eu atualmente leciono em locais onde há o acolhimento de alunos com deficiências, entretanto, é fato como nos sentimos  despreparados para lidar com eles e saber como lidar e preparar cada um de acordo com sua necessidade... Por essa e tantas outra razões vi no trabalho da Kátia algo no qual eu poderia apoio, conhecimento e preparo para fornecer aos meus alunos e alunas um tratamento que se distancie completamente do recebido pela Cláudia quando ela era pequena...

Abaixo uma pequena entrevista que fiz com a Kátia para inaugurar umas conversas sobre ela e sobre este assunto que pretendo ter aqui.  

Para quem se interessar a Kátia anda tocando vários projetos atuais, todos eles focados na escrita. O livro "A sonoridade da surdez" inaugurou outra fase da vida dela... 

Tenham o prazer de conhecer a Kátia, mãe da Cláudia, e quem tem sempre muita história para contar...



(Kátia com Jaque, a menina compositora que fez questão de escrever uma música em homenagem a esta história)



1. Você educou sua filha em casa por quantos anos?

No tempo em que a Cláudia ficou sem escola foi o tempo que comecei a trabalhar com ela, a alfabetizá-la desde que ficou sem direito a ir a frequentar uma escola que assumir o "leme do barco".

2. Você fala da escola especial para surdos e sabemos que Cláudia não se deu bem na escola normal. Como você vê a inserção do aluno com deficiência no ambiente da escola comum (não sei se o nome é este) ? Qual tem sido a falha para de fato inserir e ensinar este aluno na escola?

O problema da escola regular é porque em minha cidade não havia intérprete, além dela ser a única surda na cidade, e ninguém além de mim sabia falar em libras com ela, então não havia nenhuma comunicação no ambiente escolar o que a fazia sentir abandonada e rejeitada.

3. Fale de sua experiência como professora de libras...

Fui convidada para dar aulas de libras para alunos da UNEB - Universidade do Estado da Bahia - quando ainda era estudante lá,  de libras nas duas turmas de Pedagogia e assim começou a minha história, desde então não parei mais de lecionar e fazer palestras sobre o assunto, descobri meu dom e as pessoas ficavam e ficam encantadas com a maneira que ensino, pois mostro a elas que já sabem mais de 100 sinais em língua de sinais, só não sabem que sabem, então quebrar este mito de que é uma língua difícil de aprender me da suporte para "construir" o processo do aprendizado de maneira prazerosa. Como sempre digo a eles, sou como uma agulha e eles grandes retalhos e juntos fazemos belíssimas colchas de retalhos... É assim que as pessoas deveriam ver as diferenças.

4. Você escreveu um livro, "A sonoridade da surdez" sobre a experiência sua com Cláudia e tem se dedicado a escrever livros desde então.  O livro é indicado para quem quer conhecer mais da realidade do surdo mudo e lidar com ele? Algo mais?

O livro tem o foco maior nas questões do indivíduo surdo e da língua de sinais, mas trago também toda a dificuldade, medo e insegurança de uma mulher que teve que enfrentar tudo sozinha, pois foi também abandonada pelo marido. É um livro de superação, pois precisei superar muitas coisas, dentre elas superar a mim mesma, talvez a tarefa mais difícil. Não usamos o termo surdo-mudo, eles são apenas surdos, a mudez é outro problema, além do mais eles já tem uma língua que é a língua de sinais.

Obrigada querida Kátia!!!



Comentários

Lúcia Soares disse…
Que linda história de vida, Sônia. Uma mulher jovem, bonita, guerreira. Que bom a Cláudia nascer dela, que tanto pôde ajudar em seu desenvolvimento. Traga sempre boas histórias para contar aqui. A vida de um professor pode não ter retorno monetário à altura do seu conhecimento, mas coloca-o junto ao material mais importante, que é o humano. Comovente a vida dessa moça.
Beijo!
Anônimo disse…
Fé e Luz!!!
Unknown disse…
a cidade é Palmeiras que fica localizada na Chapada Diamantina rsrsrs beijos
Anônimo disse…
Kátia, minha amiga porreta, te reconheço pela diferença que faz na vida de Cláudia e muitos outros jovens que estão ou já estiveram contigo!

Sonia, muito grata pelo carinho e amor com que compartilhou a história de Kátia e Claudinha (como Kátia costuma chamar rs).

Bjs, Roseli
Anônimo disse…
Katia é merecedora desta e de muitas outras homenagens. Conheço-a e bem sei a importância e a seriedade de seu trabalho. Parabéns, querida! Beijos. Alzira
Unknown disse…
Kátia, cada vez mais me emociono com sua história...Você colocou som na sua vida e na de seus filhos, especialmente na de Cláudia, esse anjo que Deus te presenteou. Um bjo enorme e um forte abraço cheios de saudade e orgulho.

Postagens mais visitadas deste blog

"Ja, må hon leva!" Sim! Ela pode viver!

(Versão popular do parabéns a você sueco em festinha infantil tipicamente sueca) Molerada! Vocês quase não comentam, mas quando o fazem é para deixar recados chiquérrimos e inteligentes como esses aí do último post! Demais! Adorei as reflexões, saber como cada uma vive diferente suas diferentes fases! Responderei com o devido cuidado mais tarde... Tô podre e preciso ir para a cama porque Marinacota tomou vacina ontem e não dormiu nada a noite. Por ora queria deixar essa canção pela qual sou louca, uma versão do "Vie gratuliere", o parabéns a você sueco. Essa versão é bem mais popular (eu adorava cantá-la em nossas comemorações lá!) e a recebi pelo facebook de minha querida e adorável amiga Jéssica quem vive lá em Malmoeee city, minha antiga morada. Como boa canção popular sueca, esta também tem bebida no meio, porque se tem duas coisas as quais os suecos amam mais que bebida são: 1. fazer versão de música e 2. fazer versão de música colocando uma letra sobre bebida nel

Mãe qué é mãe mesmo...

(Picasso, Mãe e criança, 1921) Mãe qué é mãe mesmo... Já deu uma de cientista e foi até o quarto do bebê só para checar se ele respirava. Já despencou de sono em cima dele, feito uma galinha morta, enquanto amamentava. Já caminhou pela casa na ponta dos pés, como uma bailarina, só para não acordar o pimpolho. Mãe qué é mãe mesmo... Já perdeu a conta das mamadas e esqueceu qual o peito deveria dar. Já deu oi pro lindo rapaz que dormia ao seu lado e dormiu antes de continuar a conversa. Já adquiriu habilidades múltiplas como comer com uma mão só e fazer xixi com o bebê no colo. Mãe qué é mãe mesmo... Ama e odeia, ama e odeia. Às vezes chora e muitas vezes sorri. É ao mesmo tempo carrasca e heroína. Mãe... é uma garota crescida com uma boneca de verdade nos braços. Precisa de atenção e carinho tanto quanto seu brinquedo.

O que você vê nesta obra? "Língua com padrão suntuoso", de Adriana Varejão

("Língua com padrão suntuoso", Adriana Varejão, óleo sobre tela e alumínio, 200 x 170 x 57cm) Antes de começar este post só quero lhe pedir que não faça as buscas nos links apresentados, sobre a artista e sua obra, antes de concluir esta leitura e observar atentamente a obra. Combinado? ... Consegui, hoje, uma manhã cultural só para mim e fui visitar a 30a. Bienal de Arte de São Paulo , que estará aberta ao público até 09 de dezembro e tem entrada gratuita. Já preparei um post para falar sobre minhas impressões sobre a Bienal que, aos meus olhos, é "Poesia do cotidiano" e o publicarei na próxima semana. De quebra, passei pelo MAM (Museu de Arte Moderna), o qual fica ao lado do prédio da Bienal e da OCA (projetados por Oscar Niemeyer), passeio que apenas pela arquitetura já vale demais a pena - e tive mais uma daquelas experiências dificilmente explicáveis. Há algum tempo eu esperava para ver uma obra de Adriana Varejão ao vivo e nem imaginava que