Pular para o conteúdo principal

"O que você faria se só te restasse um dia?"

(Juliette Binoche e Romain Duris, em cena do filme "Paris", de 2008)

Depois de conseguir dormir 5 horas seguidas com a Marina, ontem consegui me dar ao luxo de ver um filme bom com Renato no fim da noite. "Paris" conta a história de um jovem rapaz que descobre uma doença séria e que tem pouco tempo de vida. Enquanto espera um transplante, cuja garantia de sucesso é pequena ele começa um novo estilo de vida.

Acompanhado de sua irmã, a ótima Juliette Binoche, e de seus sobrinhos, o jovem parisiense passa a ver o mundo e as pessoas a sua volta com novo olhar. Tudo tem um peso diferente agora que o tempo é seu bem mais precioso.

Ao final do filme, eu e meu companheiro nos olhamos com cumplicidade. Os excelentes diálogos e tomadas nos prenderam à história, nos unindo como há algum tempo a correria com mudança e bebê não tem deixado. Para além disso, ficamos cada qual com seus pensamentos profundos.

Fiquei cantarolando mentalmente a música "Último dia" que nos anos 90 eu ouvia na voz de Ney Mato Grosso...

"Meu amor
O que você faria
Se só te restasse um dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria..."

Estou até agora pensando na música e no filme e tentando fazer uma listinha do que eu faria, porque quero pensar que eu devo tentar segui-la ainda hoje. Isso porque, no fundo, só nos resta mesmo o dia de hoje e o agora. Não há nenhuma garantia de que acordemos vivos amanhã ou que as pessoas que amamos também.

Na história o personagem Pierre se dá conta de como seus conterrâneos parisienses, moradores de uma das mais belas cidades do mundo, gastam tanto tempo reclamando. Nunca estão satisfeitos e vivem como envolvidos por uma penumbra que cobre o verdadeiro sentido e o porquê das coisas.

Creio que seja algo do ser humano ensimesmar-se quase sempre e deixar passar o que vale a pena. Mesmo aqui no Brasil onde temos fama de ser e parecer sempre felizes o que ouço são só reclamações. Ou porquê está sol demais, ou porquê então choveu ou esfriou de 35 para 25. Reclamamos porque o carro da frente anda devagar demais, porque a fila da padaria está grande, ou porque o garçon não trouxe o adoçante como pedimos. Reclamamos porque o ônibus atrasou un pouco e ficamos com o pé nervosos batendo ao chão. E também porque o companheiro ou companheira não fez exatamente algo como nós faríamos.

Reclamamos por esporte. Reclamamos mesmo sem noção do que fazemos porque entramos num piloto automático.

Eu mesmo faço o mesmo muitas vezes e isso é realmente terrível. Terrivelmente triste.

Numa das cenas finais Pierre reflete consigo mesmo como aquelas pessoas todas pelas ruas são felizes e não sabem... Queria ele ter saúde para escolher que rumo tomar numa rua... para fazer amor mais uma vez...

Eu, se só me restasse um dia, queria fazer um almoço com uma mesa linda e deliciosa para toda a família, ao ar livre, num campo. Comer e rir com todos sem preocupar-me em ir embora. Queria ficar agarradinha nos braços do meu Renato. Dançar com meus filhos ao som de minhas músicas preferidas. Terminar de ler o livro da Gilbert... E andar de balão. Queria ainda tomar caipirinha de frutas vermelhas, deitar no colo de minha mãe e deixar que ela afagasse meus cabelos, tomar banho numa cachoeira e deitar na relva para ver a noite estrelada.

Ao menos isso...

E você? Diz pra gente: "O que você faria se só te restasse um dia?"


Comentários

Beth/Lilás disse…
Menina, eu tenho tido muito este tipo de reflexão também e sempre junto com meu maridex que, como eu, é reflexivo e sensível. Meu marido é do signo de câncer e muito ligado à questões familiares e sociais, me faz perceber muitas coisas que não vejo e às vezes sou eu que dou um toque, mas temos esta comunhão de sintonia fina um com o outro e na observação da vida.
Se eu só tivesse um só dia, com certeza, não ficaria parada chorando e esperando. Ariana e doida como sou, ia querer abraçar o mundo neste único dia, mas uma coisa certamente faria que seria não reclamar de nada daquilo que sempre reclamo e ousaria o que não ouso mais, como dirigir até o Rio e visitar os amigos antigos que lá deixei. Tenho saudades, mas só falo com eles por telefone ou email. Isso me dá um certo incômodo, mas morro de medo de atravessar a cidade sozinha hoje em dia.
Vou procurar este filme pra ver em breve, gosto demais desses temas.
um beijo e abraço carioca
Danissima disse…
Se me restasse um dia, apenas um dia de inverno, eu entraria num trem para uma montanha, ficaria deitada ao sol com o Rogerio, tomaria um cafe com schnaps, dançaria ao som de musica brega alema, tomaria um longo banho e jantaria fondue num restaurante com lareira... Agradecendo a vida!
Lúcia Soares disse…
Reuniria meu marido, filhos, nora, genros, netos e ficariamos todos juntos, o dia todo. Sem sair do lugar, assentados, juntinhos, cada um com seus pensamentos.
Choraria muito, com certeza.
E abraçaria um a um.
Tomaria quanto quisesse de sorvete.
Não almoçaria, comeria "porcarias" o dia todo.
Ouviria cada um falando de mim, eu falando deles, do quanto fui feliz.
Daria conselhos, muitos.
Queria poder rir, também. Muito.
Beijos!

Postagens mais visitadas deste blog

"Em algum lugar sobre o arco íris..."

(I srael Kamakawiwo'ole) Eu e Renato estávamos, há pouco, olhando um programa sueco qualquer que trazia como tema de fundo uma das canções mais lindas que já ouvi até hoje. Tenho-a aqui comigo num cd que minha amiga Janete me deu e que eu sempre páro para ouvir.  Entretanto, só hoje, depois de ouvir pela TV sueca, tive a curiosidade de buscar alguma informação sobre o cantor e a letra completa etc. Para minha surpresa, o dono de uma das vozes mais lindas que tenho entre todos os meus cds, não tinha necessariamente a "cara" que eu imaginava.  Gigante, em muitos sentidos, o havaiano, e não americano como eu pensava, Bradda Israel Kamakawiwo'ole , põe todos os estereótipos por terra. Depois de ler sobre sua história de vida por alguns minutos, ouvindo " Somewhere over the rainbow ", é impossível (para mim foi) não se apaixonar também pela figura de IZ.  A vida tem de muitas coisas e a música é algo magnífico, porque, quando meu encantamento por essa música come...

"Ja, må hon leva!" Sim! Ela pode viver!

(Versão popular do parabéns a você sueco em festinha infantil tipicamente sueca) Molerada! Vocês quase não comentam, mas quando o fazem é para deixar recados chiquérrimos e inteligentes como esses aí do último post! Demais! Adorei as reflexões, saber como cada uma vive diferente suas diferentes fases! Responderei com o devido cuidado mais tarde... Tô podre e preciso ir para a cama porque Marinacota tomou vacina ontem e não dormiu nada a noite. Por ora queria deixar essa canção pela qual sou louca, uma versão do "Vie gratuliere", o parabéns a você sueco. Essa versão é bem mais popular (eu adorava cantá-la em nossas comemorações lá!) e a recebi pelo facebook de minha querida e adorável amiga Jéssica quem vive lá em Malmoeee city, minha antiga morada. Como boa canção popular sueca, esta também tem bebida no meio, porque se tem duas coisas as quais os suecos amam mais que bebida são: 1. fazer versão de música e 2. fazer versão de música colocando uma letra sobre bebida nela. Nest...

Azulejos em carne viva? O que você vê na obra de Adriana Varejão?

( "Azulejaria verde em carne viva" , Adriana Varejão, 2000) Gente querida, Domingão a noite e tô no pique para começar a semana! Meu grande mural preto, pintado na parede do escritório e onde escrevo com giz as tarefas semanais, já está limpinho, com a maior parte "ticada" e apagada. Estou anotando aqui o que preciso e gostaria de fazer até o fim desta semana e, entre elas, está finalizar a nossa apreciação da obra de Adriana Varejão , iniciada há dias atrás. Como podem ver eu não consegui cumprir o prazo que me dei para divulgação do post final, mas abri mão de me culpar e vou aproveitar para pensar mais na obra com vocês. Aproveito para convidar quem mora em São Paulo a visitar a exposição da artista, em cartaz no   MAM , Museu de Arte Moderna, no Parque Ibirapuera, com entrada gratuita e aberta ao público até 16 de dezembro deste ano. ("Parede com incisões a La Fontana", Adriana Varejão, 2011) Para "apimentar" a dis...