18 março 2014

"Aquilo porque vivi"e vivo...



(Zoe, "Luna", em homenagem aos meus alunos e especialmente ao Ricardo Souza, pela mensagem de hj)

Todas as vezes nas quais celebro meu aniversário eu relembro muitas histórias. Flashs de épocas diversas da minha vida e grande parte das centenas de pessoas, senão milhares, que passaram pela minha vida me voltam à cabeça. E sempre penso nelas com um amor imenso e uma saudade doïda...

Tenho saudade da infância, dos amigos do primeiro emprego, dos professores, da infância dos meus filhos, da época de namoro, dos meus pais, de lugares que conheci... Tenho, como dizem os poetas, saudade dos tempos que ainda estão por vir! Saudade de ver o Ângelo se formando, a Marina bem moça e a lista não pára!

Sempre é muito bom ver o caminho que trilhei! Sempre, em meio às lagrimas, fico imensamente feliz por estar viva e celebrando rodeada de gente que amo e tem apreço por mim.

Ao mesmo tempo, era comum eu esperar algumas demonstrações de afeto...

Hoje acordei bastante diferente.

Não me importou, de verdade, se o meu marido havia ou não me comprado presentes ou se ele prepararia uma surpresa, um café especial etc provando "seu amor" por mim. Vocês sabem, a gente muitas vezes tem um desejo grande de ter provas de que é amado e querido, mesmo quando óbvio bate à porta.

Ao contrário, fiquei imensamente grata por tê-lo ao meu lado ali na cama e eu mesma quis preparar parte do café enquanto ele comprava os pães. Meu companheiro, meu grande amor que todos os dias está aqui presente, deixando sua vida caminhar ao lado da minha.

Não fiquei pensando em fazer uma grande festa, porque eu sou festeira e adoro muita animação, mas pensei em começar o dia beijando minhas crianças e cuidando delas. Comecei tomando café no jardim na minha sacada. O jardim que eu cuido, cuidando das plantas, dos passarinhos que tomam água porque eu coloco água para eles... Ouvindo os mantras de quando fazia yoga... Pensando em esperar pelo Ângelo me entregar o cartão de aniversário que ele (em segredo) está me fazendo.  E foi assim até agora...

Pensei ainda em ver um filme, pintar um quadro, almoçar tranquilamente, passar uma tarde boa e calma na casa que eu adoro pintar, cuidar, arrumar. Sabe? Essas coisinhas simples das quais a gente sabe o valor, mas as vezes se esquece de aproveitar este valor.

Então estou aqui, contemplando a minha vida. Feliz. Tranquila. Profundamente agradecida... por ter conhecido já, nesta curta vida, uma porção de pessoas tão boas, tão incríveis, batalhadoras, inteligentes, divertidas, criativas, carinhosas, boas e cheias de amor! Por ter tido oportunidade de ensinar, de aprender como professora! Por ter o privilégio de receber telefonemas, emails e mensagens de felicitações, quando eu mesma não me lembro das datas de aniversários de quase ninguém... (me desculpem por isso!)

Não sei exatamente como  uma vida assim me foi dada e conquistada, mas, tal como Bertand Russel, seria esta mesma que eu escolheria novamente para viver!

Da sempre piegas, dramática e nostálgica, Sônia, Somnia, Sonildes, Soninha de Carvalho.

...
Aquilo porque vivi
Bertand Russel

Três paixões, simples mas irresistivelmente fortes, governaram minha vida: o desejo imenso do amor, a procura do conhecimento e a insuportável compaixão pelo sofrimento da humanidade. Essas paixões, como os fortes ventos, levaram-me de um lado para outro, em caminhos caprichosos, para além de um profundo oceano de angústias, chegando à beira do verdadeiro desespero.



Primeiro busquei o amor, que traz o êxtase – êxtase tão grande que sacrificaria o resto de minha vida por umas poucas horas dessa alegria. Procurei-o, também, porque abranda a solidão – aquela terrível solidão em que uma consciência horrorizada observa, da margem do mundo, o insondável e frio abismo sem vida. Procurei-o, finalmente, porque na união do amor vi, em mística miniatura, a visão prefigurada do paraíso que santos e poetas imaginaram. Isso foi o que procurei e, embora pudesse parecer bom demais para a vida humana, foi o que encontrei.



Com igual paixão busquei o conhecimento. Desejei compreender os corações dos homens. Desejei saber por que as estrelas brilham. E tentei apreender a força pitagórica pela qual o número se mantém acima do fluxo. Um pouco disso, não muito, encontrei.



Amor e conhecimento, até onde foram possíveis, conduziram-me aos caminhos do paraíso. Mas a compaixão sempre me trouxe de volta à Terra. Ecos de grito de dor reverberam em meu coração. Crianças famintas, vítimas torturadas por opressores, velhos desprotegidos – odiosa carga para seus filhos – e o mundo inteiro de solidão, pobreza e dor transformaram em arremedo o que a vida humana poderia ser. Anseio ardentemente aliviar o mal, mas não posso, e também sofro.


Isso foi a minha vida. Achei-a digna de ser vivida e vivê-la-ia de novo com a maior alegria se a oportunidade me fosse oferecida.


(Bertrand Russel, Revista Mensal de Cultura, n. 53, p. 83)

3 comentários:

irene cechetti pinto disse...

É assim mesmo , simples e bonito ! Beijos !

Beth/Lilás disse...

E o que mais poderíamos desejar diante de tanto amor à volta?!
Tal qual Bertrand e você, amada amiga, se eu pudesse viver minha vida novamente, eu a viveria como a vivi porque sou feliz e estou bem onde estou. Pra mim esta é a mais pura felicidade.
E, novamente, reitero por aqui os meus votos de que sua vida seja sempre muito abençoada como tem sido. Feliz Aniversário!
um grande abraço e milhões de beijinhos cariocas.

Sumara disse...
Este comentário foi removido pelo autor.