29 outubro 2012

Azulejos em carne viva? O que você vê na obra de Adriana Varejão?


("Azulejaria verde em carne viva", Adriana Varejão, 2000)

Gente querida,

Domingão a noite e tô no pique para começar a semana!

Meu grande mural preto, pintado na parede do escritório e onde escrevo com giz as tarefas semanais, já está limpinho, com a maior parte "ticada" e apagada. Estou anotando aqui o que preciso e gostaria de fazer até o fim desta semana e, entre elas, está finalizar a nossa apreciação da obra de Adriana Varejão, iniciada há dias atrás.

Como podem ver eu não consegui cumprir o prazo que me dei para divulgação do post final, mas abri mão de me culpar e vou aproveitar para pensar mais na obra com vocês.

Aproveito para convidar quem mora em São Paulo a visitar a exposição da artista, em cartaz no  MAM, Museu de Arte Moderna, no Parque Ibirapuera, com entrada gratuita e aberta ao público até 16 de dezembro deste ano.


("Parede com incisões a La Fontana", Adriana Varejão, 2011)

Para "apimentar" a discussão quero deixar mais duas telas da artista neste post e já agradeço minhas queridas leitoras Xu, Fernanda (Aprendendo a viver na Suécia), Luana (Teia de Narradores e Artes e Artesanais), Loide (Malas Prontas) e Lucinha (Sem Medida e De amor e de...) quem deixaram comentários super interessantes e reflexivos no primeiro post sobre o assunto, o "Língua com padrão suntuoso". Está tudo anotadinho e volto a eles no post final sobre a obra da artista.

Algumas de vocês me perguntaram como Varejão faz o trabalho de esculpir o azulejo e achei a pergunta curiosa. Eu também pensava o mesmo quando via fotos das obras, mas em visita à exposição "História às margens", pude perceber que se trata apenas da tela em tecido, pintada com rigor realista para parecer um azulejo. Daí sim há as intervenções para parecer o rasgo, a carne etc para os quais Adriana utiliza de materiais diversos.

Então, continuando nossa brincadeira de refletir quantas mil palavras uma obra de arte contém em si eu pergunto: O que você vê nestas duas obras de hoje? ou: O que você vê na obra de Adriana Varejão?


26 outubro 2012

Skyfall: 007 com muita ação, boa música e tomadas de tirar o fôlego


 (Skyfall, Adele, música tema do filme 007: Missão Skyfall, 2012)

Ontem fui, acompanhada do meu 007 Renato, ver a pré-estréia do filme James Bond e tive uma noite de muita adrenalina e ação. Meus sonhos foram tão agitados quanto as cenas vistas, mas o que não me saiu mesmo da memória foi a abertura.

De uma fotografia linda, pesada, até fúnebre somada a uma música de arrepiar da Adele - quem eu conheço um pouco o trabalho -, mas quem não tinha ainda me arrebatado como com a canção Skyfall.

Além da abertura, há cenas maravilhosas como as feitas nos campos da Escócia e no topo de um edifício em Xangai. A luz, as sombras, as cores todas são tomadas como coadjuvantes quase toda vez que aparecem.

David Daniel Craig, na pele de James Bond, o loirão grande, até então sem muito sex appeal (pra mim) volta poderoso depois de ter sido "abatido" em uma missão.

A morte do 007, o final do qual fala a música de Adele tem a ver com o fato de James Bond estar velho, fora de forma e alcóolatra. Seu declínio moral e a dúvida sobre a sua morte o colocam fora do jogo por um tempo, mas logo logo ele dá um jeito de voltar à ativa, porque essa parece ser sua natureza.

Sua tarefa é descobrir quem anda por trás de assassinatos, atentados terroristas e ameaça de morte contra a cabeça da Organização de Agentes onde 007 trabalha. Esta é a parte fraca do filme. A missão fica até meio sem graça e não se perde por conta da grande movimentação das cenas, dos efeitos e da trilha sonora.

O filme faz um mix de atmosferas pesadas (embora o Renato tenha me dito que não concorda em nada com esta minha afirmação) e deprês com piadas do próprio James Bond e outros agentes. Há cenas de ação para ninguém botar defeito como uma na qual um trem caiu por cima do agente que foge intacto.

Para além das imagens belíssimas, dos efeitos de computação excelentes e do charme do 007, a atuação inesquecível é de Javier Bardem, como o vilão (Silva) da trama. Javier dá credibilidade a qualquer cena em que aparece e me fez me jogar contra a poltrona de pavor, como só os excelentes vilões conseguem fazer.

007 continua não sendo filme para pensar, nem refletir muito, mas se você quer alguns bons minutos de bom entretenimento, de vibrantes sensações e viajar para um mundo de ação pode ir lá conferir porque só com a abertura ontem eu teria ido embora feliz.


A educação pela net e as novas formas de conhecimento

(Obra de Don Dalkhe, in: Emily Duong)

Uma tela em branco, tintas de várias cores, pincéis e crayons... Este foi o ambiente de uma de minhas últimas aulas de Filosofia da semana passada, no colégio onde dou aula. Ao invés da habitual sala de aula, um ateliê enorme de arte.

A ideia era aprofundar o conceito de "tábula rasa" do filósofo John Locke para quem nós não somos mais do que uma somatória de experiências vividas ao longo da vida. Para este pensador, tanto o conhecimento quanto quem somos é algo que deriva da nossa relação com o mundo, de como nossos sentidos captam este mundo e o outro a minha volta.

Cada vez mais tenho sentido a necessidade de extrapolar o espaço da sala de aula, buscar sensações para as reflexões, criar uma forma do conteúdo de Filosofia (e também Sociologia) não acabarem por ser mais uma disciplina a ser memorizada e aprendida para depois ser, como tantas milhares de coisas ensinadas na vida, esquecidas.

Nesta aula, em especial, minhas alunas e alunos refletiram sobre tudo que imaginaram que sabiam do mundo no mesmo dia em que nasceram. "Nada!", muitos responderam. "Eu era puro instinto!", disseram outros. Disso, pulamos para aquilo que julgam ser as principais características de suas personalidades, isto é, características moldadas a partir de experiências vividas. De sensações experimentadas. O passo final foi abstrair este "eu" numa tela branca, uma tábula rasa.

Não imaginem, contudo, um ambiente todo calminho, com gente pintando e refletindo. Os meus alunos e alunas adolescentes não são assim! Eles são agitados, versáteis, falantes, fazem e falam mil coisas ao mesmo tempo. Com eles, a lousa digital que uso, na qual vídeos, músicas, power-point etc são aplicados todos os dias, além dos seus tablets e nets pessoais, tudo pode facilmente se transformar do extremamente excitante para o insuportavelmente entediante.

Eles tem presssa. De tudo!

Foi pensando ainda nesta aula e em outra do mesmo estilo, dadas na semana passada, que li - lá mesmo na escola - uma matéria do jornal "O Estado de S. Paulo" sobre a "Universidade do Povo", uma Universidade Virtual que agora chegou ao Brasil. Este é mais um passo em direção à quebra, cada vez mais acentuada, no formato tradicional de educação.

Eu tenho pensado que a educação como nós conhecemos no passado e conhecemos ainda agora está com os dias contados. Os nossos jovens gritam por uma nova forma de aprendizado. Eles sentem o mundo de uma outra forma, mas ainda são educados como se fossem os velhos de antigamente.

É por conta dessa demanda por agilidade, simplicidade e facilidade que os milhares de cursos virtuais hoje ganham espaço e candidatos.

A Universidade do Povo é um bom exemplo de como nós estamos presenciando uma grande virada no formato educacional e no modo como o conhecimento era passado até então.

Claro que eu sou mais uma das milhares de pessoas que pensam o mesmo e tem apoiado formas alternativas de educação e ensino, mas aproveito para convidar você a visitar o site "Cursei", cujo criador eu conheço bem e é uma das pessoas mais extraordinárias que conheço na vida pessoal em vislumbrar o futuro, o Renato.

O Renato está tentando catalogar todo tipo de curso on-line, gratuito e pago, oferecido no Brasil. Ele pretende ser uma referência em cursos e quase um site de procura para quem pensa em fazer qualquer tipo de especialização e formação à distância.

Temos trocado muitas ideias sobre essas mudanças, esses novos rumos e pensamos como podemos fazer parte desse processo, sem apenas menosprezá-lo ou fechar os olhos. Como se atualizar, manter formas de crescimento e renda pessoal, mas ao mesmo tempo contribuir para que estas mudanças sejam experimentadas por outros, para que o conhecimento seja, de fato, globalizado.

O Renato, como eu, acredita que a internet tenha trazido não só ganhos para o conhecimento e para nossas experiências que o complementam, ela de fato transformou e transformará ainda mais a forma como lidamos com a criação e a troca de informação. A informação, através da internet tomou uma nova forma de relacionar as pessoas e criar sensações. E a partir dessa as possibilidades de transformar o mundo e as pessoas, mesmo que as salas de aula (provavelmente não no formato que conhecemos) e os ateliês de arte ainda possam guardar um lugar e proporcionar encontros incrivelmente saborosos.


15 outubro 2012

Por que eu quis ser professora?


("O Caderno", Toquinho, música que me lembra minha sobrinha Luana e minhas primeiras tentativas de ser a um exemplo para alguém...)

Minha mãe me visitou este final de semana e esta é uma coisa que acontece raramente, dada a distância e outras circunstâncias... E eu, claro!, fiquei imensamente feliz e agradecida. Além da companhia, pude curtir com o "maridu" uma deliciosa festa.

Entre tanta prosa ela se lembrou como na adolescência eu tinha me apegado à ideia de ser freira missionária e de quando algumas freiras nos visitaram em casa e eu visitei suas congregações na tentativa desesperada de ir ser missionária pelo mundo.

Foi a primeira vez que contei à ela como eu desisti da ideia. Na época uma freira, quem depois se tornaria uma querida amiga, me mostrou como meus desejos pessoais não coincidiam com aquela vida. Ao me perguntar o porquê de eu querer tanto aquele caminho, eu respondi com toda ingenuidade do mundo: "é que eu quero mudar o mundo!". 

Sim, era a mais pura verdade! Eu desejava tanto melhorar o mundo! Ajudar as pessoas (na época eu só pensava em pessoas carentes) a serem mais felizes, a terem condições de ter uma vida digna de ser vivida.

A freira sem hábito sentada a minha frente, respondeu com toda a calma do mundo: "Sônia, você não precisa ser freira para tentar mudar o mundo!". Ser freira requer abrir mão de outras tantas coisas que você parece amar fazer...

Aquela conversa foi decisiva e eu desisti totalmente de ser uma religiosa.

Enveredei com muita certeza pela Filosofia e pelo desejo ardente de aprender para ensinar. 

A Filosofia me pareceu, alguns anos depois desta conversa, muito libertadora. Libertadora porque esclarecedora!

E aí me eu tornei professora! Não só filosofando, mas ensinando a escrever, a criar a viver.

Nem sempre eu consegui o desejado! Tantas vezes mais eu aprendi ao invés de ensinar. Aprendi que não era dona da palavra. Aprendi que o outro tem uma riqueza capaz de me transformar também. Aprendi que mudar o mundo ou melhorá-lo não era nada, mas nada fácil, porque o mundo é feito de pessoas e pessoas tem as mais variadas ideias sobre o que é ser feliz. Sobre o que é ter dignidade.

Eu aprendi tanto nestes anos lecionando. Neste ano, em que voltei a dar aulas depois de quase 4 anos longe do trabalho e do Brasil, eu tenho aprendido uma outra lição: ensinar é mais do que passar o conhecimento adquirido. Sobretudo em tempos de internet e acesso fácil à informação meu papel mudou bastante... Ensinar tem sido ajudar o outro a construir seu próprio caminho. Ensinar é dar liberdade, mas liberdade só vem com determinada carga de conhecimento e é só nisso que tudo que aprendi pode colaborar...

A gente pode ensinar e mudar o mundo de tantas formas diferentes... Sendo freira, é! provavelmente! mas sendo uma mãe e um pai acolhedor e amoroso, sendo amigo presente, sendo um chefe que sabe ouvir e mostrar caminhos e alternativas, serndo arquiteto, artista, médico, pedreiro, faxineira... ou pode dedicar a fazer só isso e ganhar a vida assim sendo professor ou professora como eu escolhi...

Obrigada minhas caras alunas, ex-alunos, alunos e ex-alunos!

Parabéns amigos professores e professoras!!!

E você: Por que ser tornou professor ou professora?

05 outubro 2012

O que você vê nesta obra? "Língua com padrão suntuoso", de Adriana Varejão

("Língua com padrão suntuoso", Adriana Varejão, óleo sobre tela e alumínio, 200 x 170 x 57cm)

Antes de começar este post só quero lhe pedir que não faça as buscas nos links apresentados, sobre a artista e sua obra, antes de concluir esta leitura e observar atentamente a obra. Combinado?

...

Consegui, hoje, uma manhã cultural só para mim e fui visitar a 30a. Bienal de Arte de São Paulo, que estará aberta ao público até 09 de dezembro e tem entrada gratuita.

Já preparei um post para falar sobre minhas impressões sobre a Bienal que, aos meus olhos, é "Poesia do cotidiano" e o publicarei na próxima semana.

De quebra, passei pelo MAM (Museu de Arte Moderna), o qual fica ao lado do prédio da Bienal e da OCA (projetados por Oscar Niemeyer), passeio que apenas pela arquitetura já vale demais a pena -
e tive mais uma daquelas experiências dificilmente explicáveis.

Há algum tempo eu esperava para ver uma obra de Adriana Varejão ao vivo e nem imaginava que seria hoje, já que vim a saber da exposição dela ali mesmo no Ibirapuera. Eu queria entender exatamente com que material Varejão trabalhava e qual impressão eu teria de sua obra estando diante dela.

Ainda lá pensei em dividir com vocês as impressões e resgatar aquela seção "Uma obra de arte ou mil palavras", cujo última artista apresentado, Makode Aj Linde, havia provoado polêmica no mundo e também aqui no "Borboleta".

Então com muito prazer eu venho te perguntar hoje novamente:

"O que você vê nesta obra?", "Língua com padrão suntuoso", de Adriana Varejão?

Que tipo de sensações ela te passa e qual tipo de ideia você consegue formular a partir dela? 

Ela te passa alguma mensagem? Qual?

A que tipo de referências históricas, artísticas, pessoais esta obra lhe remete?

Volto a frisar que nesta brincadeira não tem certo e errado. É claro que se pode fazer uma leitura crítica da obra por um viés acadêmico, mas quero que a gente partilhe esta experiência de ser tocado pela obra de arte. Me fale de seu choque, seu horror, seu encantamento, seu deslumbre, o que for! Apenas partilhe. Sem receio algum. Estarei aqui aguardando ansiosa para ouvir!

Obviamente, estar pessoalmente tem um impacto diferente, mas ainda assim, te convido a brincar comigo. E eu prometo sair das catacumbas do cotidiano e responder a quem comentar aqui. E, daqui há 15 dias publico um post com as impressões de vocês, a leitura que eu fiz da tela e a leitura feita por especialistas.

Ah! Só não vale ir se informar antes! Deixe que a obra fale com você, não a opinião de terceiro, ok?

Beijos e ótimo fim de semana!

...

ps: estou começando a inverter o nome dos posts antigos "Uma obra de arte ou mil palavras" com o nome da seção "O que você vê nesta obra?", porque acho que faz mais sentido do que o inverso.




02 outubro 2012

A pior ferida da corrupção é a desesperança

("Sem esperança")

Há poucos dias da eleição para prefeitos e vereadores do país e o que vejo, ao debater com alunos e amigos sobre este momento, é uma total falta de esperança.

Esta é a pior ferida que homens e mulheres no poder podem deixar em seu povo. O dinheiro desviado serviria para o investimento em educação, transporte, cultura etc e poderia melhorar a vida de tantos milhões de brasileiros e brasileiras que nem mesmo se lembram de ter esses direitos garantidos, isso por si só já é triste e revoltante.

Entretanto, noto como, para além da perda material que a corrupção significa está a perda do sentido da política, como bem afirma Hanna Arendt. A pergunta acaba sendo não quem eleger mas para quê eleger. Para quê se as mãos depois serão lavadas no mesmo poço sujo.

A corrupção desencoraja. Ela é um vício. Ela contagia.

Ela serve tanto para o descrédito quanto para o incentivo de atitudes iguais. Ela obscurece a possibilidade da ética, do bem comum, do homem como ser bom e com capacidade de deixar a si mesmo para o bem comum. E é isso, é justamente isso que eu não perdoo nos políticos corruptos do Brasil.

Ainda que caia sobre nós também a culpa de tê-los escolhido para nos representarem, eles são culpados por nos fazer acreditar que de fato nos representaria. São culpados por tirar de seu povo o desejo de progredir como humanidade. São culpados por tirar deles a esperança de ter um país governado por gente honesta e gente para quem a política seja mais do que uso do poder para o benefício próprio.

Eles são culpados!