Pular para o conteúdo principal

Dia da Consciência Negra: pra quê mesmo?

("Fugacidade n. 11: modelo em lenço vermelho", Somnia Carvalho, acervo: Adriana da Mata)

Quando eu comecei a pintar minha série "Fugacidade", um trabalho misto com fotos de modelos de alta costura eu me deparei com um fato: a maioria esmagadora das modelos desta área eram brancas. Muito brancas: brancas de cabelos loiros ou brancas de cabelo preto.

Eu queria pintar uma enorme variedade de mulheres lindas e continuar o projeto sobre como a juventude, a beleza assim como a moda são tão fugazes, mas eu só tinha modelos brancas lindas para trabalhar.

As três Fugacidades Negras que pintei eu tive que pesquisar algumas horas a mais do que havia pesquisado para as anteriores. E enquanto eu fazia isso eu me lembrava de minhas "análises neuróticas" como nosso preconceito é velado. Uma separação invisível que é feita todos os dias no mundo todo entre brancos e negros. Eu fiquei, pra ser sincera, meio horrorizada com minha constatação e desde então eu venho buscando uma oportunidade para dizer isso.

Obviamente não faltarão defensores de uma causa contrária a esta! Irão me dizer como hoje nós temos pessoas não brancas em todos os cargos importantes do mundo, vide Barack Obama, o primeiro negro a ser eleito presidente nos Estados Unidos, ou exemplos no Brasil em todas as esferas sociais.

Eu concordo inteiramente! Não sou louca para não admitir que o preconceito tenha perdido espaço entre milhares de pessoas nas últimas décadas. Apesar disso, eu devo também admitir que fico envergonhada quando tomo o ônibus que vem para meu bairro, mas que tem como ponto final a periferia da cidade. As mulheres negras, mulatas, mestiças vem até os ditos bairros privilegiados para serem empregadas, babás, cozinheiras, balconistas etc. Ao final do dia elas seguem para suas casas humildes e suas famílias morenas para bem longe de onde vivemos.

E se o bairro não é distante da cidade ele com certeza é uma ilha. Isolados por uma ou duas quadras, em favelas ou "comunidades" estão os pobres do Brasil. E os pobres, já cantava Caetano, são "quase todos pretos ou quase pretos".

Então o que temos, alguém poderia me dizer, é apenas um resultado de anos de escravidão e diferença e hoje nós tentamos consertar os erros dos preconceituosos do passado.

Sim, creio que muitos estejam a fazer isso, mas me parece que se estamos, nós fazemos isso muito mal.

Nós fazemos como quem dá migalhas aos negros para compensar o ciclo vicioso de pobreza e desigualdade de oportunidades as quais eles e as gerações seguintes deles estão fadadas a herdar.

Nós sabemos que ter mulheres negras lindas na novela das 8 não significa na verdade porcaria nenhuma, mas a gente finge que sim.

Nós sabemos que ter cotas para negros pode tentar abrir uma brecha de possibilidade na vida de famílias de negros inteiras no futuro, mas a gente prefere olhar para o próprio umbigo e se sentir insjutiçado. Afinal não fomos nós que escravizamos as famílias deles!

Nós sabemos que ter um Natal com bonequinhas de cera todas brancas enfeitando os shoppings center ou modelos brancas nas vitrines, ou revistas com brancas na capa é uma prova explícita de como nós alguém perfeito pra nós necessariamente precise ser branco, mas a gente finge que não vê e aceita negros e negras nas capas de revistas para negros e negras. Filmes de romance com negros e negras para negros e negras. E nós aproveitamos para desculpar tudo isso usando de algumas frases de senso comum muito boas porque convencem rapidamente quem, como nós, é preconceituoso igual: "os negros também são preconeituosos"!.

Sim! E preconceituoso é todo ser humano!

Ainda assim admitir que nós sejamos egoístas por natureza, ensimesmados por natureza, buscando o próprio prazer por natureza não quer dizer que nós devamos aceitar que esta natureza que nos destrói prevaleça.

Ter um "Dia da Consciência Negra" de fato não vai significar muito se nós tratamos a história do povo negro no país, com Zumbi dos Palmares, por exemplo, como algo tão pouco importante que não devamos parar e pensar sobre o assunto.

É por isso que eu adorei a charge veiculada no Facebook nos últimos dias sobre um desentendimento entre o Batman e o Robin, lerdinho. Quando este diz que também quer ter um Dia da Consciência Branca, Robin lhe dá um tapa na cara, um "acorda, palhaço, para o que você está pedindo" e diz: "Ser escravizado você não quer não é?"

Para quem quiser ver um chocante e excelente documentário sobre como os brancos se sentem quando colocados na pele de negros veja "Blue eyed". Nele, uma professora branca, uma mulher real, faz experimentos com seus alunos brancos e os separa apenas porque eles têm olhos azuis. Ela tenta fazer com que eles se sintam como é sentir preconceito apenas por algo que você tem e não tem domínio algum sobre ele.

Aproveito para dizer a todas minhas amigas e amigos negros ou a você que passa hoje por aqui e não é branco que eu admiro sua força diária para viver nesta novela que é o Brasil. Por sobreviver ao preconceito diário que lhe tira chances de emprego, que lhe priva de fazer uma faculdade, que lhe faz chorar ao ver seus filhos serem maltratados na escola apenas por terem uma cor diferente. Eu admiro vocês e neste dia receba de mim um enorme abraço!!!

Comentários

Lúcia Soares disse…
Concordo com você que não adianta (ou de pouco adianta) ter um dia para a consciência negra. Nem o título foi feliz. Somos preconceituosos, sim, nós todos, incluindo em "todos" os negros. Acho que se acomodaram e ficaram de "coitadinhos". Conheço negros e "pardos" que sofreram por serem pobres, mas não por serem negros ou pardos. Estudaram, lutaram, venceramsão enfermeiras, engenheiras, economistas, contabilistas, médicos. Não ficaram chorando pela vida, foram à luta, sem sentir que a cor fosse empecilho.
Ter um dia especial, ter cotas (sou favorável a cotas para alunos carentes, não para negros ou brancos), tudo isso é discriminação. Adoro suas reflexões, fessora.
Beth/Lilás disse…
Bom dia, queridona!
Pois é, assunto pra mais de metro, mas poderia se resumir na pouca fala do ator Morgan Freeman, numa entrevista que anda rolando o Facebook, e que ele responde ao entrevistador - "Dia da Consciência Negra por quê? Existe Dia da Consciência Branca?"
e ele ainda completa dizendo que o que espera do outro é que não o intitule de homem negro e sim de Morgan seu nome, assim como ele chama o outro pelo seu nome também e não de homem branco.
Infelizmente o nosso país foi o último das Américas a aderir à abolição e o reflexo disso está ainda hoje no meio social, as tantas vidas sem rumo que vemos nas grandes cidades como o Rio, por exemplo, onde o número de negros escravos foi absurdo e a abolição quase nada adiantou para eles, continuam em guetos nos morros da cidade ou nas ruas e prisões. Triste, muito triste esta nossa constatação nos anos 2000, onde a liberdade é o bem maior, mas tem que ser plena e não essa coisa velada, fingida, amordaçada que ainda reina por aqui e em outros estados.
Como bem disse a Lúcia acima, não concordo com cotas para negros e sim para todas as pessoas carentes e sem a mínima chance de galgar o ensino superior.
Excelente seu texto!
um beijinho carioca



Lu Souza Brito disse…
Disse tudo Somnia! Adoro suas reflexões. E eu que sou 'uma neguinha do querosene', kkk, posso te dizer que o preconceito é grande!
Seja nas lojas 'de branco' em que eu entro para comprar uma roupa, nas faculdades, enfim, está em todos os lugares.
Beijão

Postagens mais visitadas deste blog

"Ja, må hon leva!" Sim! Ela pode viver!

(Versão popular do parabéns a você sueco em festinha infantil tipicamente sueca) Molerada! Vocês quase não comentam, mas quando o fazem é para deixar recados chiquérrimos e inteligentes como esses aí do último post! Demais! Adorei as reflexões, saber como cada uma vive diferente suas diferentes fases! Responderei com o devido cuidado mais tarde... Tô podre e preciso ir para a cama porque Marinacota tomou vacina ontem e não dormiu nada a noite. Por ora queria deixar essa canção pela qual sou louca, uma versão do "Vie gratuliere", o parabéns a você sueco. Essa versão é bem mais popular (eu adorava cantá-la em nossas comemorações lá!) e a recebi pelo facebook de minha querida e adorável amiga Jéssica quem vive lá em Malmoeee city, minha antiga morada. Como boa canção popular sueca, esta também tem bebida no meio, porque se tem duas coisas as quais os suecos amam mais que bebida são: 1. fazer versão de música e 2. fazer versão de música colocando uma letra sobre bebida nel

Mãe qué é mãe mesmo...

(Picasso, Mãe e criança, 1921) Mãe qué é mãe mesmo... Já deu uma de cientista e foi até o quarto do bebê só para checar se ele respirava. Já despencou de sono em cima dele, feito uma galinha morta, enquanto amamentava. Já caminhou pela casa na ponta dos pés, como uma bailarina, só para não acordar o pimpolho. Mãe qué é mãe mesmo... Já perdeu a conta das mamadas e esqueceu qual o peito deveria dar. Já deu oi pro lindo rapaz que dormia ao seu lado e dormiu antes de continuar a conversa. Já adquiriu habilidades múltiplas como comer com uma mão só e fazer xixi com o bebê no colo. Mãe qué é mãe mesmo... Ama e odeia, ama e odeia. Às vezes chora e muitas vezes sorri. É ao mesmo tempo carrasca e heroína. Mãe... é uma garota crescida com uma boneca de verdade nos braços. Precisa de atenção e carinho tanto quanto seu brinquedo.

O que você vê nesta obra? "Língua com padrão suntuoso", de Adriana Varejão

("Língua com padrão suntuoso", Adriana Varejão, óleo sobre tela e alumínio, 200 x 170 x 57cm) Antes de começar este post só quero lhe pedir que não faça as buscas nos links apresentados, sobre a artista e sua obra, antes de concluir esta leitura e observar atentamente a obra. Combinado? ... Consegui, hoje, uma manhã cultural só para mim e fui visitar a 30a. Bienal de Arte de São Paulo , que estará aberta ao público até 09 de dezembro e tem entrada gratuita. Já preparei um post para falar sobre minhas impressões sobre a Bienal que, aos meus olhos, é "Poesia do cotidiano" e o publicarei na próxima semana. De quebra, passei pelo MAM (Museu de Arte Moderna), o qual fica ao lado do prédio da Bienal e da OCA (projetados por Oscar Niemeyer), passeio que apenas pela arquitetura já vale demais a pena - e tive mais uma daquelas experiências dificilmente explicáveis. Há algum tempo eu esperava para ver uma obra de Adriana Varejão ao vivo e nem imaginava que