21 dezembro 2011

Aos fãs e aos loucos por nós...


Gente querida,

Eu havia divulgado aqui o primeiro livro virtual  ("A menina da saia de tule") do meu amigo Ed Cruz, aquela pessoa simpática e competente que participou do concurso "Uma foto, mil lembranças".

Este é uma parceria divertida entre eu e Ed, dois viajantes cheios de idéias e projetos mirabolantes. O Ed entra com a parte fácil, tipo ele escreve o livro... rs... e eu faço todo aquele trabalho chato e duro de revisar, publicar e manter o blog. Não é justo não? Mas com o sucesso dele eu tô pensando em investir nele e ganhar uma dinheirama às custas do mocinho do interior.

Ontem, quando publiquei o terceiro capítulo tivemos 10 curtidas em menos de 4 minutos. Isso tá pra lá de bom não está não? O Borboleta ganha um curtida a cada 10 posts e olhe lá! :(

Acabei não divulgando o capítulo 2 na época e agora venho para dizer que acabo de publicar o Capítulo 3, intitulado "Paixão de Primavera".

O Ed tem trabalhado duro e havia me entregue o 3 e o 4 há dua semanas, mas moá, como vocês sabem, estava um pouquinho só ocupada sendo costurada... rs... adoro um drama! rs...

Então ontem saiu o 3 e prometo que segunda-feira de manhã tem o 4!!! Passem para conferir!

Beijos e ótimo fim de semana pra vocês!

19 dezembro 2011

"Você também faz parte...", uma reflexão sobre a cor, o status e o status quo

("Você também faz parte II", Nelson Leirner, 1964. Somos mais uma fechadura funcionando bem na engrenagem? Estamos trancados? Ou temos a chave para abrir outras possibilidades?)

A vida é dura, reclama a maior parte das pessoas que conheço.
Sim, ela com certeza é em muitos momentos.

Ontem, entretanto, o óbvio ficou grudado na minha mente: ela é dura, mas dependendo da cor da tua pele, meu camarada, ela com certeza será também muito injusta.

Fui participar de uma confraternização de Natal do condomínio onde vivemos em "Sumpaulo", um bairro gostoso porque tem algumas árvores, mas básico e simples, já que não tem nada mais do que algum comércio, casinhas, muitos prédios e fábricas antigas. E então eu tive um choque. Sim, um tipo de choque.

Vocês sabem que há coisas com as quais convivemos desde o dia em que nascemos. Crescemos e vemos iguais, pouco mudam e aí assumimos como sendo o que são. Não questionamos mais. Não lamentamos, não desejamos mais gastar algumas horas da semana para transformá-las, porque nós simplesmente estamos bem e mesmo quando não estivemos e a culpa nos corroía, ou tentávamos de algum modo ir contra a corrente, elas permaneciam mais ou menos estáveis.

Quando cheguei no salãozinho de festa havia, entre outras mesas com suas respectivas famílias branquinhas, duas mesas com famílias negras e, embora seja quase ridículo eu ter coragem de afirmar isso, eles me chamaram muita atenção. Meus olhos foram imediatamente de encontro a elas porque, só aí  minha consciência se deu conta de que eu nunca vejo moradores negros aqui.

As pessoas na mesa eram alguns moços e moças com quem falo todos os dias, topo o dia todo, mas uniformizados para o trabalho no prédio. Junto também alguns bebês e crianças, filhos desses funcionários. E o fato de ter constatado que as únicas mesas com famílias não brancas eram as deles eu fiquei realmente muito desolada, triste mesmo!

E aí eu me lembrei de novo de algo que também me deixara tristíssima quando voltei da Suécia para viver de novo no meu velho Brasil que era o fato de em quase 150 famílias das torres deste atual condomínio haver apenas 1 (u-ma) única família negra. Há pessoas morenas claras, ou pele clara, cabelos pretos, mas negras só nesta família. E não é uma família pobre. Eles tem muito mais recursos, bens materiais e funcionários que a maior parte aqui. Eles, no entanto, são uma ENORME exceção.

Sim eu sei. Esta é a realidade. "Você não sabia disso hein Sônia?". Sim eu sabia. É a nossa realidade, mas vamos concordar que é uma realidade muito, muito injusta. Uma realidade permissiva, nojenta e viciada.

Ela é a estampa do quanto ainda somos extremamente preconceituosos em nosso país, ao contrário do que gostamos dizer sobre a miscigenação das "raças". Ela é uma vergonha, porque os rapazes eficientes e muito gente boa, ou as meninas trabalhadoras da faxina viajam todos os dias algumas horas para trabalhar aqui que já não é uma região central. A cor da pele pode ser vista na cor da linha do metrô ou para onde segue a linha final do ônibus.

Empregadas domésticas, babás, carpinteiros, seguranças em sua maioria, negros, que lotam o transporte público que vai para as periferias gigantes da cidade continuam servindo aos brancos. A nós, por acaso nascidos brancos. A muitos de nós que vão sempre justificar a falta de acesso a boas escolas, à cultura, à leitura, viagens etc que este povo não tem dizendo que ao menos conseguimos dar a eles empregos. O que eles fariam sem nós? Sim! Claro! Que bom que ao menos emprego para comer eles tem! Mas qual tipo de trabalho nós estamos sempre dispostos a oferecer mesmo? Qual tipo de trabalho eles estão aptos a conseguir? E apesar de todos os trabalhos terem sim seu valor se perguntássemos ao Gilson, ao Paulo, à Luciana do meu prédio será que nenhum deles teria um sonho branco? O sonho de ser médico? O sonho de ser engenheiro? Piloto ou advogado como o são a maior parte daqueles que eles vivem para servir e proteger?

Sim eu também sei. Não há como esgotar algo assim num postezinho de blog, mas isso tudo me levou a outras constatações que minha consciência adormecida vê, engole seco, e tenta me confortar dizendo "pára de ser neurótica!": aqui no prédio a maior parte dos trabalhadores que não são negros-pretos ou mestiços são as babás, porque babás vocês sabem, frequentam festinhas infantis das crianças que cuidam,  ficam em cena muito mais tempo que as domésticas e elas também lidam diariamente com as crianças. Então quanto mais "clarinhas" parece ser o melhor.

As fotos das domésticas e babás em agências de empregos virtuais, como essa aqui por exemplo, são sempre "bonitinhas", clarinhas, porque, claro, se tiver uma empregada doméstica com a cara de que são realmente a maior parte das empregadas domésticas brasileiras a demanda não será muito boa. Veja só eu não estou dizendo que uma empregada doméstica não possa ser apresentável e bonita por si só, estou dizendo que o fato delas serem bonitas e brancas parece as colocar num patamar superior às que assim não sejam.

Isso tudo é apenas uma daquelas verdades horrorosas de serem constatadas e sobre as quais a gente nem mesmo gosta de falar e perceber, porque o que isso vai dizer pra gente? Que somos horrorosos! E ser mais um na engrenagem horrorosa e preconceituosa que é a nossa tão misturada sociedade brasileira não é nada agradável. Porque aí é preciso ou se conformar ou mudar alguma coisa.

A miséria e a pobreza tem cor sim, a cor negra, e isso sempre me faz relembrar "Haiti" do Caetano. E a pobreza, quando não estampada no tom exato da pele, também está quase sempre estampada nos cabelos quebradiços, na pele sem cremes, nos dentes não cuidados da infância, na fala errada, na bolsa do camelô, no olhar sofrido e nas mãos calejadas. Em detalhes para os quais a gente pensa não dar importância, mas se vê avaliando e julgando alguém exatamente por ter esse e não aquele estereótipo.

A pobreza com certeza tira do caminho muitos sonhos que a pessoa nem sequer teve o direito de sonhar e se essa pessoa nasceu com o tom de pele tido como "errado" para os padrões branquinhos de beleza que vendemos então a vida dela será dura, será injusta, será cheia de mágoa, ainda que contida, de não ter a liberdade de ser e viver bem com aquilo tudo que ela é.

Na semana passada, na nova linha do metrô, a amarela, subia nas escadas rolantes uma mãe com seu filho pré-adolescente. Ela ia num carinho tão grande com ele, mãos no ombro, com um cuidado enorme, um zelo e proteção. Ele ia feliz, sorrindo e os dois encostaram a cabeça uma na outra confidenciando alguma coisa muito boa que haviam conversado ali... Eles eram negros. Suas roupas eram muito simples. O calcanhar dela estava todo rachado na sandália de liquidação. Talvez o mesmo lugar onde comprara o tênis do filho querido. E eu juro pra vocês, sem vergonha de ser tão piegas como sempre sou, que eu rezei em silêncio por aquela família. Eu desejei, como outras vezes o fiz, pará-los e dizer algo. Dizer "Parabéns! Vocês são inspiradores!", mas a pressa e os pensamentos me impediram sem contar o fato de que até minha atitude poderia ser em si mesma entendida como preconceituosa (bem como este texto corre o risco de ser sem querer) porque eu estava vendo neles mais do que eram em si mesmos, mas estava lendo neles o preconceito no Brasil.

Eles tomaram seu caminho e eu o meu. E fiquei apenas na torcida para que aquele menino pudesse ter o mundo à disposição e escolher seu futuro ao invés de se tornar mais um na multidão de meninos invisíveis do país.

10 dezembro 2011

Montanha Russa


("Dança da vida", Matisse)


Sábado de manhã e, desde há muito tempo, não tenho plano algum para o fim de semana.

Os últimos dias vivi, como disse Rui Castelhano, líder do curso do qual participei semana passada, eu estive numa enorme montanha russa. A sensação já teria sido exatamente essa em ter ficado 3 dias inteirinhos e quatro noites com um grupo de 89 pessoas no Fórum, mas na última quarta-feira eu também fiz minha cirurgia de tireóide.

Estou aqui me recuperando e por isso a parada.

Tenho muita coisa para dividir, mas a zonzeira e outros sintomas não me deixas pensar muito claramente.

Uma das coisas mais estranhas é me lembrar do momento em que apaguei totalmente quando recebi a anestesia. E depois como fiquei entre um ir e vir, tentando acordar e pum! apagando de novo.

Foi uma experiência totalmente extra sensorial e foi como se por algumas horas (acho que levei mais de 12 horas para de fato entender o que havia ocorrido) eu tivesse numa outra dimensão. Um portal branco em que a realidade se confundia com um sonho real. Uma coisa muuuito maluca!

Quando me chamaram pela primeira vez eu estava numa sala branca e algumas macas com pessoas na mesma situação que eu lá deitadas... Vi um velho de boca aberta e agora entendo que naquele momento eu acreditei estarmos todos mortos, numa outra vida, já na porta do "céu" ou coisa assim.

E isso durou um bom tempo... Estranho não?

Bom, retirada a tireóide e o carcinoma (ou seja, eu tinha um câncer* de tireóide, mas decidi manter isso meio quieto porque não queria ninguém muito desesperado me desesperando e omiti inclusive para familiares) com todos os muitos nódulos etc me resta um vazio. Este vazio na garganta não é em hipótese nenhuma ruim.

Estou leve.

É um espaço.

Me sinto muito mais saudável e cheia de energia para começar o ano!

Fiz e farei algumas entrevistas de trabalho esta semana e estou cheia de vontade!

Da mesma forma, com relação a minha vida toda, eu sinto uma tranquilidade muito, mas muito grande e isso eu devo as reviravoltas causadas em mim após o Fórum Landmark. Este curso do qual eu vou, com certeza, falar muito aqui!

Vejo saídas nunca vistas antes. Sinto as pessoas e o mundo ao redor de uma maneira muito clara. É real, sem fantasias e nhenhenhéns, mas muito mais bonita.

Na quarta de manhã, antes da cirurgia, eu estava serena, segura e confiante. Foi assim e tem sido até agora...

Sim! 2012 será um ano cheinho de possibilidades e e espero compartilha´-las todas com vocês e saber das suas!

Beijos e Ótimo Fim de Semana!

...

* Não se assustem com essa palavra. Este tipo de doença é facilmente tratável e praticamente controlado com a retirada da tireóide. Agora já sei tudo a respeito! :)